Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Música. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Música. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O Cedro

O texto a seguir foi publicado no encarte do Festival Clara Nunes de 2018, o que foi um grande honra para mim. Clara Nunes é um ser de luz, que sempre se preocupou em fazer um trabalho que valorizasse a música brasileira em sua totalidade. Mas, como ser humano, era fantástica! Adorava crianças e eu, por um breve momento, fui objeto desse afeto, o que me marcou indelevelmente...



São 5h30min da manhã. O menino levanta-se, ainda sonolento, ao som do rádio Phillips no programa do Zé Béttio (“Joga água nele! Joga água nele!”), e vai para a cozinha, onde já estão o pai e a mãe:
— Bença, pai! Bença, mãe!

Já sabe das obrigações da manhã. Vai tratar das galinhas, dos porcos, dos cachorros, molhar a horta e buscar um pouco de lenha, palha de milho e sabugos para o pai acender o fogão. Aproveita para ir rapidinho no córrego do Cedro (que passa nos fundos da casa) conferir as linhas de espera. Desta vez, um bagre grandinho e uma traíra pequena engoliram os anzóis. O menino pega os peixes e corre para mostrar o pai e a mãe. Outros irmãos já estão acordados e começa a fila para o único banheiro da casa. Enquanto a mãe frita os bolinhos de chuva para a merenda, o menino senta na beira do fogão a lenha e o pai continua a enorme história do João Soldado, onde a interrompera no dia anterior. Merenda rapidinho os bolinhos contados (três para cada um) com o café ralo e troca de roupa para ir para a escola.

O menino não pode atrasar-se. Vai com o pai pelos fundos do quintal, passando por dentro da fábrica do Cedro e saindo pela portaria, para chegar à escola Coronel Caetano.
Um dia, o menino pescava de cima da ponte. De repente, uma mão toca-lhe o ombro: “Cuidado, menino! O peixe pode te puxar para dentro d’água, de tão magrinho que você é!”
Olha para trás e vê uma luz imensa. Era Clara Nunes, uma dona linda! O menino jamais esqueceria aquela mulher, cuja presença e cujo sorriso marcaram indelevelmente sua alma. Ela adorava ir àquele lugar, principalmente na Pedreira, um lugar maravilhoso, cheio de pedras enormes, dentro do córrego do Cedro. 

E o menino continuou seus dias de tarefas de casa e de escola. Nessa rotina, o menino cresce. Dentro desse menino, hoje homem, mora o Cedro. Foi-se um dia para longe, mas não pôde lá ficar. Dentro dele mora o Cedro. Como uma alma, inseparável do que ele é, o Cedro representa não apenas as lembranças de sua infância, de sua família, mas o cerne que lhe sustenta.
O Cedro assim é para muitos. Orgulho de ser de lá, orgulho de ter Clara e de ter artistas novas como Roberta como conterrâneas, orgulho de suas tradições culturais, orgulho de suas lindas paisagens, orgulho de seu povo, orgulho de ser o berço da indústria têxtil no país, orgulho...




sábado, 1 de julho de 2017

Retomar



Tanto tempo nada publico, que resolvi fazê-lo entre os apertos que a vida de professor nos traz. Pensei em fazê-lo sucintamente, apenas por manter esse espaço ativo, ainda que tão poucos o têm lido, talvez até mesmo pela distância entre publicações. É compreensível e nada tenho a fazer senão retomar, se é que acredito que aqui ainda posso encontrar condições para expressar um pouco de minhas impressões sobre a vida.

São tantas as coisas sobre as quais poderia falar, mas poucas valem a pena neste momento de pouca inspiração: política, futebol, filosofia, reflexões sobre a vida... Enfim, tantas que não falarei de nenhuma delas.

Prefiro trazer aqui simplesmente uma música que, para mim, aqui e agora, em que a estou ouvindo, remeteu-me a este espaço novamente, sem que eu saiba o porquê. Ela diz tudo e basta a si própria, se é que NÃO me entendem...



quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

20 anos depois...

P7080197

Nesta terça-feira, 07/01/2014, completam-se 20 anos do meu matrimônio. Foi um dia de agradecimentos... Pois só tenho a agradecer a minha esposa, a meus filhos e ao meu Senhor por esses anos maravilhosos de minha vida. O casamento representou para mim um crescimento pessoal magnífico.
 
Na verdade, não tenho muito o que dizer neste post sem ser piegas ou simplesmente “chover no molhado”. Vou reduzi-lo ao mínimo, portanto, nos versos e na canção que, para mim e para minha amada esposa, representam muito tudo o que vivemos...
 
 
Após esse tempo todo”


Após esse tempo todo
posso falar sem medo o quanto amo você
falo assim naturalmente
porque as palavras estão sempre em meus lábios
prontas para serem ditas
mesmo que venham não somente do meu corpo
mas da minha alma


Após esse tempo todo
posso dizer que sou um outro homem
mas ainda me sinto o mesmo de antes
jovem enamorado daquela menina linda
que o olhava com olhos furtivos e tímidos
contudo irradiantes de um amor nascente
amor que permanece ainda no gesto carinhoso
na companhia presente e consistente
na paixão ardente


Após esse tempo todo
temos nossos filhos que completam nossa vida
meninos quase homens
joias que Deus nos concedeu
que aprendem e ensinam a cada dia
lindas lições de amor que se renova
estabelecendo o limite ilimitado do carinho


Após esse tempo todo
resta-me a gratidão profunda
a Deus e à vida que nos permitiram
construir essa família iluminada
pela fé, pelo amor, pelo respeito e pela perseverança


Após todo esse tempo
ainda é muito fácil dizer o quanto amo
a minha linda mulher, minha esposa e companheira
pois cada coisa que faço na vida
é pensar que ser feliz não depende apenas de vontade
mas também da presença de um amor de verdade
um amor que não apenas serve para a rima
um amor que faz meu peito suspirar
todas as vezes que vejo o seu olhar...
 
