Pesquisar este blog

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Mudo

eu-amo-voce-na-areia-12c96

 

Estou mudo. Fiz uma cirurgia no último dia 10 de julho para retirar um pólipo nas pregas vocais e cá me encontro de bloquinho na mão tentando me comunicar. Escrevo, faço mímicas, mas a angústia de não poder falar ou de não me fazer entender como gostaria é terrível. A ansiedade carcome minha paciência e assim vou levando.

Passam-se cinco dias e já posso falar algumas palavras em tom baixo e o mínimo possível. Entretanto, os afazeres diários não permitem que seja em tom baixo (o telefone) nem que fale o mínimo possível. Tento me livrar do incômodo gerado pelos abusos, mas minha voz torna-se inaudível.

Estou mudo. Não consigo falar. Isso me incomoda muitíssimo. O que mais incomoda é não poder dizer algumas coisas especiais:

Obrigado!...

Bom dia!...

Deus o abençoe!...

Fique com Deus!...

Eu amo você...

 

“Eu amo você”

 

eu amo você

como a chuva silenciosa ama o regato

que a recebe quando cai da nuvem

e a condensa em fluxo contínuo

que cresce cada vez mais

 

 

eu amo você

como a montanha ama o sol

e o acolhe serena em seu colo quando se cansa de brilhar

e o faz adormecer sereno na noite que vem

para acordá-lo na manhã que nasce

 

 

eu amo você

como o silêncio aguarda a canção que dorme

silenciosamente no limbo oculto

e de repente surge despertando a emoção

escondida explodida em cada acorde

 

 

eu amo você

e apenas isso bastaria para que eu lhe desse minha vida

mas não a entrego simplesmente a você

compartilho minha alma

na intensidade máxima da entrega desse amor...

 

 

domingo, 6 de maio de 2012

Crônica de vida e trabalho


Era um garoto tímido. Extremamente magro, o menino sempre teve dificuldade em socializar-se. Ele acordou cedo naquele dia. Afinal, seria seu primeiro dia de trabalho. Já tinha o costume de acordar cedo, mas naquela segunda-feira não conseguiu passar das 5h da manhã. Foi ao quintal, buscou um pouco de lenha e acendeu a fornalha. Voltou para tratar das galinhas, dos porcos e do seu cachorro fila. Foi até o córrego que passava no fundo de casa conferir as varas e as linhas de espera e um bagre de bom tamanho juntamente com um douradinho estavam presos e iriam servir para o almoço. Trouxe-os e os jogou no poço onde mantinha os peixes vivos, debaixo do pé de manga-espada. Enquanto isso, sua mãe preparava o café e seu pai ouvia o programa do Zé Bettio no rádio.

O coração do menino batia ansioso pela expectativa. O apito da fábrica às seis horas da manhã acelerou as batidas e iniciou uma contagem regressiva. Às 06h40min o pai chamou: “Vamos pegar no batente?” O coração já não se continha. Um abraço e um beijo na mãe e o pedido de bênção, deixando a casa. Seguiram pelos fundos da casa, para um potãozinho por onde o pai passava todos os dias. O pai era o único funcionário da empresa que não passava pela portaria, tamanha era a confiança do gerente da fábrica. Estava fazendo muito frio naquele dia de junho. Mas o menino sentia calor, aquecido pela ansiedade.

Marcou o cartão, como o pai lhe ensinou e aguardou a chegada do monitor de treinamento que o levaria à seção e lhe mostraria o que fazer. Foi direto para o setor de trabalho e começou sua aprendizagem. As primeiras quatro horas passaram rapidamente e logo chegou a hora do almoço. Fez o caminho de volta para casa em silêncio com o pai, que não lhe perguntou como foram as primeiras horas. Mas a mãe sim. Entretanto, como o tempo para o almoço era exíguo, não teve muito o que falar. Voltou para as quatro horas restantes, que também passaram rapidamente e logo retornou para casa. O pai continuava em silêncio e nada perguntara.

Mais uma vez, não havia muito tempo para conversar. Tinha que tomar banho logo e seguir para a escola a pé, numa caminhada de cerca de quarenta minutos. Antes ia de bicicleta, mas agora não mais podia guardá-la dentro da escola. A possibilidade de a roubarem era grande e não valia a pena arriscar. Então, ele e mais dois colegas vizinhos iam a pé todos os dias. Às vezes ganhavam carona na ida e na volta, embora nem sempre.

