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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O Cedro

O texto a seguir foi publicado no encarte do Festival Clara Nunes de 2018, o que foi um grande honra para mim. Clara Nunes é um ser de luz, que sempre se preocupou em fazer um trabalho que valorizasse a música brasileira em sua totalidade. Mas, como ser humano, era fantástica! Adorava crianças e eu, por um breve momento, fui objeto desse afeto, o que me marcou indelevelmente...



São 5h30min da manhã. O menino levanta-se, ainda sonolento, ao som do rádio Phillips no programa do Zé Béttio (“Joga água nele! Joga água nele!”), e vai para a cozinha, onde já estão o pai e a mãe:
— Bença, pai! Bença, mãe!

Já sabe das obrigações da manhã. Vai tratar das galinhas, dos porcos, dos cachorros, molhar a horta e buscar um pouco de lenha, palha de milho e sabugos para o pai acender o fogão. Aproveita para ir rapidinho no córrego do Cedro (que passa nos fundos da casa) conferir as linhas de espera. Desta vez, um bagre grandinho e uma traíra pequena engoliram os anzóis. O menino pega os peixes e corre para mostrar o pai e a mãe. Outros irmãos já estão acordados e começa a fila para o único banheiro da casa. Enquanto a mãe frita os bolinhos de chuva para a merenda, o menino senta na beira do fogão a lenha e o pai continua a enorme história do João Soldado, onde a interrompera no dia anterior. Merenda rapidinho os bolinhos contados (três para cada um) com o café ralo e troca de roupa para ir para a escola.

O menino não pode atrasar-se. Vai com o pai pelos fundos do quintal, passando por dentro da fábrica do Cedro e saindo pela portaria, para chegar à escola Coronel Caetano.
Um dia, o menino pescava de cima da ponte. De repente, uma mão toca-lhe o ombro: “Cuidado, menino! O peixe pode te puxar para dentro d’água, de tão magrinho que você é!”
Olha para trás e vê uma luz imensa. Era Clara Nunes, uma dona linda! O menino jamais esqueceria aquela mulher, cuja presença e cujo sorriso marcaram indelevelmente sua alma. Ela adorava ir àquele lugar, principalmente na Pedreira, um lugar maravilhoso, cheio de pedras enormes, dentro do córrego do Cedro. 

E o menino continuou seus dias de tarefas de casa e de escola. Nessa rotina, o menino cresce. Dentro desse menino, hoje homem, mora o Cedro. Foi-se um dia para longe, mas não pôde lá ficar. Dentro dele mora o Cedro. Como uma alma, inseparável do que ele é, o Cedro representa não apenas as lembranças de sua infância, de sua família, mas o cerne que lhe sustenta.
O Cedro assim é para muitos. Orgulho de ser de lá, orgulho de ter Clara e de ter artistas novas como Roberta como conterrâneas, orgulho de suas tradições culturais, orgulho de suas lindas paisagens, orgulho de seu povo, orgulho de ser o berço da indústria têxtil no país, orgulho...




quarta-feira, 25 de maio de 2016

História de João Soldado


 Capa de livreto publicado em Portugal em meados do século XX

Uma tradição oral fez chegar ainda aos primeiros anos da minha infância, através do hábito amoroso de meu pai contando histórias aos filhos, a seguinte história. Ouvi-o contá-la com toda a simplicidade da sua linguagem e agora nos vou recordar, procurando reproduzi-la do jeito que ouvi e de que me lembro.

***************

Quando Deus andava pelo mundo, houve um soldado chamado João, que serviu ao rei oito anos, como ordenava a lei e, como não tivesse outros meios de vida, tornou a servir o rei mais oito anos e depois mais oito ainda, até que se fartou da vida militar e pediu a sua baixa. Deixou então o regimento ao fim de vinte e quatro anos de serviço ao rei, recebendo como pagamento apenas um pão e seis dinheiros, que lhe deram quando saiu do quartel. Mas, mesmo tendo deixado o serviço militar, o apelido revelava o que ele tinha sido na maior parte de sua vida: João Soldado.

Assim, foi embora para sua cidade, pensando: “Está bem! Servi ao rei vinte e quatro anos para ganhar um pão e seis dinheiros. Quanto tempo perdido!... Mas há de ser o que Deus quiser, que eu tenho muita esperança que assim será melhor.”

E foi caminhando tranquilo pela estrada que levava à sua cidade. Tinha andado um pedaço de caminho, quando encontrou dois mendigos que lhe pediram esmola. Na verdade, os homens eram Nosso Senhor e São Pedro. João muito admirado com o pedido, já que tinha tão pouco, respondeu:

— Que lhes posso eu dar, eu que servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros, que é tudo o que levo comigo?

Um dos mendigos, que era São Pedro, porém, não se contentou com a resposta, dizendo que qualquer coisa que João tivesse seria mais do que os dois mendigos tinham.
João Soldado, que tinha um grande coração, abriu então o seu embornal[1] surrado, tirou o pão e partiu-o em três partes iguais e deu duas aos pobres viajantes.

Foi andando e, ao fim de uma légua de caminho, encontrou outra vez os mesmos mendigos, que tornaram a pedir-lhe esmola. João, desconfiado, disse-lhes:

— Uai, parece que já dei esmola pra vocês lá atrás, mas, na dúvida, lá vai o resto que tenho, eu que eu servi o rei vinte e quatro anos e só ganhei um pão e seis dinheiros...

Dizendo isso, resignado, repartiu com São Pedro e Nosso Senhor o pedaço de pão que levava. Continuou seu caminho e mais adiante tornaram a aparecer-lhe os dois mendigos, que lhe pediram de novo esmola.

— Vocês outra vez! Se não são os mesmos que eu encontrei há pouco, São muito parecidos... Mas não importa, porque eu não nego o que tenho aos que precisam mais que eu, segundo os ensinamentos de Nosso Senhor. Apesar de ter servido o rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros, vou dar-lhes o que me resta.

