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quarta-feira, 6 de abril de 2011

“Lições de Vida”


Escrevo esse post como uma homenagem a meu pai. A saudade dele, de minha mãe e de todos que se foram às vezes aperta o peito. É mais uma biografia. Quando o nome de meu pai foi virar nome de rua em Caetanópolis, a Câmara de Vereadores pediu que escrevesse uma breve história da vida dele. Não foi possível fazê-la breve, pois a vida de meu pai foi muito intensa para ser resumida a poucas palavras.

 

“Lições de Vida”


            A vida de Sebastião Duarte Nunes, também conhecido como Tião Eletricista, Sô Tião e, principalmente, Tião Ferreira, pode ser enfocada exatamente pelos nomes que carregou durante sua vida.
            O Tião Eletricista representa a imagem do profissional empenhado, que dedicou sua vida à empresa onde trabalhou 54 anos. Foi um profissional que começou da base, com apenas o “2o Ano de grupo”, como se dizia naquela época, mas que cresceu na empresa graças à sua inteligência inata, sua franqueza, sua honestidade e sua condição natural de liderança, que impressionavam a todos que com ele trabalhavam. Era respeitado por sua capacidade e experiência, tendo sido responsável pelos serviços de instalação de quase toda a rede elétrica de alta tensão da Cedro e Cachoeira e que, normalmente, exigia mão-de-obra altamente qualificada, pelos riscos que representava naqueles tempos em que não havia equipamentos de comunicação e de proteção individual tão avançados como atualmente. Tião Eletricista também fazia uso de sua profissão fora da Cedro, trabalhando nas horas vagas consertando eletrodomésticos, fazendo instalações residenciais e em fazendas da região para complementar a renda, visto que tinha família numerosa.
            Começou trabalhando na Fábrica de São Vicente, aos 11 anos, apenas um garoto, mas já com a responsabilidade de ajudar de forma mais direta na renda familiar. Varria o chão da fábrica e exercia outras tarefas que, para ele, eram fáceis, acostumado que era desde mais novo ao trabalho pesado nas roças e nas fazendas. Logo notaram naquele garoto algo mais – uma vivacidade e uma capacidade de compreender as coisas com muita facilidade. Era muito curioso e logo foi levado para trabalhar na Oficina Elétrica. De lá, acabou indo para a Usina Pacífico Mascarenhas, na Serra do Cipó, próximo a São Vicente, onde trabalhou alguns anos como encarregado. Naquele tempo não havia estradas para São Vicente, apenas “picadas” que não permitam o acesso de veículos. A forma mais adequada de viajar era no lombo de mulas. Tião Eletricista, como encarregado, era responsável pelo transporte dos pagamentos dos funcionários da Usina, que naquele tempo eram cerca de 40 pessoas. Ia sozinho, armado com uma garrucha e com a fé em Deus. A Cedro Cachoeira depositava no Tião Eletricista a confiança que depositaria em um “carro-forte”. Daí, foi trabalhar no levantamento de postes que trariam a energia elétrica da Serra do Cipó à Fábrica do Cedro.
            Passados alguns anos, Tião Eletricista virou referência na Cedro e Cachoeira e sua experiência e capacidade o levavam de uma fábrica a outra. Esteve em Inimutaba, na fábrica da Cachoeira, quando a mesma passou pelo processo de modernização. Esteve em Sete Lagoas, quando foi fundada a então Fábrica Santo Antônio. E, por diversas vezes, vinha ao Cedro, como era conhecida Caetanópolis na época, para realizar diversos serviços.
Em julho de 1966, Tião Eletricista aposentou-se por tempo de serviço, mas não chegou a ficar nem três meses afastado das suas atividades. Atendendo convite da Cedro Cachoeira para trabalhar na Fábrica do Cedro, em Caetanópolis, em outubro desse mesmo ano, voltou às atividades profissionais por um período que seria de apenas um mês, mas que acabou se estendendo. Veio participar do processo de modernização da Fábrica do Cedro, que naqueles anos estava reestruturando o setor de Fiação, ainda sem a família.
Acaba sendo recontratado em junho de 1967, tornando-se encarregado da oficina elétrica. Morava no famoso “cataplasma” e ia embora nos fins de semana para São Vicente. Em 1970, a Cedro disponibilizou-lhe uma casa e ele trouxe toda a família para morar em Caetanópolis. Estabilizou-se durante um bom tempo na Fábrica do Cedro, até que, em 1978, a Cedro Cachoeira adquiriu a fábrica da PISA em Paraopeba e lá instalou mais uma unidade do grupo, a Fábrica Antônio Cândido Mascarenhas. Mais uma vez, o Tião Eletricista emprestou sua experiência e capacidade, indo trabalhar naquela fábrica por alguns anos como encarregado da oficina elétrica, sem, no entanto, deixar de sê-lo também na Fábrica do Cedro, onde vinha alguns dias da semana acompanhar o trabalho de sua equipe de eletricistas. Ficou naquela fábrica durante alguns anos, voltando em definitivo para a Fábrica do Cedro por volta de 1981, onde permaneceu até sua retirada do serviço em 1983, por motivo de saúde.
            O Sô Tião representa a faceta do homem respeitado por todos, nos diversos lugares por onde passou. Sua capacidade de fazer amigos era característica daqueles homens de grande coração. Embora tivesse uma fisionomia carregada, de semblante fechado e de poucos sorrisos, era capaz de inspirar confiança em todos que o conheciam, pela franqueza com que tratava todas as questões e por ser uma pessoa que não costumava “ficar em cima do muro”. Sô Tião era um homem dedicado às artes, ao teatro, à folia de Reis, aos Congados e a todo tipo de folguedo popular. Gostava de tocar viola, embora não fosse nenhum músico excepcional, porém era um apreciador inconteste da boa música brasileira, sobretudo a sertaneja. Teve a oportunidade de estudar somente até o “2o Ano de Grupo”, mas sempre foi um homem muito bem informado, que adorava ler e escrever. Possuía em casa sempre diversos livros, era assinante da famosa revista “Seleções do Reader’s Digest” e um viciado em palavras cruzadas. Lia diariamente o seu jornal no “Bar do Laudônio”, onde tomava todo dia sua Brahma. Vale ressaltar que era a única marca que ele bebia. Também diariamente não deixava de assistir o “Jornal Nacional”, enquanto jantava.
            Gostava de cultivar. Plantava roças e hortas e seus filhos aprenderam também a lidar com a enxada. Não deveriam ter vergonha de nenhum tipo de trabalho. Plantava milho, feijão, mandioca, abóbora, enfim, o que fosse conveniente. Adorava criar galinhas e porcos. Criou também patos e marrecos. Houve tempos em que chegou a ter um pequeno lago de criação de peixes que seus filhos pescavam no córrego do Cedro, nos fundos de sua casa.
Adorava o futebol. Era atleticano. Não precisa dizer mais nada. Aliás, gostava de contar para todos porque se tornou atleticano. Dizia que no tempo em que servia o exército, ainda não era afeiçoado ao futebol, mas admirava os jogadores famosos da época. A tropa estava em treinamento em Belo Horizonte e um amigo soldado convidou-o para ir ao Barro Preto, que era a sede do Palestra Itália, naquele tempo. Ao chegarem lá, o Sô Tião foi barrado na entrada, pois era preto e não se permitiam negros no clube. No dia seguinte, foram ao famoso Estadinho Antônio Carlos, que era a sede do Clube Atlético Mineiro, sendo recebidos sem nenhum problema e ainda ganhando autógrafos dos jogadores do time (muitos deles de cor negra). Tinha outras paixões no futebol: o Cedro Esporte Clube e o Sete de Setembro Futebol Clube. Foi diretor de ambas as equipes e sempre as acompanhava nos jogos que realizavam, onde quer que fosse. Adorava os rodeios e tinha verdadeira paixão por cavalos. Tivera um cavalo nos tempos de São Vicente do qual jamais se esquecia. Nem poderia: seu nome era “Sodoso” (“Saudoso”). Fora seu companheiro nas idas e vindas da Usina Pacífico Mascarenhas a São Vicente e a Sete Lagoas. Sô Tião foi membro do Rotary Club, da Sociedade São Vicente de Paula, entre outras entidades beneficentes. Era um homem generoso, capaz de abrir mão do que tinha para doar para outras pessoas, mesmo contrariando a própria família. Nesse ponto, Sô Tião nos leva ao Tião Ferreira.
Tião Ferreira era filho de Maria Ferreira. Da mãe herdara o sobrenome que o pai não registrara no cartório. O Ferreira era a marca da personalidade forte da mãe, mulher lutadora, que sofreu muito para criar os filhos. O pai, Ilídio Duarte Nunes, era filho de escravos e jamais fora oficialmente registrado. Diziam que seu sobrenome original era “Nunes Fraga” e que o “Duarte” fora herdado dos senhores que o criaram. O fato é que “Duarte Nunes” foi o sobrenome com que Ilídio, nesse idílio,  registrou os filhos Esther, Sebastião, Irênio, Dorvalina e Divino. Ilídio faleceu e dona Maria Ferreira criou os filhos na roça e na vara. Naqueles tempos, cara fechada era comum. Castigo também. Bom para ensinar os filhos a serem respeitados. Certo ou errado, cresceram todos cheios de inteligência e de amigos. Isso também dona Maria Ferreira ensinou: que os amigos são a extensão da família. Que os amigos são irmãos que Deus Nosso Senhor arruma para nos ajudar nas horas difíceis e a quem nós devemos amparar quando precisarem. E amigos a gente tem que respeitar primeiro, para ser respeitado. Assim, Tião Ferreira criou seus 16 filhos, Tereza, Antônio, Maria de Lourdes, Luci, Cecília, Lucas, Dirce, Sebastião, Ana Maria, Joaquim, Raquel, José Duarte, Ernane, Ulisses, Monalise, Renata;  mais quatro filhos de criação: Luiz, Paulo César, Vilma e Glayson, a quem considerava como filhos legítimos e fazia questão que todos da família também o fizessem.
Fez questão de que todos estudassem, dando todas as oportunidades para isso. Aliás, um dos motivos de sua vinda em definitivo de São Vicente para Caetanópolis fora exatamente a possibilidade que era oferecida em Caetanópolis para que seus filhos estudassem, considerando que em São Vicente havia apenas o “primário” (até a 4a Série). A grande maioria de seus filhos concluiu o 2o Grau e Luci, Ana Maria, Joaquim, Ernane, Renata e, mais recentemente, Maria de Lourdes, concluíram o Ensino Superior.  Isso certamente não seria possível se eles tivessem continuado a morar em São Vicente.
Outro motivo de sua decisão em trazer a família para Caetanópolis foi a grande receptividade do povo caetanopolitano. Sempre fora muito bem tratado e quando sua família veio, não foi diferente. Logo todos se sentiam um pouco caetanopolitanos, inseridos que foram em um curto espaço de tempo na sociedade cedrense. Seus amigos, que sempre foram muitos, faziam questão de se reunir em sua casa nos fins de semana, onde realizavam churrascos e galinhadas. Mas o Tião Ferreira não seria esse homem capaz de criar tantos filhos se não tivesse tido as esposas que teve. Sua primeira esposa, Luíza, de quem Deus lhe privou a companhia com poucos anos de casamento e oito filhos (o primeiro morreu com apenas 2 meses de idade), era uma mulher de fortíssima personalidade, que marcou sua vida de forma indelével. Já Raimunda, sua segunda esposa, é uma mulher de extrema força e bondade, que é mãe de todos os filhos de Tião Ferreira, mesmo daqueles que não vieram de seu ventre. Perdeu um filho, Tiãozinho, tragicamente, vítima de um acidente de ônibus quando voltava de férias da Bahia. Essa tragédia serviu para abalar ainda mais a saúde do Tião Ferreira, que naquele tempo já era bastante delicada, pois ele já passara por um AVC (acidente vascular cerebral). Foi Dona Raimunda quem o acompanhou até os últimos momentos de sua vida, quando Nosso Senhor resolveu chamá-lo para fazer umas instalações elétricas lá no paraíso, de onde, certamente, ele continua a cuidar de toda a sua família.
Tião Ferreira, Sô Tião, Sebastião Duarte Nunes... Não importa como as pessoas o conheceram. Importa sim o exemplo de homem que ele foi e continua sendo para todos os seus filhos e, por que não dizer, um paradigma para toda uma sociedade tão carente de pessoas honestas e capazes de deixar uma indelével  marca positiva de bondade, firmeza de caráter e de respeito.

 

“O Sorriso Aberto de Meu Pai”

(Ernane Duarte Nunes)


O sorriso aberto de meu pai ensinou-nos a viver... 
Com um sorriso aberto nos levava para a roça
E ensinava para todos nós como usar uma enxada
Para capinar as dificuldades da vida.
Com um sorriso aberto nos ensinava a plantar,
Semeando sonhos e colhendo a realidade.
Com  o sorriso aberto sempre...


Pois é, Pai!... Aprendemos a viver assim,
Como o senhor nos ensinou...
A nossa hereditária cara fechada algumas vezes
É apenas o nosso amadurecimento
Cultivado sob o sol das dificuldades da vida
Com esforço e com trabalho honesto...
Como o senhor fez um dia, Pai...


Esse sorriso aberto, essas mãos calejadas
Enfim, tudo o que o senhor nos ensinou
Irá nos acompanhar durante toda a nossa vida
Ao lado da lição maior 
— a união de todos nós, seus filhos —
Como exemplo do amor e do carinho
Para sempre em toda a nossa família!...




4 comentários:

  1. Raquel Duarte Nunes13 de abril de 2011 20:29

    Nossa Naninho, quem não conheceu nosso Pai só de ler este texto passa a conhece-lo. Ninguem expressaria melhor quem foi nosso Pai, você foi ótimo..Parabéns, abraços de sua mana que lhe quer muito bem.

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  2. Raquel, para nós, a figura de nosso pai é grandiosa. Mas não só a dele, como a de nossa mãe (que será também homenageada mais uma vez nesse modesto blog) e de todas as pessoas que nos são referências de vida, muito mais do que progenitores.

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  3. Que biografia magistral!

    A história da vida de um homem simples que venceu na vida honestamente e criou/educou 20 (!) filhos (parece até história bíblica!)

    Aliás, não conheci ainda nenhum Tião que passasse por esta terra e não deixasse boas histórias para as gerações seguintes. E o seu pai (xará do meu), não poderia ser diferente!

    Lembro da história que você me contou, alguns anos atrás, sobre como o jovem "Sô" Tião se converteu ao CAM. Confesso que fiquei ainda mais orgulhoso de ser um atleticano!

    Parabéns! Este "post" merecia virar um livro.

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  4. Prezado amigo Coqueiro, ainda quero contar a história de meus pais e tantas histórias correlatas, que ouvi ao pé do fogão a lenha na minha infância. Mas as outras histórias, reproduzidas através de cartas e da minha madrinha e quase segunda mãe Dinha são maravilhosas também. Deus há de me permitir isso.

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