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quinta-feira, 29 de março de 2018

As paineiras e os meninos que voam



Chego à escola sentindo-me um estranho naquele espaço infantil. Olho ao redor, paro o carro sob as enormes paineiras da frente da escola. Faço minha oração e saio do carro. Respiro fundo o ar puro daquelas paragens e passo pelo portão, observando as diversas crianças que brincam no pátio, enquanto aguardam o sinal de entrada da tarde. Elas sorriem, gritam e correm. Algumas estranham aquele homem esquisito que sorri meio sem graça para elas, ao mesmo tempo em que lhes diz um boa-tarde meio abafado.
Sou recebido pelas novas companheiras de trabalho e levado ao meu posto. Tarefas são executadas, mas não deixo de pensar nas crianças lá fora. As horas se vão e a noite chega. Com ela, vêm as lembranças daquele dia, especialmente daquelas crianças brincando no pátio. No outro dia, outras crianças viriam, pois eu trabalharia no horário da manhã. Fecho os olhos e durmo, entorpecido pelo cansaço de um dia intenso...
Outro dia em que paro o carro sob as paineiras, agora às 6h da manhã. A escola está vazia e observo as paineiras gigantes. Um grande número de aves aprontam uma algazarra nelas e eu fico olhando aqueles pássaros que voam de uma para outra árvore. Parece que estão ali brincando...
As primeiras crianças chegam mais cedo no transporte público do município. Recebo-as e vou cuidar delas até que chegue o horário de iniciar as aulas. Lembro-me de que fui criança também. Tal como elas, um menino lampeiro que adorava correr de um lado para outro, de subir em árvores e de comer fruta no pé. Um menino que gostava de jogar bola descalço na rua, brincar de pique-esconde e de tantas outras coisas.
Sinto alguém puxar-me a roupa... “Tio, o senhor gosta de soltar papagaio?” Não espera minha resposta e já emenda uma história. “Outro dia eu tava soltando com meu pai, quando é fé meu papagaio garrou na fiação elétrica...” Interrompi imediatamente. Que coisa, menino! Na fiação elétrica? E seu pai não lhe chamou a atenção? Isso é um perigo... De morte! Não se solta papagaio perto de rede elétrica. E o menino continuava... “Mas tio, não tinha problema, porque meu pai me levou pra outro lugar. Aí, quando é fé, chegou um punhado de meninos com uns papagaios grandão, que custava a voar. O meu era pequeno, de saco de lixo preto. Mas meu pai pôs umas varetas de bambu bem fina e ele ficou leve. O meu papagaio também não tinha rabo, era sureco. Quando é fé, os menino foi soltar os grandão deles e meu pai falou que ia cortar a linha deles e que ia me ensinar...”
Outras crianças chegaram mais perto para ver o motivo de o tio estar tão exaltado. E aí aproveitei para tecer um sermão sobre os cuidados ao soltar pipas, procurando áreas propícias e seguras e, principalmente, não usar cerol nem a famigerada linha chilena. Mas, para minha surpresa, várias crianças discordam de mim dizendo que essa linha é que é a boa, tanto a número 3 quando a número 4, tanto a rosa quanto a verde. E eu, dando uma de técnico têxtil, fui explicar o que significava o título dos fios, como se aquilo interessasse àquelas crianças. Falei sobre os riscos para quem solta papagaios com tais linhas, bem como para os ciclistas e motociclistas, bem como sobre as responsabilidades legais de quem faz isso. Depois de muito falar, lembrei que meu público eram apenas crianças...
Ou seriam algo mais? Quem sabe eram anjos disfarçados testando meu conhecimento, minha sensibilidade e minha capacidade de interagir com seres tão fantásticos? Ou seriam pássaros? Porque, ao observar aquelas crianças, percebi que elas voavam... Assim como as pipas de que falavam, essas criaturas inigualáveis voavam bem alto, presas às linhas, com cerol ou não, chilenas ou simplesmente linhas 10 de poliéster com que seus pais as seguravam. Na verdade, sonhavam em subir cada vez mais alto, mas presas à origem e à segurança daqueles que as amam por essas linhas tênues.
Voei junto com elas!... Nunca fui um caçador de pipas, mas assim como Hassan, imaginei-me cortando a linha que me prendia a alguns dos valores falhos que me orientaram até ali como educador, para que eu abrisse meu olhar para um novo jeito de ensinar e de aprender. Um sorriso minúsculo no canto de minha boca, apenas de um lado, lembrou-me Sohrab. Eu era esse menino. Eu era todos aqueles meninos que voam como pássaros e pipas até mais alto que podem e depois pousam naquelas paineiras frondosas da escola, puxadas pelas linhas do amor à educação, que, inexoráveis, não se rompem. 




sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Reavaliar a avaliação


Mais uma vez, tive a oportunidade de participar de curso relativo ao Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio / Reinventando o Ensino Médio, desta vez em Sete Lagoas. A discussão girou principalmente em torno da questão da avaliação interna e externa. É um tema polêmico que levanta os ânimos sempre que discutido. Mas a grande verdade é que não se pode determinar modelos e padrões para o que chamamos “avaliar”. Às vezes, o que é preciso é reavaliar a avaliação…

Reavaliar a avaliação

Enfrentar as dificuldades e o não querer
querer superar os difíceis enfrentamentos
muitas vezes pode ser doloroso aprender
mas a vida se faz de bons e maus momentos

Ensinar é muitas vezes estar à beira do precipício
Aprender é tecer desafios constantes de vida
Ensinar é desapegar-se de todos aqueles vícios
Tirando da cartola a magia da criatividade reaprendida

Avaliar como um PAAE que não SAEB
Escolher o melhor caminho para o filho
Deixa, então, que seja dele essa escolha...

SIMAVE vale dois pássaros voando que um na mão
A rima e a métrica foram esquecidas
Assim como as avaliações que não retratam a vida...

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sábado, 20 de setembro de 2014

Não há fórmulas


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Esse texto foi feito em relação à oportunidade que estou tendo de rever o meu papel de educador, no momento em que se fala de um “Pacto” para fortalecer o Ensino Médio no país. Extrapolo o contexto, pois vejo algo muito além disso. Vejo a oportunidade de construção de um país melhor, com cidadãos e educadores mais conscientes e uma juventude que participe positivamente da sociedade, pois a Escola poderá ser uma etapa de suas vidas em que os jovens realmente sentirão a contribuição que a Educação pode lhes oferecer.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Mar é morada da saudade



  



Sei agora da morte de Cesária Évora. Sei-me instantaneamente triste. Sequer reconheço o que escrever. Cesária era mais que Évora para mim. Um símbolo imprescindível da música negra que transcende o orgulho e a pretensão brasileira. Sou brasileiríssimo, mas Cesária era uma amostra de onde viemos, da negritude orgulhosa da África mãe sofredora. Não tenho palavras... Não tenho mesmo o que dizer. Reproduzirei apenas os mestres. Que eles digam o que sofro com a morte de Cesária... Que alguém leia o que escrevi e entenda a importância que essa mulher teve para toda a lusofonia. Respeito profundamente as mortes concomitantes de Joãosinho Trinta e de Sérgio Brito. Mas meu objeto maior de respeito hoje é dessa mulher que defendeu seu país e toda a diversidade lusófona tão apaixonadamente. Tornou-se mito...

Para rimar e homenagear, ouso, mesmo com rimas longínquas, como nosso respeito e conhecimento por alguém tão importante:

Passou agora Joãosinho Trinta
Passou também o Sérgio Brito
Passou o teatro e o carnaval
Mas passou alguém mais além
Que muitos podem achar ninguém
Cesária Évora nunca foi a tal
Mas há hoje quem ainda a sinta
Cesária Évora foi um mito...



Vozes d'África
(Castro Alves)


Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
- Infinito: galé! ...
Por abutre - me deste o sol candente,
E a terra de Suez - foi a corrente

Que me ligaste ao pé...

