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quinta-feira, 29 de março de 2018

As paineiras e os meninos que voam



Chego à escola sentindo-me um estranho naquele espaço infantil. Olho ao redor, paro o carro sob as enormes paineiras da frente da escola. Faço minha oração e saio do carro. Respiro fundo o ar puro daquelas paragens e passo pelo portão, observando as diversas crianças que brincam no pátio, enquanto aguardam o sinal de entrada da tarde. Elas sorriem, gritam e correm. Algumas estranham aquele homem esquisito que sorri meio sem graça para elas, ao mesmo tempo em que lhes diz um boa-tarde meio abafado.
Sou recebido pelas novas companheiras de trabalho e levado ao meu posto. Tarefas são executadas, mas não deixo de pensar nas crianças lá fora. As horas se vão e a noite chega. Com ela, vêm as lembranças daquele dia, especialmente daquelas crianças brincando no pátio. No outro dia, outras crianças viriam, pois eu trabalharia no horário da manhã. Fecho os olhos e durmo, entorpecido pelo cansaço de um dia intenso...
Outro dia em que paro o carro sob as paineiras, agora às 6h da manhã. A escola está vazia e observo as paineiras gigantes. Um grande número de aves aprontam uma algazarra nelas e eu fico olhando aqueles pássaros que voam de uma para outra árvore. Parece que estão ali brincando...
As primeiras crianças chegam mais cedo no transporte público do município. Recebo-as e vou cuidar delas até que chegue o horário de iniciar as aulas. Lembro-me de que fui criança também. Tal como elas, um menino lampeiro que adorava correr de um lado para outro, de subir em árvores e de comer fruta no pé. Um menino que gostava de jogar bola descalço na rua, brincar de pique-esconde e de tantas outras coisas.
Sinto alguém puxar-me a roupa... “Tio, o senhor gosta de soltar papagaio?” Não espera minha resposta e já emenda uma história. “Outro dia eu tava soltando com meu pai, quando é fé meu papagaio garrou na fiação elétrica...” Interrompi imediatamente. Que coisa, menino! Na fiação elétrica? E seu pai não lhe chamou a atenção? Isso é um perigo... De morte! Não se solta papagaio perto de rede elétrica. E o menino continuava... “Mas tio, não tinha problema, porque meu pai me levou pra outro lugar. Aí, quando é fé, chegou um punhado de meninos com uns papagaios grandão, que custava a voar. O meu era pequeno, de saco de lixo preto. Mas meu pai pôs umas varetas de bambu bem fina e ele ficou leve. O meu papagaio também não tinha rabo, era sureco. Quando é fé, os menino foi soltar os grandão deles e meu pai falou que ia cortar a linha deles e que ia me ensinar...”
Outras crianças chegaram mais perto para ver o motivo de o tio estar tão exaltado. E aí aproveitei para tecer um sermão sobre os cuidados ao soltar pipas, procurando áreas propícias e seguras e, principalmente, não usar cerol nem a famigerada linha chilena. Mas, para minha surpresa, várias crianças discordam de mim dizendo que essa linha é que é a boa, tanto a número 3 quando a número 4, tanto a rosa quanto a verde. E eu, dando uma de técnico têxtil, fui explicar o que significava o título dos fios, como se aquilo interessasse àquelas crianças. Falei sobre os riscos para quem solta papagaios com tais linhas, bem como para os ciclistas e motociclistas, bem como sobre as responsabilidades legais de quem faz isso. Depois de muito falar, lembrei que meu público eram apenas crianças...
Ou seriam algo mais? Quem sabe eram anjos disfarçados testando meu conhecimento, minha sensibilidade e minha capacidade de interagir com seres tão fantásticos? Ou seriam pássaros? Porque, ao observar aquelas crianças, percebi que elas voavam... Assim como as pipas de que falavam, essas criaturas inigualáveis voavam bem alto, presas às linhas, com cerol ou não, chilenas ou simplesmente linhas 10 de poliéster com que seus pais as seguravam. Na verdade, sonhavam em subir cada vez mais alto, mas presas à origem e à segurança daqueles que as amam por essas linhas tênues.
Voei junto com elas!... Nunca fui um caçador de pipas, mas assim como Hassan, imaginei-me cortando a linha que me prendia a alguns dos valores falhos que me orientaram até ali como educador, para que eu abrisse meu olhar para um novo jeito de ensinar e de aprender. Um sorriso minúsculo no canto de minha boca, apenas de um lado, lembrou-me Sohrab. Eu era esse menino. Eu era todos aqueles meninos que voam como pássaros e pipas até mais alto que podem e depois pousam naquelas paineiras frondosas da escola, puxadas pelas linhas do amor à educação, que, inexoráveis, não se rompem. 




quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

50 anos



Hoje completo meio século de vida...
Olho para trás e percebo o quanto sou feliz.
Lembro com clareza a estrada percorrida:
cada etapa, cada parte dessa jornada me diz
que o que construí é de fato consistente.
Tornei-me um homem que, principalmente,
agradece por tudo que tenho ao Senhor
que me proporcionou encontrar o Amor...
Sim, o sentimento Amor com “A” maiúsculo,
que traz em si a essência da felicidade...
 
 
Agradeço também a todos que caminharam a meu lado,
fazendo com que eu continue buscando o melhor.
Todos aqueles que me fizeram muitas vezes sorrir,
mas também todos os que me fizeram chorar...
Pois sorrisos e lágrimas temperam o homem que sou
e ajudam-me a tentar encontrar o que quero ser...
 
 
O homem que hoje completa 50 anos de idade,
absolutamente imperfeito, sente-se comprometido
a buscar cada vez mais a espiritualidade, com a certeza
de que cometerei erros até o fim de minha travessia.
No entanto, através deles vou tornar-me melhor
que o homem que completa hoje 50 anos...




terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Santos Reis


Hoje a Igreja Católica comemora o Dia dos Santos Reis, que a tradição surgida no século VIII converteu nos santos Belchior, Gaspar e Baltazar. Adoro estudar as tradições culturais do meu país e, particularmente, tenho me dedicado bastante ultimamente ao estudo das Folias de Reis. É interessante saber que a Bíblia não revela no Sagrado Evangelho que os Santos Reis o seriam de fato, pois faz referência apenas a “magos do Oriente”. São citados apenas por São Mateus: 

(2, 1) Tendo, pois, nascido Jesus em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que vieram do oriente a Jerusalém uns magos que perguntavam: (2, 2) 'Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? pois do oriente vimos a sua estrela e viemos adorá-lo.' (2, 3) O rei Herodes, ouvindo isso, perturbou-se, e com ele toda a Jerusalém; (2, 4) e, reunindo todos os principais sacerdotes e os escribas do povo, perguntava-lhes onde havia de nascer o Cristo.”