Há muitas interpretações bacanas, de Geraldo Azevedo a Fagner, mas escolhi Badi Assad pela originalidade com que ela fez a releitura dessa música.


 
 

 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Sem palavras





Nada publico há meses. Na verdade, não tinha o que dizer. Meu silêncio falava mais, ainda que isso seja um clichê.  Meu momento é de ouvir muito e de falar pouco. É hora de aprender e apreender. Reescrever histórias já contadas e já ouvidas, para encontrar de novo o caminho e não um novo caminho.


Nessa altura da vida, meu GPS já está com a rota traçada. Desviei-me dela por algum tempo, mas, graças a Deus, sei como buscá-la outra vez. Para isso, como diria Drummond (o Carlos), “considero a enorme realidade”.

Nunca me afastei (e nunca vou fazê-lo) do que deveras sou. Não estou taciturno, tampouco meus amigos leais. Na cadência do passo que sigo, percebo o ritmo da música que me embala e desembola a improvável angústia que não consegue vencer minha vontade.

Olho as janela abertas e gostaria que fossem portas. Mesmo assim, sei que posso olhar através delas e se for o caso, saio por elas. As paredes não me prendem, pois estou livre. Liberto, desconheço a prisão e, por isso, não a temo.

Nada publico há meses. Não tenho o que dizer. Mas transcrevo abaixo quem me diz muito, além de deixar-lhes, meu prezado leitor e minha prezada leitora, que vocês ouçam e vejam o vídeo a seguir.




“Sem palavras”

há um bom tempo estou sem palavras
não sei do que falar
nem porque fazê-lo
mas sei que é na feitura das lavras
e no esperançoso semear
é que se quebra o gelo
para colher-se o poema que brota
de onde estava, imaturo,
esperando, na fonte que não se esgota
no lugar mais escuro
que a claridade da inspiração
vai iluminar…


mesmo que o cansaço invada
corpo e mente ansiosos por revelar
ao mundo aquela tímida emoção
sem palavras, o poema não é nada…
nada mais que a simples vontade de falar…
expressar-se na tentativa de recriar
no espaço vazio do papel
a sequência de palavras que dirão
que a vida não é apenas uma ilusão
nem somente realidade cruel
a vida nos ilude e nos seduz
a vida nos fere e nos acaricia…


sem palavras estou há um bom tempo
não consigo encontrar facilmente a rima
nem me prendo à métrica inexata
escreve simplesmente e o poema termina…

 

 

terça-feira, 17 de abril de 2012

Família, família – carpe diem

Penso em quantas vezes a família foi meu esteio. Não é fácil, absolutamente, vivenciar todas as dificuldades que a vida nos coloca sem nos alicerçarmos em alguém. Ombros e palavras necessárias encontramos com nossa família e amigos (os quais considero também como família) e isso sempre nos ajuda a nos sentirmos melhor. Temos que aproveitar enquanto temos esse suporte conosco. O tempo é inexorável.

É bom esclarecer o que quis dizer com "palavras necessárias", pois isso pode parecer estranho. Palavras necessárias nem sempre são palavras de conforto ou apoio. Muitas vezes são aquelas palavras "palavaras", como diria o Enanre Etraud. Diz-se por aí que muitas vezes as melhores palavras de apoio não são as que gostaríamos de ouvir, mas as que precisamos ouvir. Mas sou bom menino. Não tenho levado muitos puxões de orelha, a não ser os que eu mesmo me aplico.

Esse post está sendo redigido em pleno horário vago na escola, pois tive que me submeter a um remanejamento de aulas em virtude da falta de dois colegas por estarem participando de cursos promovidos pela Superintendência Regional de Ensino em outra cidade, impossibilitados, portanto, de virem lecionar.

É evidente que, em 50 minutos apenas não sairia algo muito bom, mas não estou mesmo tendo tempo nem muita inspiração, então resolvi simplesmente aproveitar esses breves momentos. Carpe Diem.

"Carpe Diem"

aproveitar o dia confuso
para refazer o tempo esgotado
reconstruí-lo em bloco difuso
de tijolos do barro do passado
misturado à argila do momento
antecipado pela mensagem do vento
que se intromete no poema apenas para rimar
ouço ao longe o coro de adolescentes
ansiosos por aprender
como fugir da escola mais cedo sem ser percebido
costuro então as palavras
palavaras palaveras palavelhas
que se repetem em trocadilhos já ditos
em conceitos semânticos esquisitos
carpindo o dia

******************

Aproveito para deixar inclusos dois vídeos de músicas memoráveis que, creio, podem fazer melhor por este post do que tudo o que escrevi...