Deu então aos mendigos tudo o que lhe restava no embornal. João Soldado então perguntou aos mendigos se não sabiam onde poderia encontrar trabalho, para que pudesse conseguir algum dinheiro para se manter até chegar à sua cidade.

Então, um dos mendigos, que era São Pedro, revelou-se para João Soldado, dizendo quem eles realmente eram. E Nosso Senhor disse ao João Soldado que, por sua generosidade, ele podia pedir o que quisesse. João Soldado ficou muito surpreso e, ao mesmo tempo, lisonjeado por estar na presença de São Pedro e de Nosso Senhor, dizendo que simplesmente fez o que o seu coração mandou.
Depois de pensar um instante no que iria pedir, mostrou a Nosso Senhor o embornal surrado que levava, dizendo:

— Embora não mereça nenhuma coisa, pois já sou muito feliz por ter tido a graça de estar na presença de Nosso Senhor e de São Pedro, peço para que este embornal tenha o poder de que tudo que eu quiser vá dentro dele assim que eu ordenar.

Embora achando estranho o pedido do João Soldado, Nosso Senhor concedeu-lhe o pedido. Ofereceu-lhe também um baralho com o qual ganharia sempre. Em seguida, abençoou o João Soldado, desaparecendo juntamente com São Pedro.

João Soldado, após se recuperar da surpresa, voltou à sua caminhada. Ainda não tinha andado muito, quando, ao entrar na rua de uma cidade, viu na vitrine de uma padaria um apetitoso e cheiroso pão que parecia ter saído do forno naquela hora. João Soldado ouviu seu estômago roncar e lambeu os lábios ao ver aquela delícia, mas não tinha dinheiro para comprar o pão. Então, logo se lembrou do poder do seu embornal. Assim, disse para o pão:

— Pula para dentro do embornal! — como num passe de mágica, o pão desapareceu da vitrine e apareceu dentro do embornal do João Soldado.

O padeiro não percebeu nada e assustou-se quando viu que o pão que estava na vitrine tinha desaparecido. Era quase noite e João Soldado estava cansado de andar todo o dia. Foi então procurar um lugar para dormir, mas só encontrou naquela cidade uma casa que estava desabitada há muito tempo e que ninguém sequer passava perto, porque a casa era mal-assombrada. Dizia-se que era o fantasma do dono que tinha lá morrido, um homem muito malvado e pão-duro. João Soldado gostou daquela história de casa mal-assombrada, porque era muito corajoso.

— Sou um soldado que servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e não tenho medo de nada. Vou para essa casa e quero conhecer esse fantasma.

E foi dormir na casa, ficando muito contente com o que lá encontrou: uma despensa cheia de excelente comida e bebidas finas, além de móveis luxuosos na sala e um quarto com uma cama muito confortável.

— Que mais quero eu? — dizia o João — Eu que servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros, tenho agora aqui, à minha disposição, comida, bebida e uma cama confortável.
E tratou de encher a barriga. Não tinha passado muito tempo que o soldado estava comendo, quando ouviu uma voz pavorosa gritar do alto da chaminé:

— Eu caio!!!...

— Pois pode cair à vontade! Um soldado como eu que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros não tem medo de nada!... — respondeu João Soldado corajosamente, sem parar de comer nem um instante.

Mal tinha acabado de proferir estas palavras viu cair pela chaminé uma perna de homem.

— Olá! Quer ser enterrada? — perguntou zombeteiramente para a perna o João Soldado.

E a perna, levantando o pé indicou com o dedão que não queria ser enterrada.

— Eu caio!!!... — disse de novo a mesma voz fantasmagórica.

— Pode cair quantas vezes quiser! — repetiu o João Soldado — Comigo não tem medo, porque eu sou é muito macho.

E logo viu cair outra perna. Em seguida a voz disse novamente “Eu caio!!!...” e o João Soldado sempre mandando cair, pois ele não tinha medo de nada. Assim, após cada vez que a voz dizia “Eu caio!!!...”, caiu depois um tronco, logo depois um braço, em seguida o outro braço e por fim uma cabeça que completou o corpo. Então, aquele corpo horroroso completo andou para o lado do João Soldado e lhe disse com a mesma voz pavorosa:

— Você é valente, eu reconheço!...

— Como não poderia ser valente um soldado que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros?!... — respondeu João Soldado, muito senhor de si.

Então, o fantasma horroroso disse:

— Se você é pobre, poderá ficar muito rico se fizer o que eu disser.

Mais que depressa, o João Soldado respondeu:

— Prontinho, coisa feia! Estou aqui para o que der e vier.

— Está bem. Venha comigo.

E a alma do outro mundo, seguida do João Soldado, encaminhou-se para o porão que havia por baixo da cozinha, levantou uma grande pedra que tapava uma cova e mostrou ao João Soldado três grandes panelas cheias de dinheiro até a boca.

— Está vendo todo este dinheiro? — disse a alma do outro mundo, encarando o soldado com os seus olhos horríveis que pareciam duas brasas.

— Vejo sim! — disse o João Soldado.

— Pois parte deste dinheiro será para você se cumprir o que eu quero.

— Fale logo, coisa feia! — respondeu resolutamente o João Soldado.

— Divida este dinheiro em três partes. Uma é para dar de esmolas aos pobres; outra é para mandar rezar missas por minha alma; e a terceira parte é para você, se cumprir à risca o que eu pedi. Se você fizer isso, estará salvando minha alma, que o Diabo está doido para levar.

— Dito e feito! — confirmou o soldado — Eu que servi ao rei vinte e quatro anos, por um pão e seis dinheiros, melhor ainda posso cumprir os seus pedidos, com um pagamento tão bom.

E o João foi logo tratar de dar as esmolas aos pobres, e de mandar dizer as missas. Com o dinheiro que restou e que era muito, comprou um bom sítio e nele passou a viver na fartura.

