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sábado, 1 de julho de 2017

Retomar



Tanto tempo nada publico, que resolvi fazê-lo entre os apertos que a vida de professor nos traz. Pensei em fazê-lo sucintamente, apenas por manter esse espaço ativo, ainda que tão poucos o têm lido, talvez até mesmo pela distância entre publicações. É compreensível e nada tenho a fazer senão retomar, se é que acredito que aqui ainda posso encontrar condições para expressar um pouco de minhas impressões sobre a vida.

São tantas as coisas sobre as quais poderia falar, mas poucas valem a pena neste momento de pouca inspiração: política, futebol, filosofia, reflexões sobre a vida... Enfim, tantas que não falarei de nenhuma delas.

Prefiro trazer aqui simplesmente uma música que, para mim, aqui e agora, em que a estou ouvindo, remeteu-me a este espaço novamente, sem que eu saiba o porquê. Ela diz tudo e basta a si própria, se é que NÃO me entendem...



quarta-feira, 25 de maio de 2016

História de João Soldado


 Capa de livreto publicado em Portugal em meados do século XX

Uma tradição oral fez chegar ainda aos primeiros anos da minha infância, através do hábito amoroso de meu pai contando histórias aos filhos, a seguinte história. Ouvi-o contá-la com toda a simplicidade da sua linguagem e agora nos vou recordar, procurando reproduzi-la do jeito que ouvi e de que me lembro.

***************

Quando Deus andava pelo mundo, houve um soldado chamado João, que serviu ao rei oito anos, como ordenava a lei e, como não tivesse outros meios de vida, tornou a servir o rei mais oito anos e depois mais oito ainda, até que se fartou da vida militar e pediu a sua baixa. Deixou então o regimento ao fim de vinte e quatro anos de serviço ao rei, recebendo como pagamento apenas um pão e seis dinheiros, que lhe deram quando saiu do quartel. Mas, mesmo tendo deixado o serviço militar, o apelido revelava o que ele tinha sido na maior parte de sua vida: João Soldado.

Assim, foi embora para sua cidade, pensando: “Está bem! Servi ao rei vinte e quatro anos para ganhar um pão e seis dinheiros. Quanto tempo perdido!... Mas há de ser o que Deus quiser, que eu tenho muita esperança que assim será melhor.”

E foi caminhando tranquilo pela estrada que levava à sua cidade. Tinha andado um pedaço de caminho, quando encontrou dois mendigos que lhe pediram esmola. Na verdade, os homens eram Nosso Senhor e São Pedro. João muito admirado com o pedido, já que tinha tão pouco, respondeu:

— Que lhes posso eu dar, eu que servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros, que é tudo o que levo comigo?

Um dos mendigos, que era São Pedro, porém, não se contentou com a resposta, dizendo que qualquer coisa que João tivesse seria mais do que os dois mendigos tinham.
João Soldado, que tinha um grande coração, abriu então o seu embornal[1] surrado, tirou o pão e partiu-o em três partes iguais e deu duas aos pobres viajantes.

Foi andando e, ao fim de uma légua de caminho, encontrou outra vez os mesmos mendigos, que tornaram a pedir-lhe esmola. João, desconfiado, disse-lhes:

— Uai, parece que já dei esmola pra vocês lá atrás, mas, na dúvida, lá vai o resto que tenho, eu que eu servi o rei vinte e quatro anos e só ganhei um pão e seis dinheiros...

Dizendo isso, resignado, repartiu com São Pedro e Nosso Senhor o pedaço de pão que levava. Continuou seu caminho e mais adiante tornaram a aparecer-lhe os dois mendigos, que lhe pediram de novo esmola.

— Vocês outra vez! Se não são os mesmos que eu encontrei há pouco, São muito parecidos... Mas não importa, porque eu não nego o que tenho aos que precisam mais que eu, segundo os ensinamentos de Nosso Senhor. Apesar de ter servido o rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros, vou dar-lhes o que me resta.

Deu então aos mendigos tudo o que lhe restava no embornal. João Soldado então perguntou aos mendigos se não sabiam onde poderia encontrar trabalho, para que pudesse conseguir algum dinheiro para se manter até chegar à sua cidade.

Então, um dos mendigos, que era São Pedro, revelou-se para João Soldado, dizendo quem eles realmente eram. E Nosso Senhor disse ao João Soldado que, por sua generosidade, ele podia pedir o que quisesse. João Soldado ficou muito surpreso e, ao mesmo tempo, lisonjeado por estar na presença de São Pedro e de Nosso Senhor, dizendo que simplesmente fez o que o seu coração mandou.
Depois de pensar um instante no que iria pedir, mostrou a Nosso Senhor o embornal surrado que levava, dizendo:

— Embora não mereça nenhuma coisa, pois já sou muito feliz por ter tido a graça de estar na presença de Nosso Senhor e de São Pedro, peço para que este embornal tenha o poder de que tudo que eu quiser vá dentro dele assim que eu ordenar.

Embora achando estranho o pedido do João Soldado, Nosso Senhor concedeu-lhe o pedido. Ofereceu-lhe também um baralho com o qual ganharia sempre. Em seguida, abençoou o João Soldado, desaparecendo juntamente com São Pedro.

João Soldado, após se recuperar da surpresa, voltou à sua caminhada. Ainda não tinha andado muito, quando, ao entrar na rua de uma cidade, viu na vitrine de uma padaria um apetitoso e cheiroso pão que parecia ter saído do forno naquela hora. João Soldado ouviu seu estômago roncar e lambeu os lábios ao ver aquela delícia, mas não tinha dinheiro para comprar o pão. Então, logo se lembrou do poder do seu embornal. Assim, disse para o pão:

— Pula para dentro do embornal! — como num passe de mágica, o pão desapareceu da vitrine e apareceu dentro do embornal do João Soldado.

O padeiro não percebeu nada e assustou-se quando viu que o pão que estava na vitrine tinha desaparecido. Era quase noite e João Soldado estava cansado de andar todo o dia. Foi então procurar um lugar para dormir, mas só encontrou naquela cidade uma casa que estava desabitada há muito tempo e que ninguém sequer passava perto, porque a casa era mal-assombrada. Dizia-se que era o fantasma do dono que tinha lá morrido, um homem muito malvado e pão-duro. João Soldado gostou daquela história de casa mal-assombrada, porque era muito corajoso.

— Sou um soldado que servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e não tenho medo de nada. Vou para essa casa e quero conhecer esse fantasma.