Quando chegou da escola às 23h, o pai o esperava com a mãe. A janta estava no canto do fogão a lenha e, enquanto comia, o pai lhe perguntou finalmente como fora o dia. Uma alegria silenciosa invadiu o peito do menino. Contou ao pai sobre seu entusiasmo e o que aprendera. Contou como se impressionou com aquelas máquinas que transformavam algodão em fio. Mostrou ao pai e à mãe as queimaduras nas mãos, com todo o orgulho de um trabalhador pelos calos que cultiva ao longo de sua jornada. O pai sorria, com um olhar satisfeito para o filho. Findo o jantar, bênção de pai e mãe. O menino já não se sentia mais assim. Orgulhoso, dormiria naquela noite o sono de um homem.


**********************************************

“O sono de um homem”

o sono de um homem é repleto de expectativas
de um dia seguinte melhor que o que passou
ninguém jamais saberá tudo o que povoa sua cabeça
nem mesmo ele próprio o sabe em sua plenitude

pensamentos são velozes e sinuosos
silentes, não alardeiam sua presença
aguardam o momento de serem percebidos
na tênue hora do sono cansado

o sonho é então um pensamento que amadurece
e penetra profundamente no coração do homem
ao invadir seu íntimo
transforma-se em parte de sua alma
e passa a ser a imagem mais perfeita
da esperança...
(Enanre Etraud)


***************************

Para finalizar, deixo cá os versos do grande Fernando Pessoa, no seu heterônimo Álvaro de Campos, sobre o sono:

“O Sono”

O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono!...

Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa), in “Poemas”

Pai e filho enxada

terça-feira, 17 de abril de 2012

Família, família – carpe diem

Penso em quantas vezes a família foi meu esteio. Não é fácil, absolutamente, vivenciar todas as dificuldades que a vida nos coloca sem nos alicerçarmos em alguém. Ombros e palavras necessárias encontramos com nossa família e amigos (os quais considero também como família) e isso sempre nos ajuda a nos sentirmos melhor. Temos que aproveitar enquanto temos esse suporte conosco. O tempo é inexorável.

É bom esclarecer o que quis dizer com "palavras necessárias", pois isso pode parecer estranho. Palavras necessárias nem sempre são palavras de conforto ou apoio. Muitas vezes são aquelas palavras "palavaras", como diria o Enanre Etraud. Diz-se por aí que muitas vezes as melhores palavras de apoio não são as que gostaríamos de ouvir, mas as que precisamos ouvir. Mas sou bom menino. Não tenho levado muitos puxões de orelha, a não ser os que eu mesmo me aplico.

Esse post está sendo redigido em pleno horário vago na escola, pois tive que me submeter a um remanejamento de aulas em virtude da falta de dois colegas por estarem participando de cursos promovidos pela Superintendência Regional de Ensino em outra cidade, impossibilitados, portanto, de virem lecionar.

É evidente que, em 50 minutos apenas não sairia algo muito bom, mas não estou mesmo tendo tempo nem muita inspiração, então resolvi simplesmente aproveitar esses breves momentos. Carpe Diem.

"Carpe Diem"

aproveitar o dia confuso
para refazer o tempo esgotado
reconstruí-lo em bloco difuso
de tijolos do barro do passado
misturado à argila do momento
antecipado pela mensagem do vento
que se intromete no poema apenas para rimar
ouço ao longe o coro de adolescentes
ansiosos por aprender
como fugir da escola mais cedo sem ser percebido
costuro então as palavras
palavaras palaveras palavelhas
que se repetem em trocadilhos já ditos
em conceitos semânticos esquisitos
carpindo o dia

******************

Aproveito para deixar inclusos dois vídeos de músicas memoráveis que, creio, podem fazer melhor por este post do que tudo o que escrevi...


                                                              O tempo não para (Cazuza) - ao vivo



Time (PinkFloyd) - ao vivo






quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pink Floyd e quem foi Vera Lynn



Pink Floyd
O Pink Floyd
Vera lynn
Vera Lynn

Sempre gostei da banda inglesa Pink Floyd. Desde que me entendo por gente aprendi a gostar do seu som original e de suas apresentações impressionantes. Tenho praticamente toda a discografia da banda, desde que Syd Barret era vocalista. O álbum mais conhecido da banda é, sem dúvida, “The Wall”, de 1979. Esse álbum acabou se transformando em um filme instigante de Alan Parker, a que tive a oportunidade de assistir no Cine Pepino, em Sete Lagoas, como parte de um trabalho para a saudosa Mírian Tanure, professora de inglês do meu curso de Letras.