O que o João Soldado é que o Diabo não estava nada satisfeito pelo fato de o João Soldado ter feito o que o fantasma tinha pedido. O Diabo jurou vingar-se do João Soldado, por ele lhe ter tirado a alma do avarento, que afinal se salvou com as esmolas e as missas. Então, o Capeta mandou um diabinho dos mais espertos que tinha no Inferno para lhe trazer para ali o João Soldado.

Certo dia, estava João Soldado sentado sob a sombra de uma goiabeira no seu sítio, muito distraído ouvindo os passarinhos cantar, tomando um delicioso suco de manga geladinho, quando lhe apareceu um homenzinho muito estranho. O homem disse-lhe de forma bem educada:

— Como tem passado, sr. João Soldado? Tudo bem com o sr.?

— Você acabou de chegar e já sabe o meu nome. Eu nunca vi você antes, como me conhece? — respondeu João Soldado, meio desconfiado daquele homenzinho feio. — Sou um homem educado, por isso lhe convido a tomar um pouco de suco de manga.

O diabinho, muito esperto, aceitou a bebida e começou a puxar conversa com o João Soldado, chamando-o para disputar uma partida de baralho. O João Soldado não era bobo e logo desconfiou de alguma treta. Entretanto, concordou com a proposta, pois se lembrou do baralho mágico que tinha ganhado. Além disso, o João Soldado logo desconfiou que aquele homenzinho era um enviado do inferno, pois começou a sentir um cheiro de enxofre horrível. Então, foi logo falando ao diabinho disfarçado:

— Muito bem, vamos jogar! Mas o que vamos apostar, seu diabinho feioso?
O diabinho ficou surpreso. Viu que o João Soldado era mesmo muito esperto e tinha descoberto o seu disfarce. Mas foi logo dizendo:

— Se você perder, eu levo sua alma para o inferno.

— E se eu ganhar, vou lhe dar uma surra que você nunca mais vai me incomodar! — disse o João Soldado — Olhe que eu servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e não tenho medo de nada, muito menos de um diabo como você com essa carinha feia.

O diabinho saracoteou-se muito contente, pois para ele isso era um elogio. Disse então para o João Soldado que ele era um capeta poderoso, enviado pelo próprio Lúcifer, e tinha vindo levá-lo para o inferno e nada poderia evitar isso. Então, João Soldado preparou o embornal e jogou as cartas do seu baralho mágico. O diabinho estava cada vez mais contente, achando que seria muito fácil resolver aquele problema do seu chefe, porque poderia trapacear no jogo com facilidade. Mas o baralho era mesmo abençoado e o diabinho não ganhou sequer uma partida. Ao final do jogo, ainda tentou escapulir, mas o João Soldado pegou o embornal e logo disse, dirigindo-se ao diabinho que tentava fugir:

— Diabinho, pula para dentro deste embornal.

O diabinho rabeou, rogou pragas com palavrões horríveis e soltou um cheiro mais horrível ainda de enxofre e, antes que entrasse para dentro do embornal, prometeu grandes riquezas e honrarias ao João Soldado se o deixasse ir embora. Mas nada adiantou e xingando e esperneando, lá foi para dentro do embornal do João Soldado. Assim que o João Soldado prendeu o diabinho dentro do embornal, começou a bater nele com um pedaço de pau bem grosso, que moeu os ossos do diabinho e o reduziu a um pó tão fino como talco, de modo que o diabinho pôde sair escapando por um buraquinho do embornal e fugiu para o inferno apavorado.

O Diabão já o esperava furioso, pois tinha visto tudo do inferno e esbravejou infernalmente contra o diabinho, por se ter deixado enganar como um bobo pelo atrevido João Soldado que assim zombava do seu poder.

— Quem vai agora buscar esse João Soldado sou eu mesmo! — disse, muito furioso Lúcifer para o diabinho, que estava todo encolhido num canto do inferno, todo dolorido e chorando que dava dó ver.
Naquele momento, o João Soldado estava jantando muito satisfeito, quando ouviu uma batida na porta tão forte que fez estremecer toda a casa.

— Deve ser o Diabão! — pensou João Soldado — Já estava aqui esperando que esse coisa-ruim viesse, depois da peça que preguei ao seu camarada.

E assim era. O Diabão entrou de uma vez e nem esperou o João Soldado abrir a porta, derrubando-a com um chute. Os olhos faiscavam raiva e quando falou, parecia que se abria a boca de um vulcão, vomitando lavas de fogo e enxofre.

— Você vai pagar por tudo que fez ao meu diabinho! — rugiu o Diabo infernalmente.

— Se você vem para cá com essa falta de educação, achando que pode tudo, vai pelo mesmo caminho do seu diabinho! — disse-lhe João Soldado, pondo o embornal já no jeito.

— Isso é que havemos de ver, miserável humano. Desta vez vou levar você para as profundezas, como o maior patife deste mundo. E vou lhe deixar queimando no fogo do inferno.

— Olhe que eu não tenho medo, seu Diabão feioso. Servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e nada me apavora, pois tenho ajuda de quem pode mais, que é Nosso Senhor.

O Diabão ficou ainda mais furioso e rancoroso quando o João Soldado falou de Nosso Senhor e já ia fincar suas unhas no João Soldado, quando ele, dando um pulo para trás, abriu o embornal em frente do Diabão e gritou:

— Já para dentro do embornal, coisa-ruim!

Ouviu se um grande rugido medonho que o Diabo soltou dentro do embornal e, preso dentro do embornal, debatendo-se furiosamente, dava pulos até ao telhado, enquanto o João Soldado, armado de um pedaço de ferro bem pesado, dava cacetadas sem dó no Diabão até moê-lo inteirinho. E o Diabão gritava dentro do embornal, pedindo humildemente por todos os Diabos que o João Soldado o deixasse ir de volta para o inferno. Então o João Soldado disse:

— Ah, já está pedindo misericórdia! Pois então vá para o inferno! — E o João Soldado abriu a boca do embornal, donde saiu o Diabão todo moído e quebrado, com o rabo pendurado e os chifres entortados, mal se podendo arrastar.