                                                              O tempo não para (Cazuza) - ao vivo



Time (PinkFloyd) - ao vivo






quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pink Floyd e quem foi Vera Lynn



Pink Floyd
O Pink Floyd
Vera lynn
Vera Lynn

Sempre gostei da banda inglesa Pink Floyd. Desde que me entendo por gente aprendi a gostar do seu som original e de suas apresentações impressionantes. Tenho praticamente toda a discografia da banda, desde que Syd Barret era vocalista. O álbum mais conhecido da banda é, sem dúvida, “The Wall”, de 1979. Esse álbum acabou se transformando em um filme instigante de Alan Parker, a que tive a oportunidade de assistir no Cine Pepino, em Sete Lagoas, como parte de um trabalho para a saudosa Mírian Tanure, professora de inglês do meu curso de Letras.

Outro dia, entretanto, aprendi algo para o qual não tinha atinado: a referência à cantora inglesa Vera Lyn (nascida em Londres, em 20/03/1917), que foi muito famosa durante a Segunda Guerra Mundial. Seu repertório quase sempre fazia alusão à temática de soldados que foram para a luta. O início do filme de Alan Parker mostra uma radiola tocando uma música dela. No filme também podemos ouvir uma referência a uma de suas músicas mais famosas, “We´ll meet again”, logo após “Vera” — além disso, no final, traz a bela “Bring the boys back home”, com um coral (era comum aparecerem corais nas músicas de Vera Lynn). Aliás, A cantora acabou se tornando “Dame” Vera Lynn, uma homenagem da rainha por sua contribuição cultural. Vale a pena ressaltar que, recentemente, em setembro de 2009,foi lançado o álbum “We´ll meet again - The very best of Vera Lynn”, uma coletânea de suas músicas mais conhecidas, atingiu 1º lugar na lista dos mais vendidos na Inglaterra. Isso mostra a importância de Vera Lynn no país. Se quiserem saber mais, cliquem aqui.

Para nos situarmos a respeito, deixo aos leitores desse post algumas referências ao que relatei acima:

Vera
Pink Floyd
Does anybody here remember Vera Lynn
Remember how she said that
We would meet again
Some sunny day
Vera! Vera!
What has become of you
Does anybody else in here
Feel the way I do ?
Alguém aqui se lembra de Vera Lynn?
Se lembra como ela disse que
Nos encontraríamos novamente
Num dia ensolarado
Vera! Vera!
O que aconteceu com você?
Alguém por aqui
Sente o mesmo que eu?

“Vera” / “Bring the boys back home”


We’ll Meet Again
Vera Lynn


We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day

Keep smiling through
Just like you always do
'Till the blue skies
Drive the dark clouds far away

So, will you please say hello
To the folks that I know
Tell them I won't be long
They'll be happy to know
That as you saw me go
I was singing this song

We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day

We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day

So, Darling, keep smiling through
Just like you always do
'Till the blue skies
Drive the dark clouds far away

So, will you please say hello
To the folks that I know
Tell them I won't be long
They'll be happy to know
That as you saw me go
I was singing this song

We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day...
Vamos Nos Encontrar Novamente
Vera Lynn


Vamos nos encontrar novamente
Não sei onde
Não sei quando
Mas eu sei, vamos nos encontrar novamente
Em algum dia ensolarado

Continue sorrindo
Assim como você sempre faz
Até que o céu azul afaste
As nuvens escuras para longe

E por favor diga olá
Para as pessoas que eu conheço
Diga a eles que eu não demorarei
E eles vão ficar feliz em saber
Que quando você me viu ir
Eu estava cantando esta canção

Vamos nos encontrar novamente
Não sei onde
Não sei quando
Mas eu sei, vamos nos encontrar novamente
Em algum dia ensolarado

Sim, vamos nos encontrar novamente
Eu não sei onde
E não sei quando
Mas eu sei que vamos nos encontrar novamente
Em algum dia ensolarado

Então, querida, Continue sorrindo
Assim como você sempre faz
Até que o céu azul
Afaste as nuvens escuras para longe

E por favor diga olá
Para as pessoas que eu conheço
Diga a eles que eu não demorarei
E eles vão ficar feliz em saber
Que quando você me viu ir
Eu estava cantando esta canção

Nós nos encontraremos de novo
Não sei onde
Não sei quando
Mas eu sei, nós nos encontraremos de novo
Em algum dia ensolarado


“We’ll meet again”, de Vera Lynn

Para finalizar, deixo aqui uma das músicas do Pink Floyd de que mais gosto: “Wish You Were Here”. Ela é a quarta faixa do álbum de estúdio homônimo. Sua letra é uma referência ao primeiro vocalista do grupo, Syd Barrett, embora possa também ser considerada uma expressão de saudade. A letra foi composta pelos geniais David Gilmour e Roger Waters. Essa versão é uma interpretação intimista de Roger Waters, acompanhado por nada menos que Eric Clapton na guitarra, em concerto em prol das vítimas do tsunami na Ásia. Simplesmente fantático!

“Wish you were here”, com Roger Waters e Eric Clapton

sábado, 24 de dezembro de 2011

Se John Lennon não tivesse morrido

Nesta manhã de sábado, véspera natalina, assisti novamente ao filme “Assassinato de John Lennon”, um filme instigante que invade a cabeça perturbada de Mark David Chapman, o assassino. O britânico Andrew Piddington, diretor do filme, tenta recriar os planos diabólicos do maníaco narcisista para se tornar famoso, acabando com a vida de Lennon. O ator Jonas Ball, à época pouco conhecido, faz uma interpretação assustadora do maluco que encerrou a vida de um artista e do homem que marcou várias gerações mundo afora. Se quiser saber detalhes desse triste episódio, basta clicar aqui. Inclusive, a cena do filme está no Youtube. 