E foi dormir na casa, ficando muito contente com o que lá encontrou: uma despensa cheia de excelente comida e bebidas finas, além de móveis luxuosos na sala e um quarto com uma cama muito confortável.

— Que mais quero eu? — dizia o João — Eu que servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros, tenho agora aqui, à minha disposição, comida, bebida e uma cama confortável.
E tratou de encher a barriga. Não tinha passado muito tempo que o soldado estava comendo, quando ouviu uma voz pavorosa gritar do alto da chaminé:

— Eu caio!!!...

— Pois pode cair à vontade! Um soldado como eu que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros não tem medo de nada!... — respondeu João Soldado corajosamente, sem parar de comer nem um instante.

Mal tinha acabado de proferir estas palavras viu cair pela chaminé uma perna de homem.

— Olá! Quer ser enterrada? — perguntou zombeteiramente para a perna o João Soldado.

E a perna, levantando o pé indicou com o dedão que não queria ser enterrada.

— Eu caio!!!... — disse de novo a mesma voz fantasmagórica.

— Pode cair quantas vezes quiser! — repetiu o João Soldado — Comigo não tem medo, porque eu sou é muito macho.

E logo viu cair outra perna. Em seguida a voz disse novamente “Eu caio!!!...” e o João Soldado sempre mandando cair, pois ele não tinha medo de nada. Assim, após cada vez que a voz dizia “Eu caio!!!...”, caiu depois um tronco, logo depois um braço, em seguida o outro braço e por fim uma cabeça que completou o corpo. Então, aquele corpo horroroso completo andou para o lado do João Soldado e lhe disse com a mesma voz pavorosa:

— Você é valente, eu reconheço!...

— Como não poderia ser valente um soldado que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros?!... — respondeu João Soldado, muito senhor de si.

Então, o fantasma horroroso disse:

— Se você é pobre, poderá ficar muito rico se fizer o que eu disser.

Mais que depressa, o João Soldado respondeu:

— Prontinho, coisa feia! Estou aqui para o que der e vier.

— Está bem. Venha comigo.

E a alma do outro mundo, seguida do João Soldado, encaminhou-se para o porão que havia por baixo da cozinha, levantou uma grande pedra que tapava uma cova e mostrou ao João Soldado três grandes panelas cheias de dinheiro até a boca.

— Está vendo todo este dinheiro? — disse a alma do outro mundo, encarando o soldado com os seus olhos horríveis que pareciam duas brasas.

— Vejo sim! — disse o João Soldado.

— Pois parte deste dinheiro será para você se cumprir o que eu quero.

— Fale logo, coisa feia! — respondeu resolutamente o João Soldado.

— Divida este dinheiro em três partes. Uma é para dar de esmolas aos pobres; outra é para mandar rezar missas por minha alma; e a terceira parte é para você, se cumprir à risca o que eu pedi. Se você fizer isso, estará salvando minha alma, que o Diabo está doido para levar.

— Dito e feito! — confirmou o soldado — Eu que servi ao rei vinte e quatro anos, por um pão e seis dinheiros, melhor ainda posso cumprir os seus pedidos, com um pagamento tão bom.

E o João foi logo tratar de dar as esmolas aos pobres, e de mandar dizer as missas. Com o dinheiro que restou e que era muito, comprou um bom sítio e nele passou a viver na fartura.

O que o João Soldado é que o Diabo não estava nada satisfeito pelo fato de o João Soldado ter feito o que o fantasma tinha pedido. O Diabo jurou vingar-se do João Soldado, por ele lhe ter tirado a alma do avarento, que afinal se salvou com as esmolas e as missas. Então, o Capeta mandou um diabinho dos mais espertos que tinha no Inferno para lhe trazer para ali o João Soldado.

Certo dia, estava João Soldado sentado sob a sombra de uma goiabeira no seu sítio, muito distraído ouvindo os passarinhos cantar, tomando um delicioso suco de manga geladinho, quando lhe apareceu um homenzinho muito estranho. O homem disse-lhe de forma bem educada:

— Como tem passado, sr. João Soldado? Tudo bem com o sr.?

— Você acabou de chegar e já sabe o meu nome. Eu nunca vi você antes, como me conhece? — respondeu João Soldado, meio desconfiado daquele homenzinho feio. — Sou um homem educado, por isso lhe convido a tomar um pouco de suco de manga.

O diabinho, muito esperto, aceitou a bebida e começou a puxar conversa com o João Soldado, chamando-o para disputar uma partida de baralho. O João Soldado não era bobo e logo desconfiou de alguma treta. Entretanto, concordou com a proposta, pois se lembrou do baralho mágico que tinha ganhado. Além disso, o João Soldado logo desconfiou que aquele homenzinho era um enviado do inferno, pois começou a sentir um cheiro de enxofre horrível. Então, foi logo falando ao diabinho disfarçado:

— Muito bem, vamos jogar! Mas o que vamos apostar, seu diabinho feioso?
O diabinho ficou surpreso. Viu que o João Soldado era mesmo muito esperto e tinha descoberto o seu disfarce. Mas foi logo dizendo:

— Se você perder, eu levo sua alma para o inferno.

— E se eu ganhar, vou lhe dar uma surra que você nunca mais vai me incomodar! — disse o João Soldado — Olhe que eu servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e não tenho medo de nada, muito menos de um diabo como você com essa carinha feia.

O diabinho saracoteou-se muito contente, pois para ele isso era um elogio. Disse então para o João Soldado que ele era um capeta poderoso, enviado pelo próprio Lúcifer, e tinha vindo levá-lo para o inferno e nada poderia evitar isso. Então, João Soldado preparou o embornal e jogou as cartas do seu baralho mágico. O diabinho estava cada vez mais contente, achando que seria muito fácil resolver aquele problema do seu chefe, porque poderia trapacear no jogo com facilidade. Mas o baralho era mesmo abençoado e o diabinho não ganhou sequer uma partida. Ao final do jogo, ainda tentou escapulir, mas o João Soldado pegou o embornal e logo disse, dirigindo-se ao diabinho que tentava fugir:

— Diabinho, pula para dentro deste embornal.

