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sábado, 24 de dezembro de 2011

Se John Lennon não tivesse morrido

Nesta manhã de sábado, véspera natalina, assisti novamente ao filme “Assassinato de John Lennon”, um filme instigante que invade a cabeça perturbada de Mark David Chapman, o assassino. O britânico Andrew Piddington, diretor do filme, tenta recriar os planos diabólicos do maníaco narcisista para se tornar famoso, acabando com a vida de Lennon. O ator Jonas Ball, à época pouco conhecido, faz uma interpretação assustadora do maluco que encerrou a vida de um artista e do homem que marcou várias gerações mundo afora. Se quiser saber detalhes desse triste episódio, basta clicar aqui. Inclusive, a cena do filme está no Youtube. 

Mas não é sobre isso que quero falar, exatamente. queria falar de uma ideia que me passou pela cabeça: se John não tivesse morrido? Como seria sua carreira posterior a tudo isso. Como se passaram 30 anos desse triste episódio, resolvi escrever um post somente sobre o que ocorreria nos oito primeiros anos após o que seria a tentativa frustrada de Chapman. Vejamos então…

“Se John Lennon não tivesse morrido”

Depois de ter sobrevivido à tentativa de assassinato, John Lennon resolveu dar um tempo em sua carreira. Passou uma semana em coma e três meses internado no hospital, mas conseguiu sobreviver sem sequelas físicas aos tiros do maníaco, cujo nome não gostava de ouvir, o que mostrava que as marcas psicológicas ficariam indelevelmente em sua alma. 

John e Yoko foram para o Japão com o filho Sean. Billy Preston, Paul, George e Ringo foram ficar com ele por várias semanas. Surgiu o boato de que se reuniriam novamente, o que foi negado veemente por todos. Mas não restava dúvidas de que o que acontecera com John os reunira novamente, não como artistas, mas como amigos. A perspectiva de perder John foi algo que mexeu com todos eles.

As várias semanas juntos evidentemente dariam frutos: muitas canções foram compostas. Combinaram que seriam lançados álbuns individuais com elas. Paul lançou em 12 de setembro de 1982 o LP “Ressurrection”, cuja música principal, “Little bird”, tinha o seguinte trecho: “We’re just men who fight for peace / Hold me in your wings, little dove / We can’t fight anymore / We can just sleep and dream…” (“Somos apenas homens que lutam por paz /  Abrace-me em suas asas, pombinha / Nós não podemos lutar mais /  Só queremos dormir e sonhar…”).

George também lançou, alguns dias depois, em 27 de setembro de 1982, um LP que tinha como música principal a angustiada canção “Pain”, acompanhada por um solo maravilhoso da guitarra do amigo Eric Clapton no trecho: “My heart bleeds of pain / I imagine another song / People would be happy and can / Make different things as love each other…” (Meu coração sangra de dor / Eu imaginei uma outra canção / As pessoas seriam felizes e poderiam / Fazer coisas diferentes como amar um ao outro…”).

Ringo demorou mais de um ano para gravar um novo LP, mas quando o fez, em 22 de fevereiro de 1983, apareceram várias canções, com destaque para a alegre “The yes song”, que dizia “We have many reasons to laugh / including the fact of being alive / then we go to another level, where the angels sing live life…” (“nós temos vários motivos para rir / inclusive o fato de estarmos vivos / nós vamos então para outro nível / onde os anjos cantam ao vivo a vida…”).

Billy Preston, por sua vez, foi convidado por John para gravar com ele seu novo LP, após quatro anos, em 1985. O LP foi lançado no dia 6 de janeiro, mostrando um novo lado interessante de John Lennon: ele tinha se tornado um estudioso da história das religiões e isso aparecia em várias canções. Inclusive, a escolha da data de lançamento tinha a ver com a história dos Reis Magos do Oriente que visitaram Jesus em Belém. O disco se chamava, aliás, “Journey”, que relatava a jornada de John Lennon até aquele momento. A participação de seu filho Julian, então com 22 anos, foi maravilhosa. O sucesso foi estrondoso. Tornou-se o disco mais vendido da história, com vários prêmios mundo afora. John, no entanto, continuava sem dar entrevistas e raramente era visto em público. Mas era respeitado por sua posição. A música que mais se destacou no disco, “Trip”, revelava o seu sentimento e, de certa forma, justificava essa ausência: “Now, I know I have fear/ I made a trip to paradise / But God wanted me to be here / I do not remember the way / But this man is separated / From myth that I became a day…” (“Eu agora tenho muito medo / Eu fiz uma viagem ao paraíso / Mas Deus quis que eu estivesse aqui / Eu não me lembro do caminho / Porém este homem está separado / Do mito que me tornei um dia…”).

John continua recluso. Não está mais no Japão. Dizem que vive viajando. Por volta de 1987, dizem tê-lo visto em duas pequenas cidades do interior de Minas Gerais, no Brasil. Caetanópolis e Paraopeba chamaram-lhe a atenção pelo contato que ele teve com Mílton Nascimento, o Bituca, que lhe contou a história de Clara Nunes, sua amiga e a maior cantora do Brasil até os anos atuais. Inclusive, Clara recebera o Grammy em 2011 pelo conjunto da obra e uma de suas principais interpretações, do compositor mineiro Armando Fernandes Aguiar (Mamão), “Tristeza Pé no Chão”, teve uma versão maravilhosa da dupla Julian e Sean Lennon, que se apaixonaram pela música brasileira e gravaram em português, porque não conseguiram traduzir a saudade: “Dei um aperto de saudade no meu tamborim / Molhei o pano da cuíca com as minhas lágrimas / Dei meu tempo de espera para a marcação e cantei / A minha vida na avenida sem empolgação…”

*********************

Realmente, não dá para traduzir a saudade. Temos saudade de John e de tudo o que ele representou. Essa época do ano sempre serve para lembrar disso.

Deixo ao leitor meus desejos de boas festas, que o Natal seja de muita felicidade e reflexão a respeito da figura do aniversariante e do que Ele representou. Ele é mais popular que os Beatles. Digo isso dentro do contexto.

