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domingo, 24 de julho de 2011

Crônicas de viagem I - Valores



Entro no ônibus com um bom dia tímido e não correspondido. Faço-o por educação e por formalidade. Busco um lugar para sentar, de preferência que não tenha um outro passageiro. Encontro um nas últimas poltronas do fundo. Sento-me e fico calado, pedindo a Deus uma viagem segura.

Após alguns meses, surpreendo-me agora como mudei. Isolo-me em minha viagem como aqueles que um dia critiquei. Sei que isso não condiz comigo e, às vezes, volto ao que sou quando encontro alguém que me permita isso. As crianças e os idoso são meu alvo predileto de interlocução.

Sei que não é fácil vencer os desafios do mundo moderno, mas percebo que nos sujeitamos com muita facilidade ao status quo e acabamos nos tornando insípidos. Não percebemos mais os sabores do viver.

E pior: educamos nossos filhos assim, para serem os melhores (ou melhores que os outros), desenvolvendo-lhes o egocentrismo. Ensinamos-lhes o valor do trabalho, para que ganhem muito dinheiro e sejam felizes sozinhos. Lembro-me de uma tirinha do cartunista argentino Quino que traduz muito bem isso. Meu amigo Coqueiro postou-a outro dia. Reproduzo-a abaixo:
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Saio do ônibus rapidamente, na frente de todos os demais. Sigo caminhando sozinho para o trabalho. Um outro colega vem logo atrás de mim, mas não o espero. Tenho pressa de chegar ao trabalho, sentar-me à mesa e isolar-me ainda mais. Mas intimamente coloco-me que jamais devo esquecer meus valores.


quinta-feira, 2 de junho de 2011

Um soco no estômago


Publiquei ontem esse post em "Os Invicioneiros" e resolvi também fazê-lo neste meu "Poetopias", pela importância que dou ao tema. Baseia-se no poema "Lua nova demais", de Elisa Lucinda. Recebi esse poema do meu amigo Basílio Nascimento. Foi como se levasse um soco no estômago. A dureza de suas palavras trata o tema da criança abandonada de forma dura, mas realista. Não há como não reagir.

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Nesse breve post, não tenho muito o que dizer além de compartilhar. Agora frequentando uma cidade grande como Sete Lagoas, onde a miséria humana se mostra mais evidente, vejo problemas semelhantes aos que o poema relata.


A autora, Elisa Lucinda, nasceu em Vitória, no Espírito Santo, além de grande poetisa, é escritora, jornalista e atriz. Possui muitas lindas poesias disponíveis na internet para quem quiser apreciar, mas uma, particularmente, ficou muito conhecida por ter sido recitada em show de Ana Carolina: “Só de sacanagem”. Ela pode ser conferida na voz da própria Elisa Lucinda no programa do Jô Soares.


