As palavras sempre me sinalizaram a liberdade. Dedico esse post a uma pessoa muito querida. Vai lê-lo e saberá por que o fiz. Às vezes a vida nos prega peças. Às vezes nos deixamos pegar. Procuramos os problemas. Entramos na cova dos leões, não obstante os perigos.
De uma maneira ou de outra, a vida é cheia de perigos. Cabe-nos evitá-los. Alguns riscos são inevitáveis. Ferimo-nos e precisamos nos curar dos machucados.
Escrevo com frases curtas. Mas minha inspiração é curta, muito menor que a emoção que me invade agora. Nas minhas orações e nas de meus filhos e esposa sempre estão presentes todos aqueles que amo e todos os que precisam. Peço ao Senhor por eles e agradeço por mim, por nós.
Uma cena de 1991 volta-me à lembrança enquanto leio um velho caderno de poemas. Um dos cadernos verdes, aquele do dicionário louco de verbetes solitários. Muito legal!...
Um menino e seu caminhão brincam no piso encerado de tacos da sala da casa. Observo-o com um sorriso. Um menino e seu caminhão brincam. O brinquedo parece divertir-se de fato, como a criança. Uma simbiose interessante de coisa e pessoa, de pessoa e coisa. A felicidade é um amálgama...
Transcrevo o poema tal como foi feito. Omito o nome da criança. Mas não escondo nada. Estou muito feliz hoje e grato a Deus por tudo.
“D. e seu caminhão”
D. brinca com seu caminhão concentrado e seu mundo feliz D. brinca com seu caminhão onomatopeias várias fazem o mundo de D. e seu caminhão...
De repente vem a noite... Mas os olhos de D. brilham no escuro da noite D. e seu caminhão não temem a escuridão...
D. brinca e seu caminhão onomatopeia na escuridão Vrruumm!... Vrruumm!... Fffiiiuuu!... Não temem nada, querem a emoção Este afã de ser feliz Sem se preocuparem com o que se diz De ele ser apenas uma criança D. entretanto sabe muito bem como nos ensinar a grande lição da esperança...
Resolvo agora retomar o blog Poetopias em um momento de fé e poesia, pensando em livro do poeta cearense Horário Dídimo que encantou-me no passado, sobretudo pela simplicidade dos versos.
Horácio Dídimo Ferreira Barbosa Vieira é professor aposentado do Departamento de Literatura da Universidade Federal do Ceará, formado em Direito na UERJ e em Letras na UFC, mestre em Literatura Brasileira pela UFPB e doutor em Literatura Comparada pela UFMG. Membro da Academia Cearense de Letras é autor de muitas obras de poesia, ensaios e de literatura infantil.
Reproduzo abaixo alguns poeminhas dele para "deleitura":
a palavra chave
a palavra chave
já não fecha
nem abre
a palavra amor
muda de cor
a palavra verde
amadurece
a palavra ave
voa no papel
a solução
daqui a cem anos
todos os nossos problemas
nos terão resolvido
As casas
após longa espera
nada aconteceu
as casas continuaram baixas
tão baixas
que muitos de seus habitantes rastejavam
enquanto outros desistiam de antigas reivindicações
As doces meninas de outrora
as doces meninas de outrora
amanheceram
vestiram os vestidos novos
pintaram as unhas de vermelho
por um instante resplandeceram
depois baixaram as cabecinhas louras
e envelheceram como as flores
Triste
triste não é saber que não há
nem que não haverá
triste é saber que nunca houve
e que agora para todo o nunca
choraremos
isso
não sei o que quero
dizer com isso
mas sei que isso
é o que eu quero dizer
identidade
um dia
com a ajuda de Deus
não haverá mais diferença
entre mim e eu
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Horácio Dídimo escreve com fé. Muitas vezes associa seus versos a trechos bíblicos e o faz de maneira aleatória, porém competente e pertinente. Penso em versos que o Enanre Etraud poderia escrever para temos como o que ele aborda e o máximo que consigo são três quadrinhas. Reproduzo-a e finalizo o post:
Enquanto passam os anos de luta
Percebo que ainda busco uma luz
Que encerre em mim a auto-disputa
Pelo que não entendo sobre Jesus
Por que Ele se doou tanto por nós?