Feliz Natal! Feliz 2012!

Jesus e Lennon

sábado, 17 de dezembro de 2011

Mar é morada da saudade



  



Sei agora da morte de Cesária Évora. Sei-me instantaneamente triste. Sequer reconheço o que escrever. Cesária era mais que Évora para mim. Um símbolo imprescindível da música negra que transcende o orgulho e a pretensão brasileira. Sou brasileiríssimo, mas Cesária era uma amostra de onde viemos, da negritude orgulhosa da África mãe sofredora. Não tenho palavras... Não tenho mesmo o que dizer. Reproduzirei apenas os mestres. Que eles digam o que sofro com a morte de Cesária... Que alguém leia o que escrevi e entenda a importância que essa mulher teve para toda a lusofonia. Respeito profundamente as mortes concomitantes de Joãosinho Trinta e de Sérgio Brito. Mas meu objeto maior de respeito hoje é dessa mulher que defendeu seu país e toda a diversidade lusófona tão apaixonadamente. Tornou-se mito...

Para rimar e homenagear, ouso, mesmo com rimas longínquas, como nosso respeito e conhecimento por alguém tão importante:

Passou agora Joãosinho Trinta
Passou também o Sérgio Brito
Passou o teatro e o carnaval
Mas passou alguém mais além
Que muitos podem achar ninguém
Cesária Évora nunca foi a tal
Mas há hoje quem ainda a sinta
Cesária Évora foi um mito...



Vozes d'África
(Castro Alves)


Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
- Infinito: galé! ...
Por abutre - me deste o sol candente,
E a terra de Suez - foi a corrente

Que me ligaste ao pé...

O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia...
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais ...
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
- Pagodes colossais...

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! ...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista - corta o mármor de Carrara;
Poetisa - tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã! ...

Sempre a láurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c'roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela - doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...
E nem tenho uma sombra de floresta...
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador...

Quando subo às Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
"Abriga-me, Senhor!..."
Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: "Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz. . . "

Nem veem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim ...
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
Que desce de Efraim.

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!

Foi depois do dilúvio... um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará...
E eu disse ao peregrino fulminado:
"Cão! ... serás meu esposo bem-amado...
- Serei tua Eloá. . . "

Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o Nômada faminto corta as plagas
No rápido corcel.
Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir - Judeu maldito -
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa - arrebatada -
Amestrado falcão! ...

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos - alimária do universo,
Eu - pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço

Perdão p'ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...






Navio Negreiro
(Castro Alves)



I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!


Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...

..........................................................


Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!

Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena

Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,

Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente

Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,

(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),

Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...

III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

V


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.

Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...

... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...

Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.


Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. . .
Prende-os a mesma corrente 
— Férrea, lúgubre serpente — 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute... Irrisão!... 

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! ...

VI
Existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia?
Siêncio. Musa... chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 
Auriiverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 
Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

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Não quero tornar esse post tão longo que seja ilegível... Termino com uma letra de música de Cesária Évora que todos deviam conhecer. Coloco letra e versão, pois o que ela canta é um dialeto de Cabo Verde, sua terra natal. Um dia voltarei a tratar dessa lenda, mais respeitosamente, antes de ter bebido as seis Bohemias que hoje me acompanham nesse post.



Mar e morada de sodade 

Num tardinha na camba di sol 
Mi t'andá na pr'aia de Nantasqued 
Lembra'n praia di Furna Sodade
frontán 'm tchorá Mar é morada di sodade 
El ta separá-no pa terra longe 
El ta separá-no d'nôs mâe, nós amigo 
Sem certeza di torná encontrá 
M'pensá na nha vida mi só 
Sem ninguem di fé, perto di mim 
Pa st'odjá quês ondas ta 'squebrá di mansinho 
Ta trazé-me um dor di sentimento

O mar é a morada da saudade 

Na tardinha, ao pôr do Sol 
Estendido na praia de Nantasqued 
Lembro a praia de Furna 
A saudade faz-me chorar 
O mar é a morada da saudade 
É ele que nos leva para terras distantes 
Ele separa-nos da nossa mãe, 
Dos nossos amigos 
Sem certeza de os tornar a ver 
A pensar na minha vida tão só
Sem ninguém de confiança perto da mim
Olhando as ondas a rebentar de mansinho
Que me trazem um sentimento de dor


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domingo, 27 de novembro de 2011

13 músicas caipiras muito importantes


"O Violeiro", de Almeida Júnior


Sei que compro uma briga enorme ao publicar um post com esse título e, confesso, a intenção era essa, mesmo. A polêmica leva à divulgação e à consequente valorização deste nosso tesouro cultural que é a música caipira.


De características diversificadas e origens várias, nossa música caipira tem relação direta com a própria raiz cultural do povo brasileiro. Não vou trazer aqui nenhum tratado sobre as origens da música caipira, mas algumas curiosidades que existem a respeito.


Nessa manifestação musical, há grande influência da cultura musical portuguesa, acompanhada fortemente da presença da cultura indígena, através dos urucapés, guaús, parinaterans e tocandiras, de origem guaicuru, xavante, guarani ou bororo. Segundo a história, o Padre José de Anchieta valeu-se de uma dança religiosa indígena, o caateretê, para tentar convertê-los ao Cristianismo. Teria sido ainda o Apóstolo do Brasil que introduziu esta dança nas festas das províncias da recente colônia, num hábito que até hoje persiste nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Pará e Amazonas, sob a nomenclatura de “catira”, com elementos rítmicos da viola, do sapateado e do bater de mãos. Cantado em versos, o caateretê propiciava o surgimento de cantores e trovadores populares (pode-se ver mais desse assunto no sítio MiniWeb Educação).


A viola caipira é a marca sonora registrada que acompanha essa música, e há muito o que falar a respeito dela. Não é o objetivo aqui. De Câmara Cascudo a Cornélio Pires e Inezita Barroso, muita gente importante defendeu e ainda defende essa história e de forma muito competente. O meu objetivo é mesmo dizer que há algumas músicas que julgo muito importantes e não apenas por fazerem parte de minha existência, mas por representarem algum tipo de marco da cultura caipira brasileira.


