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quarta-feira, 25 de maio de 2016

História de João Soldado


 Capa de livreto publicado em Portugal em meados do século XX

Uma tradição oral fez chegar ainda aos primeiros anos da minha infância, através do hábito amoroso de meu pai contando histórias aos filhos, a seguinte história. Ouvi-o contá-la com toda a simplicidade da sua linguagem e agora nos vou recordar, procurando reproduzi-la do jeito que ouvi e de que me lembro.

***************

Quando Deus andava pelo mundo, houve um soldado chamado João, que serviu ao rei oito anos, como ordenava a lei e, como não tivesse outros meios de vida, tornou a servir o rei mais oito anos e depois mais oito ainda, até que se fartou da vida militar e pediu a sua baixa. Deixou então o regimento ao fim de vinte e quatro anos de serviço ao rei, recebendo como pagamento apenas um pão e seis dinheiros, que lhe deram quando saiu do quartel. Mas, mesmo tendo deixado o serviço militar, o apelido revelava o que ele tinha sido na maior parte de sua vida: João Soldado.

Assim, foi embora para sua cidade, pensando: “Está bem! Servi ao rei vinte e quatro anos para ganhar um pão e seis dinheiros. Quanto tempo perdido!... Mas há de ser o que Deus quiser, que eu tenho muita esperança que assim será melhor.”

E foi caminhando tranquilo pela estrada que levava à sua cidade. Tinha andado um pedaço de caminho, quando encontrou dois mendigos que lhe pediram esmola. Na verdade, os homens eram Nosso Senhor e São Pedro. João muito admirado com o pedido, já que tinha tão pouco, respondeu:

— Que lhes posso eu dar, eu que servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros, que é tudo o que levo comigo?

Um dos mendigos, que era São Pedro, porém, não se contentou com a resposta, dizendo que qualquer coisa que João tivesse seria mais do que os dois mendigos tinham.
João Soldado, que tinha um grande coração, abriu então o seu embornal[1] surrado, tirou o pão e partiu-o em três partes iguais e deu duas aos pobres viajantes.

Foi andando e, ao fim de uma légua de caminho, encontrou outra vez os mesmos mendigos, que tornaram a pedir-lhe esmola. João, desconfiado, disse-lhes:

— Uai, parece que já dei esmola pra vocês lá atrás, mas, na dúvida, lá vai o resto que tenho, eu que eu servi o rei vinte e quatro anos e só ganhei um pão e seis dinheiros...

Dizendo isso, resignado, repartiu com São Pedro e Nosso Senhor o pedaço de pão que levava. Continuou seu caminho e mais adiante tornaram a aparecer-lhe os dois mendigos, que lhe pediram de novo esmola.

— Vocês outra vez! Se não são os mesmos que eu encontrei há pouco, São muito parecidos... Mas não importa, porque eu não nego o que tenho aos que precisam mais que eu, segundo os ensinamentos de Nosso Senhor. Apesar de ter servido o rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros, vou dar-lhes o que me resta.

Deu então aos mendigos tudo o que lhe restava no embornal. João Soldado então perguntou aos mendigos se não sabiam onde poderia encontrar trabalho, para que pudesse conseguir algum dinheiro para se manter até chegar à sua cidade.

Então, um dos mendigos, que era São Pedro, revelou-se para João Soldado, dizendo quem eles realmente eram. E Nosso Senhor disse ao João Soldado que, por sua generosidade, ele podia pedir o que quisesse. João Soldado ficou muito surpreso e, ao mesmo tempo, lisonjeado por estar na presença de São Pedro e de Nosso Senhor, dizendo que simplesmente fez o que o seu coração mandou.
Depois de pensar um instante no que iria pedir, mostrou a Nosso Senhor o embornal surrado que levava, dizendo:

— Embora não mereça nenhuma coisa, pois já sou muito feliz por ter tido a graça de estar na presença de Nosso Senhor e de São Pedro, peço para que este embornal tenha o poder de que tudo que eu quiser vá dentro dele assim que eu ordenar.

Embora achando estranho o pedido do João Soldado, Nosso Senhor concedeu-lhe o pedido. Ofereceu-lhe também um baralho com o qual ganharia sempre. Em seguida, abençoou o João Soldado, desaparecendo juntamente com São Pedro.

João Soldado, após se recuperar da surpresa, voltou à sua caminhada. Ainda não tinha andado muito, quando, ao entrar na rua de uma cidade, viu na vitrine de uma padaria um apetitoso e cheiroso pão que parecia ter saído do forno naquela hora. João Soldado ouviu seu estômago roncar e lambeu os lábios ao ver aquela delícia, mas não tinha dinheiro para comprar o pão. Então, logo se lembrou do poder do seu embornal. Assim, disse para o pão:

— Pula para dentro do embornal! — como num passe de mágica, o pão desapareceu da vitrine e apareceu dentro do embornal do João Soldado.

O padeiro não percebeu nada e assustou-se quando viu que o pão que estava na vitrine tinha desaparecido. Era quase noite e João Soldado estava cansado de andar todo o dia. Foi então procurar um lugar para dormir, mas só encontrou naquela cidade uma casa que estava desabitada há muito tempo e que ninguém sequer passava perto, porque a casa era mal-assombrada. Dizia-se que era o fantasma do dono que tinha lá morrido, um homem muito malvado e pão-duro. João Soldado gostou daquela história de casa mal-assombrada, porque era muito corajoso.

— Sou um soldado que servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e não tenho medo de nada. Vou para essa casa e quero conhecer esse fantasma.

E foi dormir na casa, ficando muito contente com o que lá encontrou: uma despensa cheia de excelente comida e bebidas finas, além de móveis luxuosos na sala e um quarto com uma cama muito confortável.

— Que mais quero eu? — dizia o João — Eu que servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros, tenho agora aqui, à minha disposição, comida, bebida e uma cama confortável.
E tratou de encher a barriga. Não tinha passado muito tempo que o soldado estava comendo, quando ouviu uma voz pavorosa gritar do alto da chaminé:

— Eu caio!!!...