A dúvida lateja bem dentro de mim...
Ouço então o sussurro de uma voz
Dizer que esse era mesmo o seu fim.
Ser para todos de esperança um sinal
Sustentada na doação incondicional
Procuremos seguir este modelo bonito
Que nos foi legado por Jesus Cristo...
Sou um admirador da obra de Fernando Pessoa desde que com ela tomei contato aos 13 anos, conduzido pelas mãos de meu Mestre Ilacir.Comprei sua obra completa com minhas primeiras economias, enquanto colegas contemporâneos compravam Walkman ou Atari. E sua obra completa custou-me mais caro. Não me arrependo, pois tem sido minha companheira ao longo dos anos.
Transcrevo a seguir minha adaptação breve de sua biografia, retirada do sítio lusitano “As Tormentas”:
Escritor português, nasceu a 13 de Junho, numa casa do Largo de São Carlos, em Lisboa. Aos cinco anos morreu-lhe o pai, vitimado pela tuberculose, e, no ano seguinte, o irmão, Jorge. Devido ao segundo casamento da mãe, em 1896, com o cônsul português em Durban, na África do Sul, viveu nesse país entre 1895 e 1905, aí seguindo, no Liceu de Durban, os estudos secundários.
Frequentou, durante um ano, uma escola comercial e a Durban High School e concluiu, ainda, o «Intermediate Examination in Arts», na Universidade do Cabo (onde obteve o «Queen Victoria Memorial Prize», pelo melhor ensaio de estilo inglês), com que terminou os seus estudos na África do Sul. No tempo em que viveu neste país, passou um ano de férias (entre 1901 e 1902), em Portugal, tendo residido em Lisboa e viajado para Tavira, para contactar com a família paterna, e para a Ilha Terceira, onde vivia a família materna. Já nesse tempo redigiu, sozinho, vários jornais, assinados com diferentes nomes.
Em 1920, ano em que a mãe, viúva, regressou a Portugal com os irmãos e em que Fernando Pessoa foi viver de novo com a família, iniciou uma relação sentimental com Ophélia Queiroz (interrompida nesse mesmo ano e retomada, para rápida e definitivamente terminar, em 1929) testemunhada pelas Cartas de Amor de Pessoa, organizadas e anotadas por David Mourão-Ferreira, e editadas em 1978. Em 1925, ocorreria a morte da mãe. Fernando Pessoa viria a morrer uma década depois, a 30 de Novembro de 1935 no Hospital de S. Luís dos Franceses, onde foi internado com uma cólica hepática, causada provavelmente pelo consumo excessivo de álcool.
Levando uma vida relativamente apagada, movimentando-se num círculo restrito de amigos que frequentavam as tertúlias intelectuais dos cafés da capital, envolveu-se nas discussões literárias e até políticas da época. Colaborou na revista “A Águia”, da Renascença Portuguesa, com artigos de crítica literária sobre a nova poesia portuguesa, imbuídos de um sebastianismo animado pela crença no surgimento de um grande poeta nacional, o «super-Camões» (ele próprio?). Data de 1914 o aparecimento dos seus três principais heterónimos, segundo indicação do próprio Fernando Pessoa, em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, sobre a origem destes.