Não quero falar também dos grandes intérpretes e compositores, pois são muitos os que se destacam e requerem um post dedicado, até para ilustrar bem a qualidade de cada um. Quero mesmo, como disse, apenas falar de algumas músicas que são importantes por representar uma característica específica do gênero.


Eis portanto, sem mais demoras, minha lista (que não está em ordem de preferência):



Música Compositores Importância Detalhes
“Pingo d'água” Raul Torres e João Pacífico Linda canção dos precursores da música caipira, que relata a esperança do caboclo pela chuva redentora. Ver letra e vídeo com Tonico e Tinoco
“Menino da porteira” Teddy Vieira e Luizinho Talvez a mais conhecida música do gênero, que conta uma triste história que, inclusive, já virou filme. Ver letra e vídeo com Daniel, no filme homônimo
“Pagode em Basília” Tião Carreiro e Lourival dos Santos Outro clássico do gênero, em que a virtuose do violeiro Tião Carreiro é impressionante. Ver letra e vídeo com Tião Carreiro e Pardinho
“Canoeiro” Alocin e Zé Carreiro Outra música que valoriza também a capacidade sonora da viola nas improvisações onomatopaicas da natureza. Ver letra e vídeo com Carreiro e Carreirinho
“Ferreirinha” Carreirinho Talvez uma das primeiras canções do tipo “moda de viola” que surgiram, contando a triste história do Ferreirinha, personagem fictício de música que ganhou até estátua em homenagem. Ver letra e vídeo com Carreiro e Carreirinho
“Chalana” Mário Zan e Arlindo Pinto A bela canção que traz como destaques a paisagem pantaneira e a sanfona, outro instrumento fundamental da música caipira. Ver letra e vídeo com Almir Sáter
“Travessia do Araguaia” Décio dos Santos Uma moda de viola que relata a dureza da vida do boiadeiro e da boiada, com uma metáfora bíblica muito bonita. Ver letra e vídeo com Tião Carreiro e Pardinho
“Chitãozinho e xororó” Serrinha e Athos Campos Uma das mais conhecidas músicas caipiras, carregada do bucolismo tradicional do gênero e que deu nome a uma das mais importantes duplas sertanejas da história. Ver letra e vídeo com Zé Tupi e Zé Pires
“Amargurado” Dino Franco e Tião Carreiro Bela canção, reproduzida pelas mais belas vozes do gênero, relatando um amor não mais correspondido pela amada, mas que permanece assim mesmo. Ver letra e vídeo com Tião Carreiro e Pardinho
“Mágoa de boiadeiro” Nonô Basílio e Índio Vago Relata a decadência do boiadeiro tradicional em virtude do transporte de boiadas em veículos. Ver letra e vídeo com Pedro Bento e Zé da Estrada
“Caboclo na cidade” Dino Franco e Nhô Chico Uma moda de viola típica, relatando o contraste entre a vida urbana e a vida no campo e seus valores. Ver letra e vídeo com Dino Franco e Mouraí (espetacular acompanhamento de viola e show de vozes)
“Cabocla Teresa” Raul Torres e João Pacífico Texto que relata um assassinato por ciúme, com uma declamação inicial. Uma das músicas que faz parte do repertório da maioria dos intérpretes do gênero, com destaque para os lendários irmãos Tonico e Tinoco. Ver letra e vídeo com José Domingos e Rolando Boldrin
“Ladrão de mulher” Vieira e Vieirinha Representa a catira, com palmeado e sapateado ritmado ao som da viola, destacando a dupla Vieira e Vieirinha, conhecidos como “Reis da Catira”. Ver letra e vídeo com Guilherme e Santiago

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Mais uma vez a Somália é sinônimo de fome


Sinceramente, esse post é sobre uma reportagem que eu não gostaria de ler. Vejo mais uma vez a fome fazendo estragos na Somália. Lembro-me de um jogador que surgiu no América mineiro que ganhou esse apelido porque era um negro extremamente magro. O apelido do jogador reitera a metáfora cruel atribuída ao nome dessa sofrida nação.





Muitas vezes me deparo com o sofrimento sob várias maneiras. A fome é uma das formas mais cruéis de sofrer. E acima de tudo, a fome é inaceitável.  Não há como a humanidade padecer de fome com tanto desperdício por aí. Nada justifica. O capitalismo volta e meia dá sinais de esgotamento, pelo menos da forma como vem sendo praticado pelos governos.


A reportagem, retirada do sítio da revista Época, da editora Globo, retrata a recuperação do bebê Minhaj Gedi Farah. Sua mãe, após muitas dificuldades e sofrimento, chegou a um campo de refugiados no Quênia e sua filha Minhaj acabou sendo fotografada pelas lentes da imprensa internacional, tornando-se uma das faces da fome. Com apenas sete meses de vida, Minhaj tinha apenas 3,2 quilos.


A reportagem traz as fotos da evolução da criança após três meses, graças à ajuda humanitária. A maior vitória da guerreira Minhaj foi a da simples sobrevivência.  Embora os campos de refugiados mantidos pela ONU e por diversas ONGs tenham ajudado, eles não representam a solução. O ideal é dar condições aos povos menos favorecidos do mundo de encontrarem condições de se manterem por si mesmos. É uma questão de dignidade.


Entretanto, não há dúvidas de que esse tipo de ajuda é fundamental. A fome não espera... Ela dói... Ela mata...



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“A fome”


A Fome mostra às vezes seu rosto esquelético
Tal qual a Morte, sua irmã...
Ninguém pode ignorá-la
Quando ela transpassa-nos com sua lança de dor
Lancinante...
Por que é tão cruel a Fome?
Não tem piedade de ninguém...
Mas ela se supera ao atacar as crianças
Sugando-lhes, secando suas entranhas inexoravelmente...


