Saio do ônibus rapidamente, na frente de todos os demais. Sigo caminhando sozinho para o trabalho. Um outro colega vem logo atrás de mim, mas não o espero. Tenho pressa de chegar ao trabalho, sentar-me à mesa e isolar-me ainda mais. Mas intimamente coloco-me que jamais devo esquecer meus valores.
domingo, 24 de julho de 2011
Crônicas de viagem I - Valores
Saio do ônibus rapidamente, na frente de todos os demais. Sigo caminhando sozinho para o trabalho. Um outro colega vem logo atrás de mim, mas não o espero. Tenho pressa de chegar ao trabalho, sentar-me à mesa e isolar-me ainda mais. Mas intimamente coloco-me que jamais devo esquecer meus valores.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Um soco no estômago
Lua nova demais(Elisa Lucinda)
Dorme tensa a pequena
sozinha como que suspensa no céu
Vira mulher sem saber
sem brinco, sem pulseira, sem anel
sem espelho, sem conselho, laço de cabelo, bambolê
Sem mãe perto,
sem pai certo
sem cama certa,
sem coberta,
vira mulher com medo,
vira mulher sempre cedo.
Menina de enredo triste,
dedo em riste,
contra o que não sabe
quanto ao que ninguém lhe disse.
A malandragem, a molequice
se misturam aos peitinhos novos
furando a roupa de garoto que lhe dão
dentro da qual menstruará
sempre com a mesma calcinha,
sem absorvente, sem escova de dente,
sem pano quente, sem O B.
Tudo é nojo, medo,
misturação de “cadês.”
E a cólica,
a dor de cabeça,
é sempre a mesma merda,
a mesma dor,
de não ter colo,
parque
pracinha,
penteadeira,
pátria.
Ela lua pequenininha
não tem batom, planeta, caneta,
diário, hemisfério,
Sem entender seu mistério,
ela luta até dormir
mas é menina ainda;
chupa o dedo
E tem medo
de ser estuprada
pelos bêbados mendigos do Aterro
tem medo de ser machucada, medo.
Depois menstrua e muda de medo
o de ser engravidada, emprenhada,
na noite do mesmo Aterro.
Tem medo do pai desse filho ser preso,
tem medo, medo
Ela que nunca pode ser ela direito,
ela que nem ensaiou o jeito com a boneca
vai ter que ser mãe depressa na calçada
ter filho sem pensar, ter filho por azar
ser mãe e vítima
Ter filho pra doer,
pra bater,
pra abandonar.
Se dorme, dorme nada,
é o corpo que se larga, que se rende
ao cansaço da fome, da miséria,
da mágoa deslavada
dorme de boca fechada,
olhos abertos,
vagina trancada.
Ser ela assim na rua
é estar sempre por ser atropelada
pelo pau sem dono
dos outros meninos-homens sofridos,
do louco varrido,
pela polícia mascarada.
Fosse ela cuidada,
tivesse abrigo onde dormir,
caminho onde ir,
roupa lavada, escola, manicure, máquina de costura, bordado,
pintura, teatro, abraço, casaco de lã
podia borralheira
acordar um dia
cidadã.
Sonha quem cante pra ela:
“Se essa Lua, Se essa Lua fosse minha…”
Sonha em ser amada,
ter Natal, filhos felizes,
marido, vestido,
pagode sábado no quintal.
Sonha e acorda mal
porque menina na rua,
é muito nova
é lua pequena demais
é ser só cratera, só buracos,
sem pele, desprotegida, destratada
pela vida crua
É estar sozinha, cheia de perguntas
sem resposta
sempre exposta, pobre lua
É ser menina-mulher com frio
mas sempre nua.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Sobre a gramática
domingo, 8 de maio de 2011
O Teatro Mágico
Fernando Anitelli, 35 anos, ator, músico e compositor, é o responsável pela criação do projeto “O Teatro Mágico”. Nascido em Presidente Prudente e criado na cidade de Osasco, São Paulo, Anitelli “brinca” com arranjos e melodias desde os 13 anos, “Quando vi que rimar amor com humor funcionava, não só na estética e na melodia, mas no sentido que aquilo tinha pra mim, nunca mais parei de fazer música”, revela.As primeiras vitórias vieram logo cedo com prêmios em vários festivais dos quais participou com suas canções. A entrada na Faculdade de Comunicação Social lhe garantiu não só um diploma, mas também a formação da banda Madalena 19, que permitiu seu amadurecimento como músico. Foram quase dez anos de ensaios e apresentações de pequeno porte.De lá para cá, Anitelli acumulou ainda a experiência como ator, trabalhando com diretores como Oswaldo Montenegro, Ismael Araújo e Caio Andrade, entre outros, que lhe deram as noções básicas de expressão corporal, domínio de palco e outros elementos vindos da escola do teatro, indispensáveis em seus shows.Em 2003, Anitelli gravou seu primeiro CD. O álbum recebeu o sugestivo título “O Teatro Mágico: Entrada para Raros”, numa referência ao best-seller “O Lobo da Estepe”, do escritor alemão Hermann Hesse. “Quando eu li sobre o Teatro Mágico do Hesse, percebi que era justamente aquilo que eu gostaria de montar: um espetáculo que juntasse tudo numa coisa só, malabaristas, atores, cantores, poetas, palhaços, bailarinas e tudo mais que a minha imaginação pudesse criar. O Teatro Mágico é um lugar onde tudo é possível.”, conta.Em cena, Anitelli revela uma