Em 1915, com Mário de Sá-Carneiro (seu dilecto amigo, com o qual trocou intensa correspondência e cujas crises acompanhou de perto), Luís de Montalvor e outros poetas e artistas plásticos com os quais formou o grupo «Orpheu», lançou a revista “Orpheu”, marco do modernismo português, onde publicou, no primeiro número, “Opiário” e “Ode Triunfal”, de Campos, e “O Marinheiro”, de Pessoa ortónimo, e, no segundo, “Chuva Oblíqua”, de Fernando Pessoa ortónimo, e a “Ode Marítima”, de Campos. Publicou, ainda em vida, “Antinous” (1918), “35 Sonnets” (1918), e três séries de “English Poems” (publicados, em 1921, na editora Olisipo, fundada por si). Em 1934, concorreu com “Mensagem” a um prémio da Secretaria de Propaganda Nacional, que conquistou na categoria B, devido à reduzida extensão do livro. Colaborou ainda nas revistas “Exílio” (1916), “Portugal Futurista” (1917), “Contemporânea” (1922-1926, de que foi co-director e onde publicou “O Banqueiro Anarquista”, conto de raciocínio e dedução, e o conhecidíssimo e belo poema “Mar Português”), “Athena” (1924-1925, igualmente como co-director e onde foram publicadas algumas odes de Ricardo Reis e excertos de poemas de Alberto Caeiro) e “Presença”.
A sua obra, que permaneceu maioritariamente inédita, foi difundida e valorizada pelo grupo da revista “Presença”. A partir de 1943, Luís de Montalvor deu início à edição das obras completas de Fernando Pessoa, abrangendo os textos em poesia dos heterónimos e de Pessoa ortónimo. Foram ainda sucessivamente editados escritos seus sobre temas de doutrina e crítica literárias, filosofia, política e páginas íntimas. Do seu vasto espólio foram também retirados o “Livro do Desassossego” por Bernardo Soares e uma série de outros textos.
A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão puramente literária, tem atraído as atenções gerais. Concebidos como individualidades distintas da do autor, este criou-lhes uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram-se ligados a alguns dos problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer um dos seus heterónimos na existência literária do poeta. Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua emotividade através da linguagem. Enveredando por vários fingimentos, que aprofundam uma teia de polémicas entre si, opondo-se e completando-se, os heterónimos são a mentalização de certas emoções e perspectivas, a sua representação irónica pela inteligência. Deles se destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
Segundo a carta de Fernando Pessoa sobre a génese dos seus heterónimos, Caeiro (1885-1915) é o Mestre, inclusive do próprio Pessoa ortónimo. Nasceu em Lisboa e aí morreu, tuberculoso, em 1915, embora a maior parte da sua vida tenha decorrido numa quinta no Ribatejo, onde foram escritos quase todos os seus poemas, os do livro O Guardador de Rebanhos, os de O Pastor Amoroso e os Poemas Inconjuntos, sendo os do último período da sua vida escritos em Lisboa, quando se encontrava já gravemente doente (daí, segundo Pessoa, a «novidade um pouco estranha ao carácter geral da obra»). Sem profissão e pouco instruído (teria apenas a instrução primária), e, por isso, «escrevendo mal o português», órfão desde muito cedo, vivia de pequenos rendimentos, com uma tia-avó. Caeiro era, segundo ele próprio, «o único poeta da natureza», procurando viver a exterioridade das sensações e recusando a metafísica, caracterizando-se pelo seu panteísmo e sensacionismo que, de modo diferente, Álvaro de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar.
Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi educado num colégio de jesuítas, recebeu uma educação clássica (latina) e estudou, por vontade própria, o helenismo (sendo Horácio o seu modelo literário). Essa formação clássica reflecte-se, quer a nível formal (odes à maneira clássica), quer a nível dos temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que Pessoa considerava exagerado. Médico, não exercia, no entanto, a profissão. De convicções monárquicas, emigrou para o Brasil após a implantação da República.
13 de junho de 1888 - Nasce em Lisboa, às 3 horas da tarde, Fernando Antônio Nogueira Pessoa.
1896 - Parte para Durban, na África do Sul.
1905 - Regressa a Lisboa
1906 - Matricula-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa
1907 - Abandona o curso.
1914 - Surge o mestre Alberto Caeiro. Fernando Pessoa passa a escrever poemas dos três heterônimos.
1915 - Primeiro número da Revista "Orfeu". Pessoa "mata" Alberto Caeiro.
1916 - Seu amigo Mário de Sá-Carneiro suicida-se.
1924 - Surge a Revista "Atena", dirigida por Fernando Pessoa e Ruy Vaz.