— Pois pode cair à vontade! Um soldado como eu que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros não tem medo de nada!... — respondeu João Soldado corajosamente, sem parar de comer nem um instante.

Mal tinha acabado de proferir estas palavras viu cair pela chaminé uma perna de homem.

— Olá! Quer ser enterrada? — perguntou zombeteiramente para a perna o João Soldado.

E a perna, levantando o pé indicou com o dedão que não queria ser enterrada.

— Eu caio!!!... — disse de novo a mesma voz fantasmagórica.

— Pode cair quantas vezes quiser! — repetiu o João Soldado — Comigo não tem medo, porque eu sou é muito macho.

E logo viu cair outra perna. Em seguida a voz disse novamente “Eu caio!!!...” e o João Soldado sempre mandando cair, pois ele não tinha medo de nada. Assim, após cada vez que a voz dizia “Eu caio!!!...”, caiu depois um tronco, logo depois um braço, em seguida o outro braço e por fim uma cabeça que completou o corpo. Então, aquele corpo horroroso completo andou para o lado do João Soldado e lhe disse com a mesma voz pavorosa:

— Você é valente, eu reconheço!...

— Como não poderia ser valente um soldado que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros?!... — respondeu João Soldado, muito senhor de si.

Então, o fantasma horroroso disse:

— Se você é pobre, poderá ficar muito rico se fizer o que eu disser.

Mais que depressa, o João Soldado respondeu:

— Prontinho, coisa feia! Estou aqui para o que der e vier.

— Está bem. Venha comigo.

E a alma do outro mundo, seguida do João Soldado, encaminhou-se para o porão que havia por baixo da cozinha, levantou uma grande pedra que tapava uma cova e mostrou ao João Soldado três grandes panelas cheias de dinheiro até a boca.

— Está vendo todo este dinheiro? — disse a alma do outro mundo, encarando o soldado com os seus olhos horríveis que pareciam duas brasas.

— Vejo sim! — disse o João Soldado.

— Pois parte deste dinheiro será para você se cumprir o que eu quero.

— Fale logo, coisa feia! — respondeu resolutamente o João Soldado.

— Divida este dinheiro em três partes. Uma é para dar de esmolas aos pobres; outra é para mandar rezar missas por minha alma; e a terceira parte é para você, se cumprir à risca o que eu pedi. Se você fizer isso, estará salvando minha alma, que o Diabo está doido para levar.

— Dito e feito! — confirmou o soldado — Eu que servi ao rei vinte e quatro anos, por um pão e seis dinheiros, melhor ainda posso cumprir os seus pedidos, com um pagamento tão bom.

E o João foi logo tratar de dar as esmolas aos pobres, e de mandar dizer as missas. Com o dinheiro que restou e que era muito, comprou um bom sítio e nele passou a viver na fartura.

O que o João Soldado é que o Diabo não estava nada satisfeito pelo fato de o João Soldado ter feito o que o fantasma tinha pedido. O Diabo jurou vingar-se do João Soldado, por ele lhe ter tirado a alma do avarento, que afinal se salvou com as esmolas e as missas. Então, o Capeta mandou um diabinho dos mais espertos que tinha no Inferno para lhe trazer para ali o João Soldado.

Certo dia, estava João Soldado sentado sob a sombra de uma goiabeira no seu sítio, muito distraído ouvindo os passarinhos cantar, tomando um delicioso suco de manga geladinho, quando lhe apareceu um homenzinho muito estranho. O homem disse-lhe de forma bem educada:

— Como tem passado, sr. João Soldado? Tudo bem com o sr.?

— Você acabou de chegar e já sabe o meu nome. Eu nunca vi você antes, como me conhece? — respondeu João Soldado, meio desconfiado daquele homenzinho feio. — Sou um homem educado, por isso lhe convido a tomar um pouco de suco de manga.

O diabinho, muito esperto, aceitou a bebida e começou a puxar conversa com o João Soldado, chamando-o para disputar uma partida de baralho. O João Soldado não era bobo e logo desconfiou de alguma treta. Entretanto, concordou com a proposta, pois se lembrou do baralho mágico que tinha ganhado. Além disso, o João Soldado logo desconfiou que aquele homenzinho era um enviado do inferno, pois começou a sentir um cheiro de enxofre horrível. Então, foi logo falando ao diabinho disfarçado:

— Muito bem, vamos jogar! Mas o que vamos apostar, seu diabinho feioso?
O diabinho ficou surpreso. Viu que o João Soldado era mesmo muito esperto e tinha descoberto o seu disfarce. Mas foi logo dizendo:

— Se você perder, eu levo sua alma para o inferno.

— E se eu ganhar, vou lhe dar uma surra que você nunca mais vai me incomodar! — disse o João Soldado — Olhe que eu servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e não tenho medo de nada, muito menos de um diabo como você com essa carinha feia.

O diabinho saracoteou-se muito contente, pois para ele isso era um elogio. Disse então para o João Soldado que ele era um capeta poderoso, enviado pelo próprio Lúcifer, e tinha vindo levá-lo para o inferno e nada poderia evitar isso. Então, João Soldado preparou o embornal e jogou as cartas do seu baralho mágico. O diabinho estava cada vez mais contente, achando que seria muito fácil resolver aquele problema do seu chefe, porque poderia trapacear no jogo com facilidade. Mas o baralho era mesmo abençoado e o diabinho não ganhou sequer uma partida. Ao final do jogo, ainda tentou escapulir, mas o João Soldado pegou o embornal e logo disse, dirigindo-se ao diabinho que tentava fugir:

— Diabinho, pula para dentro deste embornal.

O diabinho rabeou, rogou pragas com palavrões horríveis e soltou um cheiro mais horrível ainda de enxofre e, antes que entrasse para dentro do embornal, prometeu grandes riquezas e honrarias ao João Soldado se o deixasse ir embora. Mas nada adiantou e xingando e esperneando, lá foi para dentro do embornal do João Soldado. Assim que o João Soldado prendeu o diabinho dentro do embornal, começou a bater nele com um pedaço de pau bem grosso, que moeu os ossos do diabinho e o reduziu a um pó tão fino como talco, de modo que o diabinho pôde sair escapando por um buraquinho do embornal e fugiu para o inferno apavorado.

