quinta-feira, 26 de março de 2020
Um jogo em 1982
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
50 anos
Hoje completo meio século de vida...
Olho para trás e percebo o quanto sou feliz.
Lembro com clareza a estrada percorrida:
cada etapa, cada parte dessa jornada me diz
que o que construí é de fato consistente.
Tornei-me um homem que, principalmente,
agradece por tudo que tenho ao Senhor
que me proporcionou encontrar o Amor...
Sim, o sentimento Amor com “A” maiúsculo,
que traz em si a essência da felicidade...
Agradeço também a todos que caminharam a meu lado,
fazendo com que eu continue buscando o melhor.
Todos aqueles que me fizeram muitas vezes sorrir,
mas também todos os que me fizeram chorar...
Pois sorrisos e lágrimas temperam o homem que sou
e ajudam-me a tentar encontrar o que quero ser...
O homem que hoje completa 50 anos de idade,
absolutamente imperfeito, sente-se comprometido
a buscar cada vez mais a espiritualidade, com a certeza
de que cometerei erros até o fim de minha travessia.
No entanto, através deles vou tornar-me melhor
que o homem que completa hoje 50 anos...
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
Reavaliar a avaliação
Reavaliar a avaliação
Enfrentar as dificuldades e o não querer
querer superar os difíceis enfrentamentos
muitas vezes pode ser doloroso aprender
mas a vida se faz de bons e maus momentos
Ensinar é muitas vezes estar à beira do precipício
Aprender é tecer desafios constantes de vida
Ensinar é desapegar-se de todos aqueles vícios
Tirando da cartola a magia da criatividade reaprendida
Avaliar como um PAAE que não SAEB
Escolher o melhor caminho para o filho
Deixa, então, que seja dele essa escolha...
SIMAVE vale dois pássaros voando que um na mão
A rima e a métrica foram esquecidas
Assim como as avaliações que não retratam a vida...
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Sem palavras
“Sem palavras”há um bom tempo estou sem palavrasnão sei do que falarnem porque fazê-lomas sei que é na feitura das lavrase no esperançoso semearé que se quebra o gelopara colher-se o poema que brotade onde estava, imaturo,esperando, na fonte que não se esgotano lugar mais escuroque a claridade da inspiraçãovai iluminar…mesmo que o cansaço invadacorpo e mente ansiosos por revelarao mundo aquela tímida emoçãosem palavras, o poema não é nada…nada mais que a simples vontade de falar…expressar-se na tentativa de recriarno espaço vazio do papela sequência de palavras que dirãoque a vida não é apenas uma ilusãonem somente realidade cruela vida nos ilude e nos seduza vida nos fere e nos acaricia…sem palavras estou há um bom temponão consigo encontrar facilmente a rimanem me prendo à métrica inexataescreve simplesmente e o poema termina…
domingo, 2 de setembro de 2012
140 anos da Cedro
Trabalho há quase 30 anos na mais antiga empresa do ramo têxtil do Brasil, a Cedro, que completou no último 12 de agosto 140 anos. Falo com toda a sinceridade que é um orgulho. Meu pai trabalhou por 53 anos na Cedro e, por tudo o que minha família vivenciou, sinto-me muito realizado por trabalhar também nessa empresa.
Meu irmão Joaquim é também colaborador na empresa, trabalhando na coligada Cedronorte, em Pirapora. Ele foi convidado a fazer um discurso no evento de comemoração do aniversário, com a participação da Diretoria e do Conselho Administrativo da Cedro e também de autoridades como o vice-governador e outros. Ficou muito bacana e, para constar, transcrevo o texto do discurso abaixo, juntamente com o vídeo filmado pela esposa do meu irmão.
Exmo. Sr.
Exma. Sra.
Ilmo. Sr.
Ilma. Sra.
Demais presentes, boa noite!
É com imensa honra que venho representar os colaboradores da Cedro nestes 140 anos. A Cia. de Fiação e Tecidos Cedro e Cachoeira surgiu como um ideal na mente de homens empreendedores, Antônio, Bernardo e Caetano, que tornaram realidade uma empresa construída sobre alicerces maciços, cuja energia principal sempre foi a capacidade e o empenho de seus acionistas, colaboradores e gestores.
Falar da Cedro nestes 140 anos é como contar uma história que se repete geração após geração e que vem perpetuando a empresa e possibilitando o desenvolvimento das comunidades que se formaram ao redor dela.