Vejo sua cara terrível
Estampada nas capas de jornais e revistas
Mas também num simples passeio pelas ruas
De muitos lugares deste país...
Pergunto-me o que mais pode ser feito
Além da simples distribuição de bolsas...


A Fome e seu rosto esquelético
Perseguem-me em meus pesadelos
Assombram-me o olhar
Fazem-me lembrar do menino magrelo de outrora
Que nunca passou fome, entretanto...
Esse menino ainda existe aqui dentro
E se irmana com os que sofrem a dor
De não ter o que comer.



 Fontes das imagens: Coletadas da Web e editadas por Ernane Duarte Nunes

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Um menino em São Vicente

 

Quando era menino, ansiava pelas férias em São Vicente. Era um tempo de aventuras e sonhos, muitos sonhos... Fui com meus pais aos 4 anos para Caetanópolis, terra maravilhosa, mas nunca me esqueci de São Vicente, exatamente por que lá eu podia fazer muitas coisas totalmente inadmissíveis na casa de meus pais.

A começar da viagem em si. Tirando o fato de um rapaz magrelo e fracote como eu ter de caminhar com a mala pesada do centro de Sete Lagoas, no início da Monsenhor Messias (onde o ônibus do Cedro a Sete Lagoas tinha ponto final) até a estação ferroviária (onde era o ponto do ônibus que levava a São Vicente), tudo era bom. Íamos normalmente em ônibus do tipo monobloco, com motor na frente, ao lado do motorista. Esse motor era coberto por uma estrutura onde nos sentávamos e tínhamos visão total da paisagem de estrada de terra encascalhada, margeada por fazendas e lagoas. Mas o lugar mais esperado da paisagem era a ponte sobre o Rio das Velhas, impressionantemente estreita sobre um rio de águas pesadamente barrentas que, por várias vezes, em períodos chuvosos cobriam-na (até que um dia essas águas levaram a ponte embora). Era como se estivéssemos andando numa corda bamba sobre um precipício.

A parada em Funilândia ou Jequitibá, dependendo do trajeto do ônibus em que viajávamos, era sempre interessante. Além da tradicional ida ao banheiro, havia um lanche de requeijão, de biscoito do tipo “boca de velho”, de polvilho ou daqueles antigos “quebra-quebra” com um café tão gostoso!... Outra parada que havia (quando íamos por Jequitibá) era em Baldim, na lanchonete do meu padrinho Domingos Barbosa. Aí era quando meus irmãos morriam de inveja, pois era só descer e dizer para ele “bença, padrim!”, que eu ganhava um doce e, de vez em quando, até um chocolate Diamante Negro ou Sonho de Valsa. Claro que eu tinha que dividir com meus irmãos (cada um dava uma mordidinha, controlada e medida com o dedo).

Chegando em São Vicente, já sabíamos para a casa de qual tio cada um iria, considerando que não iríamos todos para a casa de um só, pois eram pobres, com famílias numerosas e muitas bocas iriam onerar o orçamento, até porque ficávamos sempre no mínimo uma semana. Mas não importava para onde iríamos: seríamos sempre bem recebidos, com aquele amor e carinho que sempre marcaram nossas vidas indelevelmente.

Meu tio Divino e minha tia Cecília, que saudades deles! Brincávamos com o primo Desinho e ouvíamos as histórias maravilhosas e cheia de mentiras do meu tio Divino, irmão caçula do meu pai Tião que fazia aniversário no mesmo dia que ele (24 de fevereiro). Esse meu tio, mesmo com dificuldades para caminhar que acabaram o tornando definitivamente paralítico, era dono de habilidades fantásticas com as quais criou seus filhos e lhes ensinou diversas profissões: de artesão de couro, passando por serralheiro e também por pedreiro. Infelizmente, não conseguia largar o cigarro, o que seria um dos responsáveis por tirá-lo de nós.

Minhas tias Té (Esther) e Dorvalina, severas como meu pai (irmão delas), mas com corações tão cheios de um carinho que transbordava e nos inundava. O chafariz, os quitutes deliciosos de tia Té, doces, cubus, bolos, biscoitos e a comida simplesmente inesquecível. Os picolés quadrados de formas de geladeira de Chica de Zezé Gonçalves que pagavam para nós com suas moedinhas sempre disponíveis. A habilidade de minha tia Dorvalina nos tricôs e seu olhar sereno, mesmo diante da dificuldade de ser paralítica, como meu tio Divino.

Na casa de tio Irênio (que não conheci, pois a morte o levou antes) tínhamos (e ainda temos, graças a Deus) a nossa queridíssima tia Divina, uma pessoa espetacular de quem nunca me esqueço em minhas orações. Mulher lutadora, que, mesmo perdendo o marido muito cedo, criou todos os seus filhos com muito amor e nos reservava o mesmo carinho. Sua casa fica na Copacabana, bairro que está entre dois córregos onde nadávamos e pescávamos.

Como é bom lembrar agora de meus primos todos, especialmente os de idade próxima a minha, como Zelito (que saudades! Deus o levou tão cedo...), o Vandinho, o Derson, o Desinho, o Luisinho Castelo Branco, o Willian Macaco... E os amigos do peito Nélson de Sô Dino, Paraná, Julinho Brioso e tantos outros. Jogávamos futebol nos campinhos diversos que havia por lá e ficávamos invariavelmente cheios de carrapatos, que tirávamos nadando nos córregos (que diziam infestados de xistose, embora nunca ficamos doentes disso nem vimos nenhum dos nossos amigos). As pescarias também eram memoráveis... Sempre voltávamos com o cambão repleto de piabinhas, carás e as deliciosas traíras. Caçar passarinho também era bom (embora hoje me lembre um pouco arrependido disso), pois as rolinhas que matávamos viravam saborosos petiscos preparados por minhas tias ou pelas mães de meus amigos.