O Diabão já o esperava furioso, pois tinha visto tudo do inferno e esbravejou infernalmente contra o diabinho, por se ter deixado enganar como um bobo pelo atrevido João Soldado que assim zombava do seu poder.

— Quem vai agora buscar esse João Soldado sou eu mesmo! — disse, muito furioso Lúcifer para o diabinho, que estava todo encolhido num canto do inferno, todo dolorido e chorando que dava dó ver.
Naquele momento, o João Soldado estava jantando muito satisfeito, quando ouviu uma batida na porta tão forte que fez estremecer toda a casa.

— Deve ser o Diabão! — pensou João Soldado — Já estava aqui esperando que esse coisa-ruim viesse, depois da peça que preguei ao seu camarada.

E assim era. O Diabão entrou de uma vez e nem esperou o João Soldado abrir a porta, derrubando-a com um chute. Os olhos faiscavam raiva e quando falou, parecia que se abria a boca de um vulcão, vomitando lavas de fogo e enxofre.

— Você vai pagar por tudo que fez ao meu diabinho! — rugiu o Diabo infernalmente.

— Se você vem para cá com essa falta de educação, achando que pode tudo, vai pelo mesmo caminho do seu diabinho! — disse-lhe João Soldado, pondo o embornal já no jeito.

— Isso é que havemos de ver, miserável humano. Desta vez vou levar você para as profundezas, como o maior patife deste mundo. E vou lhe deixar queimando no fogo do inferno.

— Olhe que eu não tenho medo, seu Diabão feioso. Servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e nada me apavora, pois tenho ajuda de quem pode mais, que é Nosso Senhor.

O Diabão ficou ainda mais furioso e rancoroso quando o João Soldado falou de Nosso Senhor e já ia fincar suas unhas no João Soldado, quando ele, dando um pulo para trás, abriu o embornal em frente do Diabão e gritou:

— Já para dentro do embornal, coisa-ruim!

Ouviu se um grande rugido medonho que o Diabo soltou dentro do embornal e, preso dentro do embornal, debatendo-se furiosamente, dava pulos até ao telhado, enquanto o João Soldado, armado de um pedaço de ferro bem pesado, dava cacetadas sem dó no Diabão até moê-lo inteirinho. E o Diabão gritava dentro do embornal, pedindo humildemente por todos os Diabos que o João Soldado o deixasse ir de volta para o inferno. Então o João Soldado disse:

— Ah, já está pedindo misericórdia! Pois então vá para o inferno! — E o João Soldado abriu a boca do embornal, donde saiu o Diabão todo moído e quebrado, com o rabo pendurado e os chifres entortados, mal se podendo arrastar.

Quando o Diabão chegou ao Inferno, estava em tal estado que os diabinhos ficaram morrendo de medo do que ia acontecer. Lúcifer então ordenou que forjassem enormes portões de aço e fabricassem fechaduras bem fortes para trancar as portas do inferno, com medo que o João Soldado lá entrasse atrás dele.

Passado algum tempo, João Soldado se casou com bondosa e linda mulher. Eles tiveram muitos filhos e isso lhe trouxe um grande problema: naquela região onde moravam era difícil conseguir um compadre. Todos os vizinhos já eram seus compadres e alguns já tinham até repetido. Quando nasceu seu último filho, ele avisou à mulher que ia ser muito difícil conseguir um padrinho para a criança.
Um dia, indo pela estrada, ele viu uma figura estranha, a quem o João Soldado chamou e lhe perguntou se queria batizar seu filho. Na verdade, era a Morte, que ficou muito lisonjeada e lhe disse que, embora não gostasse de Igreja, iria até lá para batizar seu filho. Apesar dos protestos da mulher, João Soldado levou o filho para a “comadre” Morte batizar.

Um dia depois, andando pela estrada, a Morte foi ao seu encontro e lhe propôs um trato. Ele se tornaria um curandeiro. Quando chegasse a uma casa e encontrasse a Morte sentada na cabeceira da cama, podia desenganar o doente que esse era dela. Mas, caso a Morte estivesse sentada nos pés da cama, ele podia receitar chás de ervas ou o que quisesse que o doente se curaria. Trato feito, João Soldado começou a curar.

Até que, um belo dia, João Soldado foi chamado à casa de um fazendeiro ricaço. Havia muitos médicos famosos lá, tentando curar o homem. Apesar de os médicos não acreditarem nele, de acharem que aquilo era bobagem, os filhos do fazendeiro haviam resolvido recorrer ao João Soldado. Ao entrar no quarto do doente, João Soldado viu a comadre assentada na cabeceira da cama com uma cara sisuda e logo pensou em como resolver aquela situação. Assim, pediu às pessoas da família que mandassem fazer um “sistema de uma gangorra”. João Soldado instalou aquilo no meio do quarto, pôs o doente em cima e rodou várias vezes. A comadre Morte correu atrás, mas perdeu o doente. João Soldado o curou e ainda ganhou um bom dinheiro da família do fazendeiro.

Um outro dia, andando pela estrada, João Soldado encontrou-se com a Morte, que estava furiosa e pretendia levá-lo. João desculpou-se, dizendo que tinha feito aquilo porque os médicos estavam duvidando dele. Mas, para a Morte, não havia justificativa que valesse. Sendo assim, João lhe disse que não queria morrer em pé e, tirando o embornal, gritou:

— Pula para dentro do embornal, Comadre!

Assim, João Soldado prendeu a Morte. Dependurou o embornal num cômodo do seu sítio, num gancho bem alto e deixou a Morte lá. A partir daí, ninguém morria mais. Inclusive João Soldado e sua mulher, que foram ficando bem velhinhos!

Um belo dia, passando por uma aldeia, uma mulher muito velha acusou-o de ser o culpado por aquela situação. Ela já estava cansada de viver e queria ir para o céu. João Soldado achou que já estava na hora de soltar a Morte, mesmo que ela o levasse. Só que a comadre Morte tinha medo dele e não queria levar o João Soldado com ela... Nem chegava perto dele, com medo de ele prendê-la no embornal novamente.