O diabinho rabeou, rogou pragas com palavrões horríveis e soltou um cheiro mais horrível ainda de enxofre e, antes que entrasse para dentro do embornal, prometeu grandes riquezas e honrarias ao João Soldado se o deixasse ir embora. Mas nada adiantou e xingando e esperneando, lá foi para dentro do embornal do João Soldado. Assim que o João Soldado prendeu o diabinho dentro do embornal, começou a bater nele com um pedaço de pau bem grosso, que moeu os ossos do diabinho e o reduziu a um pó tão fino como talco, de modo que o diabinho pôde sair escapando por um buraquinho do embornal e fugiu para o inferno apavorado.

O Diabão já o esperava furioso, pois tinha visto tudo do inferno e esbravejou infernalmente contra o diabinho, por se ter deixado enganar como um bobo pelo atrevido João Soldado que assim zombava do seu poder.

— Quem vai agora buscar esse João Soldado sou eu mesmo! — disse, muito furioso Lúcifer para o diabinho, que estava todo encolhido num canto do inferno, todo dolorido e chorando que dava dó ver.
Naquele momento, o João Soldado estava jantando muito satisfeito, quando ouviu uma batida na porta tão forte que fez estremecer toda a casa.

— Deve ser o Diabão! — pensou João Soldado — Já estava aqui esperando que esse coisa-ruim viesse, depois da peça que preguei ao seu camarada.

E assim era. O Diabão entrou de uma vez e nem esperou o João Soldado abrir a porta, derrubando-a com um chute. Os olhos faiscavam raiva e quando falou, parecia que se abria a boca de um vulcão, vomitando lavas de fogo e enxofre.

— Você vai pagar por tudo que fez ao meu diabinho! — rugiu o Diabo infernalmente.

— Se você vem para cá com essa falta de educação, achando que pode tudo, vai pelo mesmo caminho do seu diabinho! — disse-lhe João Soldado, pondo o embornal já no jeito.

— Isso é que havemos de ver, miserável humano. Desta vez vou levar você para as profundezas, como o maior patife deste mundo. E vou lhe deixar queimando no fogo do inferno.

— Olhe que eu não tenho medo, seu Diabão feioso. Servi ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e nada me apavora, pois tenho ajuda de quem pode mais, que é Nosso Senhor.

O Diabão ficou ainda mais furioso e rancoroso quando o João Soldado falou de Nosso Senhor e já ia fincar suas unhas no João Soldado, quando ele, dando um pulo para trás, abriu o embornal em frente do Diabão e gritou:

— Já para dentro do embornal, coisa-ruim!

Ouviu se um grande rugido medonho que o Diabo soltou dentro do embornal e, preso dentro do embornal, debatendo-se furiosamente, dava pulos até ao telhado, enquanto o João Soldado, armado de um pedaço de ferro bem pesado, dava cacetadas sem dó no Diabão até moê-lo inteirinho. E o Diabão gritava dentro do embornal, pedindo humildemente por todos os Diabos que o João Soldado o deixasse ir de volta para o inferno. Então o João Soldado disse:

— Ah, já está pedindo misericórdia! Pois então vá para o inferno! — E o João Soldado abriu a boca do embornal, donde saiu o Diabão todo moído e quebrado, com o rabo pendurado e os chifres entortados, mal se podendo arrastar.

Quando o Diabão chegou ao Inferno, estava em tal estado que os diabinhos ficaram morrendo de medo do que ia acontecer. Lúcifer então ordenou que forjassem enormes portões de aço e fabricassem fechaduras bem fortes para trancar as portas do inferno, com medo que o João Soldado lá entrasse atrás dele.

Passado algum tempo, João Soldado se casou com bondosa e linda mulher. Eles tiveram muitos filhos e isso lhe trouxe um grande problema: naquela região onde moravam era difícil conseguir um compadre. Todos os vizinhos já eram seus compadres e alguns já tinham até repetido. Quando nasceu seu último filho, ele avisou à mulher que ia ser muito difícil conseguir um padrinho para a criança.
Um dia, indo pela estrada, ele viu uma figura estranha, a quem o João Soldado chamou e lhe perguntou se queria batizar seu filho. Na verdade, era a Morte, que ficou muito lisonjeada e lhe disse que, embora não gostasse de Igreja, iria até lá para batizar seu filho. Apesar dos protestos da mulher, João Soldado levou o filho para a “comadre” Morte batizar.

Um dia depois, andando pela estrada, a Morte foi ao seu encontro e lhe propôs um trato. Ele se tornaria um curandeiro. Quando chegasse a uma casa e encontrasse a Morte sentada na cabeceira da cama, podia desenganar o doente que esse era dela. Mas, caso a Morte estivesse sentada nos pés da cama, ele podia receitar chás de ervas ou o que quisesse que o doente se curaria. Trato feito, João Soldado começou a curar.

Até que, um belo dia, João Soldado foi chamado à casa de um fazendeiro ricaço. Havia muitos médicos famosos lá, tentando curar o homem. Apesar de os médicos não acreditarem nele, de acharem que aquilo era bobagem, os filhos do fazendeiro haviam resolvido recorrer ao João Soldado. Ao entrar no quarto do doente, João Soldado viu a comadre assentada na cabeceira da cama com uma cara sisuda e logo pensou em como resolver aquela situação. Assim, pediu às pessoas da família que mandassem fazer um “sistema de uma gangorra”. João Soldado instalou aquilo no meio do quarto, pôs o doente em cima e rodou várias vezes. A comadre Morte correu atrás, mas perdeu o doente. João Soldado o curou e ainda ganhou um bom dinheiro da família do fazendeiro.

Um outro dia, andando pela estrada, João Soldado encontrou-se com a Morte, que estava furiosa e pretendia levá-lo. João desculpou-se, dizendo que tinha feito aquilo porque os médicos estavam duvidando dele. Mas, para a Morte, não havia justificativa que valesse. Sendo assim, João lhe disse que não queria morrer em pé e, tirando o embornal, gritou:

— Pula para dentro do embornal, Comadre!

Assim, João Soldado prendeu a Morte. Dependurou o embornal num cômodo do seu sítio, num gancho bem alto e deixou a Morte lá. A partir daí, ninguém morria mais. Inclusive João Soldado e sua mulher, que foram ficando bem velhinhos!

Um belo dia, passando por uma aldeia, uma mulher muito velha acusou-o de ser o culpado por aquela situação. Ela já estava cansada de viver e queria ir para o céu. João Soldado achou que já estava na hora de soltar a Morte, mesmo que ela o levasse. Só que a comadre Morte tinha medo dele e não queria levar o João Soldado com ela... Nem chegava perto dele, com medo de ele prendê-la no embornal novamente.

