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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O Cedro

O texto a seguir foi publicado no encarte do Festival Clara Nunes de 2018, o que foi um grande honra para mim. Clara Nunes é um ser de luz, que sempre se preocupou em fazer um trabalho que valorizasse a música brasileira em sua totalidade. Mas, como ser humano, era fantástica! Adorava crianças e eu, por um breve momento, fui objeto desse afeto, o que me marcou indelevelmente...



São 5h30min da manhã. O menino levanta-se, ainda sonolento, ao som do rádio Phillips no programa do Zé Béttio (“Joga água nele! Joga água nele!”), e vai para a cozinha, onde já estão o pai e a mãe:
— Bença, pai! Bença, mãe!

Já sabe das obrigações da manhã. Vai tratar das galinhas, dos porcos, dos cachorros, molhar a horta e buscar um pouco de lenha, palha de milho e sabugos para o pai acender o fogão. Aproveita para ir rapidinho no córrego do Cedro (que passa nos fundos da casa) conferir as linhas de espera. Desta vez, um bagre grandinho e uma traíra pequena engoliram os anzóis. O menino pega os peixes e corre para mostrar o pai e a mãe. Outros irmãos já estão acordados e começa a fila para o único banheiro da casa. Enquanto a mãe frita os bolinhos de chuva para a merenda, o menino senta na beira do fogão a lenha e o pai continua a enorme história do João Soldado, onde a interrompera no dia anterior. Merenda rapidinho os bolinhos contados (três para cada um) com o café ralo e troca de roupa para ir para a escola.

O menino não pode atrasar-se. Vai com o pai pelos fundos do quintal, passando por dentro da fábrica do Cedro e saindo pela portaria, para chegar à escola Coronel Caetano.
Um dia, o menino pescava de cima da ponte. De repente, uma mão toca-lhe o ombro: “Cuidado, menino! O peixe pode te puxar para dentro d’água, de tão magrinho que você é!”
Olha para trás e vê uma luz imensa. Era Clara Nunes, uma dona linda! O menino jamais esqueceria aquela mulher, cuja presença e cujo sorriso marcaram indelevelmente sua alma. Ela adorava ir àquele lugar, principalmente na Pedreira, um lugar maravilhoso, cheio de pedras enormes, dentro do córrego do Cedro. 

E o menino continuou seus dias de tarefas de casa e de escola. Nessa rotina, o menino cresce. Dentro desse menino, hoje homem, mora o Cedro. Foi-se um dia para longe, mas não pôde lá ficar. Dentro dele mora o Cedro. Como uma alma, inseparável do que ele é, o Cedro representa não apenas as lembranças de sua infância, de sua família, mas o cerne que lhe sustenta.
O Cedro assim é para muitos. Orgulho de ser de lá, orgulho de ter Clara e de ter artistas novas como Roberta como conterrâneas, orgulho de suas tradições culturais, orgulho de suas lindas paisagens, orgulho de seu povo, orgulho de ser o berço da indústria têxtil no país, orgulho...




quarta-feira, 25 de maio de 2016

História de João Soldado


 Capa de livreto publicado em Portugal em meados do século XX

Uma tradição oral fez chegar ainda aos primeiros anos da minha infância, através do hábito amoroso de meu pai contando histórias aos filhos, a seguinte história. Ouvi-o contá-la com toda a simplicidade da sua linguagem e agora nos vou recordar, procurando reproduzi-la do jeito que ouvi e de que me lembro.

***************

Quando Deus andava pelo mundo, houve um soldado chamado João, que serviu ao rei oito anos, como ordenava a lei e, como não tivesse outros meios de vida, tornou a servir o rei mais oito anos e depois mais oito ainda, até que se fartou da vida militar e pediu a sua baixa. Deixou então o regimento ao fim de vinte e quatro anos de serviço ao rei, recebendo como pagamento apenas um pão e seis dinheiros, que lhe deram quando saiu do quartel. Mas, mesmo tendo deixado o serviço militar, o apelido revelava o que ele tinha sido na maior parte de sua vida: João Soldado.

Assim, foi embora para sua cidade, pensando: “Está bem! Servi ao rei vinte e quatro anos para ganhar um pão e seis dinheiros. Quanto tempo perdido!... Mas há de ser o que Deus quiser, que eu tenho muita esperança que assim será melhor.”

E foi caminhando tranquilo pela estrada que levava à sua cidade. Tinha andado um pedaço de caminho, quando encontrou dois mendigos que lhe pediram esmola. Na verdade, os homens eram Nosso Senhor e São Pedro. João muito admirado com o pedido, já que tinha tão pouco, respondeu:

— Que lhes posso eu dar, eu que servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros, que é tudo o que levo comigo?

Um dos mendigos, que era São Pedro, porém, não se contentou com a resposta, dizendo que qualquer coisa que João tivesse seria mais do que os dois mendigos tinham.
João Soldado, que tinha um grande coração, abriu então o seu embornal[1] surrado, tirou o pão e partiu-o em três partes iguais e deu duas aos pobres viajantes.

Foi andando e, ao fim de uma légua de caminho, encontrou outra vez os mesmos mendigos, que tornaram a pedir-lhe esmola. João, desconfiado, disse-lhes:

— Uai, parece que já dei esmola pra vocês lá atrás, mas, na dúvida, lá vai o resto que tenho, eu que eu servi o rei vinte e quatro anos e só ganhei um pão e seis dinheiros...

Dizendo isso, resignado, repartiu com São Pedro e Nosso Senhor o pedaço de pão que levava. Continuou seu caminho e mais adiante tornaram a aparecer-lhe os dois mendigos, que lhe pediram de novo esmola.

— Vocês outra vez! Se não são os mesmos que eu encontrei há pouco, São muito parecidos... Mas não importa, porque eu não nego o que tenho aos que precisam mais que eu, segundo os ensinamentos de Nosso Senhor. Apesar de ter servido o rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros, vou dar-lhes o que me resta.

Deu então aos mendigos tudo o que lhe restava no embornal. João Soldado então perguntou aos mendigos se não sabiam onde poderia encontrar trabalho, para que pudesse conseguir algum dinheiro para se manter até chegar à sua cidade.