Mas o que me trouxe hoje de volta ao “Poetopias” é o poema “Lua nova demais”, que transcrevo a seguir.
Lua nova demais
(Elisa Lucinda)
Dorme tensa a pequena
sozinha como que suspensa no céu
Vira mulher sem saber
sem brinco, sem pulseira, sem anel
sem espelho, sem conselho, laço de cabelo, bambolê
Sem mãe perto,
sem pai certo
sem cama certa,image
sem coberta,
vira mulher com medo,
vira mulher sempre cedo.
Menina de enredo triste,
dedo em riste,
contra o que não sabe
quanto ao que ninguém lhe disse.
A malandragem, a molequice
se misturam aos peitinhos novos
furando a roupa de garoto que lhe dão
dentro da qual menstruará
sempre com a mesma calcinha,
sem absorvente, sem escova de dente,
sem pano quente, sem O B.
Tudo é nojo, medo,
misturação de “cadês.”
E a cólica,
a dor de cabeça,
é sempre a mesma merda,
a mesma dor,
de não ter colo,
parque
pracinha,
penteadeira,
pátria.
Ela lua pequenininha
não tem batom, planeta, caneta,
diário, hemisfério,
Sem entender seu mistério,
ela luta até dormir
mas é menina ainda;
chupa o dedo
E tem medo
de ser estuprada
pelos bêbados mendigos do Aterro
tem medo de ser machucada, medo.
Depois menstrua e muda de medo
o de ser engravidada, emprenhada,
na noite do mesmo Aterro.
Tem medo do pai desse filho ser preso,
tem medo, medo
Ela que nunca pode ser ela direito,
ela que nem ensaiou o jeito com a boneca
vai ter que ser mãe depressa na calçada
ter filho sem pensar, ter filho por azar
ser mãe e vítima
Ter filho pra doer,
pra bater,
pra abandonar.
Se dorme, dorme nada,
é o corpo que se larga, que se rende
ao cansaço da fome, da miséria,
da mágoa deslavada
dorme de boca fechada,
olhos abertos,
vagina trancada.
Ser ela assim na rua
é estar sempre por ser atropelada
pelo pau sem dono
dos outros meninos-homens sofridos,
do louco varrido,
pela polícia mascarada.
Fosse ela cuidada,
tivesse abrigo onde dormir,
caminho onde ir,
roupa lavada, escola, manicure, máquina de costura, bordado,
pintura, teatro, abraço, casaco de lã
podia borralheira
acordar um dia
cidadã.
Sonha quem cante pra ela:
Se essa Lua, Se essa Lua fosse minha…”
Sonha em ser amada,
ter Natal, filhos felizes,
marido, vestido,
pagode sábado no quintal.
Sonha e acorda mal
porque menina na rua,
é muito nova
é lua pequena demais
é ser só cratera, só buracos,
sem pele, desprotegida, destratada
pela vida crua
É estar sozinha, cheia de perguntas
sem resposta
sempre exposta, pobre lua
É ser menina-mulher com frio
mas sempre nua.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sobre a gramática





Recentemente postei em “Os Invicioneiros” texto que comentava sobre polêmica surgida acerca do livro “Por uma vida melhor”, de Heloísa Ramos. Não vou me aprofundar sobre o post, mas fiquei surpreso pelos comentários e, sobretudo, pela polêmica em si nas redes sociais de um modo geral.

Trata-se de um tema árduo. Escrevo aqui neste meu Poetopias a respeito desse tema, sem, no entanto, querer discuti-lo. Antes quero ironizá-lo. Para tanto, valho-me de brilhantes companhias que ora convoco para ajudar-me: Paulo Leminski, Carlos Drummond de Andrade, Camões e Oswald de Andrade.

Não tecerei maiores comentários. Meus amigos falam o suficiente.


O Assassino era o Escriba


Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético
de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

Fontes: Paulo Leminski.Caprichos e relaxos.São Paulo: Brasiliense,1983.





 Aula de português


A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.

Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond






Erro de português


Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena! Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português





Pronominais
(Oswald de Andrade)


Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro



domingo, 8 de maio de 2011

O Teatro Mágico

Ganhei da amiga Adriana, Secretária Municipal de Cultura, um excelente material referente ao grupo O Teatro Mágico. Fiquei muitíssimo impressionado com a qualidade e originalidade desses artistas e não poderia deixar de divulgá-los neste espaço.

Fernando Anitelli, 35 anos, ator, músico e compositor, é o responsável pela criação do projeto “O Teatro Mágico”. Nascido em Presidente Prudente e criado na cidade de Osasco, São Paulo, Anitelli “brinca” com arranjos e melodias desde os 13 anos, “Quando vi que rimar amor com humor funcionava, não só na estética e na melodia, mas no sentido que aquilo tinha pra mim, nunca mais parei de fazer música”, revela.

As primeiras vitórias vieram logo cedo com prêmios em vários festivais dos quais participou com suas canções. A entrada na Faculdade de Comunicação Social lhe garantiu não só um diploma, mas também a formação da banda Madalena 19, que permitiu seu amadurecimento como músico. Foram quase dez anos de ensaios e apresentações de pequeno porte.

De lá para cá, Anitelli acumulou ainda a experiência como ator, trabalhando com diretores como Oswaldo Montenegro, Ismael Araújo e Caio Andrade, entre outros, que lhe deram as noções básicas de expressão corporal, domínio de palco e outros elementos vindos da escola do teatro, indispensáveis em seus shows.

