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domingo, 27 de novembro de 2011

13 músicas caipiras muito importantes


"O Violeiro", de Almeida Júnior


Sei que compro uma briga enorme ao publicar um post com esse título e, confesso, a intenção era essa, mesmo. A polêmica leva à divulgação e à consequente valorização deste nosso tesouro cultural que é a música caipira.


De características diversificadas e origens várias, nossa música caipira tem relação direta com a própria raiz cultural do povo brasileiro. Não vou trazer aqui nenhum tratado sobre as origens da música caipira, mas algumas curiosidades que existem a respeito.


Nessa manifestação musical, há grande influência da cultura musical portuguesa, acompanhada fortemente da presença da cultura indígena, através dos urucapés, guaús, parinaterans e tocandiras, de origem guaicuru, xavante, guarani ou bororo. Segundo a história, o Padre José de Anchieta valeu-se de uma dança religiosa indígena, o caateretê, para tentar convertê-los ao Cristianismo. Teria sido ainda o Apóstolo do Brasil que introduziu esta dança nas festas das províncias da recente colônia, num hábito que até hoje persiste nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Pará e Amazonas, sob a nomenclatura de “catira”, com elementos rítmicos da viola, do sapateado e do bater de mãos. Cantado em versos, o caateretê propiciava o surgimento de cantores e trovadores populares (pode-se ver mais desse assunto no sítio MiniWeb Educação).


A viola caipira é a marca sonora registrada que acompanha essa música, e há muito o que falar a respeito dela. Não é o objetivo aqui. De Câmara Cascudo a Cornélio Pires e Inezita Barroso, muita gente importante defendeu e ainda defende essa história e de forma muito competente. O meu objetivo é mesmo dizer que há algumas músicas que julgo muito importantes e não apenas por fazerem parte de minha existência, mas por representarem algum tipo de marco da cultura caipira brasileira.


Não quero falar também dos grandes intérpretes e compositores, pois são muitos os que se destacam e requerem um post dedicado, até para ilustrar bem a qualidade de cada um. Quero mesmo, como disse, apenas falar de algumas músicas que são importantes por representar uma característica específica do gênero.


Eis portanto, sem mais demoras, minha lista (que não está em ordem de preferência):



Música Compositores Importância Detalhes
“Pingo d'água” Raul Torres e João Pacífico Linda canção dos precursores da música caipira, que relata a esperança do caboclo pela chuva redentora. Ver letra e vídeo com Tonico e Tinoco
“Menino da porteira” Teddy Vieira e Luizinho Talvez a mais conhecida música do gênero, que conta uma triste história que, inclusive, já virou filme. Ver letra e vídeo com Daniel, no filme homônimo
“Pagode em Basília” Tião Carreiro e Lourival dos Santos Outro clássico do gênero, em que a virtuose do violeiro Tião Carreiro é impressionante. Ver letra e vídeo com Tião Carreiro e Pardinho
“Canoeiro” Alocin e Zé Carreiro Outra música que valoriza também a capacidade sonora da viola nas improvisações onomatopaicas da natureza. Ver letra e vídeo com Carreiro e Carreirinho
“Ferreirinha” Carreirinho Talvez uma das primeiras canções do tipo “moda de viola” que surgiram, contando a triste história do Ferreirinha, personagem fictício de música que ganhou até estátua em homenagem. Ver letra e vídeo com Carreiro e Carreirinho
“Chalana” Mário Zan e Arlindo Pinto A bela canção que traz como destaques a paisagem pantaneira e a sanfona, outro instrumento fundamental da música caipira. Ver letra e vídeo com Almir Sáter
“Travessia do Araguaia” Décio dos Santos Uma moda de viola que relata a dureza da vida do boiadeiro e da boiada, com uma metáfora bíblica muito bonita. Ver letra e vídeo com Tião Carreiro e Pardinho
“Chitãozinho e xororó” Serrinha e Athos Campos Uma das mais conhecidas músicas caipiras, carregada do bucolismo tradicional do gênero e que deu nome a uma das mais importantes duplas sertanejas da história. Ver letra e vídeo com Zé Tupi e Zé Pires
“Amargurado” Dino Franco e Tião Carreiro Bela canção, reproduzida pelas mais belas vozes do gênero, relatando um amor não mais correspondido pela amada, mas que permanece assim mesmo. Ver letra e vídeo com Tião Carreiro e Pardinho
“Mágoa de boiadeiro” Nonô Basílio e Índio Vago Relata a decadência do boiadeiro tradicional em virtude do transporte de boiadas em veículos. Ver letra e vídeo com Pedro Bento e Zé da Estrada
“Caboclo na cidade” Dino Franco e Nhô Chico Uma moda de viola típica, relatando o contraste entre a vida urbana e a vida no campo e seus valores. Ver letra e vídeo com Dino Franco e Mouraí (espetacular acompanhamento de viola e show de vozes)
“Cabocla Teresa” Raul Torres e João Pacífico Texto que relata um assassinato por ciúme, com uma declamação inicial. Uma das músicas que faz parte do repertório da maioria dos intérpretes do gênero, com destaque para os lendários irmãos Tonico e Tinoco. Ver letra e vídeo com José Domingos e Rolando Boldrin
“Ladrão de mulher” Vieira e Vieirinha Representa a catira, com palmeado e sapateado ritmado ao som da viola, destacando a dupla Vieira e Vieirinha, conhecidos como “Reis da Catira”. Ver letra e vídeo com Guilherme e Santiago

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Mais uma vez a Somália é sinônimo de fome


Sinceramente, esse post é sobre uma reportagem que eu não gostaria de ler. Vejo mais uma vez a fome fazendo estragos na Somália. Lembro-me de um jogador que surgiu no América mineiro que ganhou esse apelido porque era um negro extremamente magro. O apelido do jogador reitera a metáfora cruel atribuída ao nome dessa sofrida nação.





Muitas vezes me deparo com o sofrimento sob várias maneiras. A fome é uma das formas mais cruéis de sofrer. E acima de tudo, a fome é inaceitável.  Não há como a humanidade padecer de fome com tanto desperdício por aí. Nada justifica. O capitalismo volta e meia dá sinais de esgotamento, pelo menos da forma como vem sendo praticado pelos governos.


A reportagem, retirada do sítio da revista Época, da editora Globo, retrata a recuperação do bebê Minhaj Gedi Farah. Sua mãe, após muitas dificuldades e sofrimento, chegou a um campo de refugiados no Quênia e sua filha Minhaj acabou sendo fotografada pelas lentes da imprensa internacional, tornando-se uma das faces da fome. Com apenas sete meses de vida, Minhaj tinha apenas 3,2 quilos.


A reportagem traz as fotos da evolução da criança após três meses, graças à ajuda humanitária. A maior vitória da guerreira Minhaj foi a da simples sobrevivência.  Embora os campos de refugiados mantidos pela ONU e por diversas ONGs tenham ajudado, eles não representam a solução. O ideal é dar condições aos povos menos favorecidos do mundo de encontrarem condições de se manterem por si mesmos. É uma questão de dignidade.


Entretanto, não há dúvidas de que esse tipo de ajuda é fundamental. A fome não espera... Ela dói... Ela mata...



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“A fome”


A Fome mostra às vezes seu rosto esquelético
Tal qual a Morte, sua irmã...
Ninguém pode ignorá-la
Quando ela transpassa-nos com sua lança de dor
Lancinante...
Por que é tão cruel a Fome?
Não tem piedade de ninguém...
Mas ela se supera ao atacar as crianças
Sugando-lhes, secando suas entranhas inexoravelmente...


Vejo sua cara terrível
Estampada nas capas de jornais e revistas
Mas também num simples passeio pelas ruas
De muitos lugares deste país...
Pergunto-me o que mais pode ser feito
Além da simples distribuição de bolsas...


A Fome e seu rosto esquelético
Perseguem-me em meus pesadelos
Assombram-me o olhar
Fazem-me lembrar do menino magrelo de outrora
Que nunca passou fome, entretanto...
Esse menino ainda existe aqui dentro
E se irmana com os que sofrem a dor
De não ter o que comer.



 Fontes das imagens: Coletadas da Web e editadas por Ernane Duarte Nunes

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Um menino em São Vicente

 

Quando era menino, ansiava pelas férias em São Vicente. Era um tempo de aventuras e sonhos, muitos sonhos... Fui com meus pais aos 4 anos para Caetanópolis, terra maravilhosa, mas nunca me esqueci de São Vicente, exatamente por que lá eu podia fazer muitas coisas totalmente inadmissíveis na casa de meus pais.

A começar da viagem em si. Tirando o fato de um rapaz magrelo e fracote como eu ter de caminhar com a mala pesada do centro de Sete Lagoas, no início da Monsenhor Messias (onde o ônibus do Cedro a Sete Lagoas tinha ponto final) até a estação ferroviária (onde era o ponto do ônibus que levava a São Vicente), tudo era bom. Íamos normalmente em ônibus do tipo monobloco, com motor na frente, ao lado do motorista. Esse motor era coberto por uma estrutura onde nos sentávamos e tínhamos visão total da paisagem de estrada de terra encascalhada, margeada por fazendas e lagoas. Mas o lugar mais esperado da paisagem era a ponte sobre o Rio das Velhas, impressionantemente estreita sobre um rio de águas pesadamente barrentas que, por várias vezes, em períodos chuvosos cobriam-na (até que um dia essas águas levaram a ponte embora). Era como se estivéssemos andando numa corda bamba sobre um precipício.

A parada em Funilândia ou Jequitibá, dependendo do trajeto do ônibus em que viajávamos, era sempre interessante. Além da tradicional ida ao banheiro, havia um lanche de requeijão, de biscoito do tipo “boca de velho”, de polvilho ou daqueles antigos “quebra-quebra” com um café tão gostoso!... Outra parada que havia (quando íamos por Jequitibá) era em Baldim, na lanchonete do meu padrinho Domingos Barbosa. Aí era quando meus irmãos morriam de inveja, pois era só descer e dizer para ele “bença, padrim!”, que eu ganhava um doce e, de vez em quando, até um chocolate Diamante Negro ou Sonho de Valsa. Claro que eu tinha que dividir com meus irmãos (cada um dava uma mordidinha, controlada e medida com o dedo).

Chegando em São Vicente, já sabíamos para a casa de qual tio cada um iria, considerando que não iríamos todos para a casa de um só, pois eram pobres, com famílias numerosas e muitas bocas iriam onerar o orçamento, até porque ficávamos sempre no mínimo uma semana. Mas não importava para onde iríamos: seríamos sempre bem recebidos, com aquele amor e carinho que sempre marcaram nossas vidas indelevelmente.

Meu tio Divino e minha tia Cecília, que saudades deles! Brincávamos com o primo Desinho e ouvíamos as histórias maravilhosas e cheia de mentiras do meu tio Divino, irmão caçula do meu pai Tião que fazia aniversário no mesmo dia que ele (24 de fevereiro). Esse meu tio, mesmo com dificuldades para caminhar que acabaram o tornando definitivamente paralítico, era dono de habilidades fantásticas com as quais criou seus filhos e lhes ensinou diversas profissões: de artesão de couro, passando por serralheiro e também por pedreiro. Infelizmente, não conseguia largar o cigarro, o que seria um dos responsáveis por tirá-lo de nós.

Minhas tias Té (Esther) e Dorvalina, severas como meu pai (irmão delas), mas com corações tão cheios de um carinho que transbordava e nos inundava. O chafariz, os quitutes deliciosos de tia Té, doces, cubus, bolos, biscoitos e a comida simplesmente inesquecível. Os picolés quadrados de formas de geladeira de Chica de Zezé Gonçalves que pagavam para nós com suas moedinhas sempre disponíveis. A habilidade de minha tia Dorvalina nos tricôs e seu olhar sereno, mesmo diante da dificuldade de ser paralítica, como meu tio Divino.

Na casa de tio Irênio (que não conheci, pois a morte o levou antes) tínhamos (e ainda temos, graças a Deus) a nossa queridíssima tia Divina, uma pessoa espetacular de quem nunca me esqueço em minhas orações. Mulher lutadora, que, mesmo perdendo o marido muito cedo, criou todos os seus filhos com muito amor e nos reservava o mesmo carinho. Sua casa fica na Copacabana, bairro que está entre dois córregos onde nadávamos e pescávamos.

Como é bom lembrar agora de meus primos todos, especialmente os de idade próxima a minha, como Zelito (que saudades! Deus o levou tão cedo...), o Vandinho, o Derson, o Desinho, o Luisinho Castelo Branco, o Willian Macaco... E os amigos do peito Nélson de Sô Dino, Paraná, Julinho Brioso e tantos outros. Jogávamos futebol nos campinhos diversos que havia por lá e ficávamos invariavelmente cheios de carrapatos, que tirávamos nadando nos córregos (que diziam infestados de xistose, embora nunca ficamos doentes disso nem vimos nenhum dos nossos amigos). As pescarias também eram memoráveis... Sempre voltávamos com o cambão repleto de piabinhas, carás e as deliciosas traíras. Caçar passarinho também era bom (embora hoje me lembre um pouco arrependido disso), pois as rolinhas que matávamos viravam saborosos petiscos preparados por minhas tias ou pelas mães de meus amigos.

Tenho tantas histórias das férias de minha infância em São Vicente, que esse post é insuficiente para relatar. No entanto, ele serve para relatar minha saudade de tudo isso. Hoje vou tão pouco a São Vicente, atropelado pelo tempo inexorável, que nos absorve e que nos aliena. É preciso vencer essa lassidez que nos leva à acomodação no lugar comum da falta de tempo para tudo. Vou tentar isso, pois tenho consciência de que, se sou o homem que sou, devo muito a esse menino magrelo que passava férias em São Vicente.

domingo, 24 de julho de 2011

Crônicas de viagem I - Valores



Entro no ônibus com um bom dia tímido e não correspondido. Faço-o por educação e por formalidade. Busco um lugar para sentar, de preferência que não tenha um outro passageiro. Encontro um nas últimas poltronas do fundo. Sento-me e fico calado, pedindo a Deus uma viagem segura.

Após alguns meses, surpreendo-me agora como mudei. Isolo-me em minha viagem como aqueles que um dia critiquei. Sei que isso não condiz comigo e, às vezes, volto ao que sou quando encontro alguém que me permita isso. As crianças e os idoso são meu alvo predileto de interlocução.

Sei que não é fácil vencer os desafios do mundo moderno, mas percebo que nos sujeitamos com muita facilidade ao status quo e acabamos nos tornando insípidos. Não percebemos mais os sabores do viver.

E pior: educamos nossos filhos assim, para serem os melhores (ou melhores que os outros), desenvolvendo-lhes o egocentrismo. Ensinamos-lhes o valor do trabalho, para que ganhem muito dinheiro e sejam felizes sozinhos. Lembro-me de uma tirinha do cartunista argentino Quino que traduz muito bem isso. Meu amigo Coqueiro postou-a outro dia. Reproduzo-a abaixo:
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Saio do ônibus rapidamente, na frente de todos os demais. Sigo caminhando sozinho para o trabalho. Um outro colega vem logo atrás de mim, mas não o espero. Tenho pressa de chegar ao trabalho, sentar-me à mesa e isolar-me ainda mais. Mas intimamente coloco-me que jamais devo esquecer meus valores.


quinta-feira, 2 de junho de 2011

Um soco no estômago


Publiquei ontem esse post em "Os Invicioneiros" e resolvi também fazê-lo neste meu "Poetopias", pela importância que dou ao tema. Baseia-se no poema "Lua nova demais", de Elisa Lucinda. Recebi esse poema do meu amigo Basílio Nascimento. Foi como se levasse um soco no estômago. A dureza de suas palavras trata o tema da criança abandonada de forma dura, mas realista. Não há como não reagir.

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Nesse breve post, não tenho muito o que dizer além de compartilhar. Agora frequentando uma cidade grande como Sete Lagoas, onde a miséria humana se mostra mais evidente, vejo problemas semelhantes aos que o poema relata.


A autora, Elisa Lucinda, nasceu em Vitória, no Espírito Santo, além de grande poetisa, é escritora, jornalista e atriz. Possui muitas lindas poesias disponíveis na internet para quem quiser apreciar, mas uma, particularmente, ficou muito conhecida por ter sido recitada em show de Ana Carolina: “Só de sacanagem”. Ela pode ser conferida na voz da própria Elisa Lucinda no programa do Jô Soares.


Mas o que me trouxe hoje de volta ao “Poetopias” é o poema “Lua nova demais”, que transcrevo a seguir.
Lua nova demais
(Elisa Lucinda)
Dorme tensa a pequena
sozinha como que suspensa no céu
Vira mulher sem saber
sem brinco, sem pulseira, sem anel
sem espelho, sem conselho, laço de cabelo, bambolê
Sem mãe perto,
sem pai certo
sem cama certa,image
sem coberta,
vira mulher com medo,
vira mulher sempre cedo.
Menina de enredo triste,
dedo em riste,
contra o que não sabe
quanto ao que ninguém lhe disse.
A malandragem, a molequice
se misturam aos peitinhos novos
furando a roupa de garoto que lhe dão
dentro da qual menstruará
sempre com a mesma calcinha,
sem absorvente, sem escova de dente,
sem pano quente, sem O B.
Tudo é nojo, medo,
misturação de “cadês.”
E a cólica,
a dor de cabeça,
é sempre a mesma merda,
a mesma dor,
de não ter colo,
parque
pracinha,
penteadeira,
pátria.
Ela lua pequenininha
não tem batom, planeta, caneta,
diário, hemisfério,
Sem entender seu mistério,
ela luta até dormir
mas é menina ainda;
chupa o dedo
E tem medo
de ser estuprada
pelos bêbados mendigos do Aterro
tem medo de ser machucada, medo.
Depois menstrua e muda de medo
o de ser engravidada, emprenhada,
na noite do mesmo Aterro.
Tem medo do pai desse filho ser preso,
tem medo, medo
Ela que nunca pode ser ela direito,
ela que nem ensaiou o jeito com a boneca
vai ter que ser mãe depressa na calçada
ter filho sem pensar, ter filho por azar
ser mãe e vítima
Ter filho pra doer,
pra bater,
pra abandonar.
Se dorme, dorme nada,
é o corpo que se larga, que se rende
ao cansaço da fome, da miséria,
da mágoa deslavada
dorme de boca fechada,
olhos abertos,
vagina trancada.
Ser ela assim na rua
é estar sempre por ser atropelada
pelo pau sem dono
dos outros meninos-homens sofridos,
do louco varrido,
pela polícia mascarada.
Fosse ela cuidada,
tivesse abrigo onde dormir,
caminho onde ir,
roupa lavada, escola, manicure, máquina de costura, bordado,
pintura, teatro, abraço, casaco de lã
podia borralheira
acordar um dia
cidadã.
Sonha quem cante pra ela:
“Se essa Lua, Se essa Lua fosse minha…”
Sonha em ser amada,
ter Natal, filhos felizes,
marido, vestido,
pagode sábado no quintal.
Sonha e acorda mal
porque menina na rua,
é muito nova
é lua pequena demais
é ser só cratera, só buracos,
sem pele, desprotegida, destratada
pela vida crua
É estar sozinha, cheia de perguntas
sem resposta
sempre exposta, pobre lua
É ser menina-mulher com frio
mas sempre nua.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sobre a gramática





Recentemente postei em “Os Invicioneiros” texto que comentava sobre polêmica surgida acerca do livro “Por uma vida melhor”, de Heloísa Ramos. Não vou me aprofundar sobre o post, mas fiquei surpreso pelos comentários e, sobretudo, pela polêmica em si nas redes sociais de um modo geral.

Trata-se de um tema árduo. Escrevo aqui neste meu Poetopias a respeito desse tema, sem, no entanto, querer discuti-lo. Antes quero ironizá-lo. Para tanto, valho-me de brilhantes companhias que ora convoco para ajudar-me: Paulo Leminski, Carlos Drummond de Andrade, Camões e Oswald de Andrade.

Não tecerei maiores comentários. Meus amigos falam o suficiente.


O Assassino era o Escriba


Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético
de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

Fontes: Paulo Leminski.Caprichos e relaxos.São Paulo: Brasiliense,1983.





 Aula de português


A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.

Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond






Erro de português


Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena! Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português





Pronominais
(Oswald de Andrade)


Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro



domingo, 8 de maio de 2011

O Teatro Mágico

Ganhei da amiga Adriana, Secretária Municipal de Cultura, um excelente material referente ao grupo O Teatro Mágico. Fiquei muitíssimo impressionado com a qualidade e originalidade desses artistas e não poderia deixar de divulgá-los neste espaço.

Fernando Anitelli, 35 anos, ator, músico e compositor, é o responsável pela criação do projeto “O Teatro Mágico”. Nascido em Presidente Prudente e criado na cidade de Osasco, São Paulo, Anitelli “brinca” com arranjos e melodias desde os 13 anos, “Quando vi que rimar amor com humor funcionava, não só na estética e na melodia, mas no sentido que aquilo tinha pra mim, nunca mais parei de fazer música”, revela.

As primeiras vitórias vieram logo cedo com prêmios em vários festivais dos quais participou com suas canções. A entrada na Faculdade de Comunicação Social lhe garantiu não só um diploma, mas também a formação da banda Madalena 19, que permitiu seu amadurecimento como músico. Foram quase dez anos de ensaios e apresentações de pequeno porte.

De lá para cá, Anitelli acumulou ainda a experiência como ator, trabalhando com diretores como Oswaldo Montenegro, Ismael Araújo e Caio Andrade, entre outros, que lhe deram as noções básicas de expressão corporal, domínio de palco e outros elementos vindos da escola do teatro, indispensáveis em seus shows.

Em 2003, Anitelli gravou seu primeiro CD. O álbum recebeu o sugestivo título “O Teatro Mágico: Entrada para Raros”, numa referência ao best-seller “O Lobo da Estepe”, do escritor alemão Hermann Hesse. “Quando eu li sobre o Teatro Mágico do Hesse, percebi que era justamente aquilo que eu gostaria de montar: um espetáculo que juntasse tudo numa coisa só, malabaristas, atores, cantores, poetas, palhaços, bailarinas e tudo mais que a minha imaginação pudesse criar. O Teatro Mágico é um lugar onde tudo é possível.”, conta.

Em cena, Anitelli revela uma expressão cênica incrível seja declamando versos, cantando ou fazendo performances. “Quando estou no palco, faço questão de frisar que aquele ali sou eu, não é um palhaço ou outro personagem qualquer”. O Teatro Mágico torna possível que cada um se mostre como é, que cada verdade interna seja revelada. Essa é a grande brincadeira, “ser o que se é, afinal todos somos raros e temos que ter consciência disso” , destaca. E assim, Anitelli vai traçando um paralelo entre o real e o imaginário enquanto o público, aos poucos, vai entrando na mesma freqüência sinestésica marcada pelo ritmo do espetáculo. No final, palco e platéia se fundem e cada um dos presentes vai descobrindo a delícia de se permitir ser um pouco mais de si mesmo.

Sugiro aos amigos leitores que conheçam mais desse grupo sensacional, visitando seu sítio. Lá estão letras de músicas, agenda e mais informações sobre essa turma fantástica. Quem sabe não poderemos assistir a seu espetáculo ao vivo no Festival Clara Nunes…

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