Mas não é sobre isso que quero falar, exatamente. queria falar de uma ideia que me passou pela cabeça: se John não tivesse morrido? Como seria sua carreira posterior a tudo isso. Como se passaram 30 anos desse triste episódio, resolvi escrever um post somente sobre o que ocorreria nos oito primeiros anos após o que seria a tentativa frustrada de Chapman. Vejamos então…

“Se John Lennon não tivesse morrido”

Depois de ter sobrevivido à tentativa de assassinato, John Lennon resolveu dar um tempo em sua carreira. Passou uma semana em coma e três meses internado no hospital, mas conseguiu sobreviver sem sequelas físicas aos tiros do maníaco, cujo nome não gostava de ouvir, o que mostrava que as marcas psicológicas ficariam indelevelmente em sua alma. 

John e Yoko foram para o Japão com o filho Sean. Billy Preston, Paul, George e Ringo foram ficar com ele por várias semanas. Surgiu o boato de que se reuniriam novamente, o que foi negado veemente por todos. Mas não restava dúvidas de que o que acontecera com John os reunira novamente, não como artistas, mas como amigos. A perspectiva de perder John foi algo que mexeu com todos eles.

As várias semanas juntos evidentemente dariam frutos: muitas canções foram compostas. Combinaram que seriam lançados álbuns individuais com elas. Paul lançou em 12 de setembro de 1982 o LP “Ressurrection”, cuja música principal, “Little bird”, tinha o seguinte trecho: “We’re just men who fight for peace / Hold me in your wings, little dove / We can’t fight anymore / We can just sleep and dream…” (“Somos apenas homens que lutam por paz /  Abrace-me em suas asas, pombinha / Nós não podemos lutar mais /  Só queremos dormir e sonhar…”).

George também lançou, alguns dias depois, em 27 de setembro de 1982, um LP que tinha como música principal a angustiada canção “Pain”, acompanhada por um solo maravilhoso da guitarra do amigo Eric Clapton no trecho: “My heart bleeds of pain / I imagine another song / People would be happy and can / Make different things as love each other…” (Meu coração sangra de dor / Eu imaginei uma outra canção / As pessoas seriam felizes e poderiam / Fazer coisas diferentes como amar um ao outro…”).

Ringo demorou mais de um ano para gravar um novo LP, mas quando o fez, em 22 de fevereiro de 1983, apareceram várias canções, com destaque para a alegre “The yes song”, que dizia “We have many reasons to laugh / including the fact of being alive / then we go to another level, where the angels sing live life…” (“nós temos vários motivos para rir / inclusive o fato de estarmos vivos / nós vamos então para outro nível / onde os anjos cantam ao vivo a vida…”).

Billy Preston, por sua vez, foi convidado por John para gravar com ele seu novo LP, após quatro anos, em 1985. O LP foi lançado no dia 6 de janeiro, mostrando um novo lado interessante de John Lennon: ele tinha se tornado um estudioso da história das religiões e isso aparecia em várias canções. Inclusive, a escolha da data de lançamento tinha a ver com a história dos Reis Magos do Oriente que visitaram Jesus em Belém. O disco se chamava, aliás, “Journey”, que relatava a jornada de John Lennon até aquele momento. A participação de seu filho Julian, então com 22 anos, foi maravilhosa. O sucesso foi estrondoso. Tornou-se o disco mais vendido da história, com vários prêmios mundo afora. John, no entanto, continuava sem dar entrevistas e raramente era visto em público. Mas era respeitado por sua posição. A música que mais se destacou no disco, “Trip”, revelava o seu sentimento e, de certa forma, justificava essa ausência: “Now, I know I have fear/ I made a trip to paradise / But God wanted me to be here / I do not remember the way / But this man is separated / From myth that I became a day…” (“Eu agora tenho muito medo / Eu fiz uma viagem ao paraíso / Mas Deus quis que eu estivesse aqui / Eu não me lembro do caminho / Porém este homem está separado / Do mito que me tornei um dia…”).

John continua recluso. Não está mais no Japão. Dizem que vive viajando. Por volta de 1987, dizem tê-lo visto em duas pequenas cidades do interior de Minas Gerais, no Brasil. Caetanópolis e Paraopeba chamaram-lhe a atenção pelo contato que ele teve com Mílton Nascimento, o Bituca, que lhe contou a história de Clara Nunes, sua amiga e a maior cantora do Brasil até os anos atuais. Inclusive, Clara recebera o Grammy em 2011 pelo conjunto da obra e uma de suas principais interpretações, do compositor mineiro Armando Fernandes Aguiar (Mamão), “Tristeza Pé no Chão”, teve uma versão maravilhosa da dupla Julian e Sean Lennon, que se apaixonaram pela música brasileira e gravaram em português, porque não conseguiram traduzir a saudade: “Dei um aperto de saudade no meu tamborim / Molhei o pano da cuíca com as minhas lágrimas / Dei meu tempo de espera para a marcação e cantei / A minha vida na avenida sem empolgação…”

*********************

Realmente, não dá para traduzir a saudade. Temos saudade de John e de tudo o que ele representou. Essa época do ano sempre serve para lembrar disso.