O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia...
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais ...
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
- Pagodes colossais...

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! ...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista - corta o mármor de Carrara;
Poetisa - tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã! ...

Sempre a láurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c'roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela - doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...
E nem tenho uma sombra de floresta...
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador...

Quando subo às Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
"Abriga-me, Senhor!..."
Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: "Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz. . . "

Nem veem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim ...
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
Que desce de Efraim.

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!

Foi depois do dilúvio... um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará...
E eu disse ao peregrino fulminado:
"Cão! ... serás meu esposo bem-amado...
- Serei tua Eloá. . . "

Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o Nômada faminto corta as plagas
No rápido corcel.
Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir - Judeu maldito -
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa - arrebatada -
Amestrado falcão! ...

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos - alimária do universo,
Eu - pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço

Perdão p'ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...






Navio Negreiro
(Castro Alves)



I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!


Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...

..........................................................


Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!

Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena

Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,

Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente

Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,

(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),

Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...

III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

V


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.

Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...

... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...

Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.


Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. . .
Prende-os a mesma corrente 
— Férrea, lúgubre serpente — 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute... Irrisão!... 

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! ...

VI
Existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia?
Siêncio. Musa... chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 
Auriiverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 
Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

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Não quero tornar esse post tão longo que seja ilegível... Termino com uma letra de música de Cesária Évora que todos deviam conhecer. Coloco letra e versão, pois o que ela canta é um dialeto de Cabo Verde, sua terra natal. Um dia voltarei a tratar dessa lenda, mais respeitosamente, antes de ter bebido as seis Bohemias que hoje me acompanham nesse post.



Mar e morada de sodade 

Num tardinha na camba di sol 
Mi t'andá na pr'aia de Nantasqued 
Lembra'n praia di Furna Sodade
frontán 'm tchorá Mar é morada di sodade 
El ta separá-no pa terra longe 
El ta separá-no d'nôs mâe, nós amigo 
Sem certeza di torná encontrá 
M'pensá na nha vida mi só 
Sem ninguem di fé, perto di mim 
Pa st'odjá quês ondas ta 'squebrá di mansinho 
Ta trazé-me um dor di sentimento

O mar é a morada da saudade 

Na tardinha, ao pôr do Sol 
Estendido na praia de Nantasqued 
Lembro a praia de Furna 
A saudade faz-me chorar 
O mar é a morada da saudade 
É ele que nos leva para terras distantes 
Ele separa-nos da nossa mãe, 
Dos nossos amigos 
Sem certeza de os tornar a ver 
A pensar na minha vida tão só
Sem ninguém de confiança perto da mim
Olhando as ondas a rebentar de mansinho
Que me trazem um sentimento de dor


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domingo, 24 de julho de 2011

Crônicas de viagem I - Valores



Entro no ônibus com um bom dia tímido e não correspondido. Faço-o por educação e por formalidade. Busco um lugar para sentar, de preferência que não tenha um outro passageiro. Encontro um nas últimas poltronas do fundo. Sento-me e fico calado, pedindo a Deus uma viagem segura.

Após alguns meses, surpreendo-me agora como mudei. Isolo-me em minha viagem como aqueles que um dia critiquei. Sei que isso não condiz comigo e, às vezes, volto ao que sou quando encontro alguém que me permita isso. As crianças e os idoso são meu alvo predileto de interlocução.

Sei que não é fácil vencer os desafios do mundo moderno, mas percebo que nos sujeitamos com muita facilidade ao status quo e acabamos nos tornando insípidos. Não percebemos mais os sabores do viver.