João Soldado foi ficando muito velho e já queria ir embora. Resolveu então procurar sozinho a porta do céu ou a do inferno. A comadre Morte deu-lhe umas dicas, de longe. A primeira porta que João Soldado encontrou foi a porta do inferno. Mas o capeta não quis deixar João entrar, pois chefão Lúcifer tinha avisado para tomar muito cuidado com o João Soldado, que ele era muito perigoso.
Logo então, João Soldado pôs-se a caminho do Céu. Chegando às portas do Paraíso, bateu e São Pedro perguntou de dentro:

— Quem é?

— Sou eu, o João Soldado, que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros.

São Pedro parecia ter se esquecido do João Soldado que o ajudara e a Nosso Senhor, quando, disfarçados de mendigos, pediram-lhe ajuda. O porteiro do céu disse então ao João Soldado:

— Só por ter servido ao rei vinte e quatro anos, você não pode entrar aqui no Paraíso. O mais importante é quanto serviu a Nosso Senhor! — Respondeu São Pedro, entreabrindo a porta da guarita onde ficava para poder olhar direito o João Soldado.

Este, por sua vez, ficou um pouco bravo e falou:

— Por que isso agora, seu São Pedro? Por que um soldado que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e serviu a Nosso Senhor a vida toda não pode entrar no Paraíso?
São Pedro reconheceu os argumentos, mas achou o João Soldado muito atrevido e resolveu teimar um pouco e não deixá-lo entrar tão facilmente.

Só que o João Soldado era mais teimoso ainda e realmente muito atrevido e, sem respeitar ao as barbas brancas de São Pedro e sua venerável careca, disse a São Pedro que, se ele não o deixasse entrar, iria colocá-lo dentro do embornal. São Pedro então se lembrou do soldado que o tinha ajudado quando estava com Nosso Senhor disfarçados de mendigos e disse-lhe:

— Olhe, que foi por meu pedido que Nosso Senhor lhe deu esse embornal, e você não deve jamais usá-lo contra mim!

— Eu não penso assim! Depende da situação e agora é uma oportunidade ótima. Ou me deixa entrar, ou vai para dentro do embornal! — ameaçou o João Soldado.

E como São Pedro já ia fechar a porta da guarita, sem lhe dar tempo, João Soldado gritou:

— Para dentro do embornal.

São Pedro na mesma hora ficou preso dentro do embornal e o João Soldado entrou no Paraíso. Em seguida, São Pedro gritou:

— Tire-me daqui, que eu lhe deixo ficar aí no céu. Tire-me daqui, antes que alguma alma ruim entre no Paraíso e Nosso Senhor venha me chamar a atenção.
E assim, o João Soldado entrou no céu, ele que serviu ao rei vinte quatro anos por um pão e seis dinheiros. E que serviu a Nosso Senhor por toda a vida.

*****************************

O soldado

por anos de tradição constrói-se um caráter
uma história que ficou na memória
pedaços de um tempo de carinho
à beira de um fogão a lenha
por anos de tradição constrói-se um caráter
uma lembrança que ficou na história
recortes de um tempo de menino
com medo de que algum monstro venha
à noite cair pedaço por pedaço à sua frente
e ele não tem a coragem do João Soldado
e ele não tem um embornal abençoado
na verdade assim se faz a vida da gente
com pedaços de carinhos que acumulamos
com histórias de vidas que aos pouquinhos
economizamos dentro do nosso coração
todas aquelas pessoas que nós amamos
todos aqueles amedrontados menininhos
que se lembram daquele soldado João
que com sua esperteza enganou até a morte
e enfrentou os demônios com coragem e sorte
mas nunca deixou de ter uma boa intenção
e de louvar a Nosso Senhor com devoção
foi ajudando aos outros que se deu bem
e acabou indo parar no Paraíso
e para isso passou por poucas e boas na vida...
por anos de tradição constrói-se um caráter
uma história que ficou na lembrança
pedaços da vida de uma criança
que cresceu mas continua menino
(Enanre Etraud Senun)

[1]substantivo masculino — (I) sacola de pano, couro, ou outro material, com alça longa, us. ger. a tiracolo para se carregar provisões, ferramentas etc. — (II) espécie de saco em que comem as cavalgaduras (retirado do Dicionário Houaiss).


Capa de cordel feito no Nordeste do Brasil

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

20 anos depois...

P7080197

Nesta terça-feira, 07/01/2014, completam-se 20 anos do meu matrimônio. Foi um dia de agradecimentos... Pois só tenho a agradecer a minha esposa, a meus filhos e ao meu Senhor por esses anos maravilhosos de minha vida. O casamento representou para mim um crescimento pessoal magnífico.
 
Na verdade, não tenho muito o que dizer neste post sem ser piegas ou simplesmente “chover no molhado”. Vou reduzi-lo ao mínimo, portanto, nos versos e na canção que, para mim e para minha amada esposa, representam muito tudo o que vivemos...
 
 
Após esse tempo todo”


Após esse tempo todo
posso falar sem medo o quanto amo você
falo assim naturalmente
porque as palavras estão sempre em meus lábios
prontas para serem ditas
mesmo que venham não somente do meu corpo
mas da minha alma


Após esse tempo todo
posso dizer que sou um outro homem
mas ainda me sinto o mesmo de antes
jovem enamorado daquela menina linda
que o olhava com olhos furtivos e tímidos
contudo irradiantes de um amor nascente
amor que permanece ainda no gesto carinhoso
na companhia presente e consistente
na paixão ardente


Após esse tempo todo
temos nossos filhos que completam nossa vida
meninos quase homens
joias que Deus nos concedeu
que aprendem e ensinam a cada dia
lindas lições de amor que se renova
estabelecendo o limite ilimitado do carinho


Após esse tempo todo
resta-me a gratidão profunda
a Deus e à vida que nos permitiram
construir essa família iluminada
pela fé, pelo amor, pelo respeito e pela perseverança


Após todo esse tempo
ainda é muito fácil dizer o quanto amo
a minha linda mulher, minha esposa e companheira
pois cada coisa que faço na vida
é pensar que ser feliz não depende apenas de vontade
mas também da presença de um amor de verdade
um amor que não apenas serve para a rima
um amor que faz meu peito suspirar
todas as vezes que vejo o seu olhar...
 