Em 2003, Anitelli gravou seu primeiro CD. O álbum recebeu o sugestivo título “O Teatro Mágico: Entrada para Raros”, numa referência ao best-seller “O Lobo da Estepe”, do escritor alemão Hermann Hesse. “Quando eu li sobre o Teatro Mágico do Hesse, percebi que era justamente aquilo que eu gostaria de montar: um espetáculo que juntasse tudo numa coisa só, malabaristas, atores, cantores, poetas, palhaços, bailarinas e tudo mais que a minha imaginação pudesse criar. O Teatro Mágico é um lugar onde tudo é possível.”, conta.

Em cena, Anitelli revela uma expressão cênica incrível seja declamando versos, cantando ou fazendo performances. “Quando estou no palco, faço questão de frisar que aquele ali sou eu, não é um palhaço ou outro personagem qualquer”. O Teatro Mágico torna possível que cada um se mostre como é, que cada verdade interna seja revelada. Essa é a grande brincadeira, “ser o que se é, afinal todos somos raros e temos que ter consciência disso” , destaca. E assim, Anitelli vai traçando um paralelo entre o real e o imaginário enquanto o público, aos poucos, vai entrando na mesma freqüência sinestésica marcada pelo ritmo do espetáculo. No final, palco e platéia se fundem e cada um dos presentes vai descobrindo a delícia de se permitir ser um pouco mais de si mesmo.

Sugiro aos amigos leitores que conheçam mais desse grupo sensacional, visitando seu sítio. Lá estão letras de músicas, agenda e mais informações sobre essa turma fantástica. Quem sabe não poderemos assistir a seu espetáculo ao vivo no Festival Clara Nunes…

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quarta-feira, 6 de abril de 2011

“Lições de Vida”


Escrevo esse post como uma homenagem a meu pai. A saudade dele, de minha mãe e de todos que se foram às vezes aperta o peito. É mais uma biografia. Quando o nome de meu pai foi virar nome de rua em Caetanópolis, a Câmara de Vereadores pediu que escrevesse uma breve história da vida dele. Não foi possível fazê-la breve, pois a vida de meu pai foi muito intensa para ser resumida a poucas palavras.

 

“Lições de Vida”