Tenho tantas histórias das férias de minha infância em São Vicente, que esse post é insuficiente para relatar. No entanto, ele serve para relatar minha saudade de tudo isso. Hoje vou tão pouco a São Vicente, atropelado pelo tempo inexorável, que nos absorve e que nos aliena. É preciso vencer essa lassidez que nos leva à acomodação no lugar comum da falta de tempo para tudo. Vou tentar isso, pois tenho consciência de que, se sou o homem que sou, devo muito a esse menino magrelo que passava férias em São Vicente.

domingo, 24 de julho de 2011

Crônicas de viagem I - Valores



Entro no ônibus com um bom dia tímido e não correspondido. Faço-o por educação e por formalidade. Busco um lugar para sentar, de preferência que não tenha um outro passageiro. Encontro um nas últimas poltronas do fundo. Sento-me e fico calado, pedindo a Deus uma viagem segura.

Após alguns meses, surpreendo-me agora como mudei. Isolo-me em minha viagem como aqueles que um dia critiquei. Sei que isso não condiz comigo e, às vezes, volto ao que sou quando encontro alguém que me permita isso. As crianças e os idoso são meu alvo predileto de interlocução.

Sei que não é fácil vencer os desafios do mundo moderno, mas percebo que nos sujeitamos com muita facilidade ao status quo e acabamos nos tornando insípidos. Não percebemos mais os sabores do viver.

E pior: educamos nossos filhos assim, para serem os melhores (ou melhores que os outros), desenvolvendo-lhes o egocentrismo. Ensinamos-lhes o valor do trabalho, para que ganhem muito dinheiro e sejam felizes sozinhos. Lembro-me de uma tirinha do cartunista argentino Quino que traduz muito bem isso. Meu amigo Coqueiro postou-a outro dia. Reproduzo-a abaixo:
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Saio do ônibus rapidamente, na frente de todos os demais. Sigo caminhando sozinho para o trabalho. Um outro colega vem logo atrás de mim, mas não o espero. Tenho pressa de chegar ao trabalho, sentar-me à mesa e isolar-me ainda mais. Mas intimamente coloco-me que jamais devo esquecer meus valores.


quinta-feira, 2 de junho de 2011

Um soco no estômago


Publiquei ontem esse post em "Os Invicioneiros" e resolvi também fazê-lo neste meu "Poetopias", pela importância que dou ao tema. Baseia-se no poema "Lua nova demais", de Elisa Lucinda. Recebi esse poema do meu amigo Basílio Nascimento. Foi como se levasse um soco no estômago. A dureza de suas palavras trata o tema da criança abandonada de forma dura, mas realista. Não há como não reagir.

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Nesse breve post, não tenho muito o que dizer além de compartilhar. Agora frequentando uma cidade grande como Sete Lagoas, onde a miséria humana se mostra mais evidente, vejo problemas semelhantes aos que o poema relata.


A autora, Elisa Lucinda, nasceu em Vitória, no Espírito Santo, além de grande poetisa, é escritora, jornalista e atriz. Possui muitas lindas poesias disponíveis na internet para quem quiser apreciar, mas uma, particularmente, ficou muito conhecida por ter sido recitada em show de Ana Carolina: “Só de sacanagem”. Ela pode ser conferida na voz da própria Elisa Lucinda no programa do Jô Soares.


Mas o que me trouxe hoje de volta ao “Poetopias” é o poema “Lua nova demais”, que transcrevo a seguir.
Lua nova demais
(Elisa Lucinda)
Dorme tensa a pequena
sozinha como que suspensa no céu
Vira mulher sem saber
sem brinco, sem pulseira, sem anel
sem espelho, sem conselho, laço de cabelo, bambolê
Sem mãe perto,
sem pai certo
sem cama certa,image
sem coberta,
vira mulher com medo,
vira mulher sempre cedo.
Menina de enredo triste,
dedo em riste,
contra o que não sabe
quanto ao que ninguém lhe disse.
A malandragem, a molequice
se misturam aos peitinhos novos
furando a roupa de garoto que lhe dão
dentro da qual menstruará
sempre com a mesma calcinha,
sem absorvente, sem escova de dente,
sem pano quente, sem O B.
Tudo é nojo, medo,
misturação de “cadês.”
E a cólica,
a dor de cabeça,
é sempre a mesma merda,
a mesma dor,
de não ter colo,
parque
pracinha,
penteadeira,
pátria.
Ela lua pequenininha
não tem batom, planeta, caneta,
diário, hemisfério,
Sem entender seu mistério,
ela luta até dormir
mas é menina ainda;
chupa o dedo
E tem medo
de ser estuprada
pelos bêbados mendigos do Aterro
tem medo de ser machucada, medo.
Depois menstrua e muda de medo
o de ser engravidada, emprenhada,
na noite do mesmo Aterro.
Tem medo do pai desse filho ser preso,
tem medo, medo
Ela que nunca pode ser ela direito,
ela que nem ensaiou o jeito com a boneca
vai ter que ser mãe depressa na calçada
ter filho sem pensar, ter filho por azar
ser mãe e vítima
Ter filho pra doer,
pra bater,
pra abandonar.
Se dorme, dorme nada,
é o corpo que se larga, que se rende
ao cansaço da fome, da miséria,
da mágoa deslavada
dorme de boca fechada,
olhos abertos,
vagina trancada.
Ser ela assim na rua
é estar sempre por ser atropelada
pelo pau sem dono
dos outros meninos-homens sofridos,
do louco varrido,
pela polícia mascarada.
Fosse ela cuidada,
tivesse abrigo onde dormir,
caminho onde ir,
roupa lavada, escola, manicure, máquina de costura, bordado,
pintura, teatro, abraço, casaco de lã
podia borralheira
acordar um dia
cidadã.
Sonha quem cante pra ela:
Se essa Lua, Se essa Lua fosse minha…”
Sonha em ser amada,
ter Natal, filhos felizes,
marido, vestido,
pagode sábado no quintal.
Sonha e acorda mal
porque menina na rua,
é muito nova
é lua pequena demais
é ser só cratera, só buracos,
sem pele, desprotegida, destratada
pela vida crua
É estar sozinha, cheia de perguntas
sem resposta
sempre exposta, pobre lua
É ser menina-mulher com frio
mas sempre nua.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sobre a gramática





Recentemente postei em “Os Invicioneiros” texto que comentava sobre polêmica surgida acerca do livro “Por uma vida melhor”, de Heloísa Ramos. Não vou me aprofundar sobre o post, mas fiquei surpreso pelos comentários e, sobretudo, pela polêmica em si nas redes sociais de um modo geral.