E pior: educamos nossos filhos assim, para serem os melhores (ou melhores que os outros), desenvolvendo-lhes o egocentrismo. Ensinamos-lhes o valor do trabalho, para que ganhem muito dinheiro e sejam felizes sozinhos. Lembro-me de uma tirinha do cartunista argentino Quino que traduz muito bem isso. Meu amigo Coqueiro postou-a outro dia. Reproduzo-a abaixo:
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Saio do ônibus rapidamente, na frente de todos os demais. Sigo caminhando sozinho para o trabalho. Um outro colega vem logo atrás de mim, mas não o espero. Tenho pressa de chegar ao trabalho, sentar-me à mesa e isolar-me ainda mais. Mas intimamente coloco-me que jamais devo esquecer meus valores.


sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Peregrino

 

A vida nos traz sempre oportunidades de crescimento. No último dia 6 de janeiro, completei mais um ano de vida e, diante do clichê que a situação me traz, pensei que o Dia dos Santos Reis podia trazer-me a metáfora do peregrino. Melchior, Baltazar e Gaspar seguiam a estrela em busca do Menino Sagrado, do Messias prometido, da libertação. Sinto-me assim também como um peregrino em busca de algo semelhante.

A tradição dos Três Reis Magos é muito antiga e está intimamente ligada ao nascimento de Jesus. As referências evangélicas oficiais são vagas (somente São Mateus). Não se diz quantos eram nem seus nomes, nem mesmo se eram reis. Alguns estudiosos creem terem sido sacerdotes seguidores de Zaratustra ou Zoroastro, da Pérsia. A crença de que seriam três deve-se talvez à quantidade de oferendas trazidas: ouro, incenso e mirra. Seus nomes seriam Melchior, rei da Pérsia; Gaspar, rei da Índia, e Baltazar, rei da Arábia, os Santos Reis, porque são considerados bem-aventurados. Receberam esses nomes mais de oitocentos anos depois do nascimento de Jesus. Poderiam também ter sido astrônomos, considerando a questão de observarem uma estrela incomum e a seguirem.

Discorro sobre isso neste post porque, como um peregrino que me sinto, não me sinto um rei, todavia. Na reflexão do dia de aniversário, vejo-me caminhando pela vida em busca do conhecimento. Ao longo da minha jornada, tive a oportunidade de conhecer grandes mestres que me ajudaram muitíssimo e um deles é o professor José Geraldo “Coró”, como é conhecido pela grande maioria. Grande estudioso da vida, sempre proporcionou-me momentos curiosos. Contarei alguns.

Meu primeiro contato com o Coró foi na minha infância. Não creio que ele se lembre. Devia ter uns 9 anos de idade. O coró foi visitar meus irmãos mais velhos (Tiãozinho e Joaquim, ambos seus alunos à época) e, como ambos estavam no banho, minha saudosíssima mãe pediu-me que o recebesse e lhe oferecesse um café. Assim o fiz e ele prontamente aceitou o café que há pouco tinha sido passado por minha mãe e cujo cheiro ainda exalava do bule em cima do fogão a lenha. Servi-lhe e um sorriso suave apareceu no rosto do Coró, que tomou o café com jeito satisfeito. Mas minha mãe entrou em desespero ao ver que o Coró tomava café na enorme caneca de chope do meu pai, cheia até a tampa do saboroso líquido negro, e não em uma pequena xícara (aliás, só havia uma na minha casa). Repreendeu-me por isso e eu, que não entendia dessas formalidades, disse inocentemente (não exatamente com essas palavras) que aquele era o melhor recipiente para líquidos da casa. E era mesmo! Por isso pertencia ao meu pai.

O Coró abriu um sorriso mais evidente e agradeceu o café, dizendo que estava muito gostoso. E esse sorriso tranquilizou minha mãe e também a mim, temeroso de mais reprimendas depois que a visita se fosse.

Quando aluno da Escola Estadual Padre Augusto Horta, honrosamente o mestre Coró lecionou-me Matemática e fez-me ainda mais admirador dessa maravilhosa matéria, pela qual ainda sou apaixonado. Questionam-me isso ainda hoje: por que segui a carreira acadêmica das Letras e não das Exatas. Para encurtar a conversa, por se tratar de uma outra história, digo que a vida proporcionou-me isso e, como um ditado popular costuma relatar, Deus atende as nossas necessidades e não nossas vontades. Sou imensamente grato e feliz por ter optado pela carreira das Letras e o fiz pela afinidade que tínhamos. Quanto às Exatas, sempre foram um pouco minhas inimigas e, por serem mais difíceis de conquistar, tornam-se ainda mais apaixonantes.