Então, um dos mendigos, que era São Pedro, revelou-se para João Soldado, dizendo quem eles realmente eram. E Nosso Senhor disse ao João Soldado que, por sua generosidade, ele podia pedir o que quisesse. João Soldado ficou muito surpreso e, ao mesmo tempo, lisonjeado por estar na presença de São Pedro e de Nosso Senhor, dizendo que simplesmente fez o que o seu coração mandou.
Depois de pensar um instante no que iria pedir, mostrou a Nosso Senhor o embornal surrado que levava, dizendo:

— Embora não mereça nenhuma coisa, pois já sou muito feliz por ter tido a graça de estar na presença de Nosso Senhor e de São Pedro, peço para que este embornal tenha o poder de que tudo que eu quiser vá dentro dele assim que eu ordenar.

Embora achando estranho o pedido do João Soldado, Nosso Senhor concedeu-lhe o pedido. Ofereceu-lhe também um baralho com o qual ganharia sempre. Em seguida, abençoou o João Soldado, desaparecendo juntamente com São Pedro.

João Soldado, após se recuperar da surpresa, voltou à sua caminhada. Ainda não tinha andado muito, quando, ao entrar na rua de uma cidade, viu na vitrine de uma padaria um apetitoso e cheiroso pão que parecia ter saído do forno naquela hora. João Soldado ouviu seu estômago roncar e lambeu os lábios ao ver aquela delícia, mas não tinha dinheiro para comprar o pão. Então, logo se lembrou do poder do seu embornal. Assim, disse para o pão:

— Pula para dentro do embornal! — como num passe de mágica, o pão desapareceu da vitrine e apareceu dentro do embornal do João Soldado.

O padeiro não percebeu nada e assustou-se quando viu que o pão que estava na vitrine tinha desaparecido. Era quase noite e João Soldado estava cansado de andar todo o dia. Foi então procurar um lugar para dormir, mas só encontrou naquela cidade uma casa que estava desabitada há muito tempo e que ninguém sequer passava perto, porque a casa era mal-assombrada. Dizia-se que era o fantasma do dono que tinha lá morrido, um homem muito malvado e pão-duro. João Soldado gostou daquela história de casa mal-assombrada, porque era muito corajoso.

— Sou um soldado que servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e não tenho medo de nada. Vou para essa casa e quero conhecer esse fantasma.

E foi dormir na casa, ficando muito contente com o que lá encontrou: uma despensa cheia de excelente comida e bebidas finas, além de móveis luxuosos na sala e um quarto com uma cama muito confortável.

— Que mais quero eu? — dizia o João — Eu que servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros, tenho agora aqui, à minha disposição, comida, bebida e uma cama confortável.
E tratou de encher a barriga. Não tinha passado muito tempo que o soldado estava comendo, quando ouviu uma voz pavorosa gritar do alto da chaminé:

— Eu caio!!!...

— Pois pode cair à vontade! Um soldado como eu que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros não tem medo de nada!... — respondeu João Soldado corajosamente, sem parar de comer nem um instante.

Mal tinha acabado de proferir estas palavras viu cair pela chaminé uma perna de homem.

— Olá! Quer ser enterrada? — perguntou zombeteiramente para a perna o João Soldado.

E a perna, levantando o pé indicou com o dedão que não queria ser enterrada.

— Eu caio!!!... — disse de novo a mesma voz fantasmagórica.

— Pode cair quantas vezes quiser! — repetiu o João Soldado — Comigo não tem medo, porque eu sou é muito macho.

E logo viu cair outra perna. Em seguida a voz disse novamente “Eu caio!!!...” e o João Soldado sempre mandando cair, pois ele não tinha medo de nada. Assim, após cada vez que a voz dizia “Eu caio!!!...”, caiu depois um tronco, logo depois um braço, em seguida o outro braço e por fim uma cabeça que completou o corpo. Então, aquele corpo horroroso completo andou para o lado do João Soldado e lhe disse com a mesma voz pavorosa:

— Você é valente, eu reconheço!...

— Como não poderia ser valente um soldado que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros?!... — respondeu João Soldado, muito senhor de si.

Então, o fantasma horroroso disse:

— Se você é pobre, poderá ficar muito rico se fizer o que eu disser.

Mais que depressa, o João Soldado respondeu:

— Prontinho, coisa feia! Estou aqui para o que der e vier.

— Está bem. Venha comigo.

E a alma do outro mundo, seguida do João Soldado, encaminhou-se para o porão que havia por baixo da cozinha, levantou uma grande pedra que tapava uma cova e mostrou ao João Soldado três grandes panelas cheias de dinheiro até a boca.

— Está vendo todo este dinheiro? — disse a alma do outro mundo, encarando o soldado com os seus olhos horríveis que pareciam duas brasas.

— Vejo sim! — disse o João Soldado.

— Pois parte deste dinheiro será para você se cumprir o que eu quero.

— Fale logo, coisa feia! — respondeu resolutamente o João Soldado.

— Divida este dinheiro em três partes. Uma é para dar de esmolas aos pobres; outra é para mandar rezar missas por minha alma; e a terceira parte é para você, se cumprir à risca o que eu pedi. Se você fizer isso, estará salvando minha alma, que o Diabo está doido para levar.

— Dito e feito! — confirmou o soldado — Eu que servi ao rei vinte e quatro anos, por um pão e seis dinheiros, melhor ainda posso cumprir os seus pedidos, com um pagamento tão bom.

E o João foi logo tratar de dar as esmolas aos pobres, e de mandar dizer as missas. Com o dinheiro que restou e que era muito, comprou um bom sítio e nele passou a viver na fartura.

O que o João Soldado é que o Diabo não estava nada satisfeito pelo fato de o João Soldado ter feito o que o fantasma tinha pedido. O Diabo jurou vingar-se do João Soldado, por ele lhe ter tirado a alma do avarento, que afinal se salvou com as esmolas e as missas. Então, o Capeta mandou um diabinho dos mais espertos que tinha no Inferno para lhe trazer para ali o João Soldado.