Quando o Diabão chegou ao Inferno, estava em tal estado que os diabinhos ficaram morrendo de medo do que ia acontecer. Lúcifer então ordenou que forjassem enormes portões de aço e fabricassem fechaduras bem fortes para trancar as portas do inferno, com medo que o João Soldado lá entrasse atrás dele.

Passado algum tempo, João Soldado se casou com bondosa e linda mulher. Eles tiveram muitos filhos e isso lhe trouxe um grande problema: naquela região onde moravam era difícil conseguir um compadre. Todos os vizinhos já eram seus compadres e alguns já tinham até repetido. Quando nasceu seu último filho, ele avisou à mulher que ia ser muito difícil conseguir um padrinho para a criança.
Um dia, indo pela estrada, ele viu uma figura estranha, a quem o João Soldado chamou e lhe perguntou se queria batizar seu filho. Na verdade, era a Morte, que ficou muito lisonjeada e lhe disse que, embora não gostasse de Igreja, iria até lá para batizar seu filho. Apesar dos protestos da mulher, João Soldado levou o filho para a “comadre” Morte batizar.

Um dia depois, andando pela estrada, a Morte foi ao seu encontro e lhe propôs um trato. Ele se tornaria um curandeiro. Quando chegasse a uma casa e encontrasse a Morte sentada na cabeceira da cama, podia desenganar o doente que esse era dela. Mas, caso a Morte estivesse sentada nos pés da cama, ele podia receitar chás de ervas ou o que quisesse que o doente se curaria. Trato feito, João Soldado começou a curar.

Até que, um belo dia, João Soldado foi chamado à casa de um fazendeiro ricaço. Havia muitos médicos famosos lá, tentando curar o homem. Apesar de os médicos não acreditarem nele, de acharem que aquilo era bobagem, os filhos do fazendeiro haviam resolvido recorrer ao João Soldado. Ao entrar no quarto do doente, João Soldado viu a comadre assentada na cabeceira da cama com uma cara sisuda e logo pensou em como resolver aquela situação. Assim, pediu às pessoas da família que mandassem fazer um “sistema de uma gangorra”. João Soldado instalou aquilo no meio do quarto, pôs o doente em cima e rodou várias vezes. A comadre Morte correu atrás, mas perdeu o doente. João Soldado o curou e ainda ganhou um bom dinheiro da família do fazendeiro.

Um outro dia, andando pela estrada, João Soldado encontrou-se com a Morte, que estava furiosa e pretendia levá-lo. João desculpou-se, dizendo que tinha feito aquilo porque os médicos estavam duvidando dele. Mas, para a Morte, não havia justificativa que valesse. Sendo assim, João lhe disse que não queria morrer em pé e, tirando o embornal, gritou:

— Pula para dentro do embornal, Comadre!

Assim, João Soldado prendeu a Morte. Dependurou o embornal num cômodo do seu sítio, num gancho bem alto e deixou a Morte lá. A partir daí, ninguém morria mais. Inclusive João Soldado e sua mulher, que foram ficando bem velhinhos!

Um belo dia, passando por uma aldeia, uma mulher muito velha acusou-o de ser o culpado por aquela situação. Ela já estava cansada de viver e queria ir para o céu. João Soldado achou que já estava na hora de soltar a Morte, mesmo que ela o levasse. Só que a comadre Morte tinha medo dele e não queria levar o João Soldado com ela... Nem chegava perto dele, com medo de ele prendê-la no embornal novamente.

João Soldado foi ficando muito velho e já queria ir embora. Resolveu então procurar sozinho a porta do céu ou a do inferno. A comadre Morte deu-lhe umas dicas, de longe. A primeira porta que João Soldado encontrou foi a porta do inferno. Mas o capeta não quis deixar João entrar, pois chefão Lúcifer tinha avisado para tomar muito cuidado com o João Soldado, que ele era muito perigoso.
Logo então, João Soldado pôs-se a caminho do Céu. Chegando às portas do Paraíso, bateu e São Pedro perguntou de dentro:

— Quem é?

— Sou eu, o João Soldado, que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros.

São Pedro parecia ter se esquecido do João Soldado que o ajudara e a Nosso Senhor, quando, disfarçados de mendigos, pediram-lhe ajuda. O porteiro do céu disse então ao João Soldado:

— Só por ter servido ao rei vinte e quatro anos, você não pode entrar aqui no Paraíso. O mais importante é quanto serviu a Nosso Senhor! — Respondeu São Pedro, entreabrindo a porta da guarita onde ficava para poder olhar direito o João Soldado.

Este, por sua vez, ficou um pouco bravo e falou:

— Por que isso agora, seu São Pedro? Por que um soldado que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e serviu a Nosso Senhor a vida toda não pode entrar no Paraíso?
São Pedro reconheceu os argumentos, mas achou o João Soldado muito atrevido e resolveu teimar um pouco e não deixá-lo entrar tão facilmente.

Só que o João Soldado era mais teimoso ainda e realmente muito atrevido e, sem respeitar ao as barbas brancas de São Pedro e sua venerável careca, disse a São Pedro que, se ele não o deixasse entrar, iria colocá-lo dentro do embornal. São Pedro então se lembrou do soldado que o tinha ajudado quando estava com Nosso Senhor disfarçados de mendigos e disse-lhe:

— Olhe, que foi por meu pedido que Nosso Senhor lhe deu esse embornal, e você não deve jamais usá-lo contra mim!

— Eu não penso assim! Depende da situação e agora é uma oportunidade ótima. Ou me deixa entrar, ou vai para dentro do embornal! — ameaçou o João Soldado.

E como São Pedro já ia fechar a porta da guarita, sem lhe dar tempo, João Soldado gritou:

— Para dentro do embornal.