João Soldado foi ficando muito velho e já queria ir embora. Resolveu então procurar sozinho a porta do céu ou a do inferno. A comadre Morte deu-lhe umas dicas, de longe. A primeira porta que João Soldado encontrou foi a porta do inferno. Mas o capeta não quis deixar João entrar, pois chefão Lúcifer tinha avisado para tomar muito cuidado com o João Soldado, que ele era muito perigoso.
Logo então, João Soldado pôs-se a caminho do Céu. Chegando às portas do Paraíso, bateu e São Pedro perguntou de dentro:

— Quem é?

— Sou eu, o João Soldado, que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros.

São Pedro parecia ter se esquecido do João Soldado que o ajudara e a Nosso Senhor, quando, disfarçados de mendigos, pediram-lhe ajuda. O porteiro do céu disse então ao João Soldado:

— Só por ter servido ao rei vinte e quatro anos, você não pode entrar aqui no Paraíso. O mais importante é quanto serviu a Nosso Senhor! — Respondeu São Pedro, entreabrindo a porta da guarita onde ficava para poder olhar direito o João Soldado.

Este, por sua vez, ficou um pouco bravo e falou:

— Por que isso agora, seu São Pedro? Por que um soldado que serviu ao rei vinte e quatro anos por um pão e seis dinheiros e serviu a Nosso Senhor a vida toda não pode entrar no Paraíso?
São Pedro reconheceu os argumentos, mas achou o João Soldado muito atrevido e resolveu teimar um pouco e não deixá-lo entrar tão facilmente.

Só que o João Soldado era mais teimoso ainda e realmente muito atrevido e, sem respeitar ao as barbas brancas de São Pedro e sua venerável careca, disse a São Pedro que, se ele não o deixasse entrar, iria colocá-lo dentro do embornal. São Pedro então se lembrou do soldado que o tinha ajudado quando estava com Nosso Senhor disfarçados de mendigos e disse-lhe:

— Olhe, que foi por meu pedido que Nosso Senhor lhe deu esse embornal, e você não deve jamais usá-lo contra mim!

— Eu não penso assim! Depende da situação e agora é uma oportunidade ótima. Ou me deixa entrar, ou vai para dentro do embornal! — ameaçou o João Soldado.

E como São Pedro já ia fechar a porta da guarita, sem lhe dar tempo, João Soldado gritou:

— Para dentro do embornal.

São Pedro na mesma hora ficou preso dentro do embornal e o João Soldado entrou no Paraíso. Em seguida, São Pedro gritou:

— Tire-me daqui, que eu lhe deixo ficar aí no céu. Tire-me daqui, antes que alguma alma ruim entre no Paraíso e Nosso Senhor venha me chamar a atenção.
E assim, o João Soldado entrou no céu, ele que serviu ao rei vinte quatro anos por um pão e seis dinheiros. E que serviu a Nosso Senhor por toda a vida.

*****************************

O soldado

por anos de tradição constrói-se um caráter
uma história que ficou na memória
pedaços de um tempo de carinho
à beira de um fogão a lenha
por anos de tradição constrói-se um caráter
uma lembrança que ficou na história
recortes de um tempo de menino
com medo de que algum monstro venha
à noite cair pedaço por pedaço à sua frente
e ele não tem a coragem do João Soldado
e ele não tem um embornal abençoado
na verdade assim se faz a vida da gente
com pedaços de carinhos que acumulamos
com histórias de vidas que aos pouquinhos
economizamos dentro do nosso coração
todas aquelas pessoas que nós amamos
todos aqueles amedrontados menininhos
que se lembram daquele soldado João
que com sua esperteza enganou até a morte
e enfrentou os demônios com coragem e sorte
mas nunca deixou de ter uma boa intenção
e de louvar a Nosso Senhor com devoção
foi ajudando aos outros que se deu bem
e acabou indo parar no Paraíso
e para isso passou por poucas e boas na vida...
por anos de tradição constrói-se um caráter
uma história que ficou na lembrança
pedaços da vida de uma criança
que cresceu mas continua menino
(Enanre Etraud Senun)

[1]substantivo masculino — (I) sacola de pano, couro, ou outro material, com alça longa, us. ger. a tiracolo para se carregar provisões, ferramentas etc. — (II) espécie de saco em que comem as cavalgaduras (retirado do Dicionário Houaiss).


Capa de cordel feito no Nordeste do Brasil

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

50 anos



Hoje completo meio século de vida...
Olho para trás e percebo o quanto sou feliz.
Lembro com clareza a estrada percorrida:
cada etapa, cada parte dessa jornada me diz
que o que construí é de fato consistente.
Tornei-me um homem que, principalmente,
agradece por tudo que tenho ao Senhor
que me proporcionou encontrar o Amor...
Sim, o sentimento Amor com “A” maiúsculo,
que traz em si a essência da felicidade...
 
 
Agradeço também a todos que caminharam a meu lado,
fazendo com que eu continue buscando o melhor.
Todos aqueles que me fizeram muitas vezes sorrir,
mas também todos os que me fizeram chorar...
Pois sorrisos e lágrimas temperam o homem que sou
e ajudam-me a tentar encontrar o que quero ser...
 
 
O homem que hoje completa 50 anos de idade,
absolutamente imperfeito, sente-se comprometido
a buscar cada vez mais a espiritualidade, com a certeza
de que cometerei erros até o fim de minha travessia.
No entanto, através deles vou tornar-me melhor
que o homem que completa hoje 50 anos...




terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Santos Reis


Hoje a Igreja Católica comemora o Dia dos Santos Reis, que a tradição surgida no século VIII converteu nos santos Belchior, Gaspar e Baltazar. Adoro estudar as tradições culturais do meu país e, particularmente, tenho me dedicado bastante ultimamente ao estudo das Folias de Reis. É interessante saber que a Bíblia não revela no Sagrado Evangelho que os Santos Reis o seriam de fato, pois faz referência apenas a “magos do Oriente”. São citados apenas por São Mateus: 

(2, 1) Tendo, pois, nascido Jesus em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que vieram do oriente a Jerusalém uns magos que perguntavam: (2, 2) 'Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? pois do oriente vimos a sua estrela e viemos adorá-lo.' (2, 3) O rei Herodes, ouvindo isso, perturbou-se, e com ele toda a Jerusalém; (2, 4) e, reunindo todos os principais sacerdotes e os escribas do povo, perguntava-lhes onde havia de nascer o Cristo.”