Certo dia, estava João Soldado sentado sob a sombra de uma goiabeira no seu sítio, muito distraído ouvindo os passarinhos cantar, tomando um delicioso suco de manga geladinho, quando lhe apareceu um homenzinho muito estranho. O homem disse-lhe de forma bem educada:

— Como tem passado, sr. João Soldado? Tudo bem com o sr.?

— Você acabou de chegar e já sabe o meu nome. Eu nunca vi você antes, como me conhece? — respondeu João Soldado, meio desconfiado daquele homenzinho feio. — Sou um homem educado, por isso lhe convido a tomar um pouco de suco de manga.

O diabinho, muito esperto, aceitou a bebida e começou a puxar conversa com o João Soldado, chamando-o para disputar uma partida de baralho. O João Soldado não era bobo e logo desconfiou de alguma treta. Entretanto, concordou com a proposta, pois se lembrou do baralho mágico que tinha ganhado. Além disso, o João Soldado logo desconfiou que aquele homenzinho era um enviado do inferno, pois começou a sentir um cheiro de enxofre horrível. Então, foi logo falando ao diabinho disfarçado:

— Muito bem, vamos jogar! Mas o que vamos apostar, seu diabinho feioso?
O diabinho ficou surpreso. Viu que o João Soldado era mesmo muito esperto e tinha descoberto o seu disfarce. Mas foi logo dizendo:

— Se você perder, eu levo sua alma para o inferno.

— E se eu ganhar, vou lhe dar uma surra que você nunca mais vai me incomodar! — disse o João Soldado — Olhe que eu servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e não tenho medo de nada, muito menos de um diabo como você com essa carinha feia.

O diabinho saracoteou-se muito contente, pois para ele isso era um elogio. Disse então para o João Soldado que ele era um capeta poderoso, enviado pelo próprio Lúcifer, e tinha vindo levá-lo para o inferno e nada poderia evitar isso. Então, João Soldado preparou o embornal e jogou as cartas do seu baralho mágico. O diabinho estava cada vez mais contente, achando que seria muito fácil resolver aquele problema do seu chefe, porque poderia trapacear no jogo com facilidade. Mas o baralho era mesmo abençoado e o diabinho não ganhou sequer uma partida. Ao final do jogo, ainda tentou escapulir, mas o João Soldado pegou o embornal e logo disse, dirigindo-se ao diabinho que tentava fugir:

— Diabinho, pula para dentro deste embornal.

O diabinho rabeou, rogou pragas com palavrões horríveis e soltou um cheiro mais horrível ainda de enxofre e, antes que entrasse para dentro do embornal, prometeu grandes riquezas e honrarias ao João Soldado se o deixasse ir embora. Mas nada adiantou e xingando e esperneando, lá foi para dentro do embornal do João Soldado. Assim que o João Soldado prendeu o diabinho dentro do embornal, começou a bater nele com um pedaço de pau bem grosso, que moeu os ossos do diabinho e o reduziu a um pó tão fino como talco, de modo que o diabinho pôde sair escapando por um buraquinho do embornal e fugiu para o inferno apavorado.

O Diabão já o esperava furioso, pois tinha visto tudo do inferno e esbravejou infernalmente contra o diabinho, por se ter deixado enganar como um bobo pelo atrevido João Soldado que assim zombava do seu poder.

— Quem vai agora buscar esse João Soldado sou eu mesmo! — disse, muito furioso Lúcifer para o diabinho, que estava todo encolhido num canto do inferno, todo dolorido e chorando que dava dó ver.
Naquele momento, o João Soldado estava jantando muito satisfeito, quando ouviu uma batida na porta tão forte que fez estremecer toda a casa.

— Deve ser o Diabão! — pensou João Soldado — Já estava aqui esperando que esse coisa-ruim viesse, depois da peça que preguei ao seu camarada.

E assim era. O Diabão entrou de uma vez e nem esperou o João Soldado abrir a porta, derrubando-a com um chute. Os olhos faiscavam raiva e quando falou, parecia que se abria a boca de um vulcão, vomitando lavas de fogo e enxofre.

— Você vai pagar por tudo que fez ao meu diabinho! — rugiu o Diabo infernalmente.

— Se você vem para cá com essa falta de educação, achando que pode tudo, vai pelo mesmo caminho do seu diabinho! — disse-lhe João Soldado, pondo o embornal já no jeito.

— Isso é que havemos de ver, miserável humano. Desta vez vou levar você para as profundezas, como o maior patife deste mundo. E vou lhe deixar queimando no fogo do inferno.

— Olhe que eu não tenho medo, seu Diabão feioso. Servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e nada me apavora, pois tenho ajuda de quem pode mais, que é Nosso Senhor.

O Diabão ficou ainda mais furioso e rancoroso quando o João Soldado falou de Nosso Senhor e já ia fincar suas unhas no João Soldado, quando ele, dando um pulo para trás, abriu o embornal em frente do Diabão e gritou:

— Já para dentro do embornal, coisa-ruim!

Ouviu se um grande rugido medonho que o Diabo soltou dentro do embornal e, preso dentro do embornal, debatendo-se furiosamente, dava pulos até ao telhado, enquanto o João Soldado, armado de um pedaço de ferro bem pesado, dava cacetadas sem dó no Diabão até moê-lo inteirinho. E o Diabão gritava dentro do embornal, pedindo humildemente por todos os Diabos que o João Soldado o deixasse ir de volta para o inferno. Então o João Soldado disse:

— Ah, já está pedindo misericórdia! Pois então vá para o inferno! — E o João Soldado abriu a boca do embornal, donde saiu o Diabão todo moído e quebrado, com o rabo pendurado e os chifres entortados, mal se podendo arrastar.

Quando o Diabão chegou ao Inferno, estava em tal estado que os diabinhos ficaram morrendo de medo do que ia acontecer. Lúcifer então ordenou que forjassem enormes portões de aço e fabricassem fechaduras bem fortes para trancar as portas do inferno, com medo que o João Soldado lá entrasse atrás dele.