Outro dia, entretanto, aprendi algo para o qual não tinha atinado: a referência à cantora inglesa Vera Lyn (nascida em Londres, em 20/03/1917), que foi muito famosa durante a Segunda Guerra Mundial. Seu repertório quase sempre fazia alusão à temática de soldados que foram para a luta. O início do filme de Alan Parker mostra uma radiola tocando uma música dela. No filme também podemos ouvir uma referência a uma de suas músicas mais famosas, “We´ll meet again”, logo após “Vera” — além disso, no final, traz a bela “Bring the boys back home”, com um coral (era comum aparecerem corais nas músicas de Vera Lynn). Aliás, A cantora acabou se tornando “Dame” Vera Lynn, uma homenagem da rainha por sua contribuição cultural. Vale a pena ressaltar que, recentemente, em setembro de 2009,foi lançado o álbum “We´ll meet again - The very best of Vera Lynn”, uma coletânea de suas músicas mais conhecidas, atingiu 1º lugar na lista dos mais vendidos na Inglaterra. Isso mostra a importância de Vera Lynn no país. Se quiserem saber mais, cliquem aqui.

Para nos situarmos a respeito, deixo aos leitores desse post algumas referências ao que relatei acima:

Vera
Pink Floyd
Does anybody here remember Vera Lynn
Remember how she said that
We would meet again
Some sunny day
Vera! Vera!
What has become of you
Does anybody else in here
Feel the way I do ?
Alguém aqui se lembra de Vera Lynn?
Se lembra como ela disse que
Nos encontraríamos novamente
Num dia ensolarado
Vera! Vera!
O que aconteceu com você?
Alguém por aqui
Sente o mesmo que eu?

“Vera” / “Bring the boys back home”


We’ll Meet Again
Vera Lynn


We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day

Keep smiling through
Just like you always do
'Till the blue skies
Drive the dark clouds far away

So, will you please say hello
To the folks that I know
Tell them I won't be long
They'll be happy to know
That as you saw me go
I was singing this song

We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day

We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day

So, Darling, keep smiling through
Just like you always do
'Till the blue skies
Drive the dark clouds far away

So, will you please say hello
To the folks that I know
Tell them I won't be long
They'll be happy to know
That as you saw me go
I was singing this song

We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day...
Vamos Nos Encontrar Novamente
Vera Lynn


Vamos nos encontrar novamente
Não sei onde
Não sei quando
Mas eu sei, vamos nos encontrar novamente
Em algum dia ensolarado

Continue sorrindo
Assim como você sempre faz
Até que o céu azul afaste
As nuvens escuras para longe

E por favor diga olá
Para as pessoas que eu conheço
Diga a eles que eu não demorarei
E eles vão ficar feliz em saber
Que quando você me viu ir
Eu estava cantando esta canção

Vamos nos encontrar novamente
Não sei onde
Não sei quando
Mas eu sei, vamos nos encontrar novamente
Em algum dia ensolarado

Sim, vamos nos encontrar novamente
Eu não sei onde
E não sei quando
Mas eu sei que vamos nos encontrar novamente
Em algum dia ensolarado

Então, querida, Continue sorrindo
Assim como você sempre faz
Até que o céu azul
Afaste as nuvens escuras para longe

E por favor diga olá
Para as pessoas que eu conheço
Diga a eles que eu não demorarei
E eles vão ficar feliz em saber
Que quando você me viu ir
Eu estava cantando esta canção

Nós nos encontraremos de novo
Não sei onde
Não sei quando
Mas eu sei, nós nos encontraremos de novo
Em algum dia ensolarado


“We’ll meet again”, de Vera Lynn

Para finalizar, deixo aqui uma das músicas do Pink Floyd de que mais gosto: “Wish You Were Here”. Ela é a quarta faixa do álbum de estúdio homônimo. Sua letra é uma referência ao primeiro vocalista do grupo, Syd Barrett, embora possa também ser considerada uma expressão de saudade. A letra foi composta pelos geniais David Gilmour e Roger Waters. Essa versão é uma interpretação intimista de Roger Waters, acompanhado por nada menos que Eric Clapton na guitarra, em concerto em prol das vítimas do tsunami na Ásia. Simplesmente fantático!