expressão cênica incrível seja declamando versos, cantando ou fazendo performances. “Quando estou no palco, faço questão de frisar que aquele ali sou eu, não é um palhaço ou outro personagem qualquer”. O Teatro Mágico torna possível que cada um se mostre como é, que cada verdade interna seja revelada. Essa é a grande brincadeira, “ser o que se é, afinal todos somos raros e temos que ter consciência disso” , destaca. E assim, Anitelli vai traçando um paralelo entre o real e o imaginário enquanto o público, aos poucos, vai entrando na mesma freqüência sinestésica marcada pelo ritmo do espetáculo. No final, palco e platéia se fundem e cada um dos presentes vai descobrindo a delícia de se permitir ser um pouco mais de si mesmo.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
“Lições de Vida”
Escrevo esse post como uma homenagem a meu pai. A saudade dele, de minha mãe e de todos que se foram às vezes aperta o peito. É mais uma biografia. Quando o nome de meu pai foi virar nome de rua em Caetanópolis, a Câmara de Vereadores pediu que escrevesse uma breve história da vida dele. Não foi possível fazê-la breve, pois a vida de meu pai foi muito intensa para ser resumida a poucas palavras.
“Lições de Vida”
“O Sorriso Aberto de Meu Pai”(Ernane Duarte Nunes) O sorriso aberto de meu pai ensinou-nos a viver... Com um sorriso aberto nos levava para a roça E ensinava para todos nós como usar uma enxada Para capinar as dificuldades da vida. Com um sorriso aberto nos ensinava a plantar, Semeando sonhos e colhendo a realidade. Com o sorriso aberto sempre... Pois é, Pai!... Aprendemos a viver assim, Como o senhor nos ensinou... A nossa hereditária cara fechada algumas vezes É apenas o nosso amadurecimento Cultivado sob o sol das dificuldades da vida Com esforço e com trabalho honesto... Como o senhor fez um dia, Pai... Esse sorriso aberto, essas mãos calejadas Enfim, tudo o que o senhor nos ensinou Irá nos acompanhar durante toda a nossa vida Ao lado da lição maior — a união de todos nós, seus filhos — Como exemplo do amor e do carinho Para sempre em toda a nossa família!... |
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Peregrino
A vida nos traz sempre oportunidades de crescimento. No último dia 6 de janeiro, completei mais um ano de vida e, diante do clichê que a situação me traz, pensei que o Dia dos Santos Reis podia trazer-me a metáfora do peregrino. Melchior, Baltazar e Gaspar seguiam a estrela em busca do Menino Sagrado, do Messias prometido, da libertação. Sinto-me assim também como um peregrino em busca de algo semelhante.
A tradição dos Três Reis Magos é muito antiga e está intimamente ligada ao nascimento de Jesus. As referências evangélicas oficiais são vagas (somente São Mateus). Não se diz quantos eram nem seus nomes, nem mesmo se eram reis. Alguns estudiosos creem terem sido sacerdotes seguidores de Zaratustra ou Zoroastro, da Pérsia. A crença de que seriam três deve-se talvez à quantidade de oferendas trazidas: ouro, incenso e mirra. Seus nomes seriam Melchior, rei da Pérsia; Gaspar, rei da Índia, e Baltazar, rei da Arábia, os Santos Reis, porque são considerados bem-aventurados. Receberam esses nomes mais de oitocentos anos depois do nascimento de Jesus. Poderiam também ter sido astrônomos, considerando a questão de observarem uma estrela incomum e a seguirem.
Discorro sobre isso neste post porque, como um peregrino que me sinto, não me sinto um rei, todavia. Na reflexão do dia de aniversário, vejo-me caminhando pela vida em busca do conhecimento. Ao longo da minha jornada, tive a oportunidade de conhecer grandes mestres que me ajudaram muitíssimo e um deles é o professor José Geraldo “Coró”, como é conhecido pela grande maioria. Grande estudioso da vida, sempre proporcionou-me momentos curiosos. Contarei alguns.
Meu primeiro contato com o Coró foi na minha infância. Não creio que ele se lembre. Devia ter uns 9 anos de idade. O coró foi visitar meus irmãos mais velhos (Tiãozinho e Joaquim, ambos seus alunos à época) e, como ambos estavam no banho, minha saudosíssima mãe pediu-me que o recebesse e lhe oferecesse um café. Assim o fiz e ele prontamente aceitou o café que há pouco tinha sido passado por minha mãe e cujo cheiro ainda exalava do bule em cima do fogão a lenha. Servi-lhe e um sorriso suave apareceu no rosto do Coró, que tomou o café com jeito satisfeito. Mas minha mãe entrou em desespero ao ver que o Coró tomava café na enorme caneca de chope do meu pai, cheia até a tampa do saboroso líquido negro, e não em uma pequena xícara (aliás, só havia uma na minha casa). Repreendeu-me por isso e eu, que não entendia dessas formalidades, disse inocentemente (não exatamente com essas palavras) que aquele era o melhor recipiente para líquidos da casa. E era mesmo! Por isso pertencia ao meu pai.