Passado algum tempo, João Soldado se casou com bondosa e linda mulher. Eles tiveram muitos filhos e isso lhe trouxe um grande problema: naquela região onde moravam era difícil conseguir um compadre. Todos os vizinhos já eram seus compadres e alguns já tinham até repetido. Quando nasceu seu último filho, ele avisou à mulher que ia ser muito difícil conseguir um padrinho para a criança.
Um dia, indo pela estrada, ele viu uma figura estranha, a quem o João Soldado chamou e lhe perguntou se queria batizar seu filho. Na verdade, era a Morte, que ficou muito lisonjeada e lhe disse que, embora não gostasse de Igreja, iria até lá para batizar seu filho. Apesar dos protestos da mulher, João Soldado levou o filho para a “comadre” Morte batizar.

Um dia depois, andando pela estrada, a Morte foi ao seu encontro e lhe propôs um trato. Ele se tornaria um curandeiro. Quando chegasse a uma casa e encontrasse a Morte sentada na cabeceira da cama, podia desenganar o doente que esse era dela. Mas, caso a Morte estivesse sentada nos pés da cama, ele podia receitar chás de ervas ou o que quisesse que o doente se curaria. Trato feito, João Soldado começou a curar.

Até que, um belo dia, João Soldado foi chamado à casa de um fazendeiro ricaço. Havia muitos médicos famosos lá, tentando curar o homem. Apesar de os médicos não acreditarem nele, de acharem que aquilo era bobagem, os filhos do fazendeiro haviam resolvido recorrer ao João Soldado. Ao entrar no quarto do doente, João Soldado viu a comadre assentada na cabeceira da cama com uma cara sisuda e logo pensou em como resolver aquela situação. Assim, pediu às pessoas da família que mandassem fazer um “sistema de uma gangorra”. João Soldado instalou aquilo no meio do quarto, pôs o doente em cima e rodou várias vezes. A comadre Morte correu atrás, mas perdeu o doente. João Soldado o curou e ainda ganhou um bom dinheiro da família do fazendeiro.

Um outro dia, andando pela estrada, João Soldado encontrou-se com a Morte, que estava furiosa e pretendia levá-lo. João desculpou-se, dizendo que tinha feito aquilo porque os médicos estavam duvidando dele. Mas, para a Morte, não havia justificativa que valesse. Sendo assim, João lhe disse que não queria morrer em pé e, tirando o embornal, gritou:

— Pula para dentro do embornal, Comadre!

Assim, João Soldado prendeu a Morte. Dependurou o embornal num cômodo do seu sítio, num gancho bem alto e deixou a Morte lá. A partir daí, ninguém morria mais. Inclusive João Soldado e sua mulher, que foram ficando bem velhinhos!

Um belo dia, passando por uma aldeia, uma mulher muito velha acusou-o de ser o culpado por aquela situação. Ela já estava cansada de viver e queria ir para o céu. João Soldado achou que já estava na hora de soltar a Morte, mesmo que ela o levasse. Só que a comadre Morte tinha medo dele e não queria levar o João Soldado com ela... Nem chegava perto dele, com medo de ele prendê-la no embornal novamente.

João Soldado foi ficando muito velho e já queria ir embora. Resolveu então procurar sozinho a porta do céu ou a do inferno. A comadre Morte deu-lhe umas dicas, de longe. A primeira porta que João Soldado encontrou foi a porta do inferno. Mas o capeta não quis deixar João entrar, pois chefão Lúcifer tinha avisado para tomar muito cuidado com o João Soldado, que ele era muito perigoso.
Logo então, João Soldado pôs-se a caminho do Céu. Chegando às portas do Paraíso, bateu e São Pedro perguntou de dentro:

— Quem é?

— Sou eu, o João Soldado, que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros.

São Pedro parecia ter se esquecido do João Soldado que o ajudara e a Nosso Senhor, quando, disfarçados de mendigos, pediram-lhe ajuda. O porteiro do céu disse então ao João Soldado:

— Só por ter servido ao rei vinte e quatro anos, você não pode entrar aqui no Paraíso. O mais importante é quanto serviu a Nosso Senhor! — Respondeu São Pedro, entreabrindo a porta da guarita onde ficava para poder olhar direito o João Soldado.

Este, por sua vez, ficou um pouco bravo e falou:

— Por que isso agora, seu São Pedro? Por que um soldado que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e serviu a Nosso Senhor a vida toda não pode entrar no Paraíso?
São Pedro reconheceu os argumentos, mas achou o João Soldado muito atrevido e resolveu teimar um pouco e não deixá-lo entrar tão facilmente.

Só que o João Soldado era mais teimoso ainda e realmente muito atrevido e, sem respeitar ao as barbas brancas de São Pedro e sua venerável careca, disse a São Pedro que, se ele não o deixasse entrar, iria colocá-lo dentro do embornal. São Pedro então se lembrou do soldado que o tinha ajudado quando estava com Nosso Senhor disfarçados de mendigos e disse-lhe:

— Olhe, que foi por meu pedido que Nosso Senhor lhe deu esse embornal, e você não deve jamais usá-lo contra mim!

— Eu não penso assim! Depende da situação e agora é uma oportunidade ótima. Ou me deixa entrar, ou vai para dentro do embornal! — ameaçou o João Soldado.

E como São Pedro já ia fechar a porta da guarita, sem lhe dar tempo, João Soldado gritou:

— Para dentro do embornal.

São Pedro na mesma hora ficou preso dentro do embornal e o João Soldado entrou no Paraíso. Em seguida, São Pedro gritou:

— Tire-me daqui, que eu lhe deixo ficar aí no céu. Tire-me daqui, antes que alguma alma ruim entre no Paraíso e Nosso Senhor venha me chamar a atenção.
E assim, o João Soldado entrou no céu, ele que serviu ao rei vinte quatro anos por um pão e seis dinheiros. E que serviu a Nosso Senhor por toda a vida.