1926 - Fernando Pessoa requere patente de invenção de um Anuário Indicador Sintético, por Nomes e Outras Classificações, Consultável em Qualquer Língua. Dirige, com seu cunhado, a Revista de Comércio e Contabilidade.
1927 - Passa a colaborar com a Revista "Presença".
1934 - Aparece "Mensagem", seu único livro publicado.
30 de novembro de 1935 - Morre em Lisboa, aos 47 anos.
A biografia de “As Tormentas aborda muito pouco um outro heterônimo, do qual gosto muito, que é o Bernardo Soares. Ele é um heterônimo particular do poeta. Autor do “Livro do Desassossego”, uma obra feita de fragmentos que, não obstante, é tida como uma das obras fundamentais da ficção portuguesa no século XX, segundo a Wikipedia, “(…) ao encenar na linguagem categorias várias que vão desde o pragmatismo da condição humana até o absurdo da própria literatura.(...)”
Bernardo Soares é, nessa obra, um mero ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Para a crítica, Bernardo Soares seria, na verdade, um “semi-heterônimo”, pois, como o próprio Fernando Pessoa colocou: “não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade.”
Trago a seguir um fragmento do “Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa, em texto do seu heterônimo Bernardo Soares, mostrando-me uma angústia que já compartilhei:
(Fragmentos)
88.
“Quando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de carinho - com vontade de lhes dar beijos - os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases - fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste!...
Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. De meu pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá ideia de nada. Ás vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma idéia dele a que possa amar...Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez seja nunca esse o pai da minha alma...
Quando acabará isso tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para a sua casa e me desse calor e afeição...Ás vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar...Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio...Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum...E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis par seu filho adoptivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de brinquedos.
Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, ó Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci...Torna a dar-me, ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que eu dormia...”
Tenho em minha formação pessoal a certeza de que a família é a instituição mais importante da humanidade. Por mais clichê que isso possa ser, é para mim a mais pura verdade, estruturada em pilares firmes que me constituem como pessoa.
Sei que nem tudo são flores (os clichês estão dominando hoje), mas agradeço a Deus por ter a família que tenho. Esse post é para falar de uma parte importante dela: meus filhos. Tenho dois rapazes que são meus orgulhos. Têm comportamentos totalmente adversos, porém, cada um do seu jeito, são seres humanos marcantes.
O primogênito, leitor inveterado, emociona-me ao vê-lo diante de um livro. Dizem ter puxado ao pai no prazer que sente e no hábito da leitura, o que, modestamente, assumo ser verdade. Sou leitor de tudo o que cair nas mãos, de enciclopédias a bulas de medicamentos. Sem exagero.
Meu caçula é também um bom leitor, mas um pouco menos intenso. Dedica seu prazer maior ao futebol e à imaginação intensa com que, até hoje, já entrado na adolescência, consegue ainda brincar, mesmo que solitariamente, com qualquer objeto que possa transformar em brinquedo. Lembro-me de um quadro de giz que ganhou da tia. Brincava de ser papai professor.
Fiz, ao longo de meus olhares para meus filhos, várias poesias. Nem sei quantas. Reproduzo algumas abaixo. Faço isso nesse espaço por absoluta necessidade de expressão. Renovo minhas forças diante das perdas da vida com o remédio eficaz do amor.
Acabaram-se tantas coisas boas de nossas vidas. Olvidaram-se nas estações que passaram. Foram-se tantas pessoas.
Desapareceram nas curvas do destino. Tantas palavras curvadas de angústia. Tenho meus sacramentos. Leonardo Boff ensinou-me. Supero a dor com o paradoxo da saudade. Já falei dele em outras oportunidades. Minhas frases curtas relatam minha inspiração mínima. Mas preciso dizê-las, expressá-las. Senão me implodem.
Neste momento, faz frio... um frio intenso e inequívoco. Ele não se engana em açoitar-me. Supero a dor com o paradoxo da saudade.
Escrevi uma vez sobre a música. Não me lembro quando mais. Na verdade, queria homenagear um músico muito em especial, um amigo que me surgiu ao longo da caminhada.