Mas o Mestre Coró ensinou-me muito mais do que a Matemática e seus mistérios. Através das suas costumeiras reflexões em sala de aula, pude aprender a conhecer obras fantásticas como a do filósofo e místico indiano Jiddu Krishnamurti. Reproduzo alguns de seus pensamentos:

  • “Podemos ir longe, se começarmos de muito perto. Em geral começamos pelo mais distante, o "supremo princípio", "o maior ideal", e ficamos perdidos em algum sonho vago do pensamento imaginativo. Mas quando partimos de muito perto, do mais perto, que é nós, então o mundo inteiro está aberto — pois nós somos o mundo. Temos de começar pelo que é real, pelo que está a acontecer agora, e o agora é sem tempo.”
  • “Meditação é libertar a mente de toda desonestidade. O pensamento gera desonestidade. O pensamento, no seu esforço para ser honesto, é comparativo e, portanto, desonesto. (…) Meditação é o movimento dessa honestidade no silêncio.”
  • “Estou apenas a ser como um espelho da vossa vida, no qual podeis ver-vos como sois. Depois, podeis deitar fora o espelho; o espelho não é importante.”
  • “… Falamos da vida — e não de ideias, de teorias, de práticas ou de técnicas. Falamos para que olhe esta vida total, que é também a sua vida, para que lhe dê atenção. Isso significa que não pode desperdiçá-la. Tem pouquíssimo tempo para viver, talvez dez, talvez cinquenta anos. Não perca esse tempo. Olhe a sua vida, dê tudo para a compreender.”

Não quero me delongar neste post. Serve apenas como manifesto de apreço ao Coró que, recentemente, tem me proporcionado conhecer mais uma faceta de sua personalidade excepcional: o apreço pela boa música. Tem compartilhado comigo e com o amigo Maestro Nascimento a oportunidade de conhecermos belíssimas apresentações musicais através do empréstimo de DVDs  de seu excepcional acervo.

Termino-o então com uns versos, para fazer jus ao Poetopias.

 

 

“Peregrino”

como um peregrino seguindo a estrela

sigo os caminhos íngremes que a vida me traçou

olho, entretanto, com um sorriso o que percorri

a jornada foi árdua até aqui

mas muito recompensadora em sua plenitude

aprendi que seguir a estrela

não foi absolutamente a minha principal atitude

mas sim seguir o caminho

parar um pouco para olhar para trás

e acima de tudo olhar para o momento que me cerca

e de vez em quando para o futuro

espero encontrar ao final a lapinha

onde repousa Aquele que ainda não compreendo

mas que respeito imensamente

Aquele cujas palavras não têm medo do tempo

porque nunca deixarão de dizer a verdade

tão difícil de aceitar

a verdade tão difícil de praticar

como peregrino, continuo minha jornada

sou ao mesmo tempo Baltasar, Melchior e Gaspar

mas não trago comigo incenso, nem ouro, nem mirra

levo apenas a mim mesmo na capanga

este embornal vazio de muitas coisas

mas cheio de esperança

 

3Reis

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um caminho

A poesia manifesta-se de várias maneiras. Publico, a pedido de um aluno meu e para incentivá-lo, alguns poemas de sua autoria neste post. Devanil, aluno do 2º Período da EJA (Educação de Jovens e Adultos) do Ensino Médio da Escola Estadual Professora Dora Silva.
A poesia do Devanil é de muita sensibilidade. Procurei fazer o mínimo de correções nos seus textos, respeitando ao máximo a sintaxe adotada por ele. Se considerarmos a norma culta, provavelmente muitos erros serão encontrados. Mas não é esse o objetivo deste post. Como coloquei no início, a poesia manifesta-se de várias maneiras. E é exatamente isso que os textos do Devanil nos proporciona: a oportunidade de perceber o lirismo evidente em seus versos.
Acredito que o Devanil, através de sua poesia, poderá desenvolver outras competências linguísticas e certamente o conhecimento da norma gramatical será uma delas, talvez a menos importante em sua vida. A mais importante competência linguística é a capacidade de expressar os seus sentimentos, sua percepção de mundo, de forma espontânea, muito mais essencial que o conhecimento da norma culta pura, sem aplicação prática. Suas poesias são um caminho...
Alguns de seus poemas não têm título. Faço então como fizeram com o Pessoa: o primeiro verso é o título do texto.
Vamos aos textos...