            A vida de Sebastião Duarte Nunes, também conhecido como Tião Eletricista, Sô Tião e, principalmente, Tião Ferreira, pode ser enfocada exatamente pelos nomes que carregou durante sua vida.
            O Tião Eletricista representa a imagem do profissional empenhado, que dedicou sua vida à empresa onde trabalhou 54 anos. Foi um profissional que começou da base, com apenas o “2o Ano de grupo”, como se dizia naquela época, mas que cresceu na empresa graças à sua inteligência inata, sua franqueza, sua honestidade e sua condição natural de liderança, que impressionavam a todos que com ele trabalhavam. Era respeitado por sua capacidade e experiência, tendo sido responsável pelos serviços de instalação de quase toda a rede elétrica de alta tensão da Cedro e Cachoeira e que, normalmente, exigia mão-de-obra altamente qualificada, pelos riscos que representava naqueles tempos em que não havia equipamentos de comunicação e de proteção individual tão avançados como atualmente. Tião Eletricista também fazia uso de sua profissão fora da Cedro, trabalhando nas horas vagas consertando eletrodomésticos, fazendo instalações residenciais e em fazendas da região para complementar a renda, visto que tinha família numerosa.
            Começou trabalhando na Fábrica de São Vicente, aos 11 anos, apenas um garoto, mas já com a responsabilidade de ajudar de forma mais direta na renda familiar. Varria o chão da fábrica e exercia outras tarefas que, para ele, eram fáceis, acostumado que era desde mais novo ao trabalho pesado nas roças e nas fazendas. Logo notaram naquele garoto algo mais – uma vivacidade e uma capacidade de compreender as coisas com muita facilidade. Era muito curioso e logo foi levado para trabalhar na Oficina Elétrica. De lá, acabou indo para a Usina Pacífico Mascarenhas, na Serra do Cipó, próximo a São Vicente, onde trabalhou alguns anos como encarregado. Naquele tempo não havia estradas para São Vicente, apenas “picadas” que não permitam o acesso de veículos. A forma mais adequada de viajar era no lombo de mulas. Tião Eletricista, como encarregado, era responsável pelo transporte dos pagamentos dos funcionários da Usina, que naquele tempo eram cerca de 40 pessoas. Ia sozinho, armado com uma garrucha e com a fé em Deus. A Cedro Cachoeira depositava no Tião Eletricista a confiança que depositaria em um “carro-forte”. Daí, foi trabalhar no levantamento de postes que trariam a energia elétrica da Serra do Cipó à Fábrica do Cedro.
            Passados alguns anos, Tião Eletricista virou referência na Cedro e Cachoeira e sua experiência e capacidade o levavam de uma fábrica a outra. Esteve em Inimutaba, na fábrica da Cachoeira, quando a mesma passou pelo processo de modernização. Esteve em Sete Lagoas, quando foi fundada a então Fábrica Santo Antônio. E, por diversas vezes, vinha ao Cedro, como era conhecida Caetanópolis na época, para realizar diversos serviços.
Em julho de 1966, Tião Eletricista aposentou-se por tempo de serviço, mas não chegou a ficar nem três meses afastado das suas atividades. Atendendo convite da Cedro Cachoeira para trabalhar na Fábrica do Cedro, em Caetanópolis, em outubro desse mesmo ano, voltou às atividades profissionais por um período que seria de apenas um mês, mas que acabou se estendendo. Veio participar do processo de modernização da Fábrica do Cedro, que naqueles anos estava reestruturando o setor de Fiação, ainda sem a família.
Acaba sendo recontratado em junho de 1967, tornando-se encarregado da oficina elétrica. Morava no famoso “cataplasma” e ia embora nos fins de semana para São Vicente. Em 1970, a Cedro disponibilizou-lhe uma casa e ele trouxe toda a família para morar em Caetanópolis. Estabilizou-se durante um bom tempo na Fábrica do Cedro, até que, em 1978, a Cedro Cachoeira adquiriu a fábrica da PISA em Paraopeba e lá instalou mais uma unidade do grupo, a Fábrica Antônio Cândido Mascarenhas. Mais uma vez, o Tião Eletricista emprestou sua experiência e capacidade, indo trabalhar naquela fábrica por alguns anos como encarregado da oficina elétrica, sem, no entanto, deixar de sê-lo também na Fábrica do Cedro, onde vinha alguns dias da semana acompanhar o trabalho de sua equipe de eletricistas. Ficou naquela fábrica durante alguns anos, voltando em definitivo para a Fábrica do Cedro por volta de 1981, onde permaneceu até sua retirada do serviço em 1983, por motivo de saúde.
            O Sô Tião representa a faceta do homem respeitado por todos, nos diversos lugares por onde passou. Sua capacidade de fazer amigos era característica daqueles homens de grande coração. Embora tivesse uma fisionomia carregada, de semblante fechado e de poucos sorrisos, era capaz de inspirar confiança em todos que o conheciam, pela franqueza com que tratava todas as questões e por ser uma pessoa que não costumava “ficar em cima do muro”. Sô Tião era um homem dedicado às artes, ao teatro, à folia de Reis, aos Congados e a todo tipo de folguedo popular. Gostava de tocar viola, embora não fosse nenhum músico excepcional, porém era um apreciador inconteste da boa música brasileira, sobretudo a sertaneja. Teve a oportunidade de estudar somente até o “2o Ano de Grupo”, mas sempre foi um homem muito bem informado, que adorava ler e escrever. Possuía em casa sempre diversos livros, era assinante da famosa revista “Seleções do Reader’s Digest” e um viciado em palavras cruzadas. Lia diariamente o seu jornal no “Bar do Laudônio”, onde tomava todo dia sua Brahma. Vale ressaltar que era a única marca que ele bebia. Também diariamente não deixava de assistir o “Jornal Nacional”, enquanto jantava.