*****************************

O soldado

por anos de tradição constrói-se um caráter
uma história que ficou na memória
pedaços de um tempo de carinho
à beira de um fogão a lenha
por anos de tradição constrói-se um caráter
uma lembrança que ficou na história
recortes de um tempo de menino
com medo de que algum monstro venha
à noite cair pedaço por pedaço à sua frente
e ele não tem a coragem do João Soldado
e ele não tem um embornal abençoado
na verdade assim se faz a vida da gente
com pedaços de carinhos que acumulamos
com histórias de vidas que aos pouquinhos
economizamos dentro do nosso coração
todas aquelas pessoas que nós amamos
todos aqueles amedrontados menininhos
que se lembram daquele soldado João
que com sua esperteza enganou até a morte
e enfrentou os demônios com coragem e sorte
mas nunca deixou de ter uma boa intenção
e de louvar a Nosso Senhor com devoção
foi ajudando aos outros que se deu bem
e acabou indo parar no Paraíso
e para isso passou por poucas e boas na vida...
por anos de tradição constrói-se um caráter
uma história que ficou na lembrança
pedaços da vida de uma criança
que cresceu mas continua menino
(Enanre Etraud Senun)

[1]substantivo masculino — (I) sacola de pano, couro, ou outro material, com alça longa, us. ger. a tiracolo para se carregar provisões, ferramentas etc. — (II) espécie de saco em que comem as cavalgaduras (retirado do Dicionário Houaiss).


Capa de cordel feito no Nordeste do Brasil

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Reavaliar a avaliação


Mais uma vez, tive a oportunidade de participar de curso relativo ao Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio / Reinventando o Ensino Médio, desta vez em Sete Lagoas. A discussão girou principalmente em torno da questão da avaliação interna e externa. É um tema polêmico que levanta os ânimos sempre que discutido. Mas a grande verdade é que não se pode determinar modelos e padrões para o que chamamos “avaliar”. Às vezes, o que é preciso é reavaliar a avaliação…

Reavaliar a avaliação

Enfrentar as dificuldades e o não querer
querer superar os difíceis enfrentamentos
muitas vezes pode ser doloroso aprender
mas a vida se faz de bons e maus momentos

Ensinar é muitas vezes estar à beira do precipício
Aprender é tecer desafios constantes de vida
Ensinar é desapegar-se de todos aqueles vícios
Tirando da cartola a magia da criatividade reaprendida

Avaliar como um PAAE que não SAEB
Escolher o melhor caminho para o filho
Deixa, então, que seja dele essa escolha...

SIMAVE vale dois pássaros voando que um na mão
A rima e a métrica foram esquecidas
Assim como as avaliações que não retratam a vida...

image

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Sem palavras





Nada publico há meses. Na verdade, não tinha o que dizer. Meu silêncio falava mais, ainda que isso seja um clichê.  Meu momento é de ouvir muito e de falar pouco. É hora de aprender e apreender. Reescrever histórias já contadas e já ouvidas, para encontrar de novo o caminho e não um novo caminho.


Nessa altura da vida, meu GPS já está com a rota traçada. Desviei-me dela por algum tempo, mas, graças a Deus, sei como buscá-la outra vez. Para isso, como diria Drummond (o Carlos), “considero a enorme realidade”.

Nunca me afastei (e nunca vou fazê-lo) do que deveras sou. Não estou taciturno, tampouco meus amigos leais. Na cadência do passo que sigo, percebo o ritmo da música que me embala e desembola a improvável angústia que não consegue vencer minha vontade.

Olho as janela abertas e gostaria que fossem portas. Mesmo assim, sei que posso olhar através delas e se for o caso, saio por elas. As paredes não me prendem, pois estou livre. Liberto, desconheço a prisão e, por isso, não a temo.

Nada publico há meses. Não tenho o que dizer. Mas transcrevo abaixo quem me diz muito, além de deixar-lhes, meu prezado leitor e minha prezada leitora, que vocês ouçam e vejam o vídeo a seguir.




“Sem palavras”

há um bom tempo estou sem palavras
não sei do que falar
nem porque fazê-lo
mas sei que é na feitura das lavras
e no esperançoso semear
é que se quebra o gelo
para colher-se o poema que brota
de onde estava, imaturo,
esperando, na fonte que não se esgota
no lugar mais escuro
que a claridade da inspiração
vai iluminar…


mesmo que o cansaço invada
corpo e mente ansiosos por revelar
ao mundo aquela tímida emoção
sem palavras, o poema não é nada…
nada mais que a simples vontade de falar…
expressar-se na tentativa de recriar
no espaço vazio do papel
a sequência de palavras que dirão
que a vida não é apenas uma ilusão
nem somente realidade cruel
a vida nos ilude e nos seduz
a vida nos fere e nos acaricia…


sem palavras estou há um bom tempo
não consigo encontrar facilmente a rima
nem me prendo à métrica inexata
escreve simplesmente e o poema termina…

 

 

sábado, 17 de dezembro de 2011

Mar é morada da saudade



  



Sei agora da morte de Cesária Évora. Sei-me instantaneamente triste. Sequer reconheço o que escrever. Cesária era mais que Évora para mim. Um símbolo imprescindível da música negra que transcende o orgulho e a pretensão brasileira. Sou brasileiríssimo, mas Cesária era uma amostra de onde viemos, da negritude orgulhosa da África mãe sofredora. Não tenho palavras... Não tenho mesmo o que dizer. Reproduzirei apenas os mestres. Que eles digam o que sofro com a morte de Cesária... Que alguém leia o que escrevi e entenda a importância que essa mulher teve para toda a lusofonia. Respeito profundamente as mortes concomitantes de Joãosinho Trinta e de Sérgio Brito. Mas meu objeto maior de respeito hoje é dessa mulher que defendeu seu país e toda a diversidade lusófona tão apaixonadamente. Tornou-se mito...

Para rimar e homenagear, ouso, mesmo com rimas longínquas, como nosso respeito e conhecimento por alguém tão importante:

Passou agora Joãosinho Trinta
Passou também o Sérgio Brito
Passou o teatro e o carnaval
Mas passou alguém mais além
Que muitos podem achar ninguém
Cesária Évora nunca foi a tal
Mas há hoje quem ainda a sinta
Cesária Évora foi um mito...



Vozes d'África
(Castro Alves)


Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
- Infinito: galé! ...
Por abutre - me deste o sol candente,
E a terra de Suez - foi a corrente

Que me ligaste ao pé...

O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia...
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais ...
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
- Pagodes colossais...

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! ...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista - corta o mármor de Carrara;
Poetisa - tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã! ...

Sempre a láurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c'roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela - doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...
E nem tenho uma sombra de floresta...
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador...

Quando subo às Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
"Abriga-me, Senhor!..."
Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: "Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz. . . "

Nem veem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim ...
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
Que desce de Efraim.

