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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Expressão maior dos sentimentos


Nesse momento, quero falar do que me motivou inicialmente a revelar-me no espaço virtual: a poesia. Promovemos nestes dias um recital de poesias na escola onde leciono. Trata-se de um evento maiúsculo para mim, por tudo que representa. É a oportunidade de revelarmos talentos escondidos, seja para escrever poesias, seja para representá-las. É a oportunidade de também possibilitarmos aos alunos o desenvolvimento da expressão oral e corporal. E o recital de poesias também permite apresentar de uma maneira mais atraente os grandes nomes da poesia em língua portuguesa.

Sempre coloquei a poesia como a expressão maior dos sentimentos humanos através de palavras. E, nesse breve post, reitero esse meu julgamento, com algumas poesias dos meus prediletos, que meus alunos estarão apresentando na final do nosso recital, prevista para o dia 07/10/2010 (no meio delas, uma mais indigna deste que lhes fala).



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A UM AUSENTE


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.


Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?


Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.


Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste



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TRADUZIR-SE


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.


Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.


Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.


Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.


Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.


Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.


Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?




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QUITANDEIRA
(Agostinho Neto, poeta angolano)


A quitanda.
         Muito sol
e a quitandeira à sombra
da mulemba.


— Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!


A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.


A quitandeira
que vende fruta
vende-se.


— Minha senhora
laranja, laranjinha boa!


Compra laranja doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.


Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.


Laranja, minha senhora!


Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.


E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.


Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.


Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.


Agora vendo-me eu própria.
— Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
— sangue.


Talvez vendendo-me
eu me possua.


— Compra laranjas!




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LÁ NO ÁGUA GRANDE
(Alda Espírito Santo, poetisa de São Tomé e Príncipe)


Lá no “Água Grande” a caminho da roça
negritas batem que batem co'a roupa na pedra.
Batem e cantam modinhas da terra.


Cantam e riem em riso de mofa
histórias contadas, arrastadas pelo vento.


Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.


As crianças brincam e a água canta.
Brincam na água felizes...
Velam no capim um negrito pequenino.


E os gemidos cantados das negritas lá do rio
ficam mudos lá na hora do regresso...
Jazem quedos no regresso para a roça.

                   (É nosso o solo sagrado da terra)

No mesmo lado da canoa
As palavras do nosso dia
são palavras simples
claras como a água do regato,
jorrando das encostas ferruginosas
na manhã clara do dia-a-dia.


É assim que eu te falo,
meu irmão contratado numa roça de café
meu irmão que deixas teu sangue numa ponte
ou navegas no mar, num pedaço de ti mesmo em luta com o gandu (1)
Minha irmã, lavando, lavando
p'lo pão dos seus filhos,
minha irmã vendendo caroço
na loja mais próxima
p'lo luto dos seus mortos,
minha irmã conformada
vendendo-se por uma vida mais serena,
aumentando afinal as suas penas...
É para vós, irmãos, companheiros da estrada
o meu grito de esperança
convosco eu me sinto dançando
nas noites de tuna
em qualquer fundão, onde a gente se junta,
convosco, irmãos, na safra do cacau,
convosco ainda na feira,
onde o izaquente (2) e a galinha vão render dinheiro.
Convosco, impelindo a canoa p'la praia
juntando-me convosco
em redor do voador panhá (3)
juntando-me na gamela
vadô tlebessá4
a dez tostões.


Mas as nossas mãos milenárias
separam-se na areia imensa
desta praia de S. João
porque eu sei, irmão meu, tisnado como eu p'la vida,
tu pensas irmão da canoa
que nós os dois, carne da mesma carne
batidos p'los vendavais do tornado
não estamos do mesmo lado da canoa.


Escureceu de repente.
Lá longe no outro lado da Praia
na ponta de S. Marçal
há luzes, muitas luzes
nos quixipás (5) sombrios...
O pito dóxi (6) arrepiante, em sinais misteriosos
convida à unção desta noite feiticeira...
Aqui só os iniciados
no ritmo frenético dum batuque de encomendação
aqui os irmão do Santu
requebrando loucamente suas cadeiras
soltando gritos desgarrados,
palavras, gestos,
na loucura dum rito secular.


Neste lado da canoa, eu também estou irmão,
na tua voz agonizante, encomendando preces, juras, maldições.


Estou aqui, sim, irmão
nos nozados (7) sem tréguas
onde a gente joga
a vida dos nossos filhos.
Estou aqui, sim, meu irmão
no mesmo lado da canoa.


Mas nós queremos ainda uma coisa mais bela.
Queremos unir as nossas mãos milenárias,
das docas dos guindastes
das roças, das praias
numa liga grande, comprida
dum pólo a outro da terra
p'los sonhos dos nossos filhos
para nos situarmos todos do mesmo lado da canoa.


E a tarde desce...
A canoa desliza serena,
rumo à Praia Maravilhosa
onde se juntam os nossos braços
e nos sentamos todos, lado a lado,
na canoa das nossas praias.

                   (É nosso o solo sagrado da terra)


Vocabulário:
1 - Gandu: tubarão;
2 - Izaquente: frutos cujas sementes são caracterizadas por um alto poder energético;
3 - Vadô Panhá: espécie de peixe voador que no tempo seco se apanha na praia;
4 - Vadô tlebessá: peixe voador que se distingue do vadô panhá por apenas se pescar em alto mar;
5 - Quixipás: barracas feitas com folhas de palmeira;
6 - Pitu dóxi: “apito doce”, literalmente. Flautista virtuoso;
7 - Nozado: velório.




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LISBON REVISITED (1923)
(Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa)


NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.


Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.


Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!


Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!


Que mal fiz eu aos deuses todos?


Se têm a verdade, guardem-na!


Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?


Não me macem, por amor de Deus!


Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?


Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.  Quero ser sozinho. 
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!


Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita! 
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.


Deixem-me em paz!  Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!




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DEDICATÓRIA


A pomba d'aliança o vôo espraia
Na superfície azul do mar imenso,
Rente... rente da espuma já desmaia
Medindo a curva do horizonte extenso...
Mas um disco se avista ao longe... A praia
Rasga nitente o nevoeiro denso!...
Ó pouso! ó monte! ó ramo de oliveira!
Ninho amigo da pomba forasteira! ...


Assim, meu pobre livro as asas larga
Neste oceano sem fim, sombrio, eterno...
O mar atira-lhe a saliva amarga,
O céu lhe atira o temporal de inverno. . .
O triste verga à tão pesada carga!
Quem abre ao triste um coração paterno?...
É tão bom ter por árvore — uns carinhos!
É tão bom de uns afetos — fazer ninhos!


Pobre órfão! Vagando nos espaços
Embalde às solidões mandas um grito!
Que importa? De uma cruz ao longe os braços
Vejo abrirem-se ao mísero precito...
Os túmulos dos teus dão-te regaços!
Ama-te a sombra do salgueiro aflito...
Vai, pois, meu livro! e como louro agreste
Traz-me no bico um ramo de... cipreste!



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QUANDO A POESIA SE FORMA
(Enanre Etraud)


Quando a poesia se forma
Perco-me em devaneios loucos
Não sei mais quem sou
Não sei onde estou
Nem para onde vou...


As palavras envolvem-me como bolhas
E transportam-me até lugares incríveis
Em que sonho e realidade se confundem
E todas as coisas são possíveis...


Viajo então levado pelo vento
No veleiro veloz de meu pensamento
Vendo ao longe o horizonte próximo
E ao mesmo tempo inalcançável...
Pois o horizonte do poema é vasto,
Seus limites são intransponíveis...
No entanto, suas verdades se expandem
E trazem em si a fantasia —
Quando se forma a poesia...



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Detenho-me aqui, pois há muitos poemas mais e o espaço e paciência dos leitores podem não suportar.




domingo, 29 de agosto de 2010

Na cova dos leões

As palavras sempre me sinalizaram a liberdade. Dedico esse post a uma pessoa muito querida. Vai lê-lo e saberá por que o fiz. Às vezes a vida nos prega peças. Às vezes nos deixamos pegar. Procuramos os problemas. Entramos na cova dos leões, não obstante os perigos.



De uma maneira ou de outra, a vida é cheia de perigos. Cabe-nos evitá-los. Alguns riscos são inevitáveis. Ferimo-nos e precisamos nos curar dos machucados.



Escrevo com frases curtas. Mas minha inspiração é curta, muito menor que a emoção que me invade agora. Nas minhas orações e nas de meus filhos e esposa sempre estão presentes todos aqueles que amo e todos os que precisam. Peço ao Senhor por eles e agradeço por mim, por nós.



Uma cena de 1991 volta-me à lembrança enquanto leio um velho caderno de poemas. Um dos cadernos verdes, aquele do dicionário louco de verbetes solitários. Muito legal!...



Um menino e seu caminhão brincam no piso encerado de tacos da sala da casa. Observo-o com um sorriso. Um menino e seu caminhão brincam. O brinquedo parece divertir-se de fato, como a criança. Uma simbiose interessante de coisa e pessoa, de pessoa e coisa. A felicidade é um amálgama...



Transcrevo o poema tal como foi feito. Omito o nome da criança. Mas não escondo nada. Estou muito feliz hoje e grato a Deus por tudo.

 truck











“D. e seu caminhão”








D. brinca com seu caminhão
concentrado e seu mundo feliz
D. brinca com seu caminhão
onomatopeias várias fazem o mundo
de D. e seu caminhão...



De repente vem a noite...
Mas os olhos de D. brilham
no escuro da noite
D. e seu caminhão
não temem a escuridão...



D. brinca e seu caminhão
onomatopeia na escuridão
Vrruumm!... Vrruumm!... Fffiiiuuu!...
Não temem nada, querem a emoção
Este afã de ser feliz
Sem se preocuparem com o que se diz
De ele ser apenas uma criança
D. entretanto sabe muito bem como
nos ensinar a grande lição da esperança...



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pai e filho

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Deleitura

Resolvo agora retomar o blog Poetopias em um momento de fé e poesia, pensando em livro do poeta cearense Horário Dídimo que encantou-me no passado, sobretudo pela simplicidade dos versos.

Horácio Dídimo Ferreira Barbosa Vieira é professor aposentado do Departamento de Literatura da Universidade Federal do Ceará, formado em Direito na UERJ e em Letras na UFC, mestre em Literatura Brasileira pela UFPB e doutor em Literatura Comparada pela UFMG. Membro da Academia Cearense de Letras é autor de muitas obras de poesia, ensaios e de literatura infantil.



Reproduzo abaixo alguns poeminhas dele para "deleitura":




a palavra chave

a palavra chave
já não fecha
nem abre

a palavra amor
muda de cor

a palavra verde
amadurece

a palavra ave
voa no papel



a solução

daqui a cem anos

todos os nossos problemas
nos terão resolvido



As casas

após longa espera
nada aconteceu
as casas continuaram baixas
tão baixas
que muitos de seus habitantes rastejavam
enquanto outros desistiam de antigas reivindicações



As doces meninas de outrora

as doces meninas de outrora
amanheceram
vestiram os vestidos novos
pintaram as unhas de vermelho
por um instante resplandeceram
depois baixaram as cabecinhas louras
e envelheceram como as flores



Triste

triste não é saber que não há
nem que não haverá
triste é saber que nunca houve
e que agora para todo o nunca
choraremos


isso

não sei o que quero
dizer com isso

mas sei que isso
é o que eu quero dizer


identidade

um dia
com a ajuda de Deus
não haverá mais diferença
entre mim e eu





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Horácio Dídimo escreve com fé. Muitas vezes associa seus versos a trechos bíblicos e o faz de maneira aleatória, porém competente e pertinente.  Penso em versos que o Enanre Etraud poderia escrever para temos como o que ele aborda e o máximo que consigo são três quadrinhas. Reproduzo-a e finalizo o post:


Enquanto passam os anos de luta
Percebo que ainda busco uma luz
Que encerre em mim a auto-disputa
Pelo que não entendo sobre Jesus


Por que Ele se doou tanto por nós?
A dúvida lateja bem dentro de mim...
Ouço então o sussurro de uma voz
Dizer que esse era mesmo o seu fim.


Ser para todos de esperança um sinal
Sustentada na doação incondicional
Procuremos seguir este modelo bonito
Que nos foi legado por Jesus Cristo...




sexta-feira, 25 de junho de 2010

Fragmentos de uma pessoa


Sou um admirador da obra de Fernando Pessoa desde que com ela tomei contato aos 13 anos, conduzido pelas mãos de meu Mestre Ilacir. Comprei sua obra completa com minhas primeiras economias, enquanto colegas contemporâneos compravam Walkman ou Atari. E sua obra completa custou-me mais caro. Não me arrependo, pois tem sido minha companheira ao longo dos anos.

Transcrevo a seguir minha adaptação breve de sua biografia, retirada do sítio lusitano “As Tormentas”:





Escritor português, nasceu a 13 de Junho, numa casa do Largo de São Carlos, em Lisboa. Aos cinco anos morreu-lhe o pai, vitimado pela tuberculose, e, no ano seguinte, o irmão, Jorge. Devido ao segundo casamento da mãe, em 1896, com o cônsul português em Durban, na África do Sul, viveu nesse país entre 1895 e 1905, aí seguindo, no Liceu de Durban, os estudos secundários.

Frequentou, durante um ano, uma escola comercial e a Durban High School e concluiu, ainda, o «Intermediate Examination in Arts», na Universidade do Cabo (onde obteve o «Queen Victoria Memorial Prize», pelo melhor ensaio de estilo inglês), com que terminou os seus estudos na África do Sul. No tempo em que viveu neste país, passou um ano de férias (entre 1901 e 1902), em Portugal, tendo residido em Lisboa e viajado para Tavira, para contactar com a família paterna, e para a Ilha Terceira, onde vivia a família materna. Já nesse tempo redigiu, sozinho, vários jornais, assinados com diferentes nomes.

Em 1920, ano em que a mãe, viúva, regressou a Portugal com os irmãos e em que Fernando Pessoa foi viver de novo com a família, iniciou uma relação sentimental com Ophélia Queiroz (interrompida nesse mesmo ano e retomada, para rápida e definitivamente terminar, em 1929) testemunhada pelas Cartas de Amor de Pessoa, organizadas e anotadas por David Mourão-Ferreira, e editadas em 1978. Em 1925, ocorreria a morte da mãe. Fernando Pessoa viria a morrer uma década depois, a 30 de Novembro de 1935 no Hospital de S. Luís dos Franceses, onde foi internado com uma cólica hepática, causada provavelmente pelo consumo excessivo de álcool.

Levando uma vida relativamente apagada, movimentando-se num círculo restrito de amigos que frequentavam as tertúlias intelectuais dos cafés da capital, envolveu-se nas discussões literárias e até políticas da época. Colaborou na revista “A Águia”, da Renascença Portuguesa, com artigos de crítica literária sobre a nova poesia portuguesa, imbuídos de um sebastianismo animado pela crença no surgimento de um grande poeta nacional, o «super-Camões» (ele próprio?). Data de 1914 o aparecimento dos seus três principais heterónimos, segundo indicação do próprio Fernando Pessoa, em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, sobre a origem destes.

Em 1915, com Mário de Sá-Carneiro (seu dilecto amigo, com o qual trocou intensa correspondência e cujas crises acompanhou de perto), Luís de Montalvor e outros poetas e artistas plásticos com os quais formou o grupo «Orpheu», lançou a revista “Orpheu”, marco do modernismo português, onde publicou, no primeiro número, “Opiário” e “Ode Triunfal”, de Campos, e “O Marinheiro”, de Pessoa ortónimo, e, no segundo, “Chuva Oblíqua”, de Fernando Pessoa ortónimo, e a “Ode Marítima”, de Campos. Publicou, ainda em vida, “Antinous” (1918), “35 Sonnets” (1918), e três séries de “English Poems” (publicados, em 1921, na editora Olisipo, fundada por si). Em 1934, concorreu com “Mensagem” a um prémio da Secretaria de Propaganda Nacional, que conquistou na categoria B, devido à reduzida extensão do livro. Colaborou ainda nas revistas “Exílio” (1916), “Portugal Futurista” (1917), “Contemporânea” (1922-1926, de que foi co-director e onde publicou “O Banqueiro Anarquista”, conto de raciocínio e dedução, e o conhecidíssimo e belo poema “Mar Português”), “Athena” (1924-1925, igualmente como co-director e onde foram publicadas algumas odes de Ricardo Reis e excertos de poemas de Alberto Caeiro) e “Presença”.

A sua obra, que permaneceu maioritariamente inédita, foi difundida e valorizada pelo grupo da revista “Presença”. A partir de 1943, Luís de Montalvor deu início à edição das obras completas de Fernando Pessoa, abrangendo os textos em poesia dos heterónimos e de Pessoa ortónimo. Foram ainda sucessivamente editados escritos seus sobre temas de doutrina e crítica literárias, filosofia, política e páginas íntimas. Do seu vasto espólio foram também retirados o “Livro do Desassossego” por Bernardo Soares e uma série de outros textos.

A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão puramente literária, tem atraído as atenções gerais. Concebidos como individualidades distintas da do autor, este criou-lhes uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram-se ligados a alguns dos problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer um dos seus heterónimos na existência literária do poeta. Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua emotividade através da linguagem. Enveredando por vários fingimentos, que aprofundam uma teia de polémicas entre si, opondo-se e completando-se, os heterónimos são a mentalização de certas emoções e perspectivas, a sua representação irónica pela inteligência. Deles se destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

Segundo a carta de Fernando Pessoa sobre a génese dos seus heterónimos, Caeiro (1885-1915) é o Mestre, inclusive do próprio Pessoa ortónimo. Nasceu em Lisboa e aí morreu, tuberculoso, em 1915, embora a maior parte da sua vida tenha decorrido numa quinta no Ribatejo, onde foram escritos quase todos os seus poemas, os do livro O Guardador de Rebanhos, os de O Pastor Amoroso e os Poemas Inconjuntos, sendo os do último período da sua vida escritos em Lisboa, quando se encontrava já gravemente doente (daí, segundo Pessoa, a «novidade um pouco estranha ao carácter geral da obra»). Sem profissão e pouco instruído (teria apenas a instrução primária), e, por isso, «escrevendo mal o português», órfão desde muito cedo, vivia de pequenos rendimentos, com uma tia-avó. Caeiro era, segundo ele próprio, «o único poeta da natureza», procurando viver a exterioridade das sensações e recusando a metafísica, caracterizando-se pelo seu panteísmo e sensacionismo que, de modo diferente, Álvaro de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar.

Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi educado num colégio de jesuítas, recebeu uma educação clássica (latina) e estudou, por vontade própria, o helenismo (sendo Horácio o seu modelo literário). Essa formação clássica reflecte-se, quer a nível formal (odes à maneira clássica), quer a nível dos temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que Pessoa considerava exagerado. Médico, não exercia, no entanto, a profissão. De convicções monárquicas, emigrou para o Brasil após a implantação da República.


13 de junho de 1888 - Nasce em Lisboa, às 3 horas da tarde, Fernando Antônio Nogueira Pessoa.
1896 - Parte para Durban, na África do Sul.
1905 - Regressa a Lisboa
1906 - Matricula-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa
1907 - Abandona o curso.
1914 - Surge o mestre Alberto Caeiro. Fernando Pessoa passa a escrever poemas dos três heterônimos.
1915 - Primeiro número da Revista "Orfeu". Pessoa "mata" Alberto Caeiro.
1916 - Seu amigo Mário de Sá-Carneiro suicida-se.
1924 - Surge a Revista "Atena", dirigida por Fernando Pessoa e Ruy Vaz.
1926 - Fernando Pessoa requere patente de invenção de um Anuário Indicador Sintético, por Nomes e Outras Classificações, Consultável em Qualquer Língua. Dirige, com seu cunhado, a Revista de Comércio e Contabilidade.
1927 - Passa a colaborar com a Revista "Presença".
1934 - Aparece "Mensagem", seu único livro publicado.
30 de novembro de 1935 - Morre em Lisboa, aos 47 anos.


A biografia de “As Tormentas aborda muito pouco um outro heterônimo, do qual gosto muito, que é o Bernardo Soares. Ele é um heterônimo particular do poeta. Autor do “Livro do Desassossego”, uma obra feita de fragmentos que, não obstante, é tida como uma das obras fundamentais da ficção portuguesa no século XX, segundo a Wikipedia, “(…) ao encenar na linguagem categorias várias que vão desde o pragmatismo da condição humana até o absurdo da própria literatura.(...)”

Bernardo Soares é, nessa obra, um mero ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Para a crítica, Bernardo Soares seria, na verdade, um “semi-heterônimo”, pois, como o próprio Fernando Pessoa colocou: “não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade.”

Trago a seguir um fragmento do “Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa, em texto do seu heterônimo Bernardo Soares, mostrando-me uma angústia que já compartilhei:


(Fragmentos)
88.


“Quando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de carinho - com vontade de lhes dar beijos - os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases - fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste!...

Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. De meu pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá ideia de nada. Ás vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma idéia dele a que possa amar...Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez seja nunca esse o pai da minha alma...

Quando acabará isso tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para a sua casa e me desse calor e afeição...Ás vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar...Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio...Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum...E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis par seu filho adoptivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de brinquedos.

Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, ó Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci...Torna a dar-me, ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que eu dormia...”