Há muitas interpretações bacanas, de Geraldo Azevedo a Fagner, mas escolhi Badi Assad pela originalidade com que ela fez a releitura dessa música.


 
 

 

domingo, 2 de setembro de 2012

140 anos da Cedro

Trabalho há quase 30 anos na mais antiga empresa do ramo têxtil do Brasil, a Cedro, que completou no último 12 de agosto 140 anos. Falo com toda a sinceridade que é um orgulho. Meu pai trabalhou por 53 anos na Cedro e, por tudo o que minha família vivenciou, sinto-me muito realizado por trabalhar também nessa empresa.

Meu irmão Joaquim é também colaborador na empresa, trabalhando na coligada Cedronorte, em Pirapora. Ele foi convidado a fazer um discurso no evento de comemoração do aniversário, com a participação da Diretoria e do Conselho Administrativo da Cedro e também de autoridades como o vice-governador e outros. Ficou muito bacana e, para constar, transcrevo o texto do discurso abaixo, juntamente com o vídeo filmado pela esposa do meu irmão.

 

 

Exmo. Sr.

Exma. Sra.

Ilmo. Sr.

Ilma. Sra.

Demais presentes, boa noite!

É com imensa honra que venho representar os colaboradores da Cedro nestes 140 anos. A Cia. de Fiação e Tecidos Cedro e Cachoeira surgiu como um ideal na mente de homens empreendedores, Antônio, Bernardo e Caetano, que tornaram realidade uma empresa construída sobre alicerces maciços, cuja energia principal sempre foi a capacidade e o empenho de seus acionistas, colaboradores e gestores.

Falar da Cedro nestes 140 anos é como contar uma história que se repete geração após geração e que vem perpetuando a empresa e possibilitando o desenvolvimento das comunidades que se formaram ao redor dela.

Falemos, por exemplo, de Caetanópolis, onde foi instalada a primeira unidade da Cedro. Durante muitos anos, Caetanópolis foi conhecida como “Cedro” (e até hoje muitas pessoas a chamam assim) e acabou recebendo o nome de um dos fundadores da empresa, Caetano. A cidade surgiu ao redor da Cedro e desenvolveu-se graças às possibilidades geradas pelos investimentos feitos no parque industrial ali instalado. É inegável a evolução econômica não só da terra de Clara Nunes e berço da indústria têxtil mineira e nacional, mas de toda a região circunvizinha, fruto do crescimento da Cedro.

E esse desenvolvimento se propagou também em outros lugares, como em Pirapora, cuja cidade surgiu a partir da instalação de um armazém para comercialização de tecidos da Cedro e compra de algodão , aproveitando os vapores que navegavam pela hidrovia do rio São Francisco.

Mas o valor mais importante deixado pela empresa é o capital humano. As diversas gerações de colaboradores que hoje trabalham na empresa falam com orgulho da oportunidade de terem criado suas famílias com o fruto do seu trabalho na Cedro. Desse grupo, faço parte.

A história da Cedro se confunde com a minha e com a de muitos de vocês aqui presentes. Acredito que, assim como meu pai, que trabalhou 53 anos na Cedro, temos vários outros exemplos de famílias com várias gerações construindo suas vidas nesta empresa. Hoje, com 32 anos de empresa, sinto-me como se estivesse com meus 15 anos, quando fui admitido.

Essa emoção, tenho certeza, passou por muitos que aqui estão hoje, que aqui, ainda jovens, iniciaram sua jornada e cresceram dentro da Cedro, conheceram seus amigos, constituíram família, enfim, viveram. E a Cedro, cheia de vida nestes 140 anos, consegue ser lembrada como uma das importantes indústrias têxteis do Brasil e caminha firmemente para ser, de fato, a melhor.

Para terminar, quero deixar alguns versos que tentam sintetizar o que representa a Cedro, tenho certeza, para mim e para os colaboradores que dela fazem parte:

Tecendo a vida”

Fazer o algodão do sonho transformar-se

no fio consistente da realidade

Tecer a vida com a trama do tempo

e o urdume da perseverança

Tingir o tecido com a cor do sucesso

Vestir a alma da gente com a esperança

Cedro: 140 anos tecendo histórias de vida!

(enanre etraud)

*******

Boa noite!

 

Joaquim discursando no evento de 140 anos da Cedro

domingo, 6 de maio de 2012

Crônica de vida e trabalho


Era um garoto tímido. Extremamente magro, o menino sempre teve dificuldade em socializar-se. Ele acordou cedo naquele dia. Afinal, seria seu primeiro dia de trabalho. Já tinha o costume de acordar cedo, mas naquela segunda-feira não conseguiu passar das 5h da manhã. Foi ao quintal, buscou um pouco de lenha e acendeu a fornalha. Voltou para tratar das galinhas, dos porcos e do seu cachorro fila. Foi até o córrego que passava no fundo de casa conferir as varas e as linhas de espera e um bagre de bom tamanho juntamente com um douradinho estavam presos e iriam servir para o almoço. Trouxe-os e os jogou no poço onde mantinha os peixes vivos, debaixo do pé de manga-espada. Enquanto isso, sua mãe preparava o café e seu pai ouvia o programa do Zé Bettio no rádio.

O coração do menino batia ansioso pela expectativa. O apito da fábrica às seis horas da manhã acelerou as batidas e iniciou uma contagem regressiva. Às 06h40min o pai chamou: “Vamos pegar no batente?” O coração já não se continha. Um abraço e um beijo na mãe e o pedido de bênção, deixando a casa. Seguiram pelos fundos da casa, para um potãozinho por onde o pai passava todos os dias. O pai era o único funcionário da empresa que não passava pela portaria, tamanha era a confiança do gerente da fábrica. Estava fazendo muito frio naquele dia de junho. Mas o menino sentia calor, aquecido pela ansiedade.