O Coró abriu um sorriso mais evidente e agradeceu o café, dizendo que estava muito gostoso. E esse sorriso tranquilizou minha mãe e também a mim, temeroso de mais reprimendas depois que a visita se fosse.
Quando aluno da Escola Estadual Padre Augusto Horta, honrosamente o mestre Coró lecionou-me Matemática e fez-me ainda mais admirador dessa maravilhosa matéria, pela qual ainda sou apaixonado. Questionam-me isso ainda hoje: por que segui a carreira acadêmica das Letras e não das Exatas. Para encurtar a conversa, por se tratar de uma outra história, digo que a vida proporcionou-me isso e, como um ditado popular costuma relatar, Deus atende as nossas necessidades e não nossas vontades. Sou imensamente grato e feliz por ter optado pela carreira das Letras e o fiz pela afinidade que tínhamos. Quanto às Exatas, sempre foram um pouco minhas inimigas e, por serem mais difíceis de conquistar, tornam-se ainda mais apaixonantes.
Mas o Mestre Coró ensinou-me muito mais do que a Matemática e seus mistérios. Através das suas costumeiras reflexões em sala de aula, pude aprender a conhecer obras fantásticas como a do filósofo e místico indiano Jiddu Krishnamurti. Reproduzo alguns de seus pensamentos:
- “Podemos ir longe, se começarmos de muito perto. Em geral começamos pelo mais distante, o "supremo princípio", "o maior ideal", e ficamos perdidos em algum sonho vago do pensamento imaginativo. Mas quando partimos de muito perto, do mais perto, que é nós, então o mundo inteiro está aberto — pois nós somos o mundo. Temos de começar pelo que é real, pelo que está a acontecer agora, e o agora é sem tempo.”
- “Meditação é libertar a mente de toda desonestidade. O pensamento gera desonestidade. O pensamento, no seu esforço para ser honesto, é comparativo e, portanto, desonesto. (…) Meditação é o movimento dessa honestidade no silêncio.”
- “Estou apenas a ser como um espelho da vossa vida, no qual podeis ver-vos como sois. Depois, podeis deitar fora o espelho; o espelho não é importante.”
- “… Falamos da vida — e não de ideias, de teorias, de práticas ou de técnicas. Falamos para que olhe esta vida total, que é também a sua vida, para que lhe dê atenção. Isso significa que não pode desperdiçá-la. Tem pouquíssimo tempo para viver, talvez dez, talvez cinquenta anos. Não perca esse tempo. Olhe a sua vida, dê tudo para a compreender.”
Não quero me delongar neste post. Serve apenas como manifesto de apreço ao Coró que, recentemente, tem me proporcionado conhecer mais uma faceta de sua personalidade excepcional: o apreço pela boa música. Tem compartilhado comigo e com o amigo Maestro Nascimento a oportunidade de conhecermos belíssimas apresentações musicais através do empréstimo de DVDs de seu excepcional acervo.
Termino-o então com uns versos, para fazer jus ao Poetopias.
“Peregrino”
como um peregrino seguindo a estrela
sigo os caminhos íngremes que a vida me traçou
olho, entretanto, com um sorriso o que percorri
a jornada foi árdua até aqui
mas muito recompensadora em sua plenitude
aprendi que seguir a estrela
não foi absolutamente a minha principal atitude
mas sim seguir o caminho
parar um pouco para olhar para trás
e acima de tudo olhar para o momento que me cerca
e de vez em quando para o futuro
espero encontrar ao final a lapinha
onde repousa Aquele que ainda não compreendo
mas que respeito imensamente
Aquele cujas palavras não têm medo do tempo
porque nunca deixarão de dizer a verdade
tão difícil de aceitar
a verdade tão difícil de praticar
como peregrino, continuo minha jornada
sou ao mesmo tempo Baltasar, Melchior e Gaspar
mas não trago comigo incenso, nem ouro, nem mirra
levo apenas a mim mesmo na capanga
este embornal vazio de muitas coisas
mas cheio de esperança
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Aniversário
“Aniversário”há em nósantes do sonhoa realidade insuperávelde sermos o que somose a cada momento,imaginamos a vidacomo um picadeiro de circode estruturas frágeisprestes a cairentretanto, os alicerces da vidasão estruturas resistentesque constituem nosso sonhoneste aniversário de agoracomemoramos a realizaçãodo que sonhamos um diasomos felizes nesta ilhacercados por uma famíliaum mar imenso ao nosso redorum amor intensoum amor intenso…