            Gostava de cultivar. Plantava roças e hortas e seus filhos aprenderam também a lidar com a enxada. Não deveriam ter vergonha de nenhum tipo de trabalho. Plantava milho, feijão, mandioca, abóbora, enfim, o que fosse conveniente. Adorava criar galinhas e porcos. Criou também patos e marrecos. Houve tempos em que chegou a ter um pequeno lago de criação de peixes que seus filhos pescavam no córrego do Cedro, nos fundos de sua casa.
Adorava o futebol. Era atleticano. Não precisa dizer mais nada. Aliás, gostava de contar para todos porque se tornou atleticano. Dizia que no tempo em que servia o exército, ainda não era afeiçoado ao futebol, mas admirava os jogadores famosos da época. A tropa estava em treinamento em Belo Horizonte e um amigo soldado convidou-o para ir ao Barro Preto, que era a sede do Palestra Itália, naquele tempo. Ao chegarem lá, o Sô Tião foi barrado na entrada, pois era preto e não se permitiam negros no clube. No dia seguinte, foram ao famoso Estadinho Antônio Carlos, que era a sede do Clube Atlético Mineiro, sendo recebidos sem nenhum problema e ainda ganhando autógrafos dos jogadores do time (muitos deles de cor negra). Tinha outras paixões no futebol: o Cedro Esporte Clube e o Sete de Setembro Futebol Clube. Foi diretor de ambas as equipes e sempre as acompanhava nos jogos que realizavam, onde quer que fosse. Adorava os rodeios e tinha verdadeira paixão por cavalos. Tivera um cavalo nos tempos de São Vicente do qual jamais se esquecia. Nem poderia: seu nome era “Sodoso” (“Saudoso”). Fora seu companheiro nas idas e vindas da Usina Pacífico Mascarenhas a São Vicente e a Sete Lagoas. Sô Tião foi membro do Rotary Club, da Sociedade São Vicente de Paula, entre outras entidades beneficentes. Era um homem generoso, capaz de abrir mão do que tinha para doar para outras pessoas, mesmo contrariando a própria família. Nesse ponto, Sô Tião nos leva ao Tião Ferreira.
Tião Ferreira era filho de Maria Ferreira. Da mãe herdara o sobrenome que o pai não registrara no cartório. O Ferreira era a marca da personalidade forte da mãe, mulher lutadora, que sofreu muito para criar os filhos. O pai, Ilídio Duarte Nunes, era filho de escravos e jamais fora oficialmente registrado. Diziam que seu sobrenome original era “Nunes Fraga” e que o “Duarte” fora herdado dos senhores que o criaram. O fato é que “Duarte Nunes” foi o sobrenome com que Ilídio, nesse idílio,  registrou os filhos Esther, Sebastião, Irênio, Dorvalina e Divino. Ilídio faleceu e dona Maria Ferreira criou os filhos na roça e na vara. Naqueles tempos, cara fechada era comum. Castigo também. Bom para ensinar os filhos a serem respeitados. Certo ou errado, cresceram todos cheios de inteligência e de amigos. Isso também dona Maria Ferreira ensinou: que os amigos são a extensão da família. Que os amigos são irmãos que Deus Nosso Senhor arruma para nos ajudar nas horas difíceis e a quem nós devemos amparar quando precisarem. E amigos a gente tem que respeitar primeiro, para ser respeitado. Assim, Tião Ferreira criou seus 16 filhos, Tereza, Antônio, Maria de Lourdes, Luci, Cecília, Lucas, Dirce, Sebastião, Ana Maria, Joaquim, Raquel, José Duarte, Ernane, Ulisses, Monalise, Renata;  mais quatro filhos de criação: Luiz, Paulo César, Vilma e Glayson, a quem considerava como filhos legítimos e fazia questão que todos da família também o fizessem.
Fez questão de que todos estudassem, dando todas as oportunidades para isso. Aliás, um dos motivos de sua vinda em definitivo de São Vicente para Caetanópolis fora exatamente a possibilidade que era oferecida em Caetanópolis para que seus filhos estudassem, considerando que em São Vicente havia apenas o “primário” (até a 4a Série). A grande maioria de seus filhos concluiu o 2o Grau e Luci, Ana Maria, Joaquim, Ernane, Renata e, mais recentemente, Maria de Lourdes, concluíram o Ensino Superior.  Isso certamente não seria possível se eles tivessem continuado a morar em São Vicente.
Outro motivo de sua decisão em trazer a família para Caetanópolis foi a grande receptividade do povo caetanopolitano. Sempre fora muito bem tratado e quando sua família veio, não foi diferente. Logo todos se sentiam um pouco caetanopolitanos, inseridos que foram em um curto espaço de tempo na sociedade cedrense. Seus amigos, que sempre foram muitos, faziam questão de se reunir em sua casa nos fins de semana, onde realizavam churrascos e galinhadas. Mas o Tião Ferreira não seria esse homem capaz de criar tantos filhos se não tivesse tido as esposas que teve. Sua primeira esposa, Luíza, de quem Deus lhe privou a companhia com poucos anos de casamento e oito filhos (o primeiro morreu com apenas 2 meses de idade), era uma mulher de fortíssima personalidade, que marcou sua vida de forma indelével. Já Raimunda, sua segunda esposa, é uma mulher de extrema força e bondade, que é mãe de todos os filhos de Tião Ferreira, mesmo daqueles que não vieram de seu ventre. Perdeu um filho, Tiãozinho, tragicamente, vítima de um acidente de ônibus quando voltava de férias da Bahia. Essa tragédia serviu para abalar ainda mais a saúde do Tião Ferreira, que naquele tempo já era bastante delicada, pois ele já passara por um AVC (acidente vascular cerebral). Foi Dona Raimunda quem o acompanhou até os últimos momentos de sua vida, quando Nosso Senhor resolveu chamá-lo para fazer umas instalações elétricas lá no paraíso, de onde, certamente, ele continua a cuidar de toda a sua família.
Tião Ferreira, Sô Tião, Sebastião Duarte Nunes... Não importa como as pessoas o conheceram. Importa sim o exemplo de homem que ele foi e continua sendo para todos os seus filhos e, por que não dizer, um paradigma para toda uma sociedade tão carente de pessoas honestas e capazes de deixar uma indelével  marca positiva de bondade, firmeza de caráter e de respeito.