Falar da música é falar de sentimentos, de emoções transfiguradas em sons. Melodia, ritmo, cadência, carinho, folia, sinfonia, inteligência, arte, parte da vida, da história humana, sagrada ou profana.
Falar da música é buscar no alto da árvore mais alta o fruto mais saboroso e difícil de apanhar. Falar da música PE chorar ou às vezes sorrir. Falar da música é sentir. É, sobretudo, ouvir.
Esse post é para homenagear o amigo Nascimento, maestro da maravilhosa Banda de Música Euterpe Santa Luzia. Tantas histórias, tanta importância, tantas coisas boas que não cabem nesse post. Mas cabem folgadas em mim.
Tive oportunidade de estudar a Música, com as excelentes aulas do Maestro Nascimento. Tive de parar, por circunstâncias e por respeito. Para ser bem estudada, a Música exige tempo e dedicação. São coisas intrínsecas, embora extrinsecamente eu tinha dedicação. Voltarei um dia a estudá-la.
Mas o que pude ver, valeu-me. Pude entender melhor a beleza da música e sua complexidade, para dar-lhes mais valor ainda. Sei o quanto a música pode me envolver. Não faço quase nada em minha vida sem que esteja presente a música.
O Maestro Nascimento possibilitou-me isso. Emocionou-me demais uma vez: fez uma canção para mim e presenteou-me em pleno Concerto de Gala da Banda de Música Euterpe Santa Luzia. Minha canção é linda. Captou perfeitamente o que sou e, um dia, quero ser capaz de eu mesmo tocá-la.
Fiz para o Maestro uns versos. Meus filhos e minha esposa admiram-no tanto quanto eu próprio. Quero um dia conhecer os filhos e netos do Maestro. Conheço sua esposa. Todos são felizes por tê-lo. Todos somos felizes por conhecê-lo.
Deus lhe permita muita saúde sempre. O mundo precisa de pessoas assim.
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“O mundo precisa de pessoas assim”
Enquanto observo as notas
Que desfilam diante de meus ouvidos extasiados
Sinto a sequência suave de sons
É mais uma música divina que ouço
Que me faz perceber o que é estar bem
Vejo o grande mestre à frente da banda de música
Com gestos precisos e firmes conduzindo os sons
Que saem dos instrumentos com a precisão imprecisa
Da emoção que contagia a todos que veem e ouvem
Penso então que o mundo precisa de pessoas assim
Que possam conduzir-nos na maravilhosa música da vida
Com gentileza extrema, mas, paradoxalmente,
Com atitudes precisas e firmes
Que sejam o paradigma
Pelo qual devemos pautar nosso caráter...
O mundo precisa de pessoas assim para nos reger nesse momento
Nascimento de algo bom que permanece
Ressoando suavemente em nossos olhares audiófilos
Em busca da música perfeita que embale nossa alma...
Entre o ser e as coisas, tento encontrar coesão e coerência ao falar da vida. Mas não é fácil fazer a composição de tudo isso, pois há um segredo não revelado a leigos como eu. Não é nenhuma bomba.
Meus ombros suportam o mundo que eu vivo apenas, por isso o que me resta relatar sobre minha vida, da infância até agora, são notícias de um menino sonhador, que tinha como meta na vida apenas amar,mesmo diante das sem-razões do amor. Na sua meninice, adora a fazenda que não lhe pertence, enquanto no pasto um boi vê os homensque passam, impassíveis (ambiguamente) e pensa na bunda que engraçada.
Este texto pode parecer meio insensato, mas traz simplesmente uma homenagem a um dos maiores escritores de língua portuguesa de todos os tempos: Carlos Drummond de Andrade. O mineiro simples de Itabira, que escreveu de crônica a poesia, eternizando o seu olhar atento à vida em forma de palavras. Ele sabia que o mundo é grande e sua matéria poética é sobretudo o tempo, o cotidiano, o subjetivo. Sofreu com o passado e temeu o futuro, por isso, talvez, manteve-se no presente.