Trata-se de um tema árduo. Escrevo aqui neste meu Poetopias a respeito desse tema, sem, no entanto, querer discuti-lo. Antes quero ironizá-lo. Para tanto, valho-me de brilhantes companhias que ora convoco para ajudar-me: Paulo Leminski, Carlos Drummond de Andrade, Camões e Oswald de Andrade.

Não tecerei maiores comentários. Meus amigos falam o suficiente.


O Assassino era o Escriba


Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético
de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

Fontes: Paulo Leminski.Caprichos e relaxos.São Paulo: Brasiliense,1983.





 Aula de português


A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.

Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond






Erro de português


Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena! Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português





Pronominais
(Oswald de Andrade)


Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro



domingo, 8 de maio de 2011

O Teatro Mágico

Ganhei da amiga Adriana, Secretária Municipal de Cultura, um excelente material referente ao grupo O Teatro Mágico. Fiquei muitíssimo impressionado com a qualidade e originalidade desses artistas e não poderia deixar de divulgá-los neste espaço.

Fernando Anitelli, 35 anos, ator, músico e compositor, é o responsável pela criação do projeto “O Teatro Mágico”. Nascido em Presidente Prudente e criado na cidade de Osasco, São Paulo, Anitelli “brinca” com arranjos e melodias desde os 13 anos, “Quando vi que rimar amor com humor funcionava, não só na estética e na melodia, mas no sentido que aquilo tinha pra mim, nunca mais parei de fazer música”, revela.

As primeiras vitórias vieram logo cedo com prêmios em vários festivais dos quais participou com suas canções. A entrada na Faculdade de Comunicação Social lhe garantiu não só um diploma, mas também a formação da banda Madalena 19, que permitiu seu amadurecimento como músico. Foram quase dez anos de ensaios e apresentações de pequeno porte.

De lá para cá, Anitelli acumulou ainda a experiência como ator, trabalhando com diretores como Oswaldo Montenegro, Ismael Araújo e Caio Andrade, entre outros, que lhe deram as noções básicas de expressão corporal, domínio de palco e outros elementos vindos da escola do teatro, indispensáveis em seus shows.

Em 2003, Anitelli gravou seu primeiro CD. O álbum recebeu o sugestivo título “O Teatro Mágico: Entrada para Raros”, numa referência ao best-seller “O Lobo da Estepe”, do escritor alemão Hermann Hesse. “Quando eu li sobre o Teatro Mágico do Hesse, percebi que era justamente aquilo que eu gostaria de montar: um espetáculo que juntasse tudo numa coisa só, malabaristas, atores, cantores, poetas, palhaços, bailarinas e tudo mais que a minha imaginação pudesse criar. O Teatro Mágico é um lugar onde tudo é possível.”, conta.

Em cena, Anitelli revela uma expressão cênica incrível seja declamando versos, cantando ou fazendo performances. “Quando estou no palco, faço questão de frisar que aquele ali sou eu, não é um palhaço ou outro personagem qualquer”. O Teatro Mágico torna possível que cada um se mostre como é, que cada verdade interna seja revelada. Essa é a grande brincadeira, “ser o que se é, afinal todos somos raros e temos que ter consciência disso” , destaca. E assim, Anitelli vai traçando um paralelo entre o real e o imaginário enquanto o público, aos poucos, vai entrando na mesma freqüência sinestésica marcada pelo ritmo do espetáculo. No final, palco e platéia se fundem e cada um dos presentes vai descobrindo a delícia de se permitir ser um pouco mais de si mesmo.

Sugiro aos amigos leitores que conheçam mais desse grupo sensacional, visitando seu sítio. Lá estão letras de músicas, agenda e mais informações sobre essa turma fantástica. Quem sabe não poderemos assistir a seu espetáculo ao vivo no Festival Clara Nunes…

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quarta-feira, 6 de abril de 2011

“Lições de Vida”


Escrevo esse post como uma homenagem a meu pai. A saudade dele, de minha mãe e de todos que se foram às vezes aperta o peito. É mais uma biografia. Quando o nome de meu pai foi virar nome de rua em Caetanópolis, a Câmara de Vereadores pediu que escrevesse uma breve história da vida dele. Não foi possível fazê-la breve, pois a vida de meu pai foi muito intensa para ser resumida a poucas palavras.

 

“Lições de Vida”