O evangelista não diz quantos nem quem são, mas a tradição católica e escritos não oficiais da Igreja sugerem que eram três e chamavam-se Melquior (ou Belchior), Baltasar e Gaspar. Esses nomes aparecem, entre outros textos, no Evangelho Apócrifo Armeno da Infância, do fim do século VI, no capítulo 5,10:

Um anjo do Senhor foi de pressa ao país dos persas para avisar aos reis magos e ordenar a eles de ir e adorar o menino que acabara de nascer. Estes, depois de ter caminhado durante nove meses, tendo por guia a estrela, chegaram à meta exatamente quando Maria tinha dado à luz. Precisa-se saber que, naquele tempo, o reino persiano dominava todos os reis do Oriente, por causa do seu poder e das suas vitórias. Os reis magos eram 3 irmãos: Melquior, que reinava sobre os persianos; Baltasar, que era rei dos indianos, e Gaspar, que dominava no país dos árabes.”

Eles são conhecidos por “Magos” não porque fossem expertos na magia, mas porque eram muito sábios e, sobretudo, tinham grande conhecimento da astrologia. De fato, entres os persas, se dizia “Mago” aqueles que os judeus chamavam “escribas”, os gregos “filósofos” e os latinos “sábios”.

Vale ressaltar que a exegese católica interpreta a chegada dos Reis Magos como o cumprimento da profecia de David:

Os reis de Társis e das ilhas lhe trarão presentes, os reis da Arábia e de Sabá oferecer-lhe-ão seus dons. 11. Todos os reis hão de adorá-lo, hão de servi-lo todas as nações”. (Sl. 71, 10-11)

Segundo li há algum tempo na revista Superinteressante, foi apenas no século III que eles receberam o título de reis, provavelmente como uma maneira de confirmar a profecia contida no Salmo 72: “Todos os reis cairão diante dele”. Por volta de 800 anos depois do nascimento de Jesus, eles receberam os nomes e também a origem: Melchior era rei da Pérsia, Gaspar era rei da Índia, e Baltazar era rei da Arábia. Melchior, honorável ancião, ofereceu ouro ao Rei Jesus. Gaspar, na força de sua juventude e beleza, ofereceu incenso. E Baltazar, de cor muito escura, ofereceu ao Salvador mirra.

Em hebreu, esses nomes significavam, respectivamente: “rei da luz” (melichior), “o branco” (gathaspa) e “senhor dos tesouros” (bithisarea). Na catedral de Colônia, na Alemanha, supostamente é o lugar onde repousam os restos mortais dos reis magos. De acordo com uma tradição medieval, os magos teriam se reencontrado quase 50 anos depois do primeiro Natal, em Sewa, uma cidade da Turquia, onde teriam falecido. Algum tempo depois, seus corpos teriam sido levados para Milão, na Itália, onde permaneceram até o século 12, quando o imperador germânico Frederico dominou a cidade e levou as urnas mortuárias para Colônia. 

Devemos aos magos até a tradição de dar presentes no Natal. No ritual da antiguidade, ouro era o presente para um rei, incenso, para um religioso. E mirra, para um profeta (a mirra era usada para embalsamar corpos e, simbolicamente, representava a mortalidade). O significado desses presentes costuma variar: uns dizem que o ouro representava a realeza de Jesus, filho de Davi; a mirra, a sua humanidade e o seu sacerdócio; o incenso falava de sua divindade, era Deus que se revestiu da forma humana, nascendo como um de nós. Outros já vão além disso, acrescentando outros detalhes:

– O ouro era o presente para um rei (realeza), mas também a riqueza e a alegria que os Reis Magos sentiram na alma quando se aproximaram do menino Jesus, além de ser símbolo de sabedoria universal e de todos os dons e talentos que Deus proporcionou à Humanidade.
– O incenso, para um religioso, simbolizava a fé, o retorno íntimo ao sagrado, às bênçãos que todo cristão precisa receber e doar, como também simboliza o ato de abençoar alguém com o coração e pode ser considerado uma oferenda devocional oferecida somente aos deuses e, nesse caso, ao Filho de Deus.
– A mirra era uma erva amarga cuja resina antisséptica era usada para embalsamar corpos e, simbolicamente, podia representar a humanidade de Jesus e, ao mesmo tempo, a Sua imortalidade divina, Sua pureza (o cheiro que ela emana faria ainda a ligação com o Divino e o Eterno, como símbolo para a vitória de Jesus sobre a morte), além de simbolizar também os pecados e defeitos humanos que seriam redimidos pelo Filho de Deus.

Nesta data, ainda, encerram-se para os católicos os festejos natalícios e é o dia em que se desmancham os presépios e são retirados todos os enfeites de Natal. Tenho uma identidade muito forte com esse dia, por vários motivos, que revelo a seguir. 

O primeiro deles é a importância que dou à figura alegórica representada por cada um dos Santos Reis, conforme foi descrito acima, além dos significados dos presentes que levaram ao Menino Jesus.

De acordo com São Beda, o Venerável (673-735), Doutor da Igreja e monge beneditino nas abadias de São Pedro e São Paulo em Wearmouth, e na de Jarrow, na Nortumbria, Inglaterra, considerado como fonte de primeira mão da história inglesa, sendo muito respeitado como historiador (sua obra “História Eclesiástica do Povo Inglês” — Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum — lhe rendeu o título de Pai da História Inglesa), em seu tratado “Excerpta et Colletanea”, o Doutor da Igreja assim recolhe as tradições que chegaram até ele:

Melquior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus. Gaspar era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio. E Baltasar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz”.

Para São Beda – como para os demais Doutores da Igreja que falaram deles – os três representavam as três raças humanas existentes, em idades diferentes. Neste sentido, eles representavam os reis e os povos de todo o mundo.

O segundo motivo pelo qual considero muito importante este dia é porque tenho o maior respeito pelo que representa a Epifania na minha vida particular. Sempre, após as festas de fim de ano (e isso é algo que trago comigo desde a infância), sinto-me muito pensativo e faço uma revisão de minha vida e do que posso fazer para tornar-me alguém melhor. Não é fácil perceber que, em alguns momentos como estes, que deixei de fazer muitas coisas importantes em minha vida que me fariam crescer como ser humano. Mas também é um momento de satisfação em perceber as vitórias que conquistei como pai, marido, irmão, filho, afilhado, compadre, padrinho, tio, amigo, profissional, enfim, como o Ernane que cada uma das pessoas que fazem parte da minha vida compreendem.