Deixo ao leitor meus desejos de boas festas, que o Natal seja de muita felicidade e reflexão a respeito da figura do aniversariante e do que Ele representou. Ele é mais popular que os Beatles. Digo isso dentro do contexto.

Feliz Natal! Feliz 2012!

Jesus e Lennon

sábado, 17 de dezembro de 2011

Mar é morada da saudade



  



Sei agora da morte de Cesária Évora. Sei-me instantaneamente triste. Sequer reconheço o que escrever. Cesária era mais que Évora para mim. Um símbolo imprescindível da música negra que transcende o orgulho e a pretensão brasileira. Sou brasileiríssimo, mas Cesária era uma amostra de onde viemos, da negritude orgulhosa da África mãe sofredora. Não tenho palavras... Não tenho mesmo o que dizer. Reproduzirei apenas os mestres. Que eles digam o que sofro com a morte de Cesária... Que alguém leia o que escrevi e entenda a importância que essa mulher teve para toda a lusofonia. Respeito profundamente as mortes concomitantes de Joãosinho Trinta e de Sérgio Brito. Mas meu objeto maior de respeito hoje é dessa mulher que defendeu seu país e toda a diversidade lusófona tão apaixonadamente. Tornou-se mito...

Para rimar e homenagear, ouso, mesmo com rimas longínquas, como nosso respeito e conhecimento por alguém tão importante:

Passou agora Joãosinho Trinta
Passou também o Sérgio Brito
Passou o teatro e o carnaval
Mas passou alguém mais além
Que muitos podem achar ninguém
Cesária Évora nunca foi a tal
Mas há hoje quem ainda a sinta
Cesária Évora foi um mito...



Vozes d'África
(Castro Alves)


Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
- Infinito: galé! ...
Por abutre - me deste o sol candente,
E a terra de Suez - foi a corrente

Que me ligaste ao pé...

O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia...
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais ...
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
- Pagodes colossais...

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! ...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista - corta o mármor de Carrara;
Poetisa - tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã! ...

Sempre a láurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c'roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela - doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...
E nem tenho uma sombra de floresta...
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador...

Quando subo às Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
"Abriga-me, Senhor!..."
Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: "Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz. . . "

Nem veem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim ...
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
Que desce de Efraim.

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!

Foi depois do dilúvio... um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará...
E eu disse ao peregrino fulminado:
"Cão! ... serás meu esposo bem-amado...
- Serei tua Eloá. . . "

Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o Nômada faminto corta as plagas
No rápido corcel.
Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir - Judeu maldito -
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa - arrebatada -
Amestrado falcão! ...

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos - alimária do universo,
Eu - pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço

Perdão p'ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...






Navio Negreiro
(Castro Alves)



I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!


Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...

..........................................................


Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!

Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena

Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,

Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente

Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,

(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),

Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...

III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

V


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.

Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...

... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...

Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.


Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. . .
Prende-os a mesma corrente 
— Férrea, lúgubre serpente — 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute... Irrisão!... 

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! ...

VI
Existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia?
Siêncio. Musa... chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 
Auriiverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 
Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

*****************

Não quero tornar esse post tão longo que seja ilegível... Termino com uma letra de música de Cesária Évora que todos deviam conhecer. Coloco letra e versão, pois o que ela canta é um dialeto de Cabo Verde, sua terra natal. Um dia voltarei a tratar dessa lenda, mais respeitosamente, antes de ter bebido as seis Bohemias que hoje me acompanham nesse post.



Mar e morada de sodade 

Num tardinha na camba di sol 
Mi t'andá na pr'aia de Nantasqued 
Lembra'n praia di Furna Sodade
frontán 'm tchorá Mar é morada di sodade 
El ta separá-no pa terra longe 
El ta separá-no d'nôs mâe, nós amigo 
Sem certeza di torná encontrá 
M'pensá na nha vida mi só 
Sem ninguem di fé, perto di mim 
Pa st'odjá quês ondas ta 'squebrá di mansinho 
Ta trazé-me um dor di sentimento

O mar é a morada da saudade 

Na tardinha, ao pôr do Sol 
Estendido na praia de Nantasqued 
Lembro a praia de Furna 
A saudade faz-me chorar 
O mar é a morada da saudade 
É ele que nos leva para terras distantes 
Ele separa-nos da nossa mãe, 
Dos nossos amigos 
Sem certeza de os tornar a ver 
A pensar na minha vida tão só
Sem ninguém de confiança perto da mim
Olhando as ondas a rebentar de mansinho
Que me trazem um sentimento de dor


*****************



domingo, 27 de novembro de 2011

13 músicas caipiras muito importantes


"O Violeiro", de Almeida Júnior


Sei que compro uma briga enorme ao publicar um post com esse título e, confesso, a intenção era essa, mesmo. A polêmica leva à divulgação e à consequente valorização deste nosso tesouro cultural que é a música caipira.


De características diversificadas e origens várias, nossa música caipira tem relação direta com a própria raiz cultural do povo brasileiro. Não vou trazer aqui nenhum tratado sobre as origens da música caipira, mas algumas curiosidades que existem a respeito.