Marcou o cartão, como o pai lhe ensinou e aguardou a chegada do monitor de treinamento que o levaria à seção e lhe mostraria o que fazer. Foi direto para o setor de trabalho e começou sua aprendizagem. As primeiras quatro horas passaram rapidamente e logo chegou a hora do almoço. Fez o caminho de volta para casa em silêncio com o pai, que não lhe perguntou como foram as primeiras horas. Mas a mãe sim. Entretanto, como o tempo para o almoço era exíguo, não teve muito o que falar. Voltou para as quatro horas restantes, que também passaram rapidamente e logo retornou para casa. O pai continuava em silêncio e nada perguntara.

Mais uma vez, não havia muito tempo para conversar. Tinha que tomar banho logo e seguir para a escola a pé, numa caminhada de cerca de quarenta minutos. Antes ia de bicicleta, mas agora não mais podia guardá-la dentro da escola. A possibilidade de a roubarem era grande e não valia a pena arriscar. Então, ele e mais dois colegas vizinhos iam a pé todos os dias. Às vezes ganhavam carona na ida e na volta, embora nem sempre.

Quando chegou da escola às 23h, o pai o esperava com a mãe. A janta estava no canto do fogão a lenha e, enquanto comia, o pai lhe perguntou finalmente como fora o dia. Uma alegria silenciosa invadiu o peito do menino. Contou ao pai sobre seu entusiasmo e o que aprendera. Contou como se impressionou com aquelas máquinas que transformavam algodão em fio. Mostrou ao pai e à mãe as queimaduras nas mãos, com todo o orgulho de um trabalhador pelos calos que cultiva ao longo de sua jornada. O pai sorria, com um olhar satisfeito para o filho. Findo o jantar, bênção de pai e mãe. O menino já não se sentia mais assim. Orgulhoso, dormiria naquela noite o sono de um homem.


**********************************************

“O sono de um homem”

o sono de um homem é repleto de expectativas
de um dia seguinte melhor que o que passou
ninguém jamais saberá tudo o que povoa sua cabeça
nem mesmo ele próprio o sabe em sua plenitude

pensamentos são velozes e sinuosos
silentes, não alardeiam sua presença
aguardam o momento de serem percebidos
na tênue hora do sono cansado

o sonho é então um pensamento que amadurece
e penetra profundamente no coração do homem
ao invadir seu íntimo
transforma-se em parte de sua alma
e passa a ser a imagem mais perfeita
da esperança...
(Enanre Etraud)


***************************

Para finalizar, deixo cá os versos do grande Fernando Pessoa, no seu heterônimo Álvaro de Campos, sobre o sono:

O Sono

O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono!...

Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa), in “Poemas”

Pai e filho enxada

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pink Floyd e quem foi Vera Lynn



Pink Floyd
O Pink Floyd
Vera lynn
Vera Lynn

Sempre gostei da banda inglesa Pink Floyd. Desde que me entendo por gente aprendi a gostar do seu som original e de suas apresentações impressionantes. Tenho praticamente toda a discografia da banda, desde que Syd Barret era vocalista. O álbum mais conhecido da banda é, sem dúvida, “The Wall”, de 1979. Esse álbum acabou se transformando em um filme instigante de Alan Parker, a que tive a oportunidade de assistir no Cine Pepino, em Sete Lagoas, como parte de um trabalho para a saudosa Mírian Tanure, professora de inglês do meu curso de Letras.

Outro dia, entretanto, aprendi algo para o qual não tinha atinado: a referência à cantora inglesa Vera Lyn (nascida em Londres, em 20/03/1917), que foi muito famosa durante a Segunda Guerra Mundial. Seu repertório quase sempre fazia alusão à temática de soldados que foram para a luta. O início do filme de Alan Parker mostra uma radiola tocando uma música dela. No filme também podemos ouvir uma referência a uma de suas músicas mais famosas, “We´ll meet again”, logo após “Vera” — além disso, no final, traz a bela “Bring the boys back home”, com um coral (era comum aparecerem corais nas músicas de Vera Lynn). Aliás, A cantora acabou se tornando “Dame” Vera Lynn, uma homenagem da rainha por sua contribuição cultural. Vale a pena ressaltar que, recentemente, em setembro de 2009,foi lançado o álbum “We´ll meet again - The very best of Vera Lynn”, uma coletânea de suas músicas mais conhecidas, atingiu 1º lugar na lista dos mais vendidos na Inglaterra. Isso mostra a importância de Vera Lynn no país. Se quiserem saber mais, cliquem aqui.

Para nos situarmos a respeito, deixo aos leitores desse post algumas referências ao que relatei acima:

Vera
Pink Floyd
Does anybody here remember Vera Lynn
Remember how she said that
We would meet again
Some sunny day
Vera! Vera!
What has become of you
Does anybody else in here
Feel the way I do ?
Alguém aqui se lembra de Vera Lynn?
Se lembra como ela disse que
Nos encontraríamos novamente
Num dia ensolarado
Vera! Vera!
O que aconteceu com você?
Alguém por aqui
Sente o mesmo que eu?