O evangelista não diz quantos nem quem são, mas a tradição católica e escritos não oficiais da Igreja sugerem que eram três e chamavam-se Melquior (ou Belchior), Baltasar e Gaspar. Esses nomes aparecem, entre outros textos, no Evangelho Apócrifo Armeno da Infância, do fim do século VI, no capítulo 5,10:

Um anjo do Senhor foi de pressa ao país dos persas para avisar aos reis magos e ordenar a eles de ir e adorar o menino que acabara de nascer. Estes, depois de ter caminhado durante nove meses, tendo por guia a estrela, chegaram à meta exatamente quando Maria tinha dado à luz. Precisa-se saber que, naquele tempo, o reino persiano dominava todos os reis do Oriente, por causa do seu poder e das suas vitórias. Os reis magos eram 3 irmãos: Melquior, que reinava sobre os persianos; Baltasar, que era rei dos indianos, e Gaspar, que dominava no país dos árabes.”

Eles são conhecidos por “Magos” não porque fossem expertos na magia, mas porque eram muito sábios e, sobretudo, tinham grande conhecimento da astrologia. De fato, entres os persas, se dizia “Mago” aqueles que os judeus chamavam “escribas”, os gregos “filósofos” e os latinos “sábios”.

Vale ressaltar que a exegese católica interpreta a chegada dos Reis Magos como o cumprimento da profecia de David:

Os reis de Társis e das ilhas lhe trarão presentes, os reis da Arábia e de Sabá oferecer-lhe-ão seus dons. 11. Todos os reis hão de adorá-lo, hão de servi-lo todas as nações”. (Sl. 71, 10-11)

Segundo li há algum tempo na revista Superinteressante, foi apenas no século III que eles receberam o título de reis, provavelmente como uma maneira de confirmar a profecia contida no Salmo 72: “Todos os reis cairão diante dele”. Por volta de 800 anos depois do nascimento de Jesus, eles receberam os nomes e também a origem: Melchior era rei da Pérsia, Gaspar era rei da Índia, e Baltazar era rei da Arábia. Melchior, honorável ancião, ofereceu ouro ao Rei Jesus. Gaspar, na força de sua juventude e beleza, ofereceu incenso. E Baltazar, de cor muito escura, ofereceu ao Salvador mirra.

Em hebreu, esses nomes significavam, respectivamente: “rei da luz” (melichior), “o branco” (gathaspa) e “senhor dos tesouros” (bithisarea). Na catedral de Colônia, na Alemanha, supostamente é o lugar onde repousam os restos mortais dos reis magos. De acordo com uma tradição medieval, os magos teriam se reencontrado quase 50 anos depois do primeiro Natal, em Sewa, uma cidade da Turquia, onde teriam falecido. Algum tempo depois, seus corpos teriam sido levados para Milão, na Itália, onde permaneceram até o século 12, quando o imperador germânico Frederico dominou a cidade e levou as urnas mortuárias para Colônia. 

Devemos aos magos até a tradição de dar presentes no Natal. No ritual da antiguidade, ouro era o presente para um rei, incenso, para um religioso. E mirra, para um profeta (a mirra era usada para embalsamar corpos e, simbolicamente, representava a mortalidade). O significado desses presentes costuma variar: uns dizem que o ouro representava a realeza de Jesus, filho de Davi; a mirra, a sua humanidade e o seu sacerdócio; o incenso falava de sua divindade, era Deus que se revestiu da forma humana, nascendo como um de nós. Outros já vão além disso, acrescentando outros detalhes:

– O ouro era o presente para um rei (realeza), mas também a riqueza e a alegria que os Reis Magos sentiram na alma quando se aproximaram do menino Jesus, além de ser símbolo de sabedoria universal e de todos os dons e talentos que Deus proporcionou à Humanidade.
– O incenso, para um religioso, simbolizava a fé, o retorno íntimo ao sagrado, às bênçãos que todo cristão precisa receber e doar, como também simboliza o ato de abençoar alguém com o coração e pode ser considerado uma oferenda devocional oferecida somente aos deuses e, nesse caso, ao Filho de Deus.
– A mirra era uma erva amarga cuja resina antisséptica era usada para embalsamar corpos e, simbolicamente, podia representar a humanidade de Jesus e, ao mesmo tempo, a Sua imortalidade divina, Sua pureza (o cheiro que ela emana faria ainda a ligação com o Divino e o Eterno, como símbolo para a vitória de Jesus sobre a morte), além de simbolizar também os pecados e defeitos humanos que seriam redimidos pelo Filho de Deus.

Nesta data, ainda, encerram-se para os católicos os festejos natalícios e é o dia em que se desmancham os presépios e são retirados todos os enfeites de Natal. Tenho uma identidade muito forte com esse dia, por vários motivos, que revelo a seguir. 

O primeiro deles é a importância que dou à figura alegórica representada por cada um dos Santos Reis, conforme foi descrito acima, além dos significados dos presentes que levaram ao Menino Jesus.

De acordo com São Beda, o Venerável (673-735), Doutor da Igreja e monge beneditino nas abadias de São Pedro e São Paulo em Wearmouth, e na de Jarrow, na Nortumbria, Inglaterra, considerado como fonte de primeira mão da história inglesa, sendo muito respeitado como historiador (sua obra “História Eclesiástica do Povo Inglês” — Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum — lhe rendeu o título de Pai da História Inglesa), em seu tratado “Excerpta et Colletanea”, o Doutor da Igreja assim recolhe as tradições que chegaram até ele:

Melquior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus. Gaspar era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio. E Baltasar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz”.

Para São Beda – como para os demais Doutores da Igreja que falaram deles – os três representavam as três raças humanas existentes, em idades diferentes. Neste sentido, eles representavam os reis e os povos de todo o mundo.

O segundo motivo pelo qual considero muito importante este dia é porque tenho o maior respeito pelo que representa a Epifania na minha vida particular. Sempre, após as festas de fim de ano (e isso é algo que trago comigo desde a infância), sinto-me muito pensativo e faço uma revisão de minha vida e do que posso fazer para tornar-me alguém melhor. Não é fácil perceber que, em alguns momentos como estes, que deixei de fazer muitas coisas importantes em minha vida que me fariam crescer como ser humano. Mas também é um momento de satisfação em perceber as vitórias que conquistei como pai, marido, irmão, filho, afilhado, compadre, padrinho, tio, amigo, profissional, enfim, como o Ernane que cada uma das pessoas que fazem parte da minha vida compreendem.