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!

Foi depois do dilúvio... um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará...
E eu disse ao peregrino fulminado:
"Cão! ... serás meu esposo bem-amado...
- Serei tua Eloá. . . "

Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o Nômada faminto corta as plagas
No rápido corcel.
Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir - Judeu maldito -
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa - arrebatada -
Amestrado falcão! ...

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos - alimária do universo,
Eu - pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço

Perdão p'ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...






Navio Negreiro
(Castro Alves)



I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!


Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...

..........................................................


Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!

Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena

Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,

Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente

Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,

(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),

Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...

III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

V


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.

Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...

... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...

Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.


Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. . .
Prende-os a mesma corrente 
— Férrea, lúgubre serpente — 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute... Irrisão!... 

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! ...

VI
Existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia?
Siêncio. Musa... chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 
Auriiverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 
Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

*****************

Não quero tornar esse post tão longo que seja ilegível... Termino com uma letra de música de Cesária Évora que todos deviam conhecer. Coloco letra e versão, pois o que ela canta é um dialeto de Cabo Verde, sua terra natal. Um dia voltarei a tratar dessa lenda, mais respeitosamente, antes de ter bebido as seis Bohemias que hoje me acompanham nesse post.



Mar e morada de sodade 

Num tardinha na camba di sol 
Mi t'andá na pr'aia de Nantasqued 
Lembra'n praia di Furna Sodade
frontán 'm tchorá Mar é morada di sodade 
El ta separá-no pa terra longe 
El ta separá-no d'nôs mâe, nós amigo 
Sem certeza di torná encontrá 
M'pensá na nha vida mi só 
Sem ninguem di fé, perto di mim 
Pa st'odjá quês ondas ta 'squebrá di mansinho 
Ta trazé-me um dor di sentimento

O mar é a morada da saudade 

Na tardinha, ao pôr do Sol 
Estendido na praia de Nantasqued 
Lembro a praia de Furna 
A saudade faz-me chorar 
O mar é a morada da saudade 
É ele que nos leva para terras distantes 
Ele separa-nos da nossa mãe, 
Dos nossos amigos 
Sem certeza de os tornar a ver 
A pensar na minha vida tão só
Sem ninguém de confiança perto da mim
Olhando as ondas a rebentar de mansinho
Que me trazem um sentimento de dor


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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Neimar de Barros – Deus Negro

 

Deus Negro.

 

 

Vejo, por acaso, uma frase na internet atribuída a Neimar de Barros. Não, ele não foi jogador de futebol. Lembro-me então de quanto esse escritor influenciou-me quanto tinha meus treze anos e um pouco mais. Foi-me apresentado em livro (“Deus Negro”) por meu irmão padrinho, o Dendê (nunca o chamo assim fora da blogosfera). É um livro de palavras impressionantes! Despertou em mim uma religiosidade resistente que me alimenta até hoje e que é a base de minha estrutura humana.

 

No momento em que li de novo palavras de Neimar de Barros, percebi que não o conhecia bem, não sabia da sua história nem porque escritor tão badalado que foi naquele tempo não era mais falado nos meios editoriais que frequento. Perguntei ao detetive Google e ele revelou-me coisas muito interessantes a respeito desse homem. Reproduzo abaixo a síntese de algumas dessas informações, colhidas em alguns sítios da rede.

 

Neimar de Barros, antes de se tornar escritor, trabalhava com o Sílvio Santos. Segundo a Wikipedia, era conhecido produtor de televisão da equipe do homem do sorriso. No início da década de 70, teria criado e produzido programas de grande audiência como “Cidade contra Cidade”, “Boa Noite Cinderela”, entre outros.

 

Ainda segundo a enciclopédia virtual, Em 1971 foi convidado a participar de um encontro dentro da Igreja Católica, o “cursilho”. Como ateu, ele aceitou desafiar o convite dizendo que só acreditava no que podia ver. No terceiro e último dia, depois de ter aprontado e atrapalhado o encontro, entrou na capela e algo o fez ajoelhar-se, uma grande emoção o tomou e ali naquela hora aconteceu sua conversão.

 

Acabou deixando o trabalho na antiga TVS e tornou-se o famoso escritor de mais de 10 livros de temática religiosa (inclusive em espanhol), com destaque para o best-seller “Deus Negro”, que vendeu mais de 4 milhões de exemplares. Virou palestrante, lotando ginásios de esportes, auditórios, igrejas e teatros, com tanto destaque, que foi capa da revista “Família Cristã”, a maior publicação católica do Brasil, da editora Paulinas. Como leigo conseguiu quebrar vários paradigmas, sendo uma forte referência dentro da Igreja Católica.

 

Mas como nem tudo que é bom dura para sempre, esse Neimar de Barros passou por vários problemas não divulgados claramente (suspeita-se que teve problemas psicológicos e neurológicos) e algo mudou. Em 1986, ele concedeu uma entrevista bombástica à revista Veja, revelando que sua conversão teria sido uma farsa. Ele contou ter sido contratado por uma loja maçônica internacional (P2), para se infiltrar na Igreja Católica e repassar informações sobre a conduta de religiosos. A maioria de seus admiradores não acreditou nessa história, e sabemos que a Revista Veja teve recordes de venda naquela semana, ultrapassando 900 mil exemplares. Depois disso, Neimar escreveu dois livros contando a mesma história, sem sucesso e que nunca foi comprovada.

 

 

A_VERDADE_DE_NEIMAR_DE_BARROS

 

 

Oculto por alguns anos, ele depois reapareceu na equipe de Sílvio Santos, trabalhando novamente como produtor. Hoje leva uma vida simples, e fica a dúvida se o autor de “Deus Negro” de fato existiu ou foi um personagem de uma história ainda incompleta. Mas não há nenhuma dúvida de que sua obra foi um marco na vida de toda uma geração que leu seus livros, em especial “Deus Negro”.

 

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DEUS NEGRO

Autor: Neimar de Barros

 

 

Eu, detestando pretos,

Eu, sem coração!...

Eu, perdido num coreto,

Gritando: “Separação”!

Eu, você, nós... nós todos,

Cheios de preconceitos,

Fugindo como se eles carregassem lodo,

Lodo na cor...