“Vera” / “Bring the boys back home”


We’ll Meet Again
Vera Lynn


We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day

Keep smiling through
Just like you always do
'Till the blue skies
Drive the dark clouds far away

So, will you please say hello
To the folks that I know
Tell them I won't be long
They'll be happy to know
That as you saw me go
I was singing this song

We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day

We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day

So, Darling, keep smiling through
Just like you always do
'Till the blue skies
Drive the dark clouds far away

So, will you please say hello
To the folks that I know
Tell them I won't be long
They'll be happy to know
That as you saw me go
I was singing this song

We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day...
Vamos Nos Encontrar Novamente
Vera Lynn


Vamos nos encontrar novamente
Não sei onde
Não sei quando
Mas eu sei, vamos nos encontrar novamente
Em algum dia ensolarado

Continue sorrindo
Assim como você sempre faz
Até que o céu azul afaste
As nuvens escuras para longe

E por favor diga olá
Para as pessoas que eu conheço
Diga a eles que eu não demorarei
E eles vão ficar feliz em saber
Que quando você me viu ir
Eu estava cantando esta canção

Vamos nos encontrar novamente
Não sei onde
Não sei quando
Mas eu sei, vamos nos encontrar novamente
Em algum dia ensolarado

Sim, vamos nos encontrar novamente
Eu não sei onde
E não sei quando
Mas eu sei que vamos nos encontrar novamente
Em algum dia ensolarado

Então, querida, Continue sorrindo
Assim como você sempre faz
Até que o céu azul
Afaste as nuvens escuras para longe

E por favor diga olá
Para as pessoas que eu conheço
Diga a eles que eu não demorarei
E eles vão ficar feliz em saber
Que quando você me viu ir
Eu estava cantando esta canção

Nós nos encontraremos de novo
Não sei onde
Não sei quando
Mas eu sei, nós nos encontraremos de novo
Em algum dia ensolarado


“We’ll meet again”, de Vera Lynn

Para finalizar, deixo aqui uma das músicas do Pink Floyd de que mais gosto: “Wish You Were Here”. Ela é a quarta faixa do álbum de estúdio homônimo. Sua letra é uma referência ao primeiro vocalista do grupo, Syd Barrett, embora possa também ser considerada uma expressão de saudade. A letra foi composta pelos geniais David Gilmour e Roger Waters. Essa versão é uma interpretação intimista de Roger Waters, acompanhado por nada menos que Eric Clapton na guitarra, em concerto em prol das vítimas do tsunami na Ásia. Simplesmente fantático!

“Wish you were here”, com Roger Waters e Eric Clapton

sábado, 24 de dezembro de 2011

Se John Lennon não tivesse morrido

Nesta manhã de sábado, véspera natalina, assisti novamente ao filme “Assassinato de John Lennon”, um filme instigante que invade a cabeça perturbada de Mark David Chapman, o assassino. O britânico Andrew Piddington, diretor do filme, tenta recriar os planos diabólicos do maníaco narcisista para se tornar famoso, acabando com a vida de Lennon. O ator Jonas Ball, à época pouco conhecido, faz uma interpretação assustadora do maluco que encerrou a vida de um artista e do homem que marcou várias gerações mundo afora. Se quiser saber detalhes desse triste episódio, basta clicar aqui. Inclusive, a cena do filme está no Youtube. 

Mas não é sobre isso que quero falar, exatamente. queria falar de uma ideia que me passou pela cabeça: se John não tivesse morrido? Como seria sua carreira posterior a tudo isso. Como se passaram 30 anos desse triste episódio, resolvi escrever um post somente sobre o que ocorreria nos oito primeiros anos após o que seria a tentativa frustrada de Chapman. Vejamos então…

“Se John Lennon não tivesse morrido”

Depois de ter sobrevivido à tentativa de assassinato, John Lennon resolveu dar um tempo em sua carreira. Passou uma semana em coma e três meses internado no hospital, mas conseguiu sobreviver sem sequelas físicas aos tiros do maníaco, cujo nome não gostava de ouvir, o que mostrava que as marcas psicológicas ficariam indelevelmente em sua alma. 

John e Yoko foram para o Japão com o filho Sean. Billy Preston, Paul, George e Ringo foram ficar com ele por várias semanas. Surgiu o boato de que se reuniriam novamente, o que foi negado veemente por todos. Mas não restava dúvidas de que o que acontecera com John os reunira novamente, não como artistas, mas como amigos. A perspectiva de perder John foi algo que mexeu com todos eles.

As várias semanas juntos evidentemente dariam frutos: muitas canções foram compostas. Combinaram que seriam lançados álbuns individuais com elas. Paul lançou em 12 de setembro de 1982 o LP “Ressurrection”, cuja música principal, “Little bird”, tinha o seguinte trecho: “We’re just men who fight for peace / Hold me in your wings, little dove / We can’t fight anymore / We can just sleep and dream…” (“Somos apenas homens que lutam por paz /  Abrace-me em suas asas, pombinha / Nós não podemos lutar mais /  Só queremos dormir e sonhar…”).

George também lançou, alguns dias depois, em 27 de setembro de 1982, um LP que tinha como música principal a angustiada canção “Pain”, acompanhada por um solo maravilhoso da guitarra do amigo Eric Clapton no trecho: “My heart bleeds of pain / I imagine another song / People would be happy and can / Make different things as love each other…” (Meu coração sangra de dor / Eu imaginei uma outra canção / As pessoas seriam felizes e poderiam / Fazer coisas diferentes como amar um ao outro…”).

Ringo demorou mais de um ano para gravar um novo LP, mas quando o fez, em 22 de fevereiro de 1983, apareceram várias canções, com destaque para a alegre “The yes song”, que dizia “We have many reasons to laugh / including the fact of being alive / then we go to another level, where the angels sing live life…” (“nós temos vários motivos para rir / inclusive o fato de estarmos vivos / nós vamos então para outro nível / onde os anjos cantam ao vivo a vida…”).

Billy Preston, por sua vez, foi convidado por John para gravar com ele seu novo LP, após quatro anos, em 1985. O LP foi lançado no dia 6 de janeiro, mostrando um novo lado interessante de John Lennon: ele tinha se tornado um estudioso da história das religiões e isso aparecia em várias canções. Inclusive, a escolha da data de lançamento tinha a ver com a história dos Reis Magos do Oriente que visitaram Jesus em Belém. O disco se chamava, aliás, “Journey”, que relatava a jornada de John Lennon até aquele momento. A participação de seu filho Julian, então com 22 anos, foi maravilhosa. O sucesso foi estrondoso. Tornou-se o disco mais vendido da história, com vários prêmios mundo afora. John, no entanto, continuava sem dar entrevistas e raramente era visto em público. Mas era respeitado por sua posição. A música que mais se destacou no disco, “Trip”, revelava o seu sentimento e, de certa forma, justificava essa ausência: “Now, I know I have fear/ I made a trip to paradise / But God wanted me to be here / I do not remember the way / But this man is separated / From myth that I became a day…” (“Eu agora tenho muito medo / Eu fiz uma viagem ao paraíso / Mas Deus quis que eu estivesse aqui / Eu não me lembro do caminho / Porém este homem está separado / Do mito que me tornei um dia…”).

