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domingo, 27 de janeiro de 2019

Dinha

 

Escrevo essa postagem para minha madrinha e irmã, a quem simplesmente amo demais. Dinha é como se fosse uma segunda mãe para mim e dedico a ela um pequeno conto e um poeminha. Vamos lá!

 
“A menina de tranças”


A menina de tranças pegou sua boneca de pano e saiu correndo para o alpendre. O cachorro tinha latido e ela sabia que era o pai chegando. Os irmãos mais novos foram também. Trabalhava fora e só vinha nos finais de semana, sempre trazendo algo da viagem. Às vezes era uma bisnaga de pão da Padaria Nossa, de Sete Lagoas. Outras vezes eram algumas balas Santa Rita. Mas sempre trazia algo para os filhos.
Entretanto, naquele dia, o pai trouxera algo diferente. Era uma cesta trançada de bambu cheia de coisas diferentes, algumas que ela nunca tinha visto. Os irmãos rodeando o pai de abraços e ela tentando se aproximar dele, não obstante a grande concorrência por atenção. Mas a menina estava mesmo é curiosa com o que estava dentro daquela cesta.
O pai, finalmente, chegou perto dela e falou:
— Terezinha, guarde essa cesta em cima do guarda-roupa. Tome cuidado para não cair do tamborete!
— Sim senhor, pai! Mas o que são essas coisas dentro dela?
O pai então foi explicar que era uma cesta de Natal. E que lá dentro estavam nozes, castanhas e outras guloseimas de que a menina só ouvira falar nos livros. E ela tinha esquecido: era já dezembro e logo chegaria o Natal, logo o pai passaria noites acompanhando a Folia de Reis. Um porco ou mais seriam sacrificados para as festas de final de ano.
A menina de tranças abriu um sorriso. Como era bom o Natal! Como era bom fazer parte daquela família! Pulou do tamborete com a agilidade de menina-moça e foi correndo para a cozinha passar um café e fritar uns bolinhos de chuva para o pai, que tinha ido para o quarto para tirar os sapatos e calçar suas alpercatas.
Daí a pouco, tomando o café com bolinhos na sala, o pai contaria histórias aos filhos, que o rodeavam, sentados no chão da sala. Eram histórias maravilhosas que levavam as crianças a outros mundos, tão diferentes daquele pequeno lugarejo a que estavam acostumados. E eram mundos de aventuras de príncipes valentes, de joões soldados, de princesas lindas e delicadas e de muitos outros heróis e heroínas.
Contudo, o maior herói daquelas crianças estava ali, bem defronte a elas...


*******************


A chave do tempo


pelas janelas abertas do passado
ela projeta seu futuro
são tantas histórias que se contam por si mesmas!
a porta do tempo tem uma chave
que ela usa para navegar pelas décadas
fazendo a travessia
levando consigo todos ao redor
resgatando memórias vivas de pessoas e lugares
de acontecimentos e de coisas
que constituem
molécula por molécula
o DNA de sua família
a chave tem a marca da saudade
e é feita de um metal super-resistente
inoxidável
que se chama amor






segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

25 anos

25 anos


Parece que foi ontem que nos conhecemos
Aquela menina linda sentada num canto da sala
E depois disso, tantas coisas se passaram
E eu fui aprendendo cada vez mais como amá-la
Regamos nosso sentimento com a maturidade
De uma relação que a cada dia mais se fortalece
Com a experiência que vem com a idade
Mas também com a firmeza que vem da prece
Que sustenta nossa fé em Quem nos uniu
Para que em tempo algum nada nos separe


Olho para você e vejo aquele sorriso tímido
Vejo seus olhos verdes quase vermelhos
Sinto seu abraço e seu carinho na forma como olha para mim
Nossas almas certamente são espelhos
De um sentimento maravilhoso que jamais vai ter um fim


Escrevo estes versos serenamente
Sem a incerteza de tempos passados
Na verdade, o que a gente sente
Apenas nós mesmos somos capazes de dizê-lo
Tantas lutas, tantos caminhos traçados,
Tantas jornadas percorridas, tanto zelo!...
Nosso carinho superou tudo o que apareceu diante de nós
E nosso amor jamais deixou que algo calasse sua voz
Essa voz que nos orienta e sussurra em nossos ouvidos
Para que estejamos atentos às sendas das estradas
E sigamos à frente de mãos dadas...


Olho para você e vejo aquele sorriso lindo
Seus olhos e a esperança que se renova
Naquilo que fizemos juntos
Em nossos filhos Gabriel e Pedro,
Que se fazem homens a cada dia
E nos orgulham cada vez mais
São eles nosso maior patrimônio de amor
E a maior prova testemunhal de nossa vida conjugal


Para que não me falte a metalinguagem
Essas palavras brotaram-me assim meio que ao acaso
Fluindo pelo teclado do meu computador
Não apenas para serem uma mensagem
Não somente para trazer um poema meio que raso,
Mas uma revelação profunda do meu amor
Do nosso amor que, há 25 anos, foi consagrado a Deus...