São Pedro na mesma hora ficou preso dentro do embornal e o João Soldado entrou no Paraíso. Em seguida, São Pedro gritou:

— Tire-me daqui, que eu lhe deixo ficar aí no céu. Tire-me daqui, antes que alguma alma ruim entre no Paraíso e Nosso Senhor venha me chamar a atenção.
E assim, o João Soldado entrou no céu, ele que serviu ao rei vinte quatro anos por um pão e seis dinheiros. E que serviu a Nosso Senhor por toda a vida.

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O soldado

por anos de tradição constrói-se um caráter
uma história que ficou na memória
pedaços de um tempo de carinho
à beira de um fogão a lenha
por anos de tradição constrói-se um caráter
uma lembrança que ficou na história
recortes de um tempo de menino
com medo de que algum monstro venha
à noite cair pedaço por pedaço à sua frente
e ele não tem a coragem do João Soldado
e ele não tem um embornal abençoado
na verdade assim se faz a vida da gente
com pedaços de carinhos que acumulamos
com histórias de vidas que aos pouquinhos
economizamos dentro do nosso coração
todas aquelas pessoas que nós amamos
todos aqueles amedrontados menininhos
que se lembram daquele soldado João
que com sua esperteza enganou até a morte
e enfrentou os demônios com coragem e sorte
mas nunca deixou de ter uma boa intenção
e de louvar a Nosso Senhor com devoção
foi ajudando aos outros que se deu bem
e acabou indo parar no Paraíso
e para isso passou por poucas e boas na vida...
por anos de tradição constrói-se um caráter
uma história que ficou na lembrança
pedaços da vida de uma criança
que cresceu mas continua menino
(Enanre Etraud Senun)

[1]substantivo masculino — (I) sacola de pano, couro, ou outro material, com alça longa, us. ger. a tiracolo para se carregar provisões, ferramentas etc. — (II) espécie de saco em que comem as cavalgaduras (retirado do Dicionário Houaiss).


Capa de cordel feito no Nordeste do Brasil

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Fotografas-me e não me revelas

Estendo as mãos para o alto
Diante da máquina que me fotografa
Será que é uma arma que me levará
Para o encontro final com outra realidade?

Uma realidade que não me faça medo
Que não me traga a angústia de não poder ser criança
Em um mundo cercado de violência
Um mundo mergulhado sombriamente no horror da guerra
Que é travada sem que se saiba por quê
Sem que se saiba para quê
Assim como todas as guerras…

Estendo as mãos para o alto
Fotografas-me e não me revelas
O Salgado de minhas lágrimas
Não aparece diante do meu medo…
Sou apenas uma criança síria
Uma criança séria que não sabe rir
Uma criança sem esperança…
(ENANRE ETRAUD – THE EDN)

MENINA-SÍRIA

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Escrevo esse poema em lágrimas diante da imagem e da reportagem que acabo de ler…

http://www.contioutra.com/sobre-a-menina-siria-que-se-rende-ao-confundir-camera-fotografica-com-uma-arma/

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Santos Reis


Hoje a Igreja Católica comemora o Dia dos Santos Reis, que a tradição surgida no século VIII converteu nos santos Belchior, Gaspar e Baltazar. Adoro estudar as tradições culturais do meu país e, particularmente, tenho me dedicado bastante ultimamente ao estudo das Folias de Reis. É interessante saber que a Bíblia não revela no Sagrado Evangelho que os Santos Reis o seriam de fato, pois faz referência apenas a “magos do Oriente”. São citados apenas por São Mateus: 

(2, 1) Tendo, pois, nascido Jesus em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que vieram do oriente a Jerusalém uns magos que perguntavam: (2, 2) 'Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? pois do oriente vimos a sua estrela e viemos adorá-lo.' (2, 3) O rei Herodes, ouvindo isso, perturbou-se, e com ele toda a Jerusalém; (2, 4) e, reunindo todos os principais sacerdotes e os escribas do povo, perguntava-lhes onde havia de nascer o Cristo.”

O evangelista não diz quantos nem quem são, mas a tradição católica e escritos não oficiais da Igreja sugerem que eram três e chamavam-se Melquior (ou Belchior), Baltasar e Gaspar. Esses nomes aparecem, entre outros textos, no Evangelho Apócrifo Armeno da Infância, do fim do século VI, no capítulo 5,10:

Um anjo do Senhor foi de pressa ao país dos persas para avisar aos reis magos e ordenar a eles de ir e adorar o menino que acabara de nascer. Estes, depois de ter caminhado durante nove meses, tendo por guia a estrela, chegaram à meta exatamente quando Maria tinha dado à luz. Precisa-se saber que, naquele tempo, o reino persiano dominava todos os reis do Oriente, por causa do seu poder e das suas vitórias. Os reis magos eram 3 irmãos: Melquior, que reinava sobre os persianos; Baltasar, que era rei dos indianos, e Gaspar, que dominava no país dos árabes.”

Eles são conhecidos por “Magos” não porque fossem expertos na magia, mas porque eram muito sábios e, sobretudo, tinham grande conhecimento da astrologia. De fato, entres os persas, se dizia “Mago” aqueles que os judeus chamavam “escribas”, os gregos “filósofos” e os latinos “sábios”.

Vale ressaltar que a exegese católica interpreta a chegada dos Reis Magos como o cumprimento da profecia de David:

Os reis de Társis e das ilhas lhe trarão presentes, os reis da Arábia e de Sabá oferecer-lhe-ão seus dons. 11. Todos os reis hão de adorá-lo, hão de servi-lo todas as nações”. (Sl. 71, 10-11)

Segundo li há algum tempo na revista Superinteressante, foi apenas no século III que eles receberam o título de reis, provavelmente como uma maneira de confirmar a profecia contida no Salmo 72: “Todos os reis cairão diante dele”. Por volta de 800 anos depois do nascimento de Jesus, eles receberam os nomes e também a origem: Melchior era rei da Pérsia, Gaspar era rei da Índia, e Baltazar era rei da Arábia. Melchior, honorável ancião, ofereceu ouro ao Rei Jesus. Gaspar, na força de sua juventude e beleza, ofereceu incenso. E Baltazar, de cor muito escura, ofereceu ao Salvador mirra.