O terceiro e menos importante motivo de celebrar o dia 6 de janeiro é porque é meu aniversário.


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Reis Magos”

Os Reis Magos chegaram e deixaram seus presentes
Para o Menino Deus que acabara de nascer
Muitas vezes, sinto que somos uns cristãos tão ausentes
Não celebramos aquilo que de fato deve ser

Ouro foi dado ao Menino Jesus como símbolo de sua realeza
E nós precisamos reafirmar a certeza
De nossa fé incondicional na figura de Deus em nossa vida
E da força que Ele nos proporciona para superar a lida

Incenso também foi um presente para o Menino Jesus
Que deve nos lembrar Sua divindade incontestável
E o amor intenso que emana suavemente de sua luz
Que nos enche o coração de forma inexorável

A mirra de nossos pecados e de nossa alma imperfeita
Representa a eternidade da presença do Cristo Ressuscitado
E a amargura que ora nos acolhe e que ora nos rejeita
É a redenção que Deus nos oferece em Jesus, de bom grado

Gaspar, Belchior e Baltazar louvam o Menino Deus vivo...
Seguiram a Estrela do Oriente em busca do palácio divino
E encontraram um castelo na gruta sagrada do motivo
Que deve mover cada cristão na procura do mistério sagrado
Que não precisa de rimas, nem de estrofes, nem de métrica...
Basta apenas acreditar...






quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

20 anos depois...

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Nesta terça-feira, 07/01/2014, completam-se 20 anos do meu matrimônio. Foi um dia de agradecimentos... Pois só tenho a agradecer a minha esposa, a meus filhos e ao meu Senhor por esses anos maravilhosos de minha vida. O casamento representou para mim um crescimento pessoal magnífico.
 
Na verdade, não tenho muito o que dizer neste post sem ser piegas ou simplesmente “chover no molhado”. Vou reduzi-lo ao mínimo, portanto, nos versos e na canção que, para mim e para minha amada esposa, representam muito tudo o que vivemos...
 
 
Após esse tempo todo”


Após esse tempo todo
posso falar sem medo o quanto amo você
falo assim naturalmente
porque as palavras estão sempre em meus lábios
prontas para serem ditas
mesmo que venham não somente do meu corpo
mas da minha alma


Após esse tempo todo
posso dizer que sou um outro homem
mas ainda me sinto o mesmo de antes
jovem enamorado daquela menina linda
que o olhava com olhos furtivos e tímidos
contudo irradiantes de um amor nascente
amor que permanece ainda no gesto carinhoso
na companhia presente e consistente
na paixão ardente


Após esse tempo todo
temos nossos filhos que completam nossa vida
meninos quase homens
joias que Deus nos concedeu
que aprendem e ensinam a cada dia
lindas lições de amor que se renova
estabelecendo o limite ilimitado do carinho


Após esse tempo todo
resta-me a gratidão profunda
a Deus e à vida que nos permitiram
construir essa família iluminada
pela fé, pelo amor, pelo respeito e pela perseverança


Após todo esse tempo
ainda é muito fácil dizer o quanto amo
a minha linda mulher, minha esposa e companheira
pois cada coisa que faço na vida
é pensar que ser feliz não depende apenas de vontade
mas também da presença de um amor de verdade
um amor que não apenas serve para a rima
um amor que faz meu peito suspirar
todas as vezes que vejo o seu olhar...
 
Há muitas interpretações bacanas, de Geraldo Azevedo a Fagner, mas escolhi Badi Assad pela originalidade com que ela fez a releitura dessa música.


 
 

 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Novo

Chegamos ao final de mais um ano. Não tenho muito o que dizer, depois de tanto tempo sem postar nada. Mas senti vontadede deixar esse curto post no sentido de sobretudo agradecer. Agradecer pela oportunidade de ser feliz, de ter saúde e de ter pessoas maravilhosas ao meu lado.
Agradeço também por ter fé. Essa fé me permite a esperança, que remove as ansiedades e sustenta minha certeza de um mundo melhor, e um futuro melhor. 
Um feliz 2013!

                                         Novo


Cá estamos novamente
Diante da perspectiva de mais um ano
Conceber o que está cima do humano
Deve estar em nossa mente


Não é fácil entender a vida
Muito menos conceber verdades
Nossos erros e acertos também
Na longa estrada percorrida
Nossos defeitos e nossas virtudes
E até o que está muito mais além
Do que podemos perceber
O importante mesmo é ser...
Ser gente acima de tudo


Neste novo ano que se aproxima
Não vai fazer diferença a rima
Nem a metáfora obscura do verso
O que importa mesmo é agradecermos
Por estamos junto mais uma vez
Daqueles que amamos profundamente
Importa lembrarmos aqueles que não estão aqui mais
Pois estarão sempre presentes em nossos corações
Na essência do que somos e seremos


Feliz novo ano!
Lembre-se de ser
Simplesmente
Cada vez mais humano
Agradeça sempre a Deus
Ame profundamente os seus
Compartilhe sempre o que você é
E nunca deixe de exercer sua fé.




 

domingo, 26 de dezembro de 2010

Depois do Natal


Passado um dia do Natal, resolvo publicar este post. A poesia já estava pronta há alguns dias, mas não tive coragem de publicá-la antes.

A grande verdade é que o Natal sempre se apresenta para mim como um momento de reflexão e de confraternização, comguirlandao acontece com a maioria das famílias. Isso não é novidade alguma. Mas é uma data especial, por isso publico esse post.  Faço-o mais por mim mesmo, do que por qualquer outra coisa.


Para o Natal

Quando chega o Natal
Penso em que eu vou fazer
Na noite de chuva que virá
Pois chove dentro de mim


Quando chega o Natal
Reflito no sentido real
Que tem essa chuva
Que vem me inundar


É uma chuva serena
Quando chega o Natal
Lava-me o espírito
Faz-me ser um ser melhor


Quando chega o Natal
Um sentimento maior
Surge dentro de mim
Junto com essa chuva


Lembro-me então do motivo
De comemorarmos o Natal
Não é um simples nascimento
Não é um simples momento


A rima surge então para dar valor
Àquilo que essa chuva me traz
Um imenso, um enorme amor
Que me invade cada vez mais


Faz-me entender o Natal
Como algo muito natural
Um dia incomum na vida…
Na procura da rima, a lida
Faz-me aumentar a estrofe do poema
E este verso maior não é problema
Menor que o anterior
Mais grande que pequeno
Não o faz ser superior
E sim mais sereno…

guirlanda

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Neimar de Barros – Deus Negro

 

Deus Negro.