Falemos, por exemplo, de Caetanópolis, onde foi instalada a primeira unidade da Cedro. Durante muitos anos, Caetanópolis foi conhecida como “Cedro” (e até hoje muitas pessoas a chamam assim) e acabou recebendo o nome de um dos fundadores da empresa, Caetano. A cidade surgiu ao redor da Cedro e desenvolveu-se graças às possibilidades geradas pelos investimentos feitos no parque industrial ali instalado. É inegável a evolução econômica não só da terra de Clara Nunes e berço da indústria têxtil mineira e nacional, mas de toda a região circunvizinha, fruto do crescimento da Cedro.
E esse desenvolvimento se propagou também em outros lugares, como em Pirapora, cuja cidade surgiu a partir da instalação de um armazém para comercialização de tecidos da Cedro e compra de algodão , aproveitando os vapores que navegavam pela hidrovia do rio São Francisco.
Mas o valor mais importante deixado pela empresa é o capital humano. As diversas gerações de colaboradores que hoje trabalham na empresa falam com orgulho da oportunidade de terem criado suas famílias com o fruto do seu trabalho na Cedro. Desse grupo, faço parte.
A história da Cedro se confunde com a minha e com a de muitos de vocês aqui presentes. Acredito que, assim como meu pai, que trabalhou 53 anos na Cedro, temos vários outros exemplos de famílias com várias gerações construindo suas vidas nesta empresa. Hoje, com 32 anos de empresa, sinto-me como se estivesse com meus 15 anos, quando fui admitido.
Essa emoção, tenho certeza, passou por muitos que aqui estão hoje, que aqui, ainda jovens, iniciaram sua jornada e cresceram dentro da Cedro, conheceram seus amigos, constituíram família, enfim, viveram. E a Cedro, cheia de vida nestes 140 anos, consegue ser lembrada como uma das importantes indústrias têxteis do Brasil e caminha firmemente para ser, de fato, a melhor.
Para terminar, quero deixar alguns versos que tentam sintetizar o que representa a Cedro, tenho certeza, para mim e para os colaboradores que dela fazem parte:
“Tecendo a vida”
Fazer o algodão do sonho transformar-se
no fio consistente da realidade
Tecer a vida com a trama do tempo
e o urdume da perseverança
Tingir o tecido com a cor do sucesso
Vestir a alma da gente com a esperança
Cedro: 140 anos tecendo histórias de vida!
(enanre etraud)
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Boa noite!
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Sobre a gramática
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Peregrino
A vida nos traz sempre oportunidades de crescimento. No último dia 6 de janeiro, completei mais um ano de vida e, diante do clichê que a situação me traz, pensei que o Dia dos Santos Reis podia trazer-me a metáfora do peregrino. Melchior, Baltazar e Gaspar seguiam a estrela em busca do Menino Sagrado, do Messias prometido, da libertação. Sinto-me assim também como um peregrino em busca de algo semelhante.
A tradição dos Três Reis Magos é muito antiga e está intimamente ligada ao nascimento de Jesus. As referências evangélicas oficiais são vagas (somente São Mateus). Não se diz quantos eram nem seus nomes, nem mesmo se eram reis. Alguns estudiosos creem terem sido sacerdotes seguidores de Zaratustra ou Zoroastro, da Pérsia. A crença de que seriam três deve-se talvez à quantidade de oferendas trazidas: ouro, incenso e mirra. Seus nomes seriam Melchior, rei da Pérsia; Gaspar, rei da Índia, e Baltazar, rei da Arábia, os Santos Reis, porque são considerados bem-aventurados. Receberam esses nomes mais de oitocentos anos depois do nascimento de Jesus. Poderiam também ter sido astrônomos, considerando a questão de observarem uma estrela incomum e a seguirem.
Discorro sobre isso neste post porque, como um peregrino que me sinto, não me sinto um rei, todavia. Na reflexão do dia de aniversário, vejo-me caminhando pela vida em busca do conhecimento. Ao longo da minha jornada, tive a oportunidade de conhecer grandes mestres que me ajudaram muitíssimo e um deles é o professor José Geraldo “Coró”, como é conhecido pela grande maioria. Grande estudioso da vida, sempre proporcionou-me momentos curiosos. Contarei alguns.