            A vida de Sebastião Duarte Nunes, também conhecido como Tião Eletricista, Sô Tião e, principalmente, Tião Ferreira, pode ser enfocada exatamente pelos nomes que carregou durante sua vida.
            O Tião Eletricista representa a imagem do profissional empenhado, que dedicou sua vida à empresa onde trabalhou 54 anos. Foi um profissional que começou da base, com apenas o “2o Ano de grupo”, como se dizia naquela época, mas que cresceu na empresa graças à sua inteligência inata, sua franqueza, sua honestidade e sua condição natural de liderança, que impressionavam a todos que com ele trabalhavam. Era respeitado por sua capacidade e experiência, tendo sido responsável pelos serviços de instalação de quase toda a rede elétrica de alta tensão da Cedro e Cachoeira e que, normalmente, exigia mão-de-obra altamente qualificada, pelos riscos que representava naqueles tempos em que não havia equipamentos de comunicação e de proteção individual tão avançados como atualmente. Tião Eletricista também fazia uso de sua profissão fora da Cedro, trabalhando nas horas vagas consertando eletrodomésticos, fazendo instalações residenciais e em fazendas da região para complementar a renda, visto que tinha família numerosa.
            Começou trabalhando na Fábrica de São Vicente, aos 11 anos, apenas um garoto, mas já com a responsabilidade de ajudar de forma mais direta na renda familiar. Varria o chão da fábrica e exercia outras tarefas que, para ele, eram fáceis, acostumado que era desde mais novo ao trabalho pesado nas roças e nas fazendas. Logo notaram naquele garoto algo mais – uma vivacidade e uma capacidade de compreender as coisas com muita facilidade. Era muito curioso e logo foi levado para trabalhar na Oficina Elétrica. De lá, acabou indo para a Usina Pacífico Mascarenhas, na Serra do Cipó, próximo a São Vicente, onde trabalhou alguns anos como encarregado. Naquele tempo não havia estradas para São Vicente, apenas “picadas” que não permitam o acesso de veículos. A forma mais adequada de viajar era no lombo de mulas. Tião Eletricista, como encarregado, era responsável pelo transporte dos pagamentos dos funcionários da Usina, que naquele tempo eram cerca de 40 pessoas. Ia sozinho, armado com uma garrucha e com a fé em Deus. A Cedro Cachoeira depositava no Tião Eletricista a confiança que depositaria em um “carro-forte”. Daí, foi trabalhar no levantamento de postes que trariam a energia elétrica da Serra do Cipó à Fábrica do Cedro.
            Passados alguns anos, Tião Eletricista virou referência na Cedro e Cachoeira e sua experiência e capacidade o levavam de uma fábrica a outra. Esteve em Inimutaba, na fábrica da Cachoeira, quando a mesma passou pelo processo de modernização. Esteve em Sete Lagoas, quando foi fundada a então Fábrica Santo Antônio. E, por diversas vezes, vinha ao Cedro, como era conhecida Caetanópolis na época, para realizar diversos serviços.
Em julho de 1966, Tião Eletricista aposentou-se por tempo de serviço, mas não chegou a ficar nem três meses afastado das suas atividades. Atendendo convite da Cedro Cachoeira para trabalhar na Fábrica do Cedro, em Caetanópolis, em outubro desse mesmo ano, voltou às atividades profissionais por um período que seria de apenas um mês, mas que acabou se estendendo. Veio participar do processo de modernização da Fábrica do Cedro, que naqueles anos estava reestruturando o setor de Fiação, ainda sem a família.
Acaba sendo recontratado em junho de 1967, tornando-se encarregado da oficina elétrica. Morava no famoso “cataplasma” e ia embora nos fins de semana para São Vicente. Em 1970, a Cedro disponibilizou-lhe uma casa e ele trouxe toda a família para morar em Caetanópolis. Estabilizou-se durante um bom tempo na Fábrica do Cedro, até que, em 1978, a Cedro Cachoeira adquiriu a fábrica da PISA em Paraopeba e lá instalou mais uma unidade do grupo, a Fábrica Antônio Cândido Mascarenhas. Mais uma vez, o Tião Eletricista emprestou sua experiência e capacidade, indo trabalhar naquela fábrica por alguns anos como encarregado da oficina elétrica, sem, no entanto, deixar de sê-lo também na Fábrica do Cedro, onde vinha alguns dias da semana acompanhar o trabalho de sua equipe de eletricistas. Ficou naquela fábrica durante alguns anos, voltando em definitivo para a Fábrica do Cedro por volta de 1981, onde permaneceu até sua retirada do serviço em 1983, por motivo de saúde.
            O Sô Tião representa a faceta do homem respeitado por todos, nos diversos lugares por onde passou. Sua capacidade de fazer amigos era característica daqueles homens de grande coração. Embora tivesse uma fisionomia carregada, de semblante fechado e de poucos sorrisos, era capaz de inspirar confiança em todos que o conheciam, pela franqueza com que tratava todas as questões e por ser uma pessoa que não costumava “ficar em cima do muro”. Sô Tião era um homem dedicado às artes, ao teatro, à folia de Reis, aos Congados e a todo tipo de folguedo popular. Gostava de tocar viola, embora não fosse nenhum músico excepcional, porém era um apreciador inconteste da boa música brasileira, sobretudo a sertaneja. Teve a oportunidade de estudar somente até o “2o Ano de Grupo”, mas sempre foi um homem muito bem informado, que adorava ler e escrever. Possuía em casa sempre diversos livros, era assinante da famosa revista “Seleções do Reader’s Digest” e um viciado em palavras cruzadas. Lia diariamente o seu jornal no “Bar do Laudônio”, onde tomava todo dia sua Brahma. Vale ressaltar que era a única marca que ele bebia. Também diariamente não deixava de assistir o “Jornal Nacional”, enquanto jantava.
            Gostava de cultivar. Plantava roças e hortas e seus filhos aprenderam também a lidar com a enxada. Não deveriam ter vergonha de nenhum tipo de trabalho. Plantava milho, feijão, mandioca, abóbora, enfim, o que fosse conveniente. Adorava criar galinhas e porcos. Criou também patos e marrecos. Houve tempos em que chegou a ter um pequeno lago de criação de peixes que seus filhos pescavam no córrego do Cedro, nos fundos de sua casa.