 

 

Vejo, por acaso, uma frase na internet atribuída a Neimar de Barros. Não, ele não foi jogador de futebol. Lembro-me então de quanto esse escritor influenciou-me quanto tinha meus treze anos e um pouco mais. Foi-me apresentado em livro (“Deus Negro”) por meu irmão padrinho, o Dendê (nunca o chamo assim fora da blogosfera). É um livro de palavras impressionantes! Despertou em mim uma religiosidade resistente que me alimenta até hoje e que é a base de minha estrutura humana.

 

No momento em que li de novo palavras de Neimar de Barros, percebi que não o conhecia bem, não sabia da sua história nem porque escritor tão badalado que foi naquele tempo não era mais falado nos meios editoriais que frequento. Perguntei ao detetive Google e ele revelou-me coisas muito interessantes a respeito desse homem. Reproduzo abaixo a síntese de algumas dessas informações, colhidas em alguns sítios da rede.

 

Neimar de Barros, antes de se tornar escritor, trabalhava com o Sílvio Santos. Segundo a Wikipedia, era conhecido produtor de televisão da equipe do homem do sorriso. No início da década de 70, teria criado e produzido programas de grande audiência como “Cidade contra Cidade”, “Boa Noite Cinderela”, entre outros.

 

Ainda segundo a enciclopédia virtual, Em 1971 foi convidado a participar de um encontro dentro da Igreja Católica, o “cursilho”. Como ateu, ele aceitou desafiar o convite dizendo que só acreditava no que podia ver. No terceiro e último dia, depois de ter aprontado e atrapalhado o encontro, entrou na capela e algo o fez ajoelhar-se, uma grande emoção o tomou e ali naquela hora aconteceu sua conversão.

 

Acabou deixando o trabalho na antiga TVS e tornou-se o famoso escritor de mais de 10 livros de temática religiosa (inclusive em espanhol), com destaque para o best-seller “Deus Negro”, que vendeu mais de 4 milhões de exemplares. Virou palestrante, lotando ginásios de esportes, auditórios, igrejas e teatros, com tanto destaque, que foi capa da revista “Família Cristã”, a maior publicação católica do Brasil, da editora Paulinas. Como leigo conseguiu quebrar vários paradigmas, sendo uma forte referência dentro da Igreja Católica.

 

Mas como nem tudo que é bom dura para sempre, esse Neimar de Barros passou por vários problemas não divulgados claramente (suspeita-se que teve problemas psicológicos e neurológicos) e algo mudou. Em 1986, ele concedeu uma entrevista bombástica à revista Veja, revelando que sua conversão teria sido uma farsa. Ele contou ter sido contratado por uma loja maçônica internacional (P2), para se infiltrar na Igreja Católica e repassar informações sobre a conduta de religiosos. A maioria de seus admiradores não acreditou nessa história, e sabemos que a Revista Veja teve recordes de venda naquela semana, ultrapassando 900 mil exemplares. Depois disso, Neimar escreveu dois livros contando a mesma história, sem sucesso e que nunca foi comprovada.

 

 

A_VERDADE_DE_NEIMAR_DE_BARROS

 

 

Oculto por alguns anos, ele depois reapareceu na equipe de Sílvio Santos, trabalhando novamente como produtor. Hoje leva uma vida simples, e fica a dúvida se o autor de “Deus Negro” de fato existiu ou foi um personagem de uma história ainda incompleta. Mas não há nenhuma dúvida de que sua obra foi um marco na vida de toda uma geração que leu seus livros, em especial “Deus Negro”.

 

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DEUS NEGRO

Autor: Neimar de Barros

 

 

Eu, detestando pretos,

Eu, sem coração!...

Eu, perdido num coreto,

Gritando: “Separação”!

Eu, você, nós... nós todos,

Cheios de preconceitos,

Fugindo como se eles carregassem lodo,

Lodo na cor...

E com petulância, arrogância,

Afastando a pele irmã.

 

Mas

Estou pensando agora:

E quando chegar minha hora?

Meu Deus, se eu morresse amanhã, de manhã!

Numa viagem esquisita, entre nuvens feias e bonitas,

Se eu chegasse lá e um porteiro manco,

Como os aleijados que eu gozei, viesse abrir a porta,

E eu reparasse em sua vista torta, igual àquela que eu critiquei

Se a sua mão tateasse pelo trinco,

Como as mãos do cego que não ajudei!

 

Se a porta rangesse, chorando os choros que provoquei!

Se uma criança me tomasse pela mão,

Criança como aquela que não embalei

E me levasse por um corredor florido, colorido,

Como as flores que eu jamais dei!

 

Se eu sentisse o chão frio,

Como o dos presídios que não visitei!

Se eu visse as paredes caindo,

Como as das creches e asilos que não ajudei!

 

E se a criança tirasse corpos do caminho,

Corpos que eu não levantei

Dando desculpas de que eram bêbados, mas eram epiléticos,

Que era vagabundagem, mas era fome!

 

Meu Deus!

Agora me assusta pronunciar seu nome!

E se mais para a frente a criança cobrisse o corpo nu,

Da prostituta que eu usei,

Ou do moribundo que não olhei,

Ou da velha que não respeitei,

Ou da mãe que não amei!...

 

Corpo de alguém exposto, jogado por minha causa,

Porque não estendi a mão, porque no amor fiz pausa e dei,

Sei lá, só dei desgosto!

E, no fim do corredor, o início da decepção!

 

Que raiva, que desespero,

Se visse o mecânico, o operário, aquele vizinho,

O maldito funcionário, e até, até o padeiro,

Todos sorrindo não sei de quê!

Ah! Sei sim, riem da minha decepção.

 

Deus não está vestido de ouro! Mas como???

Está num simples trono:

Simples como não fui, humilde como não sou.

Deus decepção!

Deus na cor que eu não queria,

Deus cara a cara, face a face,

Sem aquela imponente classe.

Deus simples! Deus negro!

Deus negro!?

 

E Eu...

Racista, egoísta. E agora?

Na terra só persegui os pretos,

Não aluguei casa, não apertei a mão.

Meu Deus você é negro, que desilusão!

Será que vai me dar uma morada?

Será que vai apertar minha mão? Que nada!