Nessa manifestação musical, há grande influência da cultura musical portuguesa, acompanhada fortemente da presença da cultura indígena, através dos urucapés, guaús, parinaterans e tocandiras, de origem guaicuru, xavante, guarani ou bororo. Segundo a história, o Padre José de Anchieta valeu-se de uma dança religiosa indígena, o caateretê, para tentar convertê-los ao Cristianismo. Teria sido ainda o Apóstolo do Brasil que introduziu esta dança nas festas das províncias da recente colônia, num hábito que até hoje persiste nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Pará e Amazonas, sob a nomenclatura de “catira”, com elementos rítmicos da viola, do sapateado e do bater de mãos. Cantado em versos, o caateretê propiciava o surgimento de cantores e trovadores populares (pode-se ver mais desse assunto no sítio MiniWeb Educação).


A viola caipira é a marca sonora registrada que acompanha essa música, e há muito o que falar a respeito dela. Não é o objetivo aqui. De Câmara Cascudo a Cornélio Pires e Inezita Barroso, muita gente importante defendeu e ainda defende essa história e de forma muito competente. O meu objetivo é mesmo dizer que há algumas músicas que julgo muito importantes e não apenas por fazerem parte de minha existência, mas por representarem algum tipo de marco da cultura caipira brasileira.


Não quero falar também dos grandes intérpretes e compositores, pois são muitos os que se destacam e requerem um post dedicado, até para ilustrar bem a qualidade de cada um. Quero mesmo, como disse, apenas falar de algumas músicas que são importantes por representar uma característica específica do gênero.


Eis portanto, sem mais demoras, minha lista (que não está em ordem de preferência):



Música Compositores Importância Detalhes
“Pingo d'água” Raul Torres e João Pacífico Linda canção dos precursores da música caipira, que relata a esperança do caboclo pela chuva redentora. Ver letra e vídeo com Tonico e Tinoco
“Menino da porteira” Teddy Vieira e Luizinho Talvez a mais conhecida música do gênero, que conta uma triste história que, inclusive, já virou filme. Ver letra e vídeo com Daniel, no filme homônimo
“Pagode em Basília” Tião Carreiro e Lourival dos Santos Outro clássico do gênero, em que a virtuose do violeiro Tião Carreiro é impressionante. Ver letra e vídeo com Tião Carreiro e Pardinho
“Canoeiro” Alocin e Zé Carreiro Outra música que valoriza também a capacidade sonora da viola nas improvisações onomatopaicas da natureza. Ver letra e vídeo com Carreiro e Carreirinho
“Ferreirinha” Carreirinho Talvez uma das primeiras canções do tipo “moda de viola” que surgiram, contando a triste história do Ferreirinha, personagem fictício de música que ganhou até estátua em homenagem. Ver letra e vídeo com Carreiro e Carreirinho
“Chalana” Mário Zan e Arlindo Pinto A bela canção que traz como destaques a paisagem pantaneira e a sanfona, outro instrumento fundamental da música caipira. Ver letra e vídeo com Almir Sáter
“Travessia do Araguaia” Décio dos Santos Uma moda de viola que relata a dureza da vida do boiadeiro e da boiada, com uma metáfora bíblica muito bonita. Ver letra e vídeo com Tião Carreiro e Pardinho
“Chitãozinho e xororó” Serrinha e Athos Campos Uma das mais conhecidas músicas caipiras, carregada do bucolismo tradicional do gênero e que deu nome a uma das mais importantes duplas sertanejas da história. Ver letra e vídeo com Zé Tupi e Zé Pires
“Amargurado” Dino Franco e Tião Carreiro Bela canção, reproduzida pelas mais belas vozes do gênero, relatando um amor não mais correspondido pela amada, mas que permanece assim mesmo. Ver letra e vídeo com Tião Carreiro e Pardinho
“Mágoa de boiadeiro” Nonô Basílio e Índio Vago Relata a decadência do boiadeiro tradicional em virtude do transporte de boiadas em veículos. Ver letra e vídeo com Pedro Bento e Zé da Estrada
“Caboclo na cidade” Dino Franco e Nhô Chico Uma moda de viola típica, relatando o contraste entre a vida urbana e a vida no campo e seus valores. Ver letra e vídeo com Dino Franco e Mouraí (espetacular acompanhamento de viola e show de vozes)
“Cabocla Teresa” Raul Torres e João Pacífico Texto que relata um assassinato por ciúme, com uma declamação inicial. Uma das músicas que faz parte do repertório da maioria dos intérpretes do gênero, com destaque para os lendários irmãos Tonico e Tinoco. Ver letra e vídeo com José Domingos e Rolando Boldrin
“Ladrão de mulher” Vieira e Vieirinha Representa a catira, com palmeado e sapateado ritmado ao som da viola, destacando a dupla Vieira e Vieirinha, conhecidos como “Reis da Catira”. Ver letra e vídeo com Guilherme e Santiago

domingo, 8 de maio de 2011

O Teatro Mágico

Ganhei da amiga Adriana, Secretária Municipal de Cultura, um excelente material referente ao grupo O Teatro Mágico. Fiquei muitíssimo impressionado com a qualidade e originalidade desses artistas e não poderia deixar de divulgá-los neste espaço.

Fernando Anitelli, 35 anos, ator, músico e compositor, é o responsável pela criação do projeto “O Teatro Mágico”. Nascido em Presidente Prudente e criado na cidade de Osasco, São Paulo, Anitelli “brinca” com arranjos e melodias desde os 13 anos, “Quando vi que rimar amor com humor funcionava, não só na estética e na melodia, mas no sentido que aquilo tinha pra mim, nunca mais parei de fazer música”, revela.