Meu primeiro contato com o Coró foi na minha infância. Não creio que ele se lembre. Devia ter uns 9 anos de idade. O coró foi visitar meus irmãos mais velhos (Tiãozinho e Joaquim, ambos seus alunos à época) e, como ambos estavam no banho, minha saudosíssima mãe pediu-me que o recebesse e lhe oferecesse um café. Assim o fiz e ele prontamente aceitou o café que há pouco tinha sido passado por minha mãe e cujo cheiro ainda exalava do bule em cima do fogão a lenha. Servi-lhe e um sorriso suave apareceu no rosto do Coró, que tomou o café com jeito satisfeito. Mas minha mãe entrou em desespero ao ver que o Coró tomava café na enorme caneca de chope do meu pai, cheia até a tampa do saboroso líquido negro, e não em uma pequena xícara (aliás, só havia uma na minha casa). Repreendeu-me por isso e eu, que não entendia dessas formalidades, disse inocentemente (não exatamente com essas palavras) que aquele era o melhor recipiente para líquidos da casa. E era mesmo! Por isso pertencia ao meu pai.
O Coró abriu um sorriso mais evidente e agradeceu o café, dizendo que estava muito gostoso. E esse sorriso tranquilizou minha mãe e também a mim, temeroso de mais reprimendas depois que a visita se fosse.
Quando aluno da Escola Estadual Padre Augusto Horta, honrosamente o mestre Coró lecionou-me Matemática e fez-me ainda mais admirador dessa maravilhosa matéria, pela qual ainda sou apaixonado. Questionam-me isso ainda hoje: por que segui a carreira acadêmica das Letras e não das Exatas. Para encurtar a conversa, por se tratar de uma outra história, digo que a vida proporcionou-me isso e, como um ditado popular costuma relatar, Deus atende as nossas necessidades e não nossas vontades. Sou imensamente grato e feliz por ter optado pela carreira das Letras e o fiz pela afinidade que tínhamos. Quanto às Exatas, sempre foram um pouco minhas inimigas e, por serem mais difíceis de conquistar, tornam-se ainda mais apaixonantes.
Mas o Mestre Coró ensinou-me muito mais do que a Matemática e seus mistérios. Através das suas costumeiras reflexões em sala de aula, pude aprender a conhecer obras fantásticas como a do filósofo e místico indiano Jiddu Krishnamurti. Reproduzo alguns de seus pensamentos:
- “Podemos ir longe, se começarmos de muito perto. Em geral começamos pelo mais distante, o "supremo princípio", "o maior ideal", e ficamos perdidos em algum sonho vago do pensamento imaginativo. Mas quando partimos de muito perto, do mais perto, que é nós, então o mundo inteiro está aberto — pois nós somos o mundo. Temos de começar pelo que é real, pelo que está a acontecer agora, e o agora é sem tempo.”
- “Meditação é libertar a mente de toda desonestidade. O pensamento gera desonestidade. O pensamento, no seu esforço para ser honesto, é comparativo e, portanto, desonesto. (…) Meditação é o movimento dessa honestidade no silêncio.”
- “Estou apenas a ser como um espelho da vossa vida, no qual podeis ver-vos como sois. Depois, podeis deitar fora o espelho; o espelho não é importante.”
- “… Falamos da vida — e não de ideias, de teorias, de práticas ou de técnicas. Falamos para que olhe esta vida total, que é também a sua vida, para que lhe dê atenção. Isso significa que não pode desperdiçá-la. Tem pouquíssimo tempo para viver, talvez dez, talvez cinquenta anos. Não perca esse tempo. Olhe a sua vida, dê tudo para a compreender.”
Não quero me delongar neste post. Serve apenas como manifesto de apreço ao Coró que, recentemente, tem me proporcionado conhecer mais uma faceta de sua personalidade excepcional: o apreço pela boa música. Tem compartilhado comigo e com o amigo Maestro Nascimento a oportunidade de conhecermos belíssimas apresentações musicais através do empréstimo de DVDs de seu excepcional acervo.
Termino-o então com uns versos, para fazer jus ao Poetopias.