Não pude escrever um poema de sete faces nem mesmo um caso do vestido para ilustrar este pequeno texto, para não dizer textículo. Então, reproduzo uma crônica linda de Drummond, para deleite dos leitores.
“No aeroporto”
Viajou meu amigo Pedro. Fui levá-lo ao Galeão, onde esperamos três horas o seu quadrimotor. Durante esse tempo, não faltou assunto para nos entretermos, embora não falássemos da vã e numerosa matéria atual. Sempre tivemos muito assunto, e não deixamos de explorá-lo a fundo. Embora Pedro seja extremamente parco de palavras, e, a bem dizer, não se digne de pronunciar nenhuma. Quando muito, emite sílabas; o mais é conversa de gestos e expressões pelos quais se faz entender admiravelmente. É o seu sistema.
Passou dois meses e meio em nossa casa, e foi hóspede ameno. Sorria para os moradores, com ou sem motivo plausível. Era a sua arma, não direi secreta, porque ostensiva. A vista da pessoa humana lhe dá prazer. Seu sorriso foi logo considerado sorriso especial, revelador de suas boas intenções para com o mundo ocidental e oriental, e em particular o nosso trecho de rua. Fornecedores, vizinhos e desconhecidos, gratificados com esse sorriso (encantador, apesar da falta de dentes), abonam a classificação.
Devo dizer que Pedro, como visitante, nos deu trabalho; tinha horários especiais, comidas especiais, roupas especiais, sabonetes especiais, criados especiais. Mas sua simples presença e seu sorriso compensariam providências e privilégios maiores.
Recebia tudo com naturalidade, sabendo-se merecedor das distinções, e ninguém se lembraria de achá-lo egoísta ou importuno. Suas horas de sono - e lhe apraz dormir não só à noite como principalmente de dia - eram respeitadas como ritos sagrados, a ponto de não ousarmos erguer a voz para não acordá-lo. Acordaria sorrindo, como de costume, e não se zangaria com a gente, porém nós mesmos é que não nos perdoaríamos o corte de seus sonhos.
Assim, por conta de Pedro, deixamos de ouvir muito concerto para violino e orquestra, de Bach, mas também nossos olhos e ouvidos se forraram à tortura da tevê. Andando na ponta dos pés, ou descalços, levamos tropeções no escuro, mas sendo por amor de Pedro não tinha importância.
Objetos que visse em nossa mão, requisitava-os. Gosta de óculos alheios (e não os usa), relógios de pulso, copos, xícaras e vidros em geral, artigos de escritório, botões simples ou de punho. Não é colecionador; gosta das coisas para pegá-las, mirá-las e (é seu costume ou sua mania, que se há de fazer) pô-las na boca. Quem não o conhecer dirá que é péssimo costume, porém duvido que mantenha este juízo diante de Pedro, de seu sorriso sem malícia e de suas pupilas azuis — porque me esquecia de dizer que tem olhos azuis, cor que afasta qualquer suspeita ou acusação apressada, sobre a razão íntima de seus atos.
Poderia acusá-lo de incontinência, porque não sabia distinguir entre os cômodos, e o que lhe ocorria fazer, fazia em qualquer parte? Zangar-me com ele porque destruiu a lâmpada do escritório? Não. Jamais me voltei para Pedro que ele não me sorrisse; tivesse eu um impulso de irritação, e me sentiria desarmado com a sua azul maneira de olhar-me. Eu sabia que essas coisas eram indiferentes à nossa amizade — e, até, que a nossa amizade lhe conferia caráter necessário de prova; ou gratuito, de poesia e jogo.
Viajou meu amigo Pedro. Fico refletindo na falta que faz um amigo de um ano de idade a seu companheiro já vivido e puído. De repente o aeroporto ficou vazio.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Cadeira de balanço. Reprod. Em: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1973,p.1107-1108
Como industriário, trabalhei 30 anos na Cedro (indústria têxtil centenária de Caetanópolis, MG), de onde me desliguei em 2013. Hoje, ainda atuo como professor (desde 1987) em escolas particulares e públicas.