“Busquei por milhares de vezes...”


Busquei por milhares de vezes
palavras para expressar o quanto te amo
mas palavras exalam um som bonito
mas se perdem no ar
flores são lindas
mas murcham e as pétalas caem com o tempo
as estrelas sim seriam o ideal
mas como te dar elas
se você é a estrela que me dá direção e força
para que eu possa ir em busca do presente perfeito
para lhe dar
foi aí então que encontrei um livro velho com páginas em branco
pois sabia que você é uma excelente escritora
e ainda sei que você é capaz de escrever a nossa história
com paixão, ternura, cumplicidade
e por isso descobrir que a minha maior prova de amor
foi o meu coração, o meu caminho
para que eu possa te fazer feliz por toda a eternidade
e todas as outras vidas serei seu e você será minha.



“Fúria de amar (reflexões em torrentes do coração)”

Teria eu simplesmente amor à vida de tal maneira que de tantos sonhos não conseguiria viver a realidade. Mas que realidade é essa que só me faz sofrer por me sentir sozinho talvez porque vivo buscando o que não tem busca ou seria talvez o meu coração que está transbordando de sentimentos gritando ou até mesmo sentindo uma saudade nostálgica? Pois me sinto sozinho em meio à multidão e tendo como o meu maior aliado o silêncio que é banhado por lágrimas, por ter tantas feridas, pois as feridas do corpo cicatrizam, mas as feridas da alma talvez nem em um século vão cicatrizar, porque essas feridas não são de um tapa ou mesmo de uma queda, mas sim de palavras e feitos que não têm cura pois pessoas não machucam pessoas mas as palavras deixam marcas que vão pela eternidade. Pois mais vale a tristeza de uma queda que a derrota de nunca ter tentado ser feliz. E porque na caminhada que fazemos seria muito imprescindível conquistar seu lugar. Então continuo minha caminhada, caindo, me levantando para caminhar de novo, mas vou amar e ser feliz e poder dizer que valeu a pena até o dia em que devem fechar meus olhos, mas mesmo assim eu teria deixado a semente plantada e bem regada.



“Ser amigo”


Ser amigo não é apenas arte para muitos
mas sim para pessoas iluminadas
que não se julgam a mais ou a menos.
É saber dizer o sim e ao mesmo tempo um não
É saber sorrir não porque você conseguiu
mas sim por descobrir o quanto você é capaz.
E brilhar no meio de muitos
e não se deixar apagar por comentários de terceiros
e encontrar forças para estar sempre brilhando
e se transformar em uma águia
para sempre estar buscando novos horizontes.
Mas, acima disso tudo
DEUS sempre caminhando
com tudo em sua vida.




“O olhar de um egoísta”



Procurei em mil lugares
te encontrar para que
eu fosse feliz mas me
esquecendo que todos os
dias e a todo momento
você estava comigo mas
eu estava tão cego com a
minha verdade e o meu
egoísmo já tinha me
esquecido que você se
manifesta em todos os
seres vivos nas formas
mais sublimes da humildade:
o mais o que seria essa forma
em um sorriso de uma criança
na leveza do voo dos pássaros
ou até mesmo na fina e inacessível
brisa que sopra para refrescar
sua pele como se estivesse massageando
você com um véu de seda do campo.
Pois ele se faz ver a todo momento
e mais e mostra que você
precisa perder esse egoísmo para
poder ver que ele tá em tudo
te amando, respeitando e sem
cobrar de você
estou aqui




sábado, 18 de dezembro de 2010

Sobre a decepção

Esta sexta-feira revelou-se um dia muito contraditório para mim. Primeiramente por um momento de plena felicidade e, eu diria até mesmo de êxtase, ao poder presenciar o Concerto de Aniversário (93 anos) da querida Banda de Música Euterpe Santa Luzia. O outro momento, que me leva a este post, foi de muita tristeza. O Conselho de Classe da escola onde leciono revelou-me a decepção pelo resultado de alguns alunos que, infelizmente, não obtiveram sucesso na tentativa de progressão.