Adorava o futebol. Era atleticano. Não precisa dizer mais nada. Aliás, gostava de contar para todos porque se tornou atleticano. Dizia que no tempo em que servia o exército, ainda não era afeiçoado ao futebol, mas admirava os jogadores famosos da época. A tropa estava em treinamento em Belo Horizonte e um amigo soldado convidou-o para ir ao Barro Preto, que era a sede do Palestra Itália, naquele tempo. Ao chegarem lá, o Sô Tião foi barrado na entrada, pois era preto e não se permitiam negros no clube. No dia seguinte, foram ao famoso Estadinho Antônio Carlos, que era a sede do Clube Atlético Mineiro, sendo recebidos sem nenhum problema e ainda ganhando autógrafos dos jogadores do time (muitos deles de cor negra). Tinha outras paixões no futebol: o Cedro Esporte Clube e o Sete de Setembro Futebol Clube. Foi diretor de ambas as equipes e sempre as acompanhava nos jogos que realizavam, onde quer que fosse. Adorava os rodeios e tinha verdadeira paixão por cavalos. Tivera um cavalo nos tempos de São Vicente do qual jamais se esquecia. Nem poderia: seu nome era “Sodoso” (“Saudoso”). Fora seu companheiro nas idas e vindas da Usina Pacífico Mascarenhas a São Vicente e a Sete Lagoas. Sô Tião foi membro do Rotary Club, da Sociedade São Vicente de Paula, entre outras entidades beneficentes. Era um homem generoso, capaz de abrir mão do que tinha para doar para outras pessoas, mesmo contrariando a própria família. Nesse ponto, Sô Tião nos leva ao Tião Ferreira.
Tião Ferreira era filho de Maria Ferreira. Da mãe herdara o sobrenome que o pai não registrara no cartório. O Ferreira era a marca da personalidade forte da mãe, mulher lutadora, que sofreu muito para criar os filhos. O pai, Ilídio Duarte Nunes, era filho de escravos e jamais fora oficialmente registrado. Diziam que seu sobrenome original era “Nunes Fraga” e que o “Duarte” fora herdado dos senhores que o criaram. O fato é que “Duarte Nunes” foi o sobrenome com que Ilídio, nesse idílio,  registrou os filhos Esther, Sebastião, Irênio, Dorvalina e Divino. Ilídio faleceu e dona Maria Ferreira criou os filhos na roça e na vara. Naqueles tempos, cara fechada era comum. Castigo também. Bom para ensinar os filhos a serem respeitados. Certo ou errado, cresceram todos cheios de inteligência e de amigos. Isso também dona Maria Ferreira ensinou: que os amigos são a extensão da família. Que os amigos são irmãos que Deus Nosso Senhor arruma para nos ajudar nas horas difíceis e a quem nós devemos amparar quando precisarem. E amigos a gente tem que respeitar primeiro, para ser respeitado. Assim, Tião Ferreira criou seus 16 filhos, Tereza, Antônio, Maria de Lourdes, Luci, Cecília, Lucas, Dirce, Sebastião, Ana Maria, Joaquim, Raquel, José Duarte, Ernane, Ulisses, Monalise, Renata;  mais quatro filhos de criação: Luiz, Paulo César, Vilma e Glayson, a quem considerava como filhos legítimos e fazia questão que todos da família também o fizessem.
Fez questão de que todos estudassem, dando todas as oportunidades para isso. Aliás, um dos motivos de sua vinda em definitivo de São Vicente para Caetanópolis fora exatamente a possibilidade que era oferecida em Caetanópolis para que seus filhos estudassem, considerando que em São Vicente havia apenas o “primário” (até a 4a Série). A grande maioria de seus filhos concluiu o 2o Grau e Luci, Ana Maria, Joaquim, Ernane, Renata e, mais recentemente, Maria de Lourdes, concluíram o Ensino Superior.  Isso certamente não seria possível se eles tivessem continuado a morar em São Vicente.
Outro motivo de sua decisão em trazer a família para Caetanópolis foi a grande receptividade do povo caetanopolitano. Sempre fora muito bem tratado e quando sua família veio, não foi diferente. Logo todos se sentiam um pouco caetanopolitanos, inseridos que foram em um curto espaço de tempo na sociedade cedrense. Seus amigos, que sempre foram muitos, faziam questão de se reunir em sua casa nos fins de semana, onde realizavam churrascos e galinhadas. Mas o Tião Ferreira não seria esse homem capaz de criar tantos filhos se não tivesse tido as esposas que teve. Sua primeira esposa, Luíza, de quem Deus lhe privou a companhia com poucos anos de casamento e oito filhos (o primeiro morreu com apenas 2 meses de idade), era uma mulher de fortíssima personalidade, que marcou sua vida de forma indelével. Já Raimunda, sua segunda esposa, é uma mulher de extrema força e bondade, que é mãe de todos os filhos de Tião Ferreira, mesmo daqueles que não vieram de seu ventre. Perdeu um filho, Tiãozinho, tragicamente, vítima de um acidente de ônibus quando voltava de férias da Bahia. Essa tragédia serviu para abalar ainda mais a saúde do Tião Ferreira, que naquele tempo já era bastante delicada, pois ele já passara por um AVC (acidente vascular cerebral). Foi Dona Raimunda quem o acompanhou até os últimos momentos de sua vida, quando Nosso Senhor resolveu chamá-lo para fazer umas instalações elétricas lá no paraíso, de onde, certamente, ele continua a cuidar de toda a sua família.
Tião Ferreira, Sô Tião, Sebastião Duarte Nunes... Não importa como as pessoas o conheceram. Importa sim o exemplo de homem que ele foi e continua sendo para todos os seus filhos e, por que não dizer, um paradigma para toda uma sociedade tão carente de pessoas honestas e capazes de deixar uma indelével  marca positiva de bondade, firmeza de caráter e de respeito.

 

“O Sorriso Aberto de Meu Pai”

(Ernane Duarte Nunes)


O sorriso aberto de meu pai ensinou-nos a viver... 
Com um sorriso aberto nos levava para a roça
E ensinava para todos nós como usar uma enxada
Para capinar as dificuldades da vida.
Com um sorriso aberto nos ensinava a plantar,
Semeando sonhos e colhendo a realidade.
Com  o sorriso aberto sempre...


Pois é, Pai!... Aprendemos a viver assim,
Como o senhor nos ensinou...
A nossa hereditária cara fechada algumas vezes
É apenas o nosso amadurecimento
Cultivado sob o sol das dificuldades da vida
Com esforço e com trabalho honesto...
Como o senhor fez um dia, Pai...


Esse sorriso aberto, essas mãos calejadas
Enfim, tudo o que o senhor nos ensinou
Irá nos acompanhar durante toda a nossa vida
Ao lado da lição maior 
— a união de todos nós, seus filhos —
Como exemplo do amor e do carinho
Para sempre em toda a nossa família!...