 

Meu Deus você é negro, que decepção !

Não dei emprego, virei o rosto. E agora?

Será que vai me dar um canto, vai me cobrir com seu manto?

Ou vai me virar o rosto no embalo da bofetada que dei?

 

Deus, eu não podia adivinhar.

Por que você se fez assim?

Por que se fez preto, preto como o engraxate,

Aquele que expulsei da frente de casa!

 

Deus, pregaram você na cruz

E você me pregou uma peça:

Eu me esforcei à beça em tantas coisas,

E cheguei até a pensar em amor,

Mas nunca,

nunca pensei em adivinhar sua cor!...

 

© Neimar de Barros

 

 

Deus Negro

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Deleitura

Resolvo agora retomar o blog Poetopias em um momento de fé e poesia, pensando em livro do poeta cearense Horário Dídimo que encantou-me no passado, sobretudo pela simplicidade dos versos.

Horácio Dídimo Ferreira Barbosa Vieira é professor aposentado do Departamento de Literatura da Universidade Federal do Ceará, formado em Direito na UERJ e em Letras na UFC, mestre em Literatura Brasileira pela UFPB e doutor em Literatura Comparada pela UFMG. Membro da Academia Cearense de Letras é autor de muitas obras de poesia, ensaios e de literatura infantil.



Reproduzo abaixo alguns poeminhas dele para "deleitura":




a palavra chave

a palavra chave
já não fecha
nem abre

a palavra amor
muda de cor

a palavra verde
amadurece

a palavra ave
voa no papel



a solução

daqui a cem anos

todos os nossos problemas
nos terão resolvido



As casas

após longa espera
nada aconteceu
as casas continuaram baixas
tão baixas
que muitos de seus habitantes rastejavam
enquanto outros desistiam de antigas reivindicações



As doces meninas de outrora

as doces meninas de outrora
amanheceram
vestiram os vestidos novos
pintaram as unhas de vermelho
por um instante resplandeceram
depois baixaram as cabecinhas louras
e envelheceram como as flores



Triste

triste não é saber que não há
nem que não haverá
triste é saber que nunca houve
e que agora para todo o nunca
choraremos


isso

não sei o que quero
dizer com isso

mas sei que isso
é o que eu quero dizer


identidade

um dia
com a ajuda de Deus
não haverá mais diferença
entre mim e eu





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Horácio Dídimo escreve com fé. Muitas vezes associa seus versos a trechos bíblicos e o faz de maneira aleatória, porém competente e pertinente.  Penso em versos que o Enanre Etraud poderia escrever para temos como o que ele aborda e o máximo que consigo são três quadrinhas. Reproduzo-a e finalizo o post:


Enquanto passam os anos de luta
Percebo que ainda busco uma luz
Que encerre em mim a auto-disputa
Pelo que não entendo sobre Jesus


Por que Ele se doou tanto por nós?
A dúvida lateja bem dentro de mim...
Ouço então o sussurro de uma voz
Dizer que esse era mesmo o seu fim.


Ser para todos de esperança um sinal
Sustentada na doação incondicional
Procuremos seguir este modelo bonito
Que nos foi legado por Jesus Cristo...




quinta-feira, 4 de março de 2010

A estátua e o piso

Depois de algum tempo sem publicar no “Poetopias”, apenas em “Os Invicioneiros”, forço-me a fazê-lo neste momento de aperto, movido pela tirania da palavra presa em mim.

Para tanto, lembro-me de um texto apócrifo interessante lido há alguns anos. Não conheço o autor, obviamente. Reproduzo-o para vocês, com adaptações minhas:



“A estátua e o piso

Havia um museu com o piso completamente coberto por belíssimos azulejos de mármore e com uma estátua, toda em mármore, enorme, exibida no meio do salão de entrada. Muitas pessoas vinham do mundo inteiro para admirar a bonita estátua de mármore. Uma noite, os azulejos de mármore começaram a falar e reclamar com a estátua de mármore.
— Estátua, isto não é justo, não é justo! Por que vem gente do mundo inteiro, pisa e pisa em todos nós, e só para admirá-la? Não é justo!
— Meu querido amigo, azulejo de mármore. Você ainda se lembra de quando estávamos, de fato, na mesma caverna? Respondeu a estátua.
— Sim! É por isso que eu acho tudo muito injusto. Nós nascemos da mesma caverna e agora recebemos tratamento tão diferente. Não é justo! — Ele chorou novamente.
— Então, você ainda se lembra do dia que o artista tentou trabalhar em você, mas você resistiu bravamente às ferramentas?
— Sim, claro que eu me lembro. Eu odiei aquele sujeito! Como pôde ele usar aquelas ferramentas em mim? Doeu muito!
— Com toda certeza foi muito dolorido! Ele não pôde trabalhar nada em você porque você resistiu em ser trabalhado.
— Sim. E daí?

— Quando ele desistiu de você e veio para cima de mim, ao invés de resistir como você, eu soube imediatamente que eu me tornaria algo diferente depois dos esforços dele. Então, eu não resisti, ao invés disso eu aguentei todas as ferramentas dolorosas que ele usou em mim.
— Mmmmmm!... — Resmungou o azulejo, insatisfeito.
— Meu amigo, há um preço para tudo na vida. E nem sempre é fácil. Às vezes é muito difícil, doloroso. Mas temos que aprender a suportar os sofrimentos, procurando crescer e aprender para nos transformarmos em algo mais belo. Já que você desistiu de tudo no meio do caminho, você não pode culpar qualquer pessoa que agora pisa em você.

***************
É interessante analisar a profundidade dessa historinha. Reflito, embora a história não esteja colocada em um plano religioso, que a vida assim nos trata. Ela é uma grande artista que vem nos moldar com suas ferramentas e nos tornar melhores. Sofremos e crescemos. Nesses tempos de Twitter, blogs e demais redes sociais da internet, textos assim são interessantes para composição de reflexões que podem nos tornar melhores ou não, no caminho que buscamos em nossas vidas. Gosto deles. Por isso compartilho.

“Busca”

em busca de um caminho
que ainda não sei
as palavras se amontoam
e apregoam verdades
e apregoam vontades
pessoas e pessoas e apelidos
a pedidos
atendidos por mim
escrevo obrigado
não agradeço
obrigado
pois a poesia assim me ordena
eu almirante não sei navegar
nesse mar de tormentas
tsunamis me agitam
e a água invade as praias
de meus olhos...