As primeiras vitórias vieram logo cedo com prêmios em vários festivais dos quais participou com suas canções. A entrada na Faculdade de Comunicação Social lhe garantiu não só um diploma, mas também a formação da banda Madalena 19, que permitiu seu amadurecimento como músico. Foram quase dez anos de ensaios e apresentações de pequeno porte.

De lá para cá, Anitelli acumulou ainda a experiência como ator, trabalhando com diretores como Oswaldo Montenegro, Ismael Araújo e Caio Andrade, entre outros, que lhe deram as noções básicas de expressão corporal, domínio de palco e outros elementos vindos da escola do teatro, indispensáveis em seus shows.

Em 2003, Anitelli gravou seu primeiro CD. O álbum recebeu o sugestivo título “O Teatro Mágico: Entrada para Raros”, numa referência ao best-seller “O Lobo da Estepe”, do escritor alemão Hermann Hesse. “Quando eu li sobre o Teatro Mágico do Hesse, percebi que era justamente aquilo que eu gostaria de montar: um espetáculo que juntasse tudo numa coisa só, malabaristas, atores, cantores, poetas, palhaços, bailarinas e tudo mais que a minha imaginação pudesse criar. O Teatro Mágico é um lugar onde tudo é possível.”, conta.

Em cena, Anitelli revela uma expressão cênica incrível seja declamando versos, cantando ou fazendo performances. “Quando estou no palco, faço questão de frisar que aquele ali sou eu, não é um palhaço ou outro personagem qualquer”. O Teatro Mágico torna possível que cada um se mostre como é, que cada verdade interna seja revelada. Essa é a grande brincadeira, “ser o que se é, afinal todos somos raros e temos que ter consciência disso” , destaca. E assim, Anitelli vai traçando um paralelo entre o real e o imaginário enquanto o público, aos poucos, vai entrando na mesma freqüência sinestésica marcada pelo ritmo do espetáculo. No final, palco e platéia se fundem e cada um dos presentes vai descobrindo a delícia de se permitir ser um pouco mais de si mesmo.

Sugiro aos amigos leitores que conheçam mais desse grupo sensacional, visitando seu sítio. Lá estão letras de músicas, agenda e mais informações sobre essa turma fantástica. Quem sabe não poderemos assistir a seu espetáculo ao vivo no Festival Clara Nunes…

image

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Uma pena...

Na semana passada deixou-nos Pena Branca. Uniu-se a Xavantinho novamente para formar uma dupla que encantará os céus com sua simplicidade.

Essa, aliás, sempre foi a marca de ambos ao longo de suas vidas. Dizem que, certa vez, Pena Branca ligou para um amigo perguntando o que era um tal de Grammy (a dupla acabara de receber uma correspondência informando que havia ganhado o Grammy Latino).

Falar o que a respeito? Pena Branca e Xavantinho representaram uma parte da nossa música que foi sempre tratada com ressalvas pelos críticos de plantão. A música de raiz em Pena Branca e Xavantinho tornou-se também popular. Interpretaram grandes compositores de nossa música caipira e também de nossa música popular. A gravação de "Cio da Terra" é algo simplesmente maravilhoso. Mílton Nascimento e Chico Buarque devem se sentir orgulhosos dessa música que marcou a carreira da dupla.

Como Pena Branca e Xavantinho, muitas outras duplas da música de raiz poderiam estar em evidência. Quando falo de música de raiz, não me refiro apenas à música caipira. Desde as mais simples manifestações de congado e reisado ao samba de Martinho da Vila, à música de Villa-Lobos, entre outras, são o que considero música de raiz. É a música que se confunde com a história e a formação de nossa cultura.

Sei que é mexer em uma caixa de marimbondos falar de gosto musical ou de qualquer gosto estético. Entretanto não deixo aqui crítica a nenhuma opção, não considero comparações de valor. Coloco apenas o que considero interessante. E uso aqui uma referência importante: Pena Branca e Xavantinho.

Uma pena... por que artistas assim não são reconhecidos como deveriam? Uma pergunta, caro leitor, cuja resposta não tenho. Alguém poderia responder para mim?...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A Guerreira e a África

Falar sobre a África sempre mexeu comigo, desde os tempos em que recitava Castro Alves, aos sete anos de idade. Lá se vão 37 anos de admiração pela obra desse grande poeta que gostava de recitar suas poesias (dizem que ele as escrevia exatamente para serem recitadas e não apenas lidas individualmente, a fim de atingir o máximo de pessoas). A literatura africana lusófona, tão pouco divulgada, mas tão preciosa, traz grandes influências desse contexto e dessa abordagem feita pelo poeta baiano, que denunciava a escravidão e o tráfico de escravos, mácula indelével na história do Brasil.

Enquanto escrevo esse post, embalado ao som de Cesária Évora, notável cantora do arquipélago africano e lusófono de Cabo Verde, que sempre se apresenta de pés descalços, como forma de mostrar sua origem humilde e sofrida. Seguindo o caminho das suas músicas, ouço o dialeto crioulo cabo-verdiano composto uma mistura da língua nativa com as línguas dos conquistadores, que lá estiveram (considerando que o arquipélago foi um ponto de convergência e rota de cruzamentos marítimos de várias nacionalidades, por interesses colonialistas, de piratagem ou escravocratas). Principalmente a língua portuguesa.