É para mim sempre triste ver o mau resultado do aluno. Como educador, torço pelo sucesso de todos aqueles que trabalham junto a mim nas salas de aula e sinto-me responsável direto por encaminhá-los a um caminho que considero bom. Os educadores não somos donos da verdade, mas não devemos viver uma mentira. Querer aprovar os alunos a todo custo não é e nunca será a melhor solução. Reprová-los também não é. Então, o que fazer?


Acredito que a resposta não é muito simples. Creio, entretanto, que deve haver uma divisão de responsabilidades. Não sou adepto do discurso de que "se o aluno não aprendeu é porque o professor não ensinou". Sinceramente, já pensei assim e muitas noites mal dormidas remoendo o meu suposto fracasso eu passei. Mas mudei de opinião. Acredito hoje, depois de 25 anos de magistério, que a aprendizagem é uma via de mão dupla. Mudo o discurso para "se o aluno não aprendeu é porque ainda não entendeu o quanto isso é importante em sua vida". A aprendizagem é uma via de mão dupla e o aluno deve ter em mente que ele precisa mover-se para aprender. E a aprendizagem é fruto de trabalho. De muito trabalho. A escola não é apenas um espaço lúdico. É, na sua essência, um lugar de muito trabalho. E quem não trabalha, não evolui. Esta é a verdadeira seleção natural. A sociedade cobra muito mais que a escola, que jamais deve se furtar ao papel de verdadeiramente preparar os jovens para a vida social.


Isso pode nos trazer, muitas vezes, a revolta dos alunos que não vencem os desafios da progressão escolar. Muitos são os motivos que levam a isso, mas o que não consigo entender é porque mais recentemente as coisas estão piores, descambando para o campo da violência contra educadores. Já publiquei um post em "Os Invicioneiros" a respeito desse tema. Abordo especialmente a morte do professor Kássio Vinícius, assassinado selvagemente por um aluno. Recebi neste sábado um e-mail de um amigo a respeito do mesmo tema. Achei a abordagem brilhante e gostaria de compartilhá-la com os leitores deste blog.



J’ACUSE !!!
(Eu acuso !)

(Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes)
"Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice." (Émile Zola)
"Meu dever é falar, não quero ser cúmplice."


Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que... estudar!).

A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro.

O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.

Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de  convivência supostamente democrática.

No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando...

E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar ‘tudo isso que está aí’; “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.”

Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno – cliente...

Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”.


Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.

Ao assassino, corretamente , deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal ao autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:

EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;

EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos”e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;

EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;

EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranqüilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;

EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, freqüentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;

EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;

EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual, finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã;

EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;

EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;

EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, uma “ nova cultura de paz”, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e  do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;

EU ACUSO os  “cabeça – boa” que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito,

EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;

EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição.

EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;

EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;

Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos -clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia.

Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”.

A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: “Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva. Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo.”

Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adotar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.



(Igor Pantuzza Wildmann - Advogado, Doutor em Direito. Professor universitário)


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Reproduzo esse texto como forma de divulgar uma brilhante cutucada na nossa sociedade e uma oportunidade de repensarmos o valor da educação, lembrando que apenas uma pequena parte dela ocorre nos bancos escolares. O verdadeiro educandário é o lar e a vida social é cheia de provas difíceis (muito mais do que as provas de Língua Portuguesa do professor Ernane Duarte).


Teacher and students, Holland Marsh, [ca. 1953]
Gordon W. Powley fonds - Black and white negative - Reference Code: C 5-1-0-183-12