Em hebreu, esses nomes significavam, respectivamente: “rei da luz” (melichior), “o branco” (gathaspa) e “senhor dos tesouros” (bithisarea). Na catedral de Colônia, na Alemanha, supostamente é o lugar onde repousam os restos mortais dos reis magos. De acordo com uma tradição medieval, os magos teriam se reencontrado quase 50 anos depois do primeiro Natal, em Sewa, uma cidade da Turquia, onde teriam falecido. Algum tempo depois, seus corpos teriam sido levados para Milão, na Itália, onde permaneceram até o século 12, quando o imperador germânico Frederico dominou a cidade e levou as urnas mortuárias para Colônia. 

Devemos aos magos até a tradição de dar presentes no Natal. No ritual da antiguidade, ouro era o presente para um rei, incenso, para um religioso. E mirra, para um profeta (a mirra era usada para embalsamar corpos e, simbolicamente, representava a mortalidade). O significado desses presentes costuma variar: uns dizem que o ouro representava a realeza de Jesus, filho de Davi; a mirra, a sua humanidade e o seu sacerdócio; o incenso falava de sua divindade, era Deus que se revestiu da forma humana, nascendo como um de nós. Outros já vão além disso, acrescentando outros detalhes:

– O ouro era o presente para um rei (realeza), mas também a riqueza e a alegria que os Reis Magos sentiram na alma quando se aproximaram do menino Jesus, além de ser símbolo de sabedoria universal e de todos os dons e talentos que Deus proporcionou à Humanidade.
– O incenso, para um religioso, simbolizava a fé, o retorno íntimo ao sagrado, às bênçãos que todo cristão precisa receber e doar, como também simboliza o ato de abençoar alguém com o coração e pode ser considerado uma oferenda devocional oferecida somente aos deuses e, nesse caso, ao Filho de Deus.
– A mirra era uma erva amarga cuja resina antisséptica era usada para embalsamar corpos e, simbolicamente, podia representar a humanidade de Jesus e, ao mesmo tempo, a Sua imortalidade divina, Sua pureza (o cheiro que ela emana faria ainda a ligação com o Divino e o Eterno, como símbolo para a vitória de Jesus sobre a morte), além de simbolizar também os pecados e defeitos humanos que seriam redimidos pelo Filho de Deus.

Nesta data, ainda, encerram-se para os católicos os festejos natalícios e é o dia em que se desmancham os presépios e são retirados todos os enfeites de Natal. Tenho uma identidade muito forte com esse dia, por vários motivos, que revelo a seguir. 

O primeiro deles é a importância que dou à figura alegórica representada por cada um dos Santos Reis, conforme foi descrito acima, além dos significados dos presentes que levaram ao Menino Jesus.

De acordo com São Beda, o Venerável (673-735), Doutor da Igreja e monge beneditino nas abadias de São Pedro e São Paulo em Wearmouth, e na de Jarrow, na Nortumbria, Inglaterra, considerado como fonte de primeira mão da história inglesa, sendo muito respeitado como historiador (sua obra “História Eclesiástica do Povo Inglês” — Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum — lhe rendeu o título de Pai da História Inglesa), em seu tratado “Excerpta et Colletanea”, o Doutor da Igreja assim recolhe as tradições que chegaram até ele:

Melquior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus. Gaspar era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio. E Baltasar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz”.

Para São Beda – como para os demais Doutores da Igreja que falaram deles – os três representavam as três raças humanas existentes, em idades diferentes. Neste sentido, eles representavam os reis e os povos de todo o mundo.

O segundo motivo pelo qual considero muito importante este dia é porque tenho o maior respeito pelo que representa a Epifania na minha vida particular. Sempre, após as festas de fim de ano (e isso é algo que trago comigo desde a infância), sinto-me muito pensativo e faço uma revisão de minha vida e do que posso fazer para tornar-me alguém melhor. Não é fácil perceber que, em alguns momentos como estes, que deixei de fazer muitas coisas importantes em minha vida que me fariam crescer como ser humano. Mas também é um momento de satisfação em perceber as vitórias que conquistei como pai, marido, irmão, filho, afilhado, compadre, padrinho, tio, amigo, profissional, enfim, como o Ernane que cada uma das pessoas que fazem parte da minha vida compreendem.

O terceiro e menos importante motivo de celebrar o dia 6 de janeiro é porque é meu aniversário.


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Reis Magos”

Os Reis Magos chegaram e deixaram seus presentes
Para o Menino Deus que acabara de nascer
Muitas vezes, sinto que somos uns cristãos tão ausentes
Não celebramos aquilo que de fato deve ser

Ouro foi dado ao Menino Jesus como símbolo de sua realeza
E nós precisamos reafirmar a certeza
De nossa fé incondicional na figura de Deus em nossa vida
E da força que Ele nos proporciona para superar a lida

Incenso também foi um presente para o Menino Jesus
Que deve nos lembrar Sua divindade incontestável
E o amor intenso que emana suavemente de sua luz
Que nos enche o coração de forma inexorável

A mirra de nossos pecados e de nossa alma imperfeita
Representa a eternidade da presença do Cristo Ressuscitado
E a amargura que ora nos acolhe e que ora nos rejeita
É a redenção que Deus nos oferece em Jesus, de bom grado

Gaspar, Belchior e Baltazar louvam o Menino Deus vivo...
Seguiram a Estrela do Oriente em busca do palácio divino
E encontraram um castelo na gruta sagrada do motivo
Que deve mover cada cristão na procura do mistério sagrado
Que não precisa de rimas, nem de estrofes, nem de métrica...
Basta apenas acreditar...