O terceiro e menos importante motivo de celebrar o dia 6 de janeiro é porque é meu aniversário.


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Reis Magos”

Os Reis Magos chegaram e deixaram seus presentes
Para o Menino Deus que acabara de nascer
Muitas vezes, sinto que somos uns cristãos tão ausentes
Não celebramos aquilo que de fato deve ser

Ouro foi dado ao Menino Jesus como símbolo de sua realeza
E nós precisamos reafirmar a certeza
De nossa fé incondicional na figura de Deus em nossa vida
E da força que Ele nos proporciona para superar a lida

Incenso também foi um presente para o Menino Jesus
Que deve nos lembrar Sua divindade incontestável
E o amor intenso que emana suavemente de sua luz
Que nos enche o coração de forma inexorável

A mirra de nossos pecados e de nossa alma imperfeita
Representa a eternidade da presença do Cristo Ressuscitado
E a amargura que ora nos acolhe e que ora nos rejeita
É a redenção que Deus nos oferece em Jesus, de bom grado

Gaspar, Belchior e Baltazar louvam o Menino Deus vivo...
Seguiram a Estrela do Oriente em busca do palácio divino
E encontraram um castelo na gruta sagrada do motivo
Que deve mover cada cristão na procura do mistério sagrado
Que não precisa de rimas, nem de estrofes, nem de métrica...
Basta apenas acreditar...






sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Reavaliar a avaliação


Mais uma vez, tive a oportunidade de participar de curso relativo ao Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio / Reinventando o Ensino Médio, desta vez em Sete Lagoas. A discussão girou principalmente em torno da questão da avaliação interna e externa. É um tema polêmico que levanta os ânimos sempre que discutido. Mas a grande verdade é que não se pode determinar modelos e padrões para o que chamamos “avaliar”. Às vezes, o que é preciso é reavaliar a avaliação…

Reavaliar a avaliação

Enfrentar as dificuldades e o não querer
querer superar os difíceis enfrentamentos
muitas vezes pode ser doloroso aprender
mas a vida se faz de bons e maus momentos

Ensinar é muitas vezes estar à beira do precipício
Aprender é tecer desafios constantes de vida
Ensinar é desapegar-se de todos aqueles vícios
Tirando da cartola a magia da criatividade reaprendida

Avaliar como um PAAE que não SAEB
Escolher o melhor caminho para o filho
Deixa, então, que seja dele essa escolha...

SIMAVE vale dois pássaros voando que um na mão
A rima e a métrica foram esquecidas
Assim como as avaliações que não retratam a vida...

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sábado, 20 de setembro de 2014

Não há fórmulas


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Esse texto foi feito em relação à oportunidade que estou tendo de rever o meu papel de educador, no momento em que se fala de um “Pacto” para fortalecer o Ensino Médio no país. Extrapolo o contexto, pois vejo algo muito além disso. Vejo a oportunidade de construção de um país melhor, com cidadãos e educadores mais conscientes e uma juventude que participe positivamente da sociedade, pois a Escola poderá ser uma etapa de suas vidas em que os jovens realmente sentirão a contribuição que a Educação pode lhes oferecer.

domingo, 15 de junho de 2014

Uma luz que emana

Sentirei saudades da luz que se foi embora
Não se apagou essa luz que emana
De um coração generoso que não se explica
Da minha inesquecível Tia Ana...

Na minha fé, resta-me a oração silenciosa
Que brota do fundo do meu peito magoado
Pela antecipação da saudade impiedosa
Que agora dentro de mim irá morar...
O semblante de Tia Ana sempre ficará guardado
Na minha memória como uma imagem singular
De uma mulher forte que superou desafios da vida
Com a fé e a esperança de quem crê em Jesus
E sempre se pôs de apoio à família querida
Na condição que ela tinha de ser essa luz
Que emana e para sempre continuará assim
E continuará também a lembrança, para mim,
De um amor que se espalhou pelo mundo
Através do seu lindo olhar profundo...

Sentirei saudades da luz que se foi embora
Não se apagou essa luz que emana
De um coração generoso que não se explica
Da minha inesquecível Tia Ana...
Capturar

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

20 anos depois...

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Nesta terça-feira, 07/01/2014, completam-se 20 anos do meu matrimônio. Foi um dia de agradecimentos... Pois só tenho a agradecer a minha esposa, a meus filhos e ao meu Senhor por esses anos maravilhosos de minha vida. O casamento representou para mim um crescimento pessoal magnífico.
 
Na verdade, não tenho muito o que dizer neste post sem ser piegas ou simplesmente “chover no molhado”. Vou reduzi-lo ao mínimo, portanto, nos versos e na canção que, para mim e para minha amada esposa, representam muito tudo o que vivemos...
 
 
Após esse tempo todo”


Após esse tempo todo
posso falar sem medo o quanto amo você
falo assim naturalmente
porque as palavras estão sempre em meus lábios
prontas para serem ditas
mesmo que venham não somente do meu corpo
mas da minha alma


Após esse tempo todo
posso dizer que sou um outro homem
mas ainda me sinto o mesmo de antes
jovem enamorado daquela menina linda
que o olhava com olhos furtivos e tímidos
contudo irradiantes de um amor nascente
amor que permanece ainda no gesto carinhoso
na companhia presente e consistente
na paixão ardente


Após esse tempo todo
temos nossos filhos que completam nossa vida
meninos quase homens
joias que Deus nos concedeu
que aprendem e ensinam a cada dia
lindas lições de amor que se renova
estabelecendo o limite ilimitado do carinho


Após esse tempo todo
resta-me a gratidão profunda
a Deus e à vida que nos permitiram
construir essa família iluminada
pela fé, pelo amor, pelo respeito e pela perseverança


Após todo esse tempo
ainda é muito fácil dizer o quanto amo
a minha linda mulher, minha esposa e companheira
pois cada coisa que faço na vida
é pensar que ser feliz não depende apenas de vontade
mas também da presença de um amor de verdade
um amor que não apenas serve para a rima
um amor que faz meu peito suspirar
todas as vezes que vejo o seu olhar...
 
Há muitas interpretações bacanas, de Geraldo Azevedo a Fagner, mas escolhi Badi Assad pela originalidade com que ela fez a releitura dessa música.