 

“O Sorriso Aberto de Meu Pai”

(Ernane Duarte Nunes)


O sorriso aberto de meu pai ensinou-nos a viver... 
Com um sorriso aberto nos levava para a roça
E ensinava para todos nós como usar uma enxada
Para capinar as dificuldades da vida.
Com um sorriso aberto nos ensinava a plantar,
Semeando sonhos e colhendo a realidade.
Com  o sorriso aberto sempre...


Pois é, Pai!... Aprendemos a viver assim,
Como o senhor nos ensinou...
A nossa hereditária cara fechada algumas vezes
É apenas o nosso amadurecimento
Cultivado sob o sol das dificuldades da vida
Com esforço e com trabalho honesto...
Como o senhor fez um dia, Pai...


Esse sorriso aberto, essas mãos calejadas
Enfim, tudo o que o senhor nos ensinou
Irá nos acompanhar durante toda a nossa vida
Ao lado da lição maior 
— a união de todos nós, seus filhos —
Como exemplo do amor e do carinho
Para sempre em toda a nossa família!...




sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Peregrino

 

A vida nos traz sempre oportunidades de crescimento. No último dia 6 de janeiro, completei mais um ano de vida e, diante do clichê que a situação me traz, pensei que o Dia dos Santos Reis podia trazer-me a metáfora do peregrino. Melchior, Baltazar e Gaspar seguiam a estrela em busca do Menino Sagrado, do Messias prometido, da libertação. Sinto-me assim também como um peregrino em busca de algo semelhante.

A tradição dos Três Reis Magos é muito antiga e está intimamente ligada ao nascimento de Jesus. As referências evangélicas oficiais são vagas (somente São Mateus). Não se diz quantos eram nem seus nomes, nem mesmo se eram reis. Alguns estudiosos creem terem sido sacerdotes seguidores de Zaratustra ou Zoroastro, da Pérsia. A crença de que seriam três deve-se talvez à quantidade de oferendas trazidas: ouro, incenso e mirra. Seus nomes seriam Melchior, rei da Pérsia; Gaspar, rei da Índia, e Baltazar, rei da Arábia, os Santos Reis, porque são considerados bem-aventurados. Receberam esses nomes mais de oitocentos anos depois do nascimento de Jesus. Poderiam também ter sido astrônomos, considerando a questão de observarem uma estrela incomum e a seguirem.