John continua recluso. Não está mais no Japão. Dizem que vive viajando. Por volta de 1987, dizem tê-lo visto em duas pequenas cidades do interior de Minas Gerais, no Brasil. Caetanópolis e Paraopeba chamaram-lhe a atenção pelo contato que ele teve com Mílton Nascimento, o Bituca, que lhe contou a história de Clara Nunes, sua amiga e a maior cantora do Brasil até os anos atuais. Inclusive, Clara recebera o Grammy em 2011 pelo conjunto da obra e uma de suas principais interpretações, do compositor mineiro Armando Fernandes Aguiar (Mamão), “Tristeza Pé no Chão”, teve uma versão maravilhosa da dupla Julian e Sean Lennon, que se apaixonaram pela música brasileira e gravaram em português, porque não conseguiram traduzir a saudade: “Dei um aperto de saudade no meu tamborim / Molhei o pano da cuíca com as minhas lágrimas / Dei meu tempo de espera para a marcação e cantei / A minha vida na avenida sem empolgação…”

*********************

Realmente, não dá para traduzir a saudade. Temos saudade de John e de tudo o que ele representou. Essa época do ano sempre serve para lembrar disso.

Deixo ao leitor meus desejos de boas festas, que o Natal seja de muita felicidade e reflexão a respeito da figura do aniversariante e do que Ele representou. Ele é mais popular que os Beatles. Digo isso dentro do contexto.

Feliz Natal! Feliz 2012!

Jesus e Lennon

sábado, 17 de dezembro de 2011

Mar é morada da saudade



  



Sei agora da morte de Cesária Évora. Sei-me instantaneamente triste. Sequer reconheço o que escrever. Cesária era mais que Évora para mim. Um símbolo imprescindível da música negra que transcende o orgulho e a pretensão brasileira. Sou brasileiríssimo, mas Cesária era uma amostra de onde viemos, da negritude orgulhosa da África mãe sofredora. Não tenho palavras... Não tenho mesmo o que dizer. Reproduzirei apenas os mestres. Que eles digam o que sofro com a morte de Cesária... Que alguém leia o que escrevi e entenda a importância que essa mulher teve para toda a lusofonia. Respeito profundamente as mortes concomitantes de Joãosinho Trinta e de Sérgio Brito. Mas meu objeto maior de respeito hoje é dessa mulher que defendeu seu país e toda a diversidade lusófona tão apaixonadamente. Tornou-se mito...

Para rimar e homenagear, ouso, mesmo com rimas longínquas, como nosso respeito e conhecimento por alguém tão importante:

Passou agora Joãosinho Trinta
Passou também o Sérgio Brito
Passou o teatro e o carnaval
Mas passou alguém mais além
Que muitos podem achar ninguém
Cesária Évora nunca foi a tal
Mas há hoje quem ainda a sinta
Cesária Évora foi um mito...



Vozes d'África
(Castro Alves)


Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
- Infinito: galé! ...
Por abutre - me deste o sol candente,
E a terra de Suez - foi a corrente

Que me ligaste ao pé...

O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia...
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais ...
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
- Pagodes colossais...

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! ...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista - corta o mármor de Carrara;
Poetisa - tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã! ...

Sempre a láurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c'roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela - doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...
E nem tenho uma sombra de floresta...
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador...

Quando subo às Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
"Abriga-me, Senhor!..."
Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: "Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz. . . "

Nem veem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim ...
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
Que desce de Efraim.

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!

Foi depois do dilúvio... um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará...
E eu disse ao peregrino fulminado:
"Cão! ... serás meu esposo bem-amado...
- Serei tua Eloá. . . "

Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o Nômada faminto corta as plagas
No rápido corcel.
Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir - Judeu maldito -
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa - arrebatada -
Amestrado falcão! ...

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos - alimária do universo,
Eu - pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço

Perdão p'ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...






Navio Negreiro
(Castro Alves)



I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!


Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...

..........................................................


Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!

Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena

Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,

Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente

Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,

(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),

Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...

III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

V


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.

Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...

... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...

Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.


Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. . .
Prende-os a mesma corrente 
— Férrea, lúgubre serpente — 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute... Irrisão!... 

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! ...

VI
Existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia?
Siêncio. Musa... chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 
Auriiverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 
Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

*****************

Não quero tornar esse post tão longo que seja ilegível... Termino com uma letra de música de Cesária Évora que todos deviam conhecer. Coloco letra e versão, pois o que ela canta é um dialeto de Cabo Verde, sua terra natal. Um dia voltarei a tratar dessa lenda, mais respeitosamente, antes de ter bebido as seis Bohemias que hoje me acompanham nesse post.



Mar e morada de sodade 

Num tardinha na camba di sol 
Mi t'andá na pr'aia de Nantasqued 
Lembra'n praia di Furna Sodade
frontán 'm tchorá Mar é morada di sodade 
El ta separá-no pa terra longe 
El ta separá-no d'nôs mâe, nós amigo 
Sem certeza di torná encontrá 
M'pensá na nha vida mi só 
Sem ninguem di fé, perto di mim 
Pa st'odjá quês ondas ta 'squebrá di mansinho 
Ta trazé-me um dor di sentimento

O mar é a morada da saudade 

Na tardinha, ao pôr do Sol 
Estendido na praia de Nantasqued 
Lembro a praia de Furna 
A saudade faz-me chorar 
O mar é a morada da saudade 
É ele que nos leva para terras distantes 
Ele separa-nos da nossa mãe, 
Dos nossos amigos 
Sem certeza de os tornar a ver 
A pensar na minha vida tão só
Sem ninguém de confiança perto da mim
Olhando as ondas a rebentar de mansinho
Que me trazem um sentimento de dor


*****************