sábado, 20 de setembro de 2014

Não há fórmulas


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Esse texto foi feito em relação à oportunidade que estou tendo de rever o meu papel de educador, no momento em que se fala de um “Pacto” para fortalecer o Ensino Médio no país. Extrapolo o contexto, pois vejo algo muito além disso. Vejo a oportunidade de construção de um país melhor, com cidadãos e educadores mais conscientes e uma juventude que participe positivamente da sociedade, pois a Escola poderá ser uma etapa de suas vidas em que os jovens realmente sentirão a contribuição que a Educação pode lhes oferecer.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pink Floyd e quem foi Vera Lynn



Pink Floyd
O Pink Floyd
Vera lynn
Vera Lynn

Sempre gostei da banda inglesa Pink Floyd. Desde que me entendo por gente aprendi a gostar do seu som original e de suas apresentações impressionantes. Tenho praticamente toda a discografia da banda, desde que Syd Barret era vocalista. O álbum mais conhecido da banda é, sem dúvida, “The Wall”, de 1979. Esse álbum acabou se transformando em um filme instigante de Alan Parker, a que tive a oportunidade de assistir no Cine Pepino, em Sete Lagoas, como parte de um trabalho para a saudosa Mírian Tanure, professora de inglês do meu curso de Letras.

Outro dia, entretanto, aprendi algo para o qual não tinha atinado: a referência à cantora inglesa Vera Lyn (nascida em Londres, em 20/03/1917), que foi muito famosa durante a Segunda Guerra Mundial. Seu repertório quase sempre fazia alusão à temática de soldados que foram para a luta. O início do filme de Alan Parker mostra uma radiola tocando uma música dela. No filme também podemos ouvir uma referência a uma de suas músicas mais famosas, “We´ll meet again”, logo após “Vera” — além disso, no final, traz a bela “Bring the boys back home”, com um coral (era comum aparecerem corais nas músicas de Vera Lynn). Aliás, A cantora acabou se tornando “Dame” Vera Lynn, uma homenagem da rainha por sua contribuição cultural. Vale a pena ressaltar que, recentemente, em setembro de 2009,foi lançado o álbum “We´ll meet again - The very best of Vera Lynn”, uma coletânea de suas músicas mais conhecidas, atingiu 1º lugar na lista dos mais vendidos na Inglaterra. Isso mostra a importância de Vera Lynn no país. Se quiserem saber mais, cliquem aqui.

Para nos situarmos a respeito, deixo aos leitores desse post algumas referências ao que relatei acima:

Vera
Pink Floyd
Does anybody here remember Vera Lynn
Remember how she said that
We would meet again
Some sunny day
Vera! Vera!
What has become of you
Does anybody else in here
Feel the way I do ?
Alguém aqui se lembra de Vera Lynn?
Se lembra como ela disse que
Nos encontraríamos novamente
Num dia ensolarado
Vera! Vera!
O que aconteceu com você?
Alguém por aqui
Sente o mesmo que eu?

“Vera” / “Bring the boys back home”


We’ll Meet Again
Vera Lynn


We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day

Keep smiling through
Just like you always do
'Till the blue skies
Drive the dark clouds far away

So, will you please say hello
To the folks that I know
Tell them I won't be long
They'll be happy to know
That as you saw me go
I was singing this song

We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day

We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day

So, Darling, keep smiling through
Just like you always do
'Till the blue skies
Drive the dark clouds far away

So, will you please say hello
To the folks that I know
Tell them I won't be long
They'll be happy to know
That as you saw me go
I was singing this song

We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day...
Vamos Nos Encontrar Novamente
Vera Lynn


Vamos nos encontrar novamente
Não sei onde
Não sei quando
Mas eu sei, vamos nos encontrar novamente
Em algum dia ensolarado

Continue sorrindo
Assim como você sempre faz
Até que o céu azul afaste
As nuvens escuras para longe

E por favor diga olá
Para as pessoas que eu conheço
Diga a eles que eu não demorarei
E eles vão ficar feliz em saber
Que quando você me viu ir
Eu estava cantando esta canção

Vamos nos encontrar novamente
Não sei onde
Não sei quando
Mas eu sei, vamos nos encontrar novamente
Em algum dia ensolarado

Sim, vamos nos encontrar novamente
Eu não sei onde
E não sei quando
Mas eu sei que vamos nos encontrar novamente
Em algum dia ensolarado

Então, querida, Continue sorrindo
Assim como você sempre faz
Até que o céu azul
Afaste as nuvens escuras para longe

E por favor diga olá
Para as pessoas que eu conheço
Diga a eles que eu não demorarei
E eles vão ficar feliz em saber
Que quando você me viu ir
Eu estava cantando esta canção

Nós nos encontraremos de novo
Não sei onde
Não sei quando
Mas eu sei, nós nos encontraremos de novo
Em algum dia ensolarado


“We’ll meet again”, de Vera Lynn

Para finalizar, deixo aqui uma das músicas do Pink Floyd de que mais gosto: “Wish You Were Here”. Ela é a quarta faixa do álbum de estúdio homônimo. Sua letra é uma referência ao primeiro vocalista do grupo, Syd Barrett, embora possa também ser considerada uma expressão de saudade. A letra foi composta pelos geniais David Gilmour e Roger Waters. Essa versão é uma interpretação intimista de Roger Waters, acompanhado por nada menos que Eric Clapton na guitarra, em concerto em prol das vítimas do tsunami na Ásia. Simplesmente fantático!

“Wish you were here”, com Roger Waters e Eric Clapton

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Encontro de Folia de Reis e Pastorinhas

Encontro de Folia de Reis e Pastorinhas em Caetanópolis – MG (Foto de EDN)P1150180

Mais uma vez, neste ano de 2012, como de costume, Caetanópolis foi brindada com o Encontro de Folia de Reis e Pastorinhas, organizado pelo Osmar “Marimbondo”, vereador e grande defensor dessas manifestações culturais.