Discorro sobre isso neste post porque, como um peregrino que me sinto, não me sinto um rei, todavia. Na reflexão do dia de aniversário, vejo-me caminhando pela vida em busca do conhecimento. Ao longo da minha jornada, tive a oportunidade de conhecer grandes mestres que me ajudaram muitíssimo e um deles é o professor José Geraldo “Coró”, como é conhecido pela grande maioria. Grande estudioso da vida, sempre proporcionou-me momentos curiosos. Contarei alguns.

Meu primeiro contato com o Coró foi na minha infância. Não creio que ele se lembre. Devia ter uns 9 anos de idade. O coró foi visitar meus irmãos mais velhos (Tiãozinho e Joaquim, ambos seus alunos à época) e, como ambos estavam no banho, minha saudosíssima mãe pediu-me que o recebesse e lhe oferecesse um café. Assim o fiz e ele prontamente aceitou o café que há pouco tinha sido passado por minha mãe e cujo cheiro ainda exalava do bule em cima do fogão a lenha. Servi-lhe e um sorriso suave apareceu no rosto do Coró, que tomou o café com jeito satisfeito. Mas minha mãe entrou em desespero ao ver que o Coró tomava café na enorme caneca de chope do meu pai, cheia até a tampa do saboroso líquido negro, e não em uma pequena xícara (aliás, só havia uma na minha casa). Repreendeu-me por isso e eu, que não entendia dessas formalidades, disse inocentemente (não exatamente com essas palavras) que aquele era o melhor recipiente para líquidos da casa. E era mesmo! Por isso pertencia ao meu pai.

O Coró abriu um sorriso mais evidente e agradeceu o café, dizendo que estava muito gostoso. E esse sorriso tranquilizou minha mãe e também a mim, temeroso de mais reprimendas depois que a visita se fosse.

Quando aluno da Escola Estadual Padre Augusto Horta, honrosamente o mestre Coró lecionou-me Matemática e fez-me ainda mais admirador dessa maravilhosa matéria, pela qual ainda sou apaixonado. Questionam-me isso ainda hoje: por que segui a carreira acadêmica das Letras e não das Exatas. Para encurtar a conversa, por se tratar de uma outra história, digo que a vida proporcionou-me isso e, como um ditado popular costuma relatar, Deus atende as nossas necessidades e não nossas vontades. Sou imensamente grato e feliz por ter optado pela carreira das Letras e o fiz pela afinidade que tínhamos. Quanto às Exatas, sempre foram um pouco minhas inimigas e, por serem mais difíceis de conquistar, tornam-se ainda mais apaixonantes.

Mas o Mestre Coró ensinou-me muito mais do que a Matemática e seus mistérios. Através das suas costumeiras reflexões em sala de aula, pude aprender a conhecer obras fantásticas como a do filósofo e místico indiano Jiddu Krishnamurti. Reproduzo alguns de seus pensamentos:

  • “Podemos ir longe, se começarmos de muito perto. Em geral começamos pelo mais distante, o "supremo princípio", "o maior ideal", e ficamos perdidos em algum sonho vago do pensamento imaginativo. Mas quando partimos de muito perto, do mais perto, que é nós, então o mundo inteiro está aberto — pois nós somos o mundo. Temos de começar pelo que é real, pelo que está a acontecer agora, e o agora é sem tempo.”
  • “Meditação é libertar a mente de toda desonestidade. O pensamento gera desonestidade. O pensamento, no seu esforço para ser honesto, é comparativo e, portanto, desonesto. (…) Meditação é o movimento dessa honestidade no silêncio.”
  • “Estou apenas a ser como um espelho da vossa vida, no qual podeis ver-vos como sois. Depois, podeis deitar fora o espelho; o espelho não é importante.”
  • “… Falamos da vida — e não de ideias, de teorias, de práticas ou de técnicas. Falamos para que olhe esta vida total, que é também a sua vida, para que lhe dê atenção. Isso significa que não pode desperdiçá-la. Tem pouquíssimo tempo para viver, talvez dez, talvez cinquenta anos. Não perca esse tempo. Olhe a sua vida, dê tudo para a compreender.”