“Wish you were here”, com Roger Waters e Eric Clapton

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Encontro de Folia de Reis e Pastorinhas

Encontro de Folia de Reis e Pastorinhas em Caetanópolis – MG (Foto de EDN)P1150180

Mais uma vez, neste ano de 2012, como de costume, Caetanópolis foi brindada com o Encontro de Folia de Reis e Pastorinhas, organizado pelo Osmar “Marimbondo”, vereador e grande defensor dessas manifestações culturais.

Esse evento é admirável sob todos os pontos de vista. Mas o que mais me surpreende em relação ao mesmo é a oportunidade de podermos perceber como a tradição oral das Folias de Reis e das Pastorinhas que existem pelo interior de Minas Gerais (e também do Brasil, por que não dizer?) trazem uma diversidade fascinante. Ainda que se mantenham intactos os objetivos e as bases religiosas que norteiam tanto Folias de Reis quanto Pastorinhas, cada uma delas mantém particularidades que estão ligadas, em geral, aos seus membros principais.

Muitos desses grupos são mantidos por uma mesma família ou por amigos que cresceram juntos e aprenderam com seus próprios familiares a tradição. Mesmo que ocorra uma ou outra mudança, até para contextualização e contemporaneidade das apresentações, é possível perceber traços que nos levam à origem comum de todas elas, possivelmente na Idade Média e com forte influência ibérica.

Não sou um profundo estudioso do assunto. Sou mais um curioso e admirador. Ainda vou estudar muito a respeito. Mas a maior fonte que posso buscar conhecimento sempre serão as pessoas. Os “Mestres” que comandam esses grupos de Folia de Reis e Pastorinhas são as melhores fontes de informação que qualquer pessoa interessada pode consultar. E isso merece registro.

Nos meus contatos com pessoas do meio, sempre reforço a necessidade de que cada grupo tenha um registro escrito de como deve se apresentar, do que deve ser dito. E, aproveitando a tecnologia, que sejam feitos registros de áudio e vídeo. É um trabalho, creio eu, que as prefeituras municipais deveriam realizar. Isso deveria, inclusive, ser divulgado em meio eletrônico, em sítios como o YouTube. Fica aqui minha dica a respeito.

Para finalizar, gostaria de deixar um convite ao leitor e à leitora para que pesquise no YouTube e em outros sítios de vídeos os temas “Folia de Reis”, “Reisado” e “Pastorinhas”. É possível perceber a grande diversidade que essa manifestação cultural carrega Brasil afora.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Se John Lennon não tivesse morrido

Nesta manhã de sábado, véspera natalina, assisti novamente ao filme “Assassinato de John Lennon”, um filme instigante que invade a cabeça perturbada de Mark David Chapman, o assassino. O britânico Andrew Piddington, diretor do filme, tenta recriar os planos diabólicos do maníaco narcisista para se tornar famoso, acabando com a vida de Lennon. O ator Jonas Ball, à época pouco conhecido, faz uma interpretação assustadora do maluco que encerrou a vida de um artista e do homem que marcou várias gerações mundo afora. Se quiser saber detalhes desse triste episódio, basta clicar aqui. Inclusive, a cena do filme está no Youtube. 

Mas não é sobre isso que quero falar, exatamente. queria falar de uma ideia que me passou pela cabeça: se John não tivesse morrido? Como seria sua carreira posterior a tudo isso. Como se passaram 30 anos desse triste episódio, resolvi escrever um post somente sobre o que ocorreria nos oito primeiros anos após o que seria a tentativa frustrada de Chapman. Vejamos então…

“Se John Lennon não tivesse morrido”

Depois de ter sobrevivido à tentativa de assassinato, John Lennon resolveu dar um tempo em sua carreira. Passou uma semana em coma e três meses internado no hospital, mas conseguiu sobreviver sem sequelas físicas aos tiros do maníaco, cujo nome não gostava de ouvir, o que mostrava que as marcas psicológicas ficariam indelevelmente em sua alma. 

John e Yoko foram para o Japão com o filho Sean. Billy Preston, Paul, George e Ringo foram ficar com ele por várias semanas. Surgiu o boato de que se reuniriam novamente, o que foi negado veemente por todos. Mas não restava dúvidas de que o que acontecera com John os reunira novamente, não como artistas, mas como amigos. A perspectiva de perder John foi algo que mexeu com todos eles.