Então, minha querida esposa Soninha,
Digo-lhe que amar você é uma bênção
E ser amado por você é uma glória de Deus
Uma Epifania que se renova a cada ano
Em nossos corações que hoje celebram a prata
Mas têm dentro de si a certeza de comemorar
Até chegar ao jequitibá...
Amo você, Soninha!



 

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O Cedro

O texto a seguir foi publicado no encarte do Festival Clara Nunes de 2018, o que foi um grande honra para mim. Clara Nunes é um ser de luz, que sempre se preocupou em fazer um trabalho que valorizasse a música brasileira em sua totalidade. Mas, como ser humano, era fantástica! Adorava crianças e eu, por um breve momento, fui objeto desse afeto, o que me marcou indelevelmente...



São 5h30min da manhã. O menino levanta-se, ainda sonolento, ao som do rádio Phillips no programa do Zé Béttio (“Joga água nele! Joga água nele!”), e vai para a cozinha, onde já estão o pai e a mãe:
— Bença, pai! Bença, mãe!

Já sabe das obrigações da manhã. Vai tratar das galinhas, dos porcos, dos cachorros, molhar a horta e buscar um pouco de lenha, palha de milho e sabugos para o pai acender o fogão. Aproveita para ir rapidinho no córrego do Cedro (que passa nos fundos da casa) conferir as linhas de espera. Desta vez, um bagre grandinho e uma traíra pequena engoliram os anzóis. O menino pega os peixes e corre para mostrar o pai e a mãe. Outros irmãos já estão acordados e começa a fila para o único banheiro da casa. Enquanto a mãe frita os bolinhos de chuva para a merenda, o menino senta na beira do fogão a lenha e o pai continua a enorme história do João Soldado, onde a interrompera no dia anterior. Merenda rapidinho os bolinhos contados (três para cada um) com o café ralo e troca de roupa para ir para a escola.

O menino não pode atrasar-se. Vai com o pai pelos fundos do quintal, passando por dentro da fábrica do Cedro e saindo pela portaria, para chegar à escola Coronel Caetano.
Um dia, o menino pescava de cima da ponte. De repente, uma mão toca-lhe o ombro: “Cuidado, menino! O peixe pode te puxar para dentro d’água, de tão magrinho que você é!”
Olha para trás e vê uma luz imensa. Era Clara Nunes, uma dona linda! O menino jamais esqueceria aquela mulher, cuja presença e cujo sorriso marcaram indelevelmente sua alma. Ela adorava ir àquele lugar, principalmente na Pedreira, um lugar maravilhoso, cheio de pedras enormes, dentro do córrego do Cedro. 

E o menino continuou seus dias de tarefas de casa e de escola. Nessa rotina, o menino cresce. Dentro desse menino, hoje homem, mora o Cedro. Foi-se um dia para longe, mas não pôde lá ficar. Dentro dele mora o Cedro. Como uma alma, inseparável do que ele é, o Cedro representa não apenas as lembranças de sua infância, de sua família, mas o cerne que lhe sustenta.
O Cedro assim é para muitos. Orgulho de ser de lá, orgulho de ter Clara e de ter artistas novas como Roberta como conterrâneas, orgulho de suas tradições culturais, orgulho de suas lindas paisagens, orgulho de seu povo, orgulho de ser o berço da indústria têxtil no país, orgulho...