O que ouço é o substrato linguístico, o resíduo natural impregnado pelos falares caboclos, impactado e afetado pelo superstrato neolatino das línguas românicas, sobretudo o português, por um processo de desculturação e aculturação progressivo, num ambiente colonialista, escravocrata e bárbaro. Canções que lamentam, nascidas da memória oral e passadas de boca em boca, Cesaria Évora, faz uma viagem pelos meandros mais subjetivos da alma de seu povo e de sua gente.

Esse dialeto crioulo cabo-verdiano tem status de “língua” interjectiva, onomatopaica, aglutinante, sincopada, elíptica, apostrófica, apocopada, sintética, primitiva, própria das literaturas africanas de língua portuguesa, cujo somatório do substrato e superstrato (ortográfico e fonológico) apresenta peculiaridades próprias de uma “língua” oral ou falada, aglutinante. As elisões dão aos textos um tom malemolente, nostálgico, saudosista e melancólico, expressando com fina emotividade a atmosfera do Arquipélago.

Veja as letras das canções abaixo:


Sabor de Pecado

Na ponta de bôs lábios
Tem fogo di amor
Tem mel di abelha
Tem paixão tem calor
Tem tentaçon di maçã
Tem sabor di pecado
Bôs bejos tem
Doçura e mistêr

(de Novas, Manuel. CD São Vicente di Longe, Cesária Evora. Studio Plus XXX, Paris, Dezembro de 2000, p.2)



Mar é morada de sodade

Num tardinha na camba di sol
Mi t'andá na pr'aia de Nantasqued
Lembra'n praia di Furna Sodade
frontán 'm tchorá Mar é morada di sodade
El ta separá-no pa terra longe
El ta separá-no d'nôs mâe, nós amigo
Sem certeza di torná encontrá
M'pensá na nha vida mi só
Sem ninguem di fé, perto di mim
Pa st'odjá quês ondas ta 'squebrá di mansinho
Ta trazé-me um dor di sentimento
[de Maninha, Lela. CD Cap-Vert (Cabo-Verde Islands), Cesária Evora]


Troco agora de cantora. Ouço a mineira, conterrânea e um dos meus ídolos na música: Clara Nunes. A canção de Chico Buarque de Holanda “Morena de Angola” leva-me de novo para a África e consigo vibrar com a voz marcante dessa mineira guerreira.

Clara Guerreira: assim era conhecida essa mulher admirável que, na minha infância e adolescência via passar na porta de minha casa, nas breves visitas que fazia à família. Nunca deixava de ir à famosa “pedreira”, uma espécie de lajedo que há no famoso córrego do Cedro, próximo à casa onde eu morava naquele tempo. Olhava-a timidamente, quando ela passava e eu estava na rua ou, quando dentro de casa, pelas frestas das janelas. Tinha vergonha, como bom “capiau” (que sou até hoje) daquela mulher impressionante, de beleza singular e de uma voz melodiosa e firme, mesmo quando estava apenas conversando.

Achava um pouco estranho o sotaque, já marcado pelo jeito fluminense de dizer as coisas. Mas ainda se percebia a raiz mineira, indelével. Surpreendia-me sempre aquela mulher, tia de um conhecido meu naquele tempo, com quem jogava bola, o Suede. Hoje, ainda jogo bola com o Doutor Suede, brilhante ortodontista que, inclusive, faz um ótimo trabalho com o meu filho caçula.

Clara Nunes tem uma história sofrida, como Cesária Évora. Ela também gostava de cantar descalça, como Cesária Évora. Também defendeu suas raízes, como Cesária Évora. Também é inesquecível, como Cesária Évora.

A música que toca agora é outra. A linda composição “Tristeza pé no chão”, de Armando Fernandes, mais conhecido como Mamão, lá de Juiz de Fora. Finalizo com a letra da música:


“Tristeza pé no chão”

Dei um aperto de saudade
No meu tamborim
Molhei o pano da cuíca
Com as minhas lágrimas
Dei meu tempo de espera
Para a marcação e cantei
A minha vida na avenida sem empolgação

Dei um aperto de saudade
No meu tamborim
Molhei o pano da cuíca
Com as minhas lágrimas
Dei meu tempo de espera
Para a marcação e cantei
A minha vida na avenida sem empolgação


Vai manter a tradição
Vai meu bloco tristeza e pé no chão
Vai manter a tradição
Vai meu bloco tristeza e pé no chão

Fiz o estandarte com as minhas mágoas
Usei como destaque a tua falsidade
Do nosso desacerto fiz meu samba enredo
Do velho som da minha surda dividi meus versos

Vai manter a tradição
Vai meu bloco tristeza e pé no chão
Vai manter a tradição
Vai meu bloco tristeza e pé no chão

Nas platinelas do pandeiro coloquei surdina
Marquei o último ensaio em qualquer esquina
Manchei o verde esperança da nossa bandeira
Marquei o dia do desfile para quarta-feira

Vai manter a tradição
Vai meu bloco tristeza e pé no chão
Vai manter a tradição
Vai meu bloco tristeza e pé no chão

*************************
* Para ver vídeos de Cesária Évora e de Clara Nunes, pesquise no Google Vídeos. Você vai se surpreender, se ainda não conhece...