E com petulância, arrogância,

Afastando a pele irmã.

 

Mas

Estou pensando agora:

E quando chegar minha hora?

Meu Deus, se eu morresse amanhã, de manhã!

Numa viagem esquisita, entre nuvens feias e bonitas,

Se eu chegasse lá e um porteiro manco,

Como os aleijados que eu gozei, viesse abrir a porta,

E eu reparasse em sua vista torta, igual àquela que eu critiquei

Se a sua mão tateasse pelo trinco,

Como as mãos do cego que não ajudei!

 

Se a porta rangesse, chorando os choros que provoquei!

Se uma criança me tomasse pela mão,

Criança como aquela que não embalei

E me levasse por um corredor florido, colorido,

Como as flores que eu jamais dei!

 

Se eu sentisse o chão frio,

Como o dos presídios que não visitei!

Se eu visse as paredes caindo,

Como as das creches e asilos que não ajudei!

 

E se a criança tirasse corpos do caminho,

Corpos que eu não levantei

Dando desculpas de que eram bêbados, mas eram epiléticos,

Que era vagabundagem, mas era fome!

 

Meu Deus!

Agora me assusta pronunciar seu nome!

E se mais para a frente a criança cobrisse o corpo nu,

Da prostituta que eu usei,

Ou do moribundo que não olhei,

Ou da velha que não respeitei,

Ou da mãe que não amei!...

 

Corpo de alguém exposto, jogado por minha causa,

Porque não estendi a mão, porque no amor fiz pausa e dei,

Sei lá, só dei desgosto!

E, no fim do corredor, o início da decepção!

 

Que raiva, que desespero,

Se visse o mecânico, o operário, aquele vizinho,

O maldito funcionário, e até, até o padeiro,

Todos sorrindo não sei de quê!

Ah! Sei sim, riem da minha decepção.

 

Deus não está vestido de ouro! Mas como???

Está num simples trono:

Simples como não fui, humilde como não sou.

Deus decepção!

Deus na cor que eu não queria,

Deus cara a cara, face a face,

Sem aquela imponente classe.

Deus simples! Deus negro!

Deus negro!?

 

E Eu...

Racista, egoísta. E agora?

Na terra só persegui os pretos,

Não aluguei casa, não apertei a mão.

Meu Deus você é negro, que desilusão!

Será que vai me dar uma morada?

Será que vai apertar minha mão? Que nada!

 

Meu Deus você é negro, que decepção !

Não dei emprego, virei o rosto. E agora?

Será que vai me dar um canto, vai me cobrir com seu manto?

Ou vai me virar o rosto no embalo da bofetada que dei?

 

Deus, eu não podia adivinhar.

Por que você se fez assim?

Por que se fez preto, preto como o engraxate,

Aquele que expulsei da frente de casa!

 

Deus, pregaram você na cruz

E você me pregou uma peça:

Eu me esforcei à beça em tantas coisas,

E cheguei até a pensar em amor,

Mas nunca,

nunca pensei em adivinhar sua cor!...

 

© Neimar de Barros

 

 

Deus Negro

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Fragmentos de uma pessoa


Sou um admirador da obra de Fernando Pessoa desde que com ela tomei contato aos 13 anos, conduzido pelas mãos de meu Mestre Ilacir. Comprei sua obra completa com minhas primeiras economias, enquanto colegas contemporâneos compravam Walkman ou Atari. E sua obra completa custou-me mais caro. Não me arrependo, pois tem sido minha companheira ao longo dos anos.

Transcrevo a seguir minha adaptação breve de sua biografia, retirada do sítio lusitano “As Tormentas”:





Escritor português, nasceu a 13 de Junho, numa casa do Largo de São Carlos, em Lisboa. Aos cinco anos morreu-lhe o pai, vitimado pela tuberculose, e, no ano seguinte, o irmão, Jorge. Devido ao segundo casamento da mãe, em 1896, com o cônsul português em Durban, na África do Sul, viveu nesse país entre 1895 e 1905, aí seguindo, no Liceu de Durban, os estudos secundários.

Frequentou, durante um ano, uma escola comercial e a Durban High School e concluiu, ainda, o «Intermediate Examination in Arts», na Universidade do Cabo (onde obteve o «Queen Victoria Memorial Prize», pelo melhor ensaio de estilo inglês), com que terminou os seus estudos na África do Sul. No tempo em que viveu neste país, passou um ano de férias (entre 1901 e 1902), em Portugal, tendo residido em Lisboa e viajado para Tavira, para contactar com a família paterna, e para a Ilha Terceira, onde vivia a família materna. Já nesse tempo redigiu, sozinho, vários jornais, assinados com diferentes nomes.

Em 1920, ano em que a mãe, viúva, regressou a Portugal com os irmãos e em que Fernando Pessoa foi viver de novo com a família, iniciou uma relação sentimental com Ophélia Queiroz (interrompida nesse mesmo ano e retomada, para rápida e definitivamente terminar, em 1929) testemunhada pelas Cartas de Amor de Pessoa, organizadas e anotadas por David Mourão-Ferreira, e editadas em 1978. Em 1925, ocorreria a morte da mãe. Fernando Pessoa viria a morrer uma década depois, a 30 de Novembro de 1935 no Hospital de S. Luís dos Franceses, onde foi internado com uma cólica hepática, causada provavelmente pelo consumo excessivo de álcool.

Levando uma vida relativamente apagada, movimentando-se num círculo restrito de amigos que frequentavam as tertúlias intelectuais dos cafés da capital, envolveu-se nas discussões literárias e até políticas da época. Colaborou na revista “A Águia”, da Renascença Portuguesa, com artigos de crítica literária sobre a nova poesia portuguesa, imbuídos de um sebastianismo animado pela crença no surgimento de um grande poeta nacional, o «super-Camões» (ele próprio?). Data de 1914 o aparecimento dos seus três principais heterónimos, segundo indicação do próprio Fernando Pessoa, em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, sobre a origem destes.