quinta-feira, 29 de março de 2018

As paineiras e os meninos que voam



Chego à escola sentindo-me um estranho naquele espaço infantil. Olho ao redor, paro o carro sob as enormes paineiras da frente da escola. Faço minha oração e saio do carro. Respiro fundo o ar puro daquelas paragens e passo pelo portão, observando as diversas crianças que brincam no pátio, enquanto aguardam o sinal de entrada da tarde. Elas sorriem, gritam e correm. Algumas estranham aquele homem esquisito que sorri meio sem graça para elas, ao mesmo tempo em que lhes diz um boa-tarde meio abafado.
Sou recebido pelas novas companheiras de trabalho e levado ao meu posto. Tarefas são executadas, mas não deixo de pensar nas crianças lá fora. As horas se vão e a noite chega. Com ela, vêm as lembranças daquele dia, especialmente daquelas crianças brincando no pátio. No outro dia, outras crianças viriam, pois eu trabalharia no horário da manhã. Fecho os olhos e durmo, entorpecido pelo cansaço de um dia intenso...
Outro dia em que paro o carro sob as paineiras, agora às 6h da manhã. A escola está vazia e observo as paineiras gigantes. Um grande número de aves aprontam uma algazarra nelas e eu fico olhando aqueles pássaros que voam de uma para outra árvore. Parece que estão ali brincando...
As primeiras crianças chegam mais cedo no transporte público do município. Recebo-as e vou cuidar delas até que chegue o horário de iniciar as aulas. Lembro-me de que fui criança também. Tal como elas, um menino lampeiro que adorava correr de um lado para outro, de subir em árvores e de comer fruta no pé. Um menino que gostava de jogar bola descalço na rua, brincar de pique-esconde e de tantas outras coisas.
Sinto alguém puxar-me a roupa... “Tio, o senhor gosta de soltar papagaio?” Não espera minha resposta e já emenda uma história. “Outro dia eu tava soltando com meu pai, quando é fé meu papagaio garrou na fiação elétrica...” Interrompi imediatamente. Que coisa, menino! Na fiação elétrica? E seu pai não lhe chamou a atenção? Isso é um perigo... De morte! Não se solta papagaio perto de rede elétrica. E o menino continuava... “Mas tio, não tinha problema, porque meu pai me levou pra outro lugar. Aí, quando é fé, chegou um punhado de meninos com uns papagaios grandão, que custava a voar. O meu era pequeno, de saco de lixo preto. Mas meu pai pôs umas varetas de bambu bem fina e ele ficou leve. O meu papagaio também não tinha rabo, era sureco. Quando é fé, os menino foi soltar os grandão deles e meu pai falou que ia cortar a linha deles e que ia me ensinar...”
Outras crianças chegaram mais perto para ver o motivo de o tio estar tão exaltado. E aí aproveitei para tecer um sermão sobre os cuidados ao soltar pipas, procurando áreas propícias e seguras e, principalmente, não usar cerol nem a famigerada linha chilena. Mas, para minha surpresa, várias crianças discordam de mim dizendo que essa linha é que é a boa, tanto a número 3 quando a número 4, tanto a rosa quanto a verde. E eu, dando uma de técnico têxtil, fui explicar o que significava o título dos fios, como se aquilo interessasse àquelas crianças. Falei sobre os riscos para quem solta papagaios com tais linhas, bem como para os ciclistas e motociclistas, bem como sobre as responsabilidades legais de quem faz isso. Depois de muito falar, lembrei que meu público eram apenas crianças...
Ou seriam algo mais? Quem sabe eram anjos disfarçados testando meu conhecimento, minha sensibilidade e minha capacidade de interagir com seres tão fantásticos? Ou seriam pássaros? Porque, ao observar aquelas crianças, percebi que elas voavam... Assim como as pipas de que falavam, essas criaturas inigualáveis voavam bem alto, presas às linhas, com cerol ou não, chilenas ou simplesmente linhas 10 de poliéster com que seus pais as seguravam. Na verdade, sonhavam em subir cada vez mais alto, mas presas à origem e à segurança daqueles que as amam por essas linhas tênues.
Voei junto com elas!... Nunca fui um caçador de pipas, mas assim como Hassan, imaginei-me cortando a linha que me prendia a alguns dos valores falhos que me orientaram até ali como educador, para que eu abrisse meu olhar para um novo jeito de ensinar e de aprender. Um sorriso minúsculo no canto de minha boca, apenas de um lado, lembrou-me Sohrab. Eu era esse menino. Eu era todos aqueles meninos que voam como pássaros e pipas até mais alto que podem e depois pousam naquelas paineiras frondosas da escola, puxadas pelas linhas do amor à educação, que, inexoráveis, não se rompem. 




sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Holocausto


                                                                                                                           PM-MG/Divulgação
 
Diante de toda essa tragédia, o que podemos dizer? O que podemos fazer?... A tristeza toma conta e fica um nó na garganta. Um nó que não desata...



O nó que queima em minha garganta

A fumaça que inspiro agora provoca-me um nó
Que queima em minha garganta
Um nó que não se desata
Um nó que segura um grito de dor, um grito de dó
Um grito que nada adianta
Diante da crueldade nefasta
 
A desgraça que me inspira agora torna-me um só
Solitário sentimento solidário de comoção
Emoção que se torna moção por um mundo melhor
Em que a rima da poesia pareça vazia
Diante da incapacidade de dizer pela palavra em verso
Toda a dor que há no universo
De pessoas que veem seus anjos imolados
Da pior maneira possível em sua inocência
 
Deixai ir a Jesus as criancinhas
Mas não desse modo cruel
Mas não desse modo cruel
Mas não desse modo cruel
Mas não desse modo cruel
Mas não desse modo cruel
Mas não desse modo
Mas não...
Mais não!
 
Liberemos nosso grito preso pelo nó na garganta
Liberemos nosso grito...
As palavras se repetem pela indignação
Repetem-se pela sensação
De que o absurdo acontece
 
O Fabrício Carpinejar disse não desacreditar em Deus
Mas crer firmemente na existência do diabo
Eu digo firmemente acreditar em Deus
E desacreditar no fato de que o mal não é um ser único
O mal está nas pessoas
O mal está em cada um de nós que não vê
Que Jesus nos ensinou a ser bons
No entanto, não aprendemos a lição do grande Mestre
E continuamos queimando nossas vidas em angústias
 
Soltemos o grito preso na garganta:
Meu Deus, tenha piedade de nós!
Abrace essas crianças e receba-as em seu Reino de luz e de paz!