Não quero me delongar neste post. Serve apenas como manifesto de apreço ao Coró que, recentemente, tem me proporcionado conhecer mais uma faceta de sua personalidade excepcional: o apreço pela boa música. Tem compartilhado comigo e com o amigo Maestro Nascimento a oportunidade de conhecermos belíssimas apresentações musicais através do empréstimo de DVDs  de seu excepcional acervo.

Termino-o então com uns versos, para fazer jus ao Poetopias.

 

 

“Peregrino”

como um peregrino seguindo a estrela

sigo os caminhos íngremes que a vida me traçou

olho, entretanto, com um sorriso o que percorri

a jornada foi árdua até aqui

mas muito recompensadora em sua plenitude

aprendi que seguir a estrela

não foi absolutamente a minha principal atitude

mas sim seguir o caminho

parar um pouco para olhar para trás

e acima de tudo olhar para o momento que me cerca

e de vez em quando para o futuro

espero encontrar ao final a lapinha

onde repousa Aquele que ainda não compreendo

mas que respeito imensamente

Aquele cujas palavras não têm medo do tempo

porque nunca deixarão de dizer a verdade

tão difícil de aceitar

a verdade tão difícil de praticar

como peregrino, continuo minha jornada

sou ao mesmo tempo Baltasar, Melchior e Gaspar

mas não trago comigo incenso, nem ouro, nem mirra

levo apenas a mim mesmo na capanga

este embornal vazio de muitas coisas

mas cheio de esperança

 

3Reis

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Aniversário


Quando resolvi criar um blog, eu sabia da responsabilidade que assumia. Criei o Poetopias e hoje, ao publicar esse post, penso que no dia 7 de janeiro completará um ano de existência. A data coincide propositalmente com o meu aniversário de casamento, um dia após o meu próprio aniversário.

Foi muito legal manter o Poetopias durante esse período. Aprendi muito sobre a blogosfera com meus colegas invicioneiros e também lendo outros blogs. Sinceramente, não sou muito de ficar buscando blogs para ler. Na verdade, quando me sento diante da tela de um computador, normalmente é para trabalhar numa planilha eletrônica, em um editor de texto ou para ler e-mails (a maior parte do tempo, relacionados a trabalho). Mas tenho aprendido a usar a internet para me relacionar com outras pessoas e isso tem contribuído muito para meu crescimento pessoal.

Minha esposa, companheira amada, tem sido convidada a estar a meu lado e comparece, durante as oportunidades que os afazeres lhe permitem. É um apoio constante e leitora assídua dos meus escritos. É também a musa que me inspira na maioria deles. Completamos mais um ano de casados, período de grande felicidade e amadurecimento. Reafirmamos neste aniversário de casamento a certeza de uma união repleta de amor, compreensão e respeito. E paixão, muita paixão.

Quero reafirmar também neste aniversário de blog minha perspectiva de continuidade. Quero mantê-lo, não sei por quanto tempo, não sei qual será a frequência de publicação, não sei nada. Não o planejei, mas ele nasceu espontaneamente da minha necessidade de expressar-me, de dizer algumas coisas que acho importantes. Tenho coisas para dizer ainda. Escrevo egoisticamente para mim mesmo. Meus poucos leitores prestigiam-me e sinto-me honrado imensamente por tê-los. Contribuem com o blog através de seus comentários pertinentes e engrandecedores. Contribuem com o fato de ler-me nas entrelinhas do que escrevo.

Poetopias: que trem doido é esse? A pergunta permanece sem resposta. Como um trem, segue os trilhos das palavras, mas sem destino específico. Eu, passageiro, sento-me à janela e observo a paisagem atentamente...

DAYSY

“Aniversário”

há em nós
antes do sonho
a realidade insuperável
de sermos o que somos
e a cada momento,
imaginamos a vida
como um picadeiro de circo
de estruturas frágeis
prestes a cair
entretanto, os alicerces da vida
são estruturas resistentes
que constituem nosso sonho
neste aniversário de agora
comemoramos a realização
do que sonhamos um dia
somos felizes nesta ilha
cercados por uma família
um mar imenso ao nosso redor
um amor intenso
um amor intenso…