“Peregrino”
como um peregrino seguindo a estrela
sigo os caminhos íngremes que a vida me traçou
olho, entretanto, com um sorriso o que percorri
a jornada foi árdua até aqui
mas muito recompensadora em sua plenitude
aprendi que seguir a estrela
não foi absolutamente a minha principal atitude
mas sim seguir o caminho
parar um pouco para olhar para trás
e acima de tudo olhar para o momento que me cerca
e de vez em quando para o futuro
espero encontrar ao final a lapinha
onde repousa Aquele que ainda não compreendo
mas que respeito imensamente
Aquele cujas palavras não têm medo do tempo
porque nunca deixarão de dizer a verdade
tão difícil de aceitar
a verdade tão difícil de praticar
como peregrino, continuo minha jornada
sou ao mesmo tempo Baltasar, Melchior e Gaspar
mas não trago comigo incenso, nem ouro, nem mirra
levo apenas a mim mesmo na capanga
este embornal vazio de muitas coisas
mas cheio de esperança
domingo, 26 de dezembro de 2010
Depois do Natal
Para o Natal
Quando chega o Natal
Penso em que eu vou fazer
Na noite de chuva que virá
Pois chove dentro de mim
Quando chega o Natal
Reflito no sentido real
Que tem essa chuva
Que vem me inundar
É uma chuva serena
Quando chega o Natal
Lava-me o espírito
Faz-me ser um ser melhor
Quando chega o Natal
Um sentimento maior
Surge dentro de mim
Junto com essa chuva
Lembro-me então do motivo
De comemorarmos o Natal
Não é um simples nascimento
Não é um simples momento
A rima surge então para dar valor
Àquilo que essa chuva me traz
Um imenso, um enorme amor
Que me invade cada vez mais
Faz-me entender o Natal
Como algo muito natural
Um dia incomum na vida…
Na procura da rima, a lida
Faz-me aumentar a estrofe do poema
E este verso maior não é problema
Menor que o anterior
Mais grande que pequeno
Não o faz ser superior
E sim mais sereno…
sábado, 18 de dezembro de 2010
Sobre a decepção
(Eu acuso !)
(Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes)
"Meu dever é falar, não quero ser cúmplice."
Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que... estudar!).
A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro.
O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.
Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de convivência supostamente democrática.
No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando...
E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar ‘tudo isso que está aí’; “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.”
Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno – cliente...
Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”.
Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.
Ao assassino, corretamente , deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal ao autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:
EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;
EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos”e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;
EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;
EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranqüilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;
EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, freqüentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;
EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;
EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual, finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã;
EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;
EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;
EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, uma “ nova cultura de paz”, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;
EU ACUSO os “cabeça – boa” que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito,
EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;
EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição.
EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;
EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;
Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos -clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia.
Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”.
A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: “Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva. Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo.”
Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adotar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.
(Igor Pantuzza Wildmann - Advogado, Doutor em Direito. Professor universitário)
Gordon W. Powley fonds - Black and white negative - Reference Code: C 5-1-0-183-12
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Neimar de Barros – Deus Negro
Vejo, por acaso, uma frase na internet atribuída a Neimar de Barros. Não, ele não foi jogador de futebol. Lembro-me então de quanto esse escritor influenciou-me quanto tinha meus treze anos e um pouco mais. Foi-me apresentado em livro (“Deus Negro”) por meu irmão padrinho, o Dendê (nunca o chamo assim fora da blogosfera). É um livro de palavras impressionantes! Despertou em mim uma religiosidade resistente que me alimenta até hoje e que é a base de minha estrutura humana.
No momento em que li de novo palavras de Neimar de Barros, percebi que não o conhecia bem, não sabia da sua história nem porque escritor tão badalado que foi naquele tempo não era mais falado nos meios editoriais que frequento. Perguntei ao detetive Google e ele revelou-me coisas muito interessantes a respeito desse homem. Reproduzo abaixo a síntese de algumas dessas informações, colhidas em alguns sítios da rede.
Neimar de Barros, antes de se tornar escritor, trabalhava com o Sílvio Santos. Segundo a Wikipedia, era conhecido produtor de televisão da equipe do homem do sorriso. No início da década de 70, teria criado e produzido programas de grande audiência como “Cidade contra Cidade”, “Boa Noite Cinderela”, entre outros.
Ainda segundo a enciclopédia virtual, Em 1971 foi convidado a participar de um encontro dentro da Igreja Católica, o “cursilho”. Como ateu, ele aceitou desafiar o convite dizendo que só acreditava no que podia ver. No terceiro e último dia, depois de ter aprontado e atrapalhado o encontro, entrou na capela e algo o fez ajoelhar-se, uma grande emoção o tomou e ali naquela hora aconteceu sua conversão.
Acabou deixando o trabalho na antiga TVS e tornou-se o famoso escritor de mais de 10 livros de temática religiosa (inclusive em espanhol), com destaque para o best-seller “Deus Negro”, que vendeu mais de 4 milhões de exemplares. Virou palestrante, lotando ginásios de esportes, auditórios, igrejas e teatros, com tanto destaque, que foi capa da revista “Família Cristã”, a maior publicação católica do Brasil, da editora Paulinas. Como leigo conseguiu quebrar vários paradigmas, sendo uma forte referência dentro da Igreja Católica.