Em 1915, com Mário de Sá-Carneiro (seu dilecto amigo, com o qual trocou intensa correspondência e cujas crises acompanhou de perto), Luís de Montalvor e outros poetas e artistas plásticos com os quais formou o grupo «Orpheu», lançou a revista “Orpheu”, marco do modernismo português, onde publicou, no primeiro número, “Opiário” e “Ode Triunfal”, de Campos, e “O Marinheiro”, de Pessoa ortónimo, e, no segundo, “Chuva Oblíqua”, de Fernando Pessoa ortónimo, e a “Ode Marítima”, de Campos. Publicou, ainda em vida, “Antinous” (1918), “35 Sonnets” (1918), e três séries de “English Poems” (publicados, em 1921, na editora Olisipo, fundada por si). Em 1934, concorreu com “Mensagem” a um prémio da Secretaria de Propaganda Nacional, que conquistou na categoria B, devido à reduzida extensão do livro. Colaborou ainda nas revistas “Exílio” (1916), “Portugal Futurista” (1917), “Contemporânea” (1922-1926, de que foi co-director e onde publicou “O Banqueiro Anarquista”, conto de raciocínio e dedução, e o conhecidíssimo e belo poema “Mar Português”), “Athena” (1924-1925, igualmente como co-director e onde foram publicadas algumas odes de Ricardo Reis e excertos de poemas de Alberto Caeiro) e “Presença”.

A sua obra, que permaneceu maioritariamente inédita, foi difundida e valorizada pelo grupo da revista “Presença”. A partir de 1943, Luís de Montalvor deu início à edição das obras completas de Fernando Pessoa, abrangendo os textos em poesia dos heterónimos e de Pessoa ortónimo. Foram ainda sucessivamente editados escritos seus sobre temas de doutrina e crítica literárias, filosofia, política e páginas íntimas. Do seu vasto espólio foram também retirados o “Livro do Desassossego” por Bernardo Soares e uma série de outros textos.

A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão puramente literária, tem atraído as atenções gerais. Concebidos como individualidades distintas da do autor, este criou-lhes uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram-se ligados a alguns dos problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer um dos seus heterónimos na existência literária do poeta. Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua emotividade através da linguagem. Enveredando por vários fingimentos, que aprofundam uma teia de polémicas entre si, opondo-se e completando-se, os heterónimos são a mentalização de certas emoções e perspectivas, a sua representação irónica pela inteligência. Deles se destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

Segundo a carta de Fernando Pessoa sobre a génese dos seus heterónimos, Caeiro (1885-1915) é o Mestre, inclusive do próprio Pessoa ortónimo. Nasceu em Lisboa e aí morreu, tuberculoso, em 1915, embora a maior parte da sua vida tenha decorrido numa quinta no Ribatejo, onde foram escritos quase todos os seus poemas, os do livro O Guardador de Rebanhos, os de O Pastor Amoroso e os Poemas Inconjuntos, sendo os do último período da sua vida escritos em Lisboa, quando se encontrava já gravemente doente (daí, segundo Pessoa, a «novidade um pouco estranha ao carácter geral da obra»). Sem profissão e pouco instruído (teria apenas a instrução primária), e, por isso, «escrevendo mal o português», órfão desde muito cedo, vivia de pequenos rendimentos, com uma tia-avó. Caeiro era, segundo ele próprio, «o único poeta da natureza», procurando viver a exterioridade das sensações e recusando a metafísica, caracterizando-se pelo seu panteísmo e sensacionismo que, de modo diferente, Álvaro de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar.

Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi educado num colégio de jesuítas, recebeu uma educação clássica (latina) e estudou, por vontade própria, o helenismo (sendo Horácio o seu modelo literário). Essa formação clássica reflecte-se, quer a nível formal (odes à maneira clássica), quer a nível dos temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que Pessoa considerava exagerado. Médico, não exercia, no entanto, a profissão. De convicções monárquicas, emigrou para o Brasil após a implantação da República.


13 de junho de 1888 - Nasce em Lisboa, às 3 horas da tarde, Fernando Antônio Nogueira Pessoa.
1896 - Parte para Durban, na África do Sul.
1905 - Regressa a Lisboa
1906 - Matricula-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa
1907 - Abandona o curso.
1914 - Surge o mestre Alberto Caeiro. Fernando Pessoa passa a escrever poemas dos três heterônimos.
1915 - Primeiro número da Revista "Orfeu". Pessoa "mata" Alberto Caeiro.
1916 - Seu amigo Mário de Sá-Carneiro suicida-se.
1924 - Surge a Revista "Atena", dirigida por Fernando Pessoa e Ruy Vaz.
1926 - Fernando Pessoa requere patente de invenção de um Anuário Indicador Sintético, por Nomes e Outras Classificações, Consultável em Qualquer Língua. Dirige, com seu cunhado, a Revista de Comércio e Contabilidade.
1927 - Passa a colaborar com a Revista "Presença".
1934 - Aparece "Mensagem", seu único livro publicado.
30 de novembro de 1935 - Morre em Lisboa, aos 47 anos.


A biografia de “As Tormentas aborda muito pouco um outro heterônimo, do qual gosto muito, que é o Bernardo Soares. Ele é um heterônimo particular do poeta. Autor do “Livro do Desassossego”, uma obra feita de fragmentos que, não obstante, é tida como uma das obras fundamentais da ficção portuguesa no século XX, segundo a Wikipedia, “(…) ao encenar na linguagem categorias várias que vão desde o pragmatismo da condição humana até o absurdo da própria literatura.(...)”

Bernardo Soares é, nessa obra, um mero ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Para a crítica, Bernardo Soares seria, na verdade, um “semi-heterônimo”, pois, como o próprio Fernando Pessoa colocou: “não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade.”

Trago a seguir um fragmento do “Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa, em texto do seu heterônimo Bernardo Soares, mostrando-me uma angústia que já compartilhei:


(Fragmentos)
88.


“Quando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de carinho - com vontade de lhes dar beijos - os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases - fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste!...

Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. De meu pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá ideia de nada. Ás vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma idéia dele a que possa amar...Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez seja nunca esse o pai da minha alma...

Quando acabará isso tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para a sua casa e me desse calor e afeição...Ás vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar...Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio...Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum...E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis par seu filho adoptivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de brinquedos.

Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, ó Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci...Torna a dar-me, ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que eu dormia...”