As várias semanas juntos evidentemente dariam frutos: muitas canções foram compostas. Combinaram que seriam lançados álbuns individuais com elas. Paul lançou em 12 de setembro de 1982 o LP “Ressurrection”, cuja música principal, “Little bird”, tinha o seguinte trecho: “We’re just men who fight for peace / Hold me in your wings, little dove / We can’t fight anymore / We can just sleep and dream…” (“Somos apenas homens que lutam por paz /  Abrace-me em suas asas, pombinha / Nós não podemos lutar mais /  Só queremos dormir e sonhar…”).

George também lançou, alguns dias depois, em 27 de setembro de 1982, um LP que tinha como música principal a angustiada canção “Pain”, acompanhada por um solo maravilhoso da guitarra do amigo Eric Clapton no trecho: “My heart bleeds of pain / I imagine another song / People would be happy and can / Make different things as love each other…” (Meu coração sangra de dor / Eu imaginei uma outra canção / As pessoas seriam felizes e poderiam / Fazer coisas diferentes como amar um ao outro…”).

Ringo demorou mais de um ano para gravar um novo LP, mas quando o fez, em 22 de fevereiro de 1983, apareceram várias canções, com destaque para a alegre “The yes song”, que dizia “We have many reasons to laugh / including the fact of being alive / then we go to another level, where the angels sing live life…” (“nós temos vários motivos para rir / inclusive o fato de estarmos vivos / nós vamos então para outro nível / onde os anjos cantam ao vivo a vida…”).

Billy Preston, por sua vez, foi convidado por John para gravar com ele seu novo LP, após quatro anos, em 1985. O LP foi lançado no dia 6 de janeiro, mostrando um novo lado interessante de John Lennon: ele tinha se tornado um estudioso da história das religiões e isso aparecia em várias canções. Inclusive, a escolha da data de lançamento tinha a ver com a história dos Reis Magos do Oriente que visitaram Jesus em Belém. O disco se chamava, aliás, “Journey”, que relatava a jornada de John Lennon até aquele momento. A participação de seu filho Julian, então com 22 anos, foi maravilhosa. O sucesso foi estrondoso. Tornou-se o disco mais vendido da história, com vários prêmios mundo afora. John, no entanto, continuava sem dar entrevistas e raramente era visto em público. Mas era respeitado por sua posição. A música que mais se destacou no disco, “Trip”, revelava o seu sentimento e, de certa forma, justificava essa ausência: “Now, I know I have fear/ I made a trip to paradise / But God wanted me to be here / I do not remember the way / But this man is separated / From myth that I became a day…” (“Eu agora tenho muito medo / Eu fiz uma viagem ao paraíso / Mas Deus quis que eu estivesse aqui / Eu não me lembro do caminho / Porém este homem está separado / Do mito que me tornei um dia…”).

John continua recluso. Não está mais no Japão. Dizem que vive viajando. Por volta de 1987, dizem tê-lo visto em duas pequenas cidades do interior de Minas Gerais, no Brasil. Caetanópolis e Paraopeba chamaram-lhe a atenção pelo contato que ele teve com Mílton Nascimento, o Bituca, que lhe contou a história de Clara Nunes, sua amiga e a maior cantora do Brasil até os anos atuais. Inclusive, Clara recebera o Grammy em 2011 pelo conjunto da obra e uma de suas principais interpretações, do compositor mineiro Armando Fernandes Aguiar (Mamão), “Tristeza Pé no Chão”, teve uma versão maravilhosa da dupla Julian e Sean Lennon, que se apaixonaram pela música brasileira e gravaram em português, porque não conseguiram traduzir a saudade: “Dei um aperto de saudade no meu tamborim / Molhei o pano da cuíca com as minhas lágrimas / Dei meu tempo de espera para a marcação e cantei / A minha vida na avenida sem empolgação…”

*********************

Realmente, não dá para traduzir a saudade. Temos saudade de John e de tudo o que ele representou. Essa época do ano sempre serve para lembrar disso.

Deixo ao leitor meus desejos de boas festas, que o Natal seja de muita felicidade e reflexão a respeito da figura do aniversariante e do que Ele representou. Ele é mais popular que os Beatles. Digo isso dentro do contexto.