 
 

 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Sem palavras





Nada publico há meses. Na verdade, não tinha o que dizer. Meu silêncio falava mais, ainda que isso seja um clichê.  Meu momento é de ouvir muito e de falar pouco. É hora de aprender e apreender. Reescrever histórias já contadas e já ouvidas, para encontrar de novo o caminho e não um novo caminho.


Nessa altura da vida, meu GPS já está com a rota traçada. Desviei-me dela por algum tempo, mas, graças a Deus, sei como buscá-la outra vez. Para isso, como diria Drummond (o Carlos), “considero a enorme realidade”.

Nunca me afastei (e nunca vou fazê-lo) do que deveras sou. Não estou taciturno, tampouco meus amigos leais. Na cadência do passo que sigo, percebo o ritmo da música que me embala e desembola a improvável angústia que não consegue vencer minha vontade.

Olho as janela abertas e gostaria que fossem portas. Mesmo assim, sei que posso olhar através delas e se for o caso, saio por elas. As paredes não me prendem, pois estou livre. Liberto, desconheço a prisão e, por isso, não a temo.

Nada publico há meses. Não tenho o que dizer. Mas transcrevo abaixo quem me diz muito, além de deixar-lhes, meu prezado leitor e minha prezada leitora, que vocês ouçam e vejam o vídeo a seguir.




“Sem palavras”

há um bom tempo estou sem palavras
não sei do que falar
nem porque fazê-lo
mas sei que é na feitura das lavras
e no esperançoso semear
é que se quebra o gelo
para colher-se o poema que brota
de onde estava, imaturo,
esperando, na fonte que não se esgota
no lugar mais escuro
que a claridade da inspiração
vai iluminar…


mesmo que o cansaço invada
corpo e mente ansiosos por revelar
ao mundo aquela tímida emoção
sem palavras, o poema não é nada…
nada mais que a simples vontade de falar…
expressar-se na tentativa de recriar
no espaço vazio do papel
a sequência de palavras que dirão
que a vida não é apenas uma ilusão
nem somente realidade cruel
a vida nos ilude e nos seduz
a vida nos fere e nos acaricia…


sem palavras estou há um bom tempo
não consigo encontrar facilmente a rima
nem me prendo à métrica inexata
escreve simplesmente e o poema termina…

 

 

domingo, 6 de maio de 2012

Crônica de vida e trabalho


Era um garoto tímido. Extremamente magro, o menino sempre teve dificuldade em socializar-se. Ele acordou cedo naquele dia. Afinal, seria seu primeiro dia de trabalho. Já tinha o costume de acordar cedo, mas naquela segunda-feira não conseguiu passar das 5h da manhã. Foi ao quintal, buscou um pouco de lenha e acendeu a fornalha. Voltou para tratar das galinhas, dos porcos e do seu cachorro fila. Foi até o córrego que passava no fundo de casa conferir as varas e as linhas de espera e um bagre de bom tamanho juntamente com um douradinho estavam presos e iriam servir para o almoço. Trouxe-os e os jogou no poço onde mantinha os peixes vivos, debaixo do pé de manga-espada. Enquanto isso, sua mãe preparava o café e seu pai ouvia o programa do Zé Bettio no rádio.

O coração do menino batia ansioso pela expectativa. O apito da fábrica às seis horas da manhã acelerou as batidas e iniciou uma contagem regressiva. Às 06h40min o pai chamou: “Vamos pegar no batente?” O coração já não se continha. Um abraço e um beijo na mãe e o pedido de bênção, deixando a casa. Seguiram pelos fundos da casa, para um potãozinho por onde o pai passava todos os dias. O pai era o único funcionário da empresa que não passava pela portaria, tamanha era a confiança do gerente da fábrica. Estava fazendo muito frio naquele dia de junho. Mas o menino sentia calor, aquecido pela ansiedade.

Marcou o cartão, como o pai lhe ensinou e aguardou a chegada do monitor de treinamento que o levaria à seção e lhe mostraria o que fazer. Foi direto para o setor de trabalho e começou sua aprendizagem. As primeiras quatro horas passaram rapidamente e logo chegou a hora do almoço. Fez o caminho de volta para casa em silêncio com o pai, que não lhe perguntou como foram as primeiras horas. Mas a mãe sim. Entretanto, como o tempo para o almoço era exíguo, não teve muito o que falar. Voltou para as quatro horas restantes, que também passaram rapidamente e logo retornou para casa. O pai continuava em silêncio e nada perguntara.

Mais uma vez, não havia muito tempo para conversar. Tinha que tomar banho logo e seguir para a escola a pé, numa caminhada de cerca de quarenta minutos. Antes ia de bicicleta, mas agora não mais podia guardá-la dentro da escola. A possibilidade de a roubarem era grande e não valia a pena arriscar. Então, ele e mais dois colegas vizinhos iam a pé todos os dias. Às vezes ganhavam carona na ida e na volta, embora nem sempre.

Quando chegou da escola às 23h, o pai o esperava com a mãe. A janta estava no canto do fogão a lenha e, enquanto comia, o pai lhe perguntou finalmente como fora o dia. Uma alegria silenciosa invadiu o peito do menino. Contou ao pai sobre seu entusiasmo e o que aprendera. Contou como se impressionou com aquelas máquinas que transformavam algodão em fio. Mostrou ao pai e à mãe as queimaduras nas mãos, com todo o orgulho de um trabalhador pelos calos que cultiva ao longo de sua jornada. O pai sorria, com um olhar satisfeito para o filho. Findo o jantar, bênção de pai e mãe. O menino já não se sentia mais assim. Orgulhoso, dormiria naquela noite o sono de um homem.


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“O sono de um homem”

o sono de um homem é repleto de expectativas
de um dia seguinte melhor que o que passou
ninguém jamais saberá tudo o que povoa sua cabeça
nem mesmo ele próprio o sabe em sua plenitude

pensamentos são velozes e sinuosos
silentes, não alardeiam sua presença
aguardam o momento de serem percebidos
na tênue hora do sono cansado

o sonho é então um pensamento que amadurece
e penetra profundamente no coração do homem
ao invadir seu íntimo
transforma-se em parte de sua alma
e passa a ser a imagem mais perfeita
da esperança...
(Enanre Etraud)


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Para finalizar, deixo cá os versos do grande Fernando Pessoa, no seu heterônimo Álvaro de Campos, sobre o sono:

O Sono

O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono!...

Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa), in “Poemas”

Pai e filho enxada

terça-feira, 17 de abril de 2012

Família, família – carpe diem

Penso em quantas vezes a família foi meu esteio. Não é fácil, absolutamente, vivenciar todas as dificuldades que a vida nos coloca sem nos alicerçarmos em alguém. Ombros e palavras necessárias encontramos com nossa família e amigos (os quais considero também como família) e isso sempre nos ajuda a nos sentirmos melhor. Temos que aproveitar enquanto temos esse suporte conosco. O tempo é inexorável.

É bom esclarecer o que quis dizer com "palavras necessárias", pois isso pode parecer estranho. Palavras necessárias nem sempre são palavras de conforto ou apoio. Muitas vezes são aquelas palavras "palavaras", como diria o Enanre Etraud. Diz-se por aí que muitas vezes as melhores palavras de apoio não são as que gostaríamos de ouvir, mas as que precisamos ouvir. Mas sou bom menino. Não tenho levado muitos puxões de orelha, a não ser os que eu mesmo me aplico.

Esse post está sendo redigido em pleno horário vago na escola, pois tive que me submeter a um remanejamento de aulas em virtude da falta de dois colegas por estarem participando de cursos promovidos pela Superintendência Regional de Ensino em outra cidade, impossibilitados, portanto, de virem lecionar.

É evidente que, em 50 minutos apenas não sairia algo muito bom, mas não estou mesmo tendo tempo nem muita inspiração, então resolvi simplesmente aproveitar esses breves momentos. Carpe Diem.

"Carpe Diem"

aproveitar o dia confuso
para refazer o tempo esgotado
reconstruí-lo em bloco difuso
de tijolos do barro do passado
misturado à argila do momento
antecipado pela mensagem do vento
que se intromete no poema apenas para rimar
ouço ao longe o coro de adolescentes
ansiosos por aprender
como fugir da escola mais cedo sem ser percebido
costuro então as palavras
palavaras palaveras palavelhas
que se repetem em trocadilhos já ditos
em conceitos semânticos esquisitos
carpindo o dia

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Aproveito para deixar inclusos dois vídeos de músicas memoráveis que, creio, podem fazer melhor por este post do que tudo o que escrevi...


                                                              O tempo não para (Cazuza) - ao vivo



Time (PinkFloyd) - ao vivo






quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Encontro de Folia de Reis e Pastorinhas

Encontro de Folia de Reis e Pastorinhas em Caetanópolis – MG (Foto de EDN)P1150180

Mais uma vez, neste ano de 2012, como de costume, Caetanópolis foi brindada com o Encontro de Folia de Reis e Pastorinhas, organizado pelo Osmar “Marimbondo”, vereador e grande defensor dessas manifestações culturais.

Esse evento é admirável sob todos os pontos de vista. Mas o que mais me surpreende em relação ao mesmo é a oportunidade de podermos perceber como a tradição oral das Folias de Reis e das Pastorinhas que existem pelo interior de Minas Gerais (e também do Brasil, por que não dizer?) trazem uma diversidade fascinante. Ainda que se mantenham intactos os objetivos e as bases religiosas que norteiam tanto Folias de Reis quanto Pastorinhas, cada uma delas mantém particularidades que estão ligadas, em geral, aos seus membros principais.

Muitos desses grupos são mantidos por uma mesma família ou por amigos que cresceram juntos e aprenderam com seus próprios familiares a tradição. Mesmo que ocorra uma ou outra mudança, até para contextualização e contemporaneidade das apresentações, é possível perceber traços que nos levam à origem comum de todas elas, possivelmente na Idade Média e com forte influência ibérica.

Não sou um profundo estudioso do assunto. Sou mais um curioso e admirador. Ainda vou estudar muito a respeito. Mas a maior fonte que posso buscar conhecimento sempre serão as pessoas. Os “Mestres” que comandam esses grupos de Folia de Reis e Pastorinhas são as melhores fontes de informação que qualquer pessoa interessada pode consultar. E isso merece registro.

Nos meus contatos com pessoas do meio, sempre reforço a necessidade de que cada grupo tenha um registro escrito de como deve se apresentar, do que deve ser dito. E, aproveitando a tecnologia, que sejam feitos registros de áudio e vídeo. É um trabalho, creio eu, que as prefeituras municipais deveriam realizar. Isso deveria, inclusive, ser divulgado em meio eletrônico, em sítios como o YouTube. Fica aqui minha dica a respeito.

Para finalizar, gostaria de deixar um convite ao leitor e à leitora para que pesquise no YouTube e em outros sítios de vídeos os temas “Folia de Reis”, “Reisado” e “Pastorinhas”. É possível perceber a grande diversidade que essa manifestação cultural carrega Brasil afora.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Se John Lennon não tivesse morrido

Nesta manhã de sábado, véspera natalina, assisti novamente ao filme “Assassinato de John Lennon”, um filme instigante que invade a cabeça perturbada de Mark David Chapman, o assassino. O britânico Andrew Piddington, diretor do filme, tenta recriar os planos diabólicos do maníaco narcisista para se tornar famoso, acabando com a vida de Lennon. O ator Jonas Ball, à época pouco conhecido, faz uma interpretação assustadora do maluco que encerrou a vida de um artista e do homem que marcou várias gerações mundo afora. Se quiser saber detalhes desse triste episódio, basta clicar aqui. Inclusive, a cena do filme está no Youtube. 

Mas não é sobre isso que quero falar, exatamente. queria falar de uma ideia que me passou pela cabeça: se John não tivesse morrido? Como seria sua carreira posterior a tudo isso. Como se passaram 30 anos desse triste episódio, resolvi escrever um post somente sobre o que ocorreria nos oito primeiros anos após o que seria a tentativa frustrada de Chapman. Vejamos então…

“Se John Lennon não tivesse morrido”

Depois de ter sobrevivido à tentativa de assassinato, John Lennon resolveu dar um tempo em sua carreira. Passou uma semana em coma e três meses internado no hospital, mas conseguiu sobreviver sem sequelas físicas aos tiros do maníaco, cujo nome não gostava de ouvir, o que mostrava que as marcas psicológicas ficariam indelevelmente em sua alma. 

John e Yoko foram para o Japão com o filho Sean. Billy Preston, Paul, George e Ringo foram ficar com ele por várias semanas. Surgiu o boato de que se reuniriam novamente, o que foi negado veemente por todos. Mas não restava dúvidas de que o que acontecera com John os reunira novamente, não como artistas, mas como amigos. A perspectiva de perder John foi algo que mexeu com todos eles.