Mas como nem tudo que é bom dura para sempre, esse Neimar de Barros passou por vários problemas não divulgados claramente (suspeita-se que teve problemas psicológicos e neurológicos) e algo mudou. Em 1986, ele concedeu uma entrevista bombástica à revista Veja, revelando que sua conversão teria sido uma farsa. Ele contou ter sido contratado por uma loja maçônica internacional (P2), para se infiltrar na Igreja Católica e repassar informações sobre a conduta de religiosos. A maioria de seus admiradores não acreditou nessa história, e sabemos que a Revista Veja teve recordes de venda naquela semana, ultrapassando 900 mil exemplares. Depois disso, Neimar escreveu dois livros contando a mesma história, sem sucesso e que nunca foi comprovada.
Oculto por alguns anos, ele depois reapareceu na equipe de Sílvio Santos, trabalhando novamente como produtor. Hoje leva uma vida simples, e fica a dúvida se o autor de “Deus Negro” de fato existiu ou foi um personagem de uma história ainda incompleta. Mas não há nenhuma dúvida de que sua obra foi um marco na vida de toda uma geração que leu seus livros, em especial “Deus Negro”.
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DEUS NEGRO
Autor: Neimar de Barros
Eu, detestando pretos,
Eu, sem coração!...
Eu, perdido num coreto,
Gritando: “Separação”!
Eu, você, nós... nós todos,
Cheios de preconceitos,
Fugindo como se eles carregassem lodo,
Lodo na cor...
E com petulância, arrogância,
Afastando a pele irmã.
Mas
Estou pensando agora:
E quando chegar minha hora?
Meu Deus, se eu morresse amanhã, de manhã!
Numa viagem esquisita, entre nuvens feias e bonitas,
Se eu chegasse lá e um porteiro manco,
Como os aleijados que eu gozei, viesse abrir a porta,
E eu reparasse em sua vista torta, igual àquela que eu critiquei
Se a sua mão tateasse pelo trinco,
Como as mãos do cego que não ajudei!
Se a porta rangesse, chorando os choros que provoquei!
Se uma criança me tomasse pela mão,
Criança como aquela que não embalei
E me levasse por um corredor florido, colorido,
Como as flores que eu jamais dei!
Se eu sentisse o chão frio,
Como o dos presídios que não visitei!
Se eu visse as paredes caindo,
Como as das creches e asilos que não ajudei!
E se a criança tirasse corpos do caminho,
Corpos que eu não levantei
Dando desculpas de que eram bêbados, mas eram epiléticos,
Que era vagabundagem, mas era fome!
Meu Deus!
Agora me assusta pronunciar seu nome!
E se mais para a frente a criança cobrisse o corpo nu,
Da prostituta que eu usei,
Ou do moribundo que não olhei,
Ou da velha que não respeitei,
Ou da mãe que não amei!...
Corpo de alguém exposto, jogado por minha causa,
Porque não estendi a mão, porque no amor fiz pausa e dei,
Sei lá, só dei desgosto!
E, no fim do corredor, o início da decepção!
Que raiva, que desespero,
Se visse o mecânico, o operário, aquele vizinho,
O maldito funcionário, e até, até o padeiro,
Todos sorrindo não sei de quê!
Ah! Sei sim, riem da minha decepção.
Deus não está vestido de ouro! Mas como???
Está num simples trono:
Simples como não fui, humilde como não sou.
Deus decepção!
Deus na cor que eu não queria,
Deus cara a cara, face a face,
Sem aquela imponente classe.
Deus simples! Deus negro!
Deus negro!?
E Eu...
Racista, egoísta. E agora?
Na terra só persegui os pretos,
Não aluguei casa, não apertei a mão.
Meu Deus você é negro, que desilusão!
Será que vai me dar uma morada?
Será que vai apertar minha mão? Que nada!
Meu Deus você é negro, que decepção !
Não dei emprego, virei o rosto. E agora?
Será que vai me dar um canto, vai me cobrir com seu manto?
Ou vai me virar o rosto no embalo da bofetada que dei?
Deus, eu não podia adivinhar.
Por que você se fez assim?
Por que se fez preto, preto como o engraxate,
Aquele que expulsei da frente de casa!
Deus, pregaram você na cruz
E você me pregou uma peça:
Eu me esforcei à beça em tantas coisas,
E cheguei até a pensar em amor,
Mas nunca,
nunca pensei em adivinhar sua cor!...
© Neimar de Barros