Esse evento é admirável sob todos os pontos de vista. Mas o que mais me surpreende em relação ao mesmo é a oportunidade de podermos perceber como a tradição oral das Folias de Reis e das Pastorinhas que existem pelo interior de Minas Gerais (e também do Brasil, por que não dizer?) trazem uma diversidade fascinante. Ainda que se mantenham intactos os objetivos e as bases religiosas que norteiam tanto Folias de Reis quanto Pastorinhas, cada uma delas mantém particularidades que estão ligadas, em geral, aos seus membros principais.

Muitos desses grupos são mantidos por uma mesma família ou por amigos que cresceram juntos e aprenderam com seus próprios familiares a tradição. Mesmo que ocorra uma ou outra mudança, até para contextualização e contemporaneidade das apresentações, é possível perceber traços que nos levam à origem comum de todas elas, possivelmente na Idade Média e com forte influência ibérica.

Não sou um profundo estudioso do assunto. Sou mais um curioso e admirador. Ainda vou estudar muito a respeito. Mas a maior fonte que posso buscar conhecimento sempre serão as pessoas. Os “Mestres” que comandam esses grupos de Folia de Reis e Pastorinhas são as melhores fontes de informação que qualquer pessoa interessada pode consultar. E isso merece registro.

Nos meus contatos com pessoas do meio, sempre reforço a necessidade de que cada grupo tenha um registro escrito de como deve se apresentar, do que deve ser dito. E, aproveitando a tecnologia, que sejam feitos registros de áudio e vídeo. É um trabalho, creio eu, que as prefeituras municipais deveriam realizar. Isso deveria, inclusive, ser divulgado em meio eletrônico, em sítios como o YouTube. Fica aqui minha dica a respeito.

Para finalizar, gostaria de deixar um convite ao leitor e à leitora para que pesquise no YouTube e em outros sítios de vídeos os temas “Folia de Reis”, “Reisado” e “Pastorinhas”. É possível perceber a grande diversidade que essa manifestação cultural carrega Brasil afora.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Mar é morada da saudade



  



Sei agora da morte de Cesária Évora. Sei-me instantaneamente triste. Sequer reconheço o que escrever. Cesária era mais que Évora para mim. Um símbolo imprescindível da música negra que transcende o orgulho e a pretensão brasileira. Sou brasileiríssimo, mas Cesária era uma amostra de onde viemos, da negritude orgulhosa da África mãe sofredora. Não tenho palavras... Não tenho mesmo o que dizer. Reproduzirei apenas os mestres. Que eles digam o que sofro com a morte de Cesária... Que alguém leia o que escrevi e entenda a importância que essa mulher teve para toda a lusofonia. Respeito profundamente as mortes concomitantes de Joãosinho Trinta e de Sérgio Brito. Mas meu objeto maior de respeito hoje é dessa mulher que defendeu seu país e toda a diversidade lusófona tão apaixonadamente. Tornou-se mito...

Para rimar e homenagear, ouso, mesmo com rimas longínquas, como nosso respeito e conhecimento por alguém tão importante:

Passou agora Joãosinho Trinta
Passou também o Sérgio Brito
Passou o teatro e o carnaval
Mas passou alguém mais além
Que muitos podem achar ninguém
Cesária Évora nunca foi a tal
Mas há hoje quem ainda a sinta
Cesária Évora foi um mito...



Vozes d'África
(Castro Alves)


Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
- Infinito: galé! ...
Por abutre - me deste o sol candente,
E a terra de Suez - foi a corrente

Que me ligaste ao pé...

O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia...
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais ...
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
- Pagodes colossais...

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! ...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista - corta o mármor de Carrara;
Poetisa - tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã! ...

Sempre a láurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c'roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela - doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...
E nem tenho uma sombra de floresta...
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador...

Quando subo às Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
"Abriga-me, Senhor!..."
Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: "Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz. . . "

Nem veem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim ...
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
Que desce de Efraim.

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!

Foi depois do dilúvio... um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará...
E eu disse ao peregrino fulminado:
"Cão! ... serás meu esposo bem-amado...
- Serei tua Eloá. . . "

Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o Nômada faminto corta as plagas
No rápido corcel.
Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir - Judeu maldito -
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa - arrebatada -
Amestrado falcão! ...

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos - alimária do universo,
Eu - pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço

Perdão p'ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...






Navio Negreiro
(Castro Alves)



I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!


Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...

..........................................................


Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!

Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena

Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,

Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente

Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,

(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),

Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...

III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

V


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.

Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...

... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...

Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.


Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. . .
Prende-os a mesma corrente 
— Férrea, lúgubre serpente — 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute... Irrisão!... 

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! ...

VI
Existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia?
Siêncio. Musa... chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 
Auriiverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 
Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

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Não quero tornar esse post tão longo que seja ilegível... Termino com uma letra de música de Cesária Évora que todos deviam conhecer. Coloco letra e versão, pois o que ela canta é um dialeto de Cabo Verde, sua terra natal. Um dia voltarei a tratar dessa lenda, mais respeitosamente, antes de ter bebido as seis Bohemias que hoje me acompanham nesse post.



Mar e morada de sodade 

Num tardinha na camba di sol 
Mi t'andá na pr'aia de Nantasqued 
Lembra'n praia di Furna Sodade
frontán 'm tchorá Mar é morada di sodade 
El ta separá-no pa terra longe 
El ta separá-no d'nôs mâe, nós amigo 
Sem certeza di torná encontrá 
M'pensá na nha vida mi só 
Sem ninguem di fé, perto di mim 
Pa st'odjá quês ondas ta 'squebrá di mansinho 
Ta trazé-me um dor di sentimento

O mar é a morada da saudade 

Na tardinha, ao pôr do Sol 
Estendido na praia de Nantasqued 
Lembro a praia de Furna 
A saudade faz-me chorar 
O mar é a morada da saudade 
É ele que nos leva para terras distantes 
Ele separa-nos da nossa mãe, 
Dos nossos amigos 
Sem certeza de os tornar a ver 
A pensar na minha vida tão só
Sem ninguém de confiança perto da mim
Olhando as ondas a rebentar de mansinho
Que me trazem um sentimento de dor


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