Feliz Natal! Feliz 2012!

Jesus e Lennon

sábado, 17 de dezembro de 2011

Mar é morada da saudade



  



Sei agora da morte de Cesária Évora. Sei-me instantaneamente triste. Sequer reconheço o que escrever. Cesária era mais que Évora para mim. Um símbolo imprescindível da música negra que transcende o orgulho e a pretensão brasileira. Sou brasileiríssimo, mas Cesária era uma amostra de onde viemos, da negritude orgulhosa da África mãe sofredora. Não tenho palavras... Não tenho mesmo o que dizer. Reproduzirei apenas os mestres. Que eles digam o que sofro com a morte de Cesária... Que alguém leia o que escrevi e entenda a importância que essa mulher teve para toda a lusofonia. Respeito profundamente as mortes concomitantes de Joãosinho Trinta e de Sérgio Brito. Mas meu objeto maior de respeito hoje é dessa mulher que defendeu seu país e toda a diversidade lusófona tão apaixonadamente. Tornou-se mito...

Para rimar e homenagear, ouso, mesmo com rimas longínquas, como nosso respeito e conhecimento por alguém tão importante:

Passou agora Joãosinho Trinta
Passou também o Sérgio Brito
Passou o teatro e o carnaval
Mas passou alguém mais além
Que muitos podem achar ninguém
Cesária Évora nunca foi a tal
Mas há hoje quem ainda a sinta
Cesária Évora foi um mito...



Vozes d'África
(Castro Alves)


Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
- Infinito: galé! ...
Por abutre - me deste o sol candente,
E a terra de Suez - foi a corrente

Que me ligaste ao pé...

O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia...
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais ...
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
- Pagodes colossais...

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! ...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista - corta o mármor de Carrara;
Poetisa - tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã! ...

Sempre a láurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c'roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela - doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...
E nem tenho uma sombra de floresta...
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador...

Quando subo às Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
"Abriga-me, Senhor!..."
Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: "Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz. . . "

Nem veem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim ...
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
Que desce de Efraim.

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!

Foi depois do dilúvio... um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará...
E eu disse ao peregrino fulminado:
"Cão! ... serás meu esposo bem-amado...
- Serei tua Eloá. . . "

Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o Nômada faminto corta as plagas
No rápido corcel.
Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir - Judeu maldito -
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa - arrebatada -
Amestrado falcão! ...

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos - alimária do universo,
Eu - pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço

Perdão p'ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...






Navio Negreiro
(Castro Alves)



I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!


Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...

..........................................................


Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!

Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena

Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,

Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente

Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,

(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),

Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...

III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

V


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.

Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...

... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...

Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.


Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. . .
Prende-os a mesma corrente 
— Férrea, lúgubre serpente — 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute... Irrisão!... 

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! ...

VI
Existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia?
Siêncio. Musa... chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 
Auriiverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 
Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

*****************

Não quero tornar esse post tão longo que seja ilegível... Termino com uma letra de música de Cesária Évora que todos deviam conhecer. Coloco letra e versão, pois o que ela canta é um dialeto de Cabo Verde, sua terra natal. Um dia voltarei a tratar dessa lenda, mais respeitosamente, antes de ter bebido as seis Bohemias que hoje me acompanham nesse post.



Mar e morada de sodade 

Num tardinha na camba di sol 
Mi t'andá na pr'aia de Nantasqued 
Lembra'n praia di Furna Sodade
frontán 'm tchorá Mar é morada di sodade 
El ta separá-no pa terra longe 
El ta separá-no d'nôs mâe, nós amigo 
Sem certeza di torná encontrá 
M'pensá na nha vida mi só 
Sem ninguem di fé, perto di mim 
Pa st'odjá quês ondas ta 'squebrá di mansinho 
Ta trazé-me um dor di sentimento

O mar é a morada da saudade 

Na tardinha, ao pôr do Sol 
Estendido na praia de Nantasqued 
Lembro a praia de Furna 
A saudade faz-me chorar 
O mar é a morada da saudade 
É ele que nos leva para terras distantes 
Ele separa-nos da nossa mãe, 
Dos nossos amigos 
Sem certeza de os tornar a ver 
A pensar na minha vida tão só
Sem ninguém de confiança perto da mim
Olhando as ondas a rebentar de mansinho
Que me trazem um sentimento de dor


*****************