As várias semanas juntos evidentemente dariam frutos: muitas canções foram compostas. Combinaram que seriam lançados álbuns individuais com elas. Paul lançou em 12 de setembro de 1982 o LP “Ressurrection”, cuja música principal, “Little bird”, tinha o seguinte trecho: “We’re just men who fight for peace / Hold me in your wings, little dove / We can’t fight anymore / We can just sleep and dream…” (“Somos apenas homens que lutam por paz /  Abrace-me em suas asas, pombinha / Nós não podemos lutar mais /  Só queremos dormir e sonhar…”).

George também lançou, alguns dias depois, em 27 de setembro de 1982, um LP que tinha como música principal a angustiada canção “Pain”, acompanhada por um solo maravilhoso da guitarra do amigo Eric Clapton no trecho: “My heart bleeds of pain / I imagine another song / People would be happy and can / Make different things as love each other…” (Meu coração sangra de dor / Eu imaginei uma outra canção / As pessoas seriam felizes e poderiam / Fazer coisas diferentes como amar um ao outro…”).

Ringo demorou mais de um ano para gravar um novo LP, mas quando o fez, em 22 de fevereiro de 1983, apareceram várias canções, com destaque para a alegre “The yes song”, que dizia “We have many reasons to laugh / including the fact of being alive / then we go to another level, where the angels sing live life…” (“nós temos vários motivos para rir / inclusive o fato de estarmos vivos / nós vamos então para outro nível / onde os anjos cantam ao vivo a vida…”).

Billy Preston, por sua vez, foi convidado por John para gravar com ele seu novo LP, após quatro anos, em 1985. O LP foi lançado no dia 6 de janeiro, mostrando um novo lado interessante de John Lennon: ele tinha se tornado um estudioso da história das religiões e isso aparecia em várias canções. Inclusive, a escolha da data de lançamento tinha a ver com a história dos Reis Magos do Oriente que visitaram Jesus em Belém. O disco se chamava, aliás, “Journey”, que relatava a jornada de John Lennon até aquele momento. A participação de seu filho Julian, então com 22 anos, foi maravilhosa. O sucesso foi estrondoso. Tornou-se o disco mais vendido da história, com vários prêmios mundo afora. John, no entanto, continuava sem dar entrevistas e raramente era visto em público. Mas era respeitado por sua posição. A música que mais se destacou no disco, “Trip”, revelava o seu sentimento e, de certa forma, justificava essa ausência: “Now, I know I have fear/ I made a trip to paradise / But God wanted me to be here / I do not remember the way / But this man is separated / From myth that I became a day…” (“Eu agora tenho muito medo / Eu fiz uma viagem ao paraíso / Mas Deus quis que eu estivesse aqui / Eu não me lembro do caminho / Porém este homem está separado / Do mito que me tornei um dia…”).

John continua recluso. Não está mais no Japão. Dizem que vive viajando. Por volta de 1987, dizem tê-lo visto em duas pequenas cidades do interior de Minas Gerais, no Brasil. Caetanópolis e Paraopeba chamaram-lhe a atenção pelo contato que ele teve com Mílton Nascimento, o Bituca, que lhe contou a história de Clara Nunes, sua amiga e a maior cantora do Brasil até os anos atuais. Inclusive, Clara recebera o Grammy em 2011 pelo conjunto da obra e uma de suas principais interpretações, do compositor mineiro Armando Fernandes Aguiar (Mamão), “Tristeza Pé no Chão”, teve uma versão maravilhosa da dupla Julian e Sean Lennon, que se apaixonaram pela música brasileira e gravaram em português, porque não conseguiram traduzir a saudade: “Dei um aperto de saudade no meu tamborim / Molhei o pano da cuíca com as minhas lágrimas / Dei meu tempo de espera para a marcação e cantei / A minha vida na avenida sem empolgação…”

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Realmente, não dá para traduzir a saudade. Temos saudade de John e de tudo o que ele representou. Essa época do ano sempre serve para lembrar disso.

Deixo ao leitor meus desejos de boas festas, que o Natal seja de muita felicidade e reflexão a respeito da figura do aniversariante e do que Ele representou. Ele é mais popular que os Beatles. Digo isso dentro do contexto.

Feliz Natal! Feliz 2012!

Jesus e Lennon

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Mais uma vez a Somália é sinônimo de fome


Sinceramente, esse post é sobre uma reportagem que eu não gostaria de ler. Vejo mais uma vez a fome fazendo estragos na Somália. Lembro-me de um jogador que surgiu no América mineiro que ganhou esse apelido porque era um negro extremamente magro. O apelido do jogador reitera a metáfora cruel atribuída ao nome dessa sofrida nação.





Muitas vezes me deparo com o sofrimento sob várias maneiras. A fome é uma das formas mais cruéis de sofrer. E acima de tudo, a fome é inaceitável.  Não há como a humanidade padecer de fome com tanto desperdício por aí. Nada justifica. O capitalismo volta e meia dá sinais de esgotamento, pelo menos da forma como vem sendo praticado pelos governos.


A reportagem, retirada do sítio da revista Época, da editora Globo, retrata a recuperação do bebê Minhaj Gedi Farah. Sua mãe, após muitas dificuldades e sofrimento, chegou a um campo de refugiados no Quênia e sua filha Minhaj acabou sendo fotografada pelas lentes da imprensa internacional, tornando-se uma das faces da fome. Com apenas sete meses de vida, Minhaj tinha apenas 3,2 quilos.


A reportagem traz as fotos da evolução da criança após três meses, graças à ajuda humanitária. A maior vitória da guerreira Minhaj foi a da simples sobrevivência.  Embora os campos de refugiados mantidos pela ONU e por diversas ONGs tenham ajudado, eles não representam a solução. O ideal é dar condições aos povos menos favorecidos do mundo de encontrarem condições de se manterem por si mesmos. É uma questão de dignidade.


Entretanto, não há dúvidas de que esse tipo de ajuda é fundamental. A fome não espera... Ela dói... Ela mata...



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“A fome”


A Fome mostra às vezes seu rosto esquelético
Tal qual a Morte, sua irmã...
Ninguém pode ignorá-la
Quando ela transpassa-nos com sua lança de dor
Lancinante...
Por que é tão cruel a Fome?
Não tem piedade de ninguém...
Mas ela se supera ao atacar as crianças
Sugando-lhes, secando suas entranhas inexoravelmente...


Vejo sua cara terrível
Estampada nas capas de jornais e revistas
Mas também num simples passeio pelas ruas
De muitos lugares deste país...
Pergunto-me o que mais pode ser feito
Além da simples distribuição de bolsas...


A Fome e seu rosto esquelético
Perseguem-me em meus pesadelos
Assombram-me o olhar
Fazem-me lembrar do menino magrelo de outrora
Que nunca passou fome, entretanto...
Esse menino ainda existe aqui dentro
E se irmana com os que sofrem a dor
De não ter o que comer.



 Fontes das imagens: Coletadas da Web e editadas por Ernane Duarte Nunes

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Um menino em São Vicente

 

Quando era menino, ansiava pelas férias em São Vicente. Era um tempo de aventuras e sonhos, muitos sonhos... Fui com meus pais aos 4 anos para Caetanópolis, terra maravilhosa, mas nunca me esqueci de São Vicente, exatamente por que lá eu podia fazer muitas coisas totalmente inadmissíveis na casa de meus pais.

A começar da viagem em si. Tirando o fato de um rapaz magrelo e fracote como eu ter de caminhar com a mala pesada do centro de Sete Lagoas, no início da Monsenhor Messias (onde o ônibus do Cedro a Sete Lagoas tinha ponto final) até a estação ferroviária (onde era o ponto do ônibus que levava a São Vicente), tudo era bom. Íamos normalmente em ônibus do tipo monobloco, com motor na frente, ao lado do motorista. Esse motor era coberto por uma estrutura onde nos sentávamos e tínhamos visão total da paisagem de estrada de terra encascalhada, margeada por fazendas e lagoas. Mas o lugar mais esperado da paisagem era a ponte sobre o Rio das Velhas, impressionantemente estreita sobre um rio de águas pesadamente barrentas que, por várias vezes, em períodos chuvosos cobriam-na (até que um dia essas águas levaram a ponte embora). Era como se estivéssemos andando numa corda bamba sobre um precipício.

A parada em Funilândia ou Jequitibá, dependendo do trajeto do ônibus em que viajávamos, era sempre interessante. Além da tradicional ida ao banheiro, havia um lanche de requeijão, de biscoito do tipo “boca de velho”, de polvilho ou daqueles antigos “quebra-quebra” com um café tão gostoso!... Outra parada que havia (quando íamos por Jequitibá) era em Baldim, na lanchonete do meu padrinho Domingos Barbosa. Aí era quando meus irmãos morriam de inveja, pois era só descer e dizer para ele “bença, padrim!”, que eu ganhava um doce e, de vez em quando, até um chocolate Diamante Negro ou Sonho de Valsa. Claro que eu tinha que dividir com meus irmãos (cada um dava uma mordidinha, controlada e medida com o dedo).

Chegando em São Vicente, já sabíamos para a casa de qual tio cada um iria, considerando que não iríamos todos para a casa de um só, pois eram pobres, com famílias numerosas e muitas bocas iriam onerar o orçamento, até porque ficávamos sempre no mínimo uma semana. Mas não importava para onde iríamos: seríamos sempre bem recebidos, com aquele amor e carinho que sempre marcaram nossas vidas indelevelmente.

Meu tio Divino e minha tia Cecília, que saudades deles! Brincávamos com o primo Desinho e ouvíamos as histórias maravilhosas e cheia de mentiras do meu tio Divino, irmão caçula do meu pai Tião que fazia aniversário no mesmo dia que ele (24 de fevereiro). Esse meu tio, mesmo com dificuldades para caminhar que acabaram o tornando definitivamente paralítico, era dono de habilidades fantásticas com as quais criou seus filhos e lhes ensinou diversas profissões: de artesão de couro, passando por serralheiro e também por pedreiro. Infelizmente, não conseguia largar o cigarro, o que seria um dos responsáveis por tirá-lo de nós.

Minhas tias Té (Esther) e Dorvalina, severas como meu pai (irmão delas), mas com corações tão cheios de um carinho que transbordava e nos inundava. O chafariz, os quitutes deliciosos de tia Té, doces, cubus, bolos, biscoitos e a comida simplesmente inesquecível. Os picolés quadrados de formas de geladeira de Chica de Zezé Gonçalves que pagavam para nós com suas moedinhas sempre disponíveis. A habilidade de minha tia Dorvalina nos tricôs e seu olhar sereno, mesmo diante da dificuldade de ser paralítica, como meu tio Divino.

Na casa de tio Irênio (que não conheci, pois a morte o levou antes) tínhamos (e ainda temos, graças a Deus) a nossa queridíssima tia Divina, uma pessoa espetacular de quem nunca me esqueço em minhas orações. Mulher lutadora, que, mesmo perdendo o marido muito cedo, criou todos os seus filhos com muito amor e nos reservava o mesmo carinho. Sua casa fica na Copacabana, bairro que está entre dois córregos onde nadávamos e pescávamos.

Como é bom lembrar agora de meus primos todos, especialmente os de idade próxima a minha, como Zelito (que saudades! Deus o levou tão cedo...), o Vandinho, o Derson, o Desinho, o Luisinho Castelo Branco, o Willian Macaco... E os amigos do peito Nélson de Sô Dino, Paraná, Julinho Brioso e tantos outros. Jogávamos futebol nos campinhos diversos que havia por lá e ficávamos invariavelmente cheios de carrapatos, que tirávamos nadando nos córregos (que diziam infestados de xistose, embora nunca ficamos doentes disso nem vimos nenhum dos nossos amigos). As pescarias também eram memoráveis... Sempre voltávamos com o cambão repleto de piabinhas, carás e as deliciosas traíras. Caçar passarinho também era bom (embora hoje me lembre um pouco arrependido disso), pois as rolinhas que matávamos viravam saborosos petiscos preparados por minhas tias ou pelas mães de meus amigos.

Tenho tantas histórias das férias de minha infância em São Vicente, que esse post é insuficiente para relatar. No entanto, ele serve para relatar minha saudade de tudo isso. Hoje vou tão pouco a São Vicente, atropelado pelo tempo inexorável, que nos absorve e que nos aliena. É preciso vencer essa lassidez que nos leva à acomodação no lugar comum da falta de tempo para tudo. Vou tentar isso, pois tenho consciência de que, se sou o homem que sou, devo muito a esse menino magrelo que passava férias em São Vicente.

domingo, 24 de julho de 2011

Crônicas de viagem I - Valores



Entro no ônibus com um bom dia tímido e não correspondido. Faço-o por educação e por formalidade. Busco um lugar para sentar, de preferência que não tenha um outro passageiro. Encontro um nas últimas poltronas do fundo. Sento-me e fico calado, pedindo a Deus uma viagem segura.

Após alguns meses, surpreendo-me agora como mudei. Isolo-me em minha viagem como aqueles que um dia critiquei. Sei que isso não condiz comigo e, às vezes, volto ao que sou quando encontro alguém que me permita isso. As crianças e os idoso são meu alvo predileto de interlocução.

Sei que não é fácil vencer os desafios do mundo moderno, mas percebo que nos sujeitamos com muita facilidade ao status quo e acabamos nos tornando insípidos. Não percebemos mais os sabores do viver.

E pior: educamos nossos filhos assim, para serem os melhores (ou melhores que os outros), desenvolvendo-lhes o egocentrismo. Ensinamos-lhes o valor do trabalho, para que ganhem muito dinheiro e sejam felizes sozinhos. Lembro-me de uma tirinha do cartunista argentino Quino que traduz muito bem isso. Meu amigo Coqueiro postou-a outro dia. Reproduzo-a abaixo:
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Saio do ônibus rapidamente, na frente de todos os demais. Sigo caminhando sozinho para o trabalho. Um outro colega vem logo atrás de mim, mas não o espero. Tenho pressa de chegar ao trabalho, sentar-me à mesa e isolar-me ainda mais. Mas intimamente coloco-me que jamais devo esquecer meus valores.


quinta-feira, 2 de junho de 2011

Um soco no estômago


Publiquei ontem esse post em "Os Invicioneiros" e resolvi também fazê-lo neste meu "Poetopias", pela importância que dou ao tema. Baseia-se no poema "Lua nova demais", de Elisa Lucinda. Recebi esse poema do meu amigo Basílio Nascimento. Foi como se levasse um soco no estômago. A dureza de suas palavras trata o tema da criança abandonada de forma dura, mas realista. Não há como não reagir.

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Nesse breve post, não tenho muito o que dizer além de compartilhar. Agora frequentando uma cidade grande como Sete Lagoas, onde a miséria humana se mostra mais evidente, vejo problemas semelhantes aos que o poema relata.


A autora, Elisa Lucinda, nasceu em Vitória, no Espírito Santo, além de grande poetisa, é escritora, jornalista e atriz. Possui muitas lindas poesias disponíveis na internet para quem quiser apreciar, mas uma, particularmente, ficou muito conhecida por ter sido recitada em show de Ana Carolina: “Só de sacanagem”. Ela pode ser conferida na voz da própria Elisa Lucinda no programa do Jô Soares.


Mas o que me trouxe hoje de volta ao “Poetopias” é o poema “Lua nova demais”, que transcrevo a seguir.
Lua nova demais
(Elisa Lucinda)
Dorme tensa a pequena
sozinha como que suspensa no céu
Vira mulher sem saber
sem brinco, sem pulseira, sem anel
sem espelho, sem conselho, laço de cabelo, bambolê
Sem mãe perto,
sem pai certo
sem cama certa,image
sem coberta,
vira mulher com medo,
vira mulher sempre cedo.
Menina de enredo triste,
dedo em riste,
contra o que não sabe
quanto ao que ninguém lhe disse.
A malandragem, a molequice
se misturam aos peitinhos novos
furando a roupa de garoto que lhe dão
dentro da qual menstruará
sempre com a mesma calcinha,
sem absorvente, sem escova de dente,
sem pano quente, sem O B.
Tudo é nojo, medo,
misturação de “cadês.”
E a cólica,
a dor de cabeça,
é sempre a mesma merda,
a mesma dor,
de não ter colo,
parque
pracinha,
penteadeira,
pátria.
Ela lua pequenininha
não tem batom, planeta, caneta,
diário, hemisfério,
Sem entender seu mistério,
ela luta até dormir
mas é menina ainda;
chupa o dedo
E tem medo
de ser estuprada
pelos bêbados mendigos do Aterro
tem medo de ser machucada, medo.
Depois menstrua e muda de medo
o de ser engravidada, emprenhada,
na noite do mesmo Aterro.
Tem medo do pai desse filho ser preso,
tem medo, medo
Ela que nunca pode ser ela direito,
ela que nem ensaiou o jeito com a boneca
vai ter que ser mãe depressa na calçada
ter filho sem pensar, ter filho por azar
ser mãe e vítima
Ter filho pra doer,
pra bater,
pra abandonar.
Se dorme, dorme nada,
é o corpo que se larga, que se rende
ao cansaço da fome, da miséria,
da mágoa deslavada
dorme de boca fechada,
olhos abertos,
vagina trancada.
Ser ela assim na rua
é estar sempre por ser atropelada
pelo pau sem dono
dos outros meninos-homens sofridos,
do louco varrido,
pela polícia mascarada.
Fosse ela cuidada,
tivesse abrigo onde dormir,
caminho onde ir,
roupa lavada, escola, manicure, máquina de costura, bordado,
pintura, teatro, abraço, casaco de lã
podia borralheira
acordar um dia
cidadã.
Sonha quem cante pra ela:
Se essa Lua, Se essa Lua fosse minha…”
Sonha em ser amada,
ter Natal, filhos felizes,
marido, vestido,
pagode sábado no quintal.
Sonha e acorda mal
porque menina na rua,
é muito nova
é lua pequena demais
é ser só cratera, só buracos,
sem pele, desprotegida, destratada
pela vida crua
É estar sozinha, cheia de perguntas
sem resposta
sempre exposta, pobre lua
É ser menina-mulher com frio
mas sempre nua.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sobre a gramática





Recentemente postei em “Os Invicioneiros” texto que comentava sobre polêmica surgida acerca do livro “Por uma vida melhor”, de Heloísa Ramos. Não vou me aprofundar sobre o post, mas fiquei surpreso pelos comentários e, sobretudo, pela polêmica em si nas redes sociais de um modo geral.

Trata-se de um tema árduo. Escrevo aqui neste meu Poetopias a respeito desse tema, sem, no entanto, querer discuti-lo. Antes quero ironizá-lo. Para tanto, valho-me de brilhantes companhias que ora convoco para ajudar-me: Paulo Leminski, Carlos Drummond de Andrade, Camões e Oswald de Andrade.

Não tecerei maiores comentários. Meus amigos falam o suficiente.


O Assassino era o Escriba


Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético
de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

Fontes: Paulo Leminski.Caprichos e relaxos.São Paulo: Brasiliense,1983.





 Aula de português


A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.

Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond






Erro de português


Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena! Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português





Pronominais
(